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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Capítulo XV

- Lu, você me liga quando chegar?
- Já disse que sim Lisa!
- E vê se não come porcarias no avião.
- Lisa!
- Tá, tá! – Lisa a olha cautelosa – Mas tome cuidado, por favor.
Luiza se vira impaciente para a loira
- Lisa, não serei eu que estarei pilotando o avião.
- Credo Lu, só estou preocupada com você!
- Agradeço preciosa namorada, mas agora tenho que ir que já estão chamando para embarcar.
Luiza dá um rápido beijo no rosto de Lisa e caminha em direção ao embarque.
Lisa a vê se distanciar se sentindo perdida no meio a multidão. Ao vê-la desaparecer com um aceno sente o coração bater diferente e uma saudade começa a se fazer presente. Estava mesmo apegada a Luiza e a segurança que esta lhe passava.
Ao chegar ao quarto de hotel repara a cama desfeita e relembra os momentos de amor vividos pela manha. Suspira profundamente e deita abraçando o travesseiro que Luiza usara. ‘ Ai Lu, que saudade, que vazio estou sentindo... ’
O telefone toca lhe tirando dos devaneios.
- Oi?
- Filha?
- Hei mãe, tudo bem?
- Está sim. Liguei para saber se vem para o almoço. Luiza já viajou?
- Já sim mãe. Acabo de chegar do aeroporto. E vou almoçar ai sim.
- Lisa... filha. Por que não passa a semana aqui em casa? Seu antigo quarto está sempre aqui para você.
- Mãe... eu adoraria. Alias, eu já ia pro almoço levando a mala.
- Folgada!!!
Lisa ri deliciada.
- Apenas uma filha com saudades da comida da mamãe, dona Paula.
- Me engane que eu adoro! Então te espero.
- Ok mãe.
- Lisa?
Lisa já ia desligar quando ouve a mãe chamá-la
- Oi?
- Você... está bem?
- Sim, mãe... eu estou bem. Eu te amo viu.
- Também te amo. Te espero então. Beijos.
- Beijos.
Lisa desliga o telefone e volta a se deitar na cama perdida em seus pensamentos. Começa se lembrar cada minuto passado com Luiza, sua certeza que as duas ficariam juntas, suas palavras finais. Vira-se de frente e olha para o teto. ‘ Será que ela realmente acredita que ainda sinto algo por Joyce? Eu não acredito nisso. ’ Imediatamente a imagem de Joyce lhe vem a mente. ‘ Ela está linda... Impressionante como a idade só lhe realçava ainda mais a beleza. Levanta-se e olha no espelho. Trinta e um anos. Como o tempo passava rápido. ‘ Não me sinto com trinta e um’. Balança a cabeça e começa a separar sua roupa. ‘ Vamos ocupar a mente com coisas saudáveis’

Mariana bate a campainha ansiosa. ‘ Que demora!’
- Mariana! Que bom vê-la! Porque será que não me sinto surpresa com sua visita?
- Ah madrinha não zoa. – Dá um beijo no rosto de Paula e adentra a sala olhando para os lados. – Cadê Lisa?
Paula fecha a porta tranquilamente.
- Ainda não chegou querida. Foi acompanhar Luiza no aeroporto. Não deve demorar.
- Ah... ok – Mari tenta não demonstrar a decepção na voz.
- Vai almoçar aqui Mari?
- Se não se importar madrinha. Lá em casa tá o maior clima.
- Uai, que aconteceu?
Mariana se senta à mesa e observa a movimentação de Paula pela cozinha.
- Carlos e minha mãe estão às turras. Tá sobrando até pra mim.
Paula a olha cautelosa.
- É por causa... da festa de ontem?
- Sei lá madrinha! Ou sei, melhor, deduzo. O Carlos é o maior preconceituoso. Igual minha mãe. Ficou puto porque a tal de Luiza não gosta de homem.
- Hei menina olha a boca! Mas você tem certeza disso? Impossível Mari, ele adora sua mãe.
- Ah, madrinha pode ate adorar, mas bem que olha as mulheres. Ele se acha a última bolacha do pacote, entende?
- Ah... acho que entendo. – Paula desvia o olhar. ‘ Esse linguajar da juventude é irritante’
- Bem, espero que se entendam.
- Eu também... de boa. – Mariana olha Paula cautelosa – Er... madrinha, posso fazer uma pergunta?
- Pode Mariana, jogue a bomba.
- A Lisa... e aquela mulher... elas... bom... elas são... er... elas...
- Namoradas?
Mariana só consegue menear a cabeça numa afirmativa
- Sim são Mari. – Paula para o que estava fazendo e olha para a afilhada – isso te incomoda?
- NÃO... Sim... eu... ah madrinha, eu não sei o que sinto ou penso. Sei que não ligo da Lisa ser... lésbica, mas saber que ela namora... eu não gosto entende?
- Não.
Mariana a olha perdida. Como explicar a madrinha que não gosta de pensar em Lisa com ninguém? Seja mulher, seja homem, o que for, sente o coração se oprimir de angustia ao ver Lisa sorrir para outras pessoas.
- Eu... Ah deixa pra lá. O padrinho tá ai?
- No quintal.
- Vou lá ver ele.
Paula observa a jovem sair da cozinha. Enxuga as mãos no pano de prato e senta pensativa na mesa.
- Alguém em casa?
- Lisa! Abraça a filha que adentrava a cozinha.
Lisa, sorrindo, ergue a chave que tinha na mão.
- Ainda serve.
- Sempre minha filha. Paula sorri – seu quarto continua no mesmo lugar.
- Ok, vou lá colocar a mala. Cheirinho bom mãe!
Lisa sorri ao entrar no antigo quarto. Tudo parecia igual. Põe a mala no chão e se senta na cama passando a mão ligeiramente sobre o lençol. Era muito bom estar em casa.
- LISA!
Lisa olha para trás e vê Mari na porta. A luz que vinha por trás da jovem a ilumina, dando-lhe uma aparência etérea, suave e delicada. Sente o coração bater mais rápido e ao olhar os belos olhos verdes volta a sentir a mesma sensação de predestinação de quando a tivera nos braços pela primeira vez. Balança a cabeça veementemente sem entender o que sentia e se ergue para receber o abraço caloroso da jovem.
- Deixe-me olhar melhor para você agora Mari! Ontem na festa não tivemos muito tempo juntas!
Mari ri feliz e se afasta ligeiramente de Lisa para que esta pudesse olhá-la.
-Como você é linda Mari... Lisa passa a mão suavemente no rosto da jovem que fecha os olhos. Vendo-a assim o coração de Lisa se oprime. Mari era a cara de Joyce. Afasta-se e sorri um pouco tremula para a jovem.
– Você se parece muito com sua mãe.
Mari abre os olhos lentamente. Sorri e senta-se na cama.
- Todo mundo fala isso! E pior. Dizem que puxei o gênio dela também!
- Cruz credo! Vira a boca pra lá. Sua mãe tem um gênio de cão. Bom, pelo menos tinha.
- Ainda tem. Agora mesmo estava lá aos gritos com meu padrasto.
Lisa se vira preocupada para a jovem.
- Espero não ser a causa disso.
- Ai, Lisa, ate parece que eles precisam de motivos para brigar.
Lisa se senta ao lado de Mari que se acomodava melhor na cama.
- Por quê? Eles... Brigam muito?
- De uns tempos pra cá andam brigando muito sim. Não sei por que, mas andam. Mas não quero falar disso. - Mari se vira ansiosa para Lisa. – Quero é curtir muito essa semana com você!
Lisa sorri e afaga os cabelos macios de Mari.
- Teremos tempo menina! Mas agora vamos ajudar minha mãe a arrumar as coisas.

Joyce olha o tempo pela janela. ‘Nublado... Como minha vida’ Ouve um barulho e se vira vendo Carlos adentrar o ambiente tenso. Havia sido uma manha conturbada, cheia de brigas bobas e conflitos desnecessários. Sentia-se cansada.
- Cadê os meninos?
- Mamãe veio e os pegou para passar o dia com ela. E Mariana foi para a casa dos padrinhos.
Carlos se aproxima cauteloso.
- Jô, olha, eu não quero brigar... Vamos tentar passar um domingo mais tranquilo, pode ser?
Joyce o olha de lado. Ele sempre fazia parecer que as brigas ocorriam por culpa sua. Passa a mão nos cabelos num gesto de tensão e faz um afirmativo com a cabeça.
- Tudo bem.
- Poderíamos fazer um programa diferente que acha? Almoçamos fora, pegamos um cinema... Coisas diferentes.
- Tudo bem... Acho que precisamos mesmo. – Sorri fracamente para o marido.
- Ótimo. Então vou tomar um banho. Quer... me acompanhar?
- Não Carlos... eu... já tomei banho.
O marido suspira tenso e se vira saindo da sala.
Joyce volta há olhar o tempo pela janela. Sabia que estava faltando com suas obrigações de esposa com Carlos, mas não sentia a menor vontade de fazer amor. Não sentia tesão, nada. Passa a mão novamente nos cabelos. Isso tinha que mudar, tinha que mudar. Volta os pensamentos para a festa e relembra Lisa. Deus... Como ela estava maravilhosa! Tão linda! Estava mais curvilínea, a cintura ainda mais marcada e ainda assim tão delicada que parecia que ia quebrar. Relembra os olhares que trocaram no toalete e uma quentura se faz presente na virilha. ‘Merda. Preciso desse tesão por Carlos, POR CARLOS’ Bate na testa e caminha em direção ao quarto. ‘Você vai ver Lisa. Você não vai estragar meu domingo’

- Que mesa linda!!! Marcos agarra a esposa por trás que se assusta com o grito dado pelo marido.
- Eu te mato Marcos! Quantas vezes já disse parar com isso de assustar as pessoas?
- Deixe ver... Hum... Você se lembra quantas Lisa? Vira-se para a filha irônico.
Lisa gargalha. Realmente nada havia mudado por ali. Troca um olhar divertido com Mariana e responde.
- Pai, desde que me dou por gente você faz isso. Deve ser uma eternidade!
- Viu Paula? Uma eternidade. Temos ainda muito tempo.
- Você tem. – Paula aponta o dedo para o marido. – Já não sou a jovenzinha de antes. Numa dessa me mata do coração.
O rosto de Marcos fica sério. Abraça a esposa, estreitando-a bem nos braços.
- Seu coração só irá parar depois do meu. Ademais... Continuarei gritando meu amor por você. PAULA TE AMO AMORRRRRRRRRRRR!! Começa a rir e pega Lisa nos braços dançando com ela pela cozinha. ‘Amo, Paulaaaaa, como amo!!!!’
- Desisto. Paula olha sorrindo para os dois que dançavam alegremente pela cozinha. – Mariana, será que pode atender a campainha?
- Pra já madrinha.
- Que gritaria é essa Mari?
- Hei Junior, hei Ali. Quem mais pode ser senão o doido do padrinho?
- Ei Galera!!! Chegamos a tempo pro almoço? Junior entra sorrindo na cozinha puxando a esposa pela mão.
Lisa cai nos braços do irmão gargalhando.
- Claro! Mãe faz mais uma panela de arroz. Junior está em casa - Olha irônica para Paula.
- Meu Deus, esqueci que Junior vinha. Vou já fazer.
- Há há há morri de rir. Tô com fome. Vamos comer?

Já no aeroporto de São Paulo Luiza caminhava em direção ao ponto de táxi. Seus pensamentos não a deixavam em paz. Estava morrendo de medo de Lisa fazer a escolha errada. ‘ Meu Deus se arrependimento matasse eu estava morta. Não devia ter dado aquele ultimato em Lisa’
- Doutora Luiza?
- Deise? Que faz aqui menina? Como está sua mão?
As duas se abraçam educadamente.
- Já está perfeita. E as coisas lá na clinica?
- Tudo igual. Mas o que faz em SP?
- Bom... Eu... Ah eu vim fazer um teste vocal para uma banda
- Mentira! Conte isso direito.
- Bom... Tem tempo pra um cafezinho? Meu vôo só sai daqui uma hora.
- Vamos lá.
Deise já sentada frente à Luiza sorri meio divertida.
- Doutora, você sempre vai me intimidar com esse olhar.
- Bem, ele é ótimo para fazer os pacientes cumprirem o que quero. Sorri e ergue ainda mais os ombros numa pose arrogante. Deise gargalha.
- Com certeza. Bom, voltando o assunto, resolvi arriscar uma carreira de cantora. É o que curto fazer.
- Faz bem. E como foi o teste?
- Foi legal, mas não gostei muito do estilo deles não. É puxado para sertanejo e gosto mais de MPB.
- Bom logo você encontra o que quer. Mas também se não encontrar arrisque uma carreira solo.
- Pode ser... Deise mexe o café com a colherzinha. – E Lisa? Como ela está?
Luiza estreita os olhos.
- Bem... e namorando.
Deise ergue o olhar.
- Comigo Deise.
- Ah... legal. Vocês... combinam.
- Senti uma hesitação nas suas palavras?
- Ah sei lá. - Faz um gesto vago com as mãos. – É que você é tão... arrogante e Lisa tão mais suave que fica estranho entende? Nada pessoal.
- Sei... Você... Você então acha que não vai dar certo é isso?
- Que isso doutora não disse isso. Vocês que vão fazer dar certo, eu hem!
- Você teve queda por ela né Deise.
Deise olha a médica séria. Percebe nesta uma postura que não estava acostumada a ver na sua pessoa. Uma insegurança talvez.
- Olha... Luiza. Tive sim. E tentei... dormir com ela. E ela não aceitou. Até hoje não sei se a agradeço por isso ou sinto raiva. Sabe como é né. Minha estima foi a zero. E sorri mostrando descrédito com as próprias palavras.
A morena sente o coração aliviar. Cada dia sua insegurança se fazia mais presente.
- Mas Luiza posso ser sincera? – Esta volta o olhar para a jovem ruiva.
- Pode sim Deise.
- Se Lisa está com você é porque realmente gosta. Devia acreditar mais nos sentimentos dela.
- Nada é tão simples Deise. – Luiza se ergue da mesa. – Bom, tenho mesmo que ir. Foi muito bom encontrá-la. Sucesso em sua carreira.
- Tudo bem. Obrigada. Beijos Luiza.
Deise observa a médica se afastar pelo saguão. Para ela, Lisa e Luiza não combinavam. Não sabia bem dizer por que, mas a seus olhos elas não ficavam bem juntas. Mas quem entende o coração? Era incrível como um sentimento pode mudar uma pessoa. Luiza que antes lhe parecera tão arrogante agora era apenas uma mulher apaixonada que sofria por amor.
‘É Lisa... Quem diria... Você é uma destruidora de corações’

A tarde corria divertida para Mariana que sem conseguir disfarçar olhava fascinada Lisa rindo e brincando com a família. Procurava gravar cada gesto, cada sorriso.
- Mari, que tanto me encara? – Lisa lhe toca o rosto sorrindo.
- Ah, Lisa, eu adoro você. E também está tão diferente sabe. Eu tava com muita saudade.
- Ah minha linda também estava de você. Mas vamos passar um bom tempo juntas esta semana ok.
Mariana fecha a cara.
- Tai o problema Lisa. Amanha tenho aula e academia e minha mãe disse que não vou faltar. Saco. Ela sabia que eu queria estar com você e não cedeu nem um milímetro.
- Mari, olha, a gente dá um jeito ok. Mas sua mãe está certa, não deve descuidar de seus afazeres.
- Que isso Lisa! Não vai fazer diferença. Sou tão responsável com estudos que até eu tenho tédio de mim.
Lisa sorri divertida.
- Fazemos assim. Hã... vou telefonar para sua mãe e pedir que ela te libere quarta a tarde e vamos ao shopping pode ser?
- Serio?
- Seriíssimo!
- Topadíssimo!!! – Mai sorri e abraça Lisa espalhafatosa.
Lisa procura esconder o semblante preocupado de Mari. Sabia que não ir ser fácil conversar com Joyce. ‘ Ok, Lisa essa é por Mari. Força. ’

Joyce desliga o telefone e olha para Carlos.
- Os meninos vão passar a noite com minha mãe. Amanha pela manha ela os leva para casa ainda a tempo de ir pra escola.
- Viva. Isso é ótimo! E Mariana?
- Não deve chegar tarde a casa. Ademais Paula mora perto, não terá perigo.
- E a filha dela, aquela sapata, está lá?
- Olha Carlos se você vai começar a alfinetar vamos imediatamente para casa ok.
- Tudo bem, tudo bem. – Carlos ergue as mãos em sinal de rendição. – Só acho que ela não é uma boa influencia para Mariana só isso.
- E porque não? Porque curte mulheres? Olha Carlos, eu também não concordo com as escolhas dela, mas daí a dizer que é uma má pessoa é demais. Foi a família dela que esteve a meu lado quando todos me viraram a cara ok.
- Eu sei amor... olha não vamos brigar por isso ok. Mas... – lança um olhar sedutor para a esposa – que acha de então irmos para um motel? Variar um pouco, pegar uma sauna.
Joyce sente um aperto no coração. A vontade é de dizer não, gritar para ele parar de importunar ela querendo sexo, sexo, sexo.
- Eu... Claro amor... vou adorar.
- Garçom traz a conta!!
No motel Carlos a toca com desejo e volúpia. Mas os beijos molhados e o toque firme e sedutor parecem não fazer efeito sobre Joyce. ‘ Vamos Jô é seu marido, você o ama lembra?’
- Você é tão gostosa gata... tão boa. Você é linda! Sempre foi. Sou louco por você. Te amo muito morena.
Joyce fecha os olhos ao ouvir as palavras de carinho do marido. Sem o desejar sua mente vaga para o passado e ela relembra a jovem loira a lhe tocar com prazer e alegria.
‘ Você é tão linda Jô... Você é meu amor. Me ensina a te dar prazer... me mostra. ’
O corpo começa a reagir às lembranças do passado e Jô sem se aperceber começa a fantasiar com Lisa. Seu toque, seu rosto, seu corpo... Jô começa a gemer e rebolar enlouquecidamente. ‘ Vem pra mim Jô... vem’...
‘ Lisa... Meu amor... ’
- Ahhhhhhhh!!!!
O orgasmo vem forte. Carlos há acompanha um pouco depois, enlouquecido com o rosto transtornado de prazer de Joyce. Totalmente satisfeito beija o rosto da esposa, sai de dentro dela e sussurra antes de virar para o lado e dormir.
- Você foi maravilhosa Jô... há muito tempo não tínhamos uma transa tão boa.
Os olhos de Joyce se enchem de lágrimas e ela soluça baixinho.
Será que ele estaria tão feliz se soubesse que ela fizera amor com Lisa???

"Os acontecimentos fazem mais traidores do que as opiniões.”
(François-Auguste Chateaubriand)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Capítulo XIV

- Lisa... Às vezes tento entender como me vê. Sei que as pessoas me acham arrogante, esnobe, metida e tudo mais. E também sei que faço o suficiente para pensarem isso de mim. São poucas pessoas que permito conhecerem meu intimo. E quero que você seja uma dessas pessoas.
- Lu... Eu já te conheço.
- Mesmo Li? O que sabe de meu passado?
- Bem... eu... Lu você não é muito de falar dele né. E eu respeito isso.
- Exato... Não sou de falar. Porque não gosto de lembrar dele. Lisa, eu sou rica. E sempre o fui. Sempre. Venho de uma família abastada e filha da puta que em nada me orgulha. Um pai tarado que não podia ver uma minissaia e uma mãe só vivia para si mesma. Ambos mantinham o casamento de fachada e eu... eu era a prova da feliz união. As babás passavam rapidamente... eu era um demoniozinho em forma de gente... até que veio Maia. Maia foi a luz de minha vida. E antes que pergunte não... ela não era lésbica. Ela era gente. Uma gente que se importou com aquela criança jogada e infeliz. Até minha adolescência ela foi meu referencial, meu exemplo. Tudo eu fazia para agradá-la, e foi ela que passou todos os valores que tenho; nunca desistir, seguir meus ideais... e que eu era mais importante que qualquer outra pessoa em minha vida. E assim foi até você aparecer em minha vida. - Luiza a olha séria. – Depois que te conheci senti o melhor sentimento do mundo e cometi a maior burrada de minha história.
- Como assim Lu?
- Básico Li... Te amei mais que a mim... e deixei de ser a pessoa mais importante de minha vida. Entenda... junto a tudo isso conheci uma dor que só se compara a de quando perdi Maia.
- Que... que aconteceu a ela?
- Acidente... ela foi atropelada quando ia para casa. Aquele dia não só a família dela perdeu um ser lindo. Eu perdi minha luz. E foi quando jurei que ia ser médica e faria o possível para que outras pessoas não perdessem seus antes queridos. Assim foi por muitos anos até que ver tanto sofrimento e perceber que eu não podia salvar o mundo me especializei em minha área. Nela posso ajudar quem já está salvo de certa maneira... entende?
- Sim... entendo. Mas, e seus pais?
- Morreram. Por ironia juntos. Acidente de carro. Eu já estava na faculdade e sinceramente a mim não fez muita diferença. Não gostava deles. No enterro só consegui rir ao imaginar minha mãe, que tanto cultuava a juventude, ter que ser enterrada de caixão fechado. Um péssimo fim a quem vivia de aparências.
O rosto de desprezo de Luiza incomodou deveras Lisa... aquela não era sua namorada. Gostava dela com sua expressão arrogante e porte ereto e não aquela postura encurvada e infeliz.
- Eu... Lu... Sei que você superou tudo isso... Você é forte.
Luiza a olha pela primeira vez nos olhos
- Não sou forte quando estou com você Lisa.
- Não pode dizer isso!! Não é verdade! Lu, isso não é verdade.
- Eu esqueci tudo que Maia me ensinou quando te conheci. Você me tornou vulnerável e desprevenida.
- Mas isso é o amor Lu!! Essa entrega faz parte dele... Nos tornamos fortes porque temos alguém que está conosco e para conosco.
- Esta é a questão Lisa. Você está comigo? Até onde está comigo? Até onde me ama?
Lisa encara Luiza atordoada. Como responder a isso? Ela a amava tinha certeza disso, mas ate aonde ia sua entrega?
- Luiza... Eu te a...
- Não Lisa! Não quero me diga isso. Não agora. Nunca fui de fugir dos problemas e hoje percebi que meu maior problema somos nós.
- Lu não! Você disse que não me deixaria só!!!
- E quem disse que vou deixar Lisa? O que não posso fazer é fechar os olhos para o que vi hoje na festa. - Fala de mim e Jô?
- Sim Li, falo de você e Jô. Percebi ali uma historia inacabada e ainda muito viva dentro de você. Lisa entenda, não sou mulher de ficar em segundo plano. Não vou me sujeitar a isso, nem mesmo por você. Iludi-me muito esses meses, mas hoje percebi que não posso. Não sou mulher de ignorar o que esta a frente de meus olhos.
- Meu Deus Lu! O que está a frente de seus olhos??? Eu já disse que não quero nada com ela!
- Sua boca me disse isso. Seu corpo, sua expressão me mostrou o contrario estando frente a ela.
- Para Luiza! Não quero ela!!! Quero você!!!
- Mesmo? Seja sincera e me diga que não ficou tentada quando ela se insinuou para você.
- Eu... Lu... Droga eu disse que por uns momentos eu senti o passado. Foi só isso!
- Bem Li... Você tem uma semana para resolver seu passado. O enterre ou resolva seu presente... Porque ela ainda está aqui... Muito perto de nós.
Os olhos de Lisa se enchem de lagrimas. Aquilo não podia estar acontecendo.
- É um ultimato Lu?
- Não Lisa... É questão de sobrevivência. Eu preciso de seu amor... eu preciso de você inteira para mim. Sem duvidas, sem receios. Completa.
Lisa se levanta um pouco cambaleante se ajoelha frente à cadeira que Luiza estava sentava e põe a cabeça em seu colo.
- Você já me tem... oh amor... Você já me tem.
- Me de esta certeza daqui a uma semana Lisa. Eu saberei e entenderei a resposta através de seus olhos. E de sua boca... Lisa a olha profundamente em seus olhos.
- É assim que você quer?
- Sim Lisa... Resolva seu passado, resolva Joyce... e... volte para mim.
- Não acha que está arriscando demais?
Os olhos de Luiza se enchem de lágrimas.
- Se eu não lutar por mim quem lutará?

Mari observa a mãe e o padrasto dentro do carro. Há muito tempo a babá levara os gêmeos para casa. O silencia era opressivo até que Carlos sem mais aguentar segurar a indignação pessoal diz.
- Bom a festa foi ótima... Fora o constrangimento de termos duas sap... lésbicas sentadas a nossa mesa.
- Ora cala a boca Carlos! Até parecia que você não ficou reparando a morena.
- Como não reparar Joyce? Um desperdício! Lamentável! – Olha Mariana pelo retrovisor do carro - Sinceramente Mariana, você devia repensar este seu bem querer a Lisa. Não acho ela uma boa referencia pessoal.
- Você não é meu pai para me dizer o que acha e devo fazer Carlos.
- Olha o respeito Mariana!! Carlos pode não ser seu pai, mas foi ele quem te criou!
- Respeito? Tô assistindo a um show de preconceito e machismo vindo da boca do seu marido que por acaso não tirou os olhos da mulher que estava com Lisa e você fala em respeito? Ele que te faltou respeito não eu!
- Cala já esta boca menina – Carlos responde antes de Jô – Você pode não ser minha filha, mas está sobre meus cuidados! Exijo respeito senão sentirá o peso de minha mão como nunca sentiu de sua mãe! Joyce olha o marido indignada, Mas antes que responda Carlos se vira para ela aos gritos.
- A culpa é toda sua que não põe limites em sua criação!
- Minha? Minha? Ate parece que não teve participação nos gêmeos! Melhor você se calar senão isto aqui vai feder.
- Não vou me calar! Esta na hora de você entender que tem um homem dentro de casa e é ele quem manda. Estou cansado de seu gênio, seu modo de ser, suas dores de cabeça, tudo!!! Está na hora das coisas mudarem!
- Mudarem? Saco de homem! Sempre que bebe é este inferno! Está contente com o que provocou Mariana?
Mariana a muito cruzara os braços e emudecera no banco de trás. Abaixa a cabeça e procura ignorar os gritos dos pais que pareciam esquecidos de sua presença. ‘ Que fim de festa; que fim de noite!’ Mas valera a pena... ela vira Lisa! Lisa... Tão linda! Ela era tão delicada, tão... especial... tão... tudo. Volta o olhar para os pais que finalmente haviam calado a boca. Observa a expressão tensa da mãe. Deve ter sido difícil reencontrar a antiga amiga e não poder abraçá-la como ela mesmo o fizera. Em silencio estende a mão e segura a da mãe que se encontrava entre os bancos. Joyce vira a cabeça lentamente e depois de alguns segundos aperta sua mão ligeiramente. Ela entendera seu gesto.

Joyce entra no quarto de casal emburrada. Não bastasse toda a tensão da noite tinha ainda que aturar um marido incompreensivo e bêbado.
- Joyce... Vai ficar muda? Gelo total? Não podia ter uma atitude mais adulta?
- Vou sim Carlos... vou ter uma atitude adulta!! VOU DORMIR NA SALA! Boa noite!
E sai batendo a porta. Arranca o belo vestido de qualquer jeito e joga os saltos longe. Somente de calcinha entra para o banheiro onde toma um banho longo e relaxante. Procura não pensar na noite e tudo que ocorrera. Ao sair vê Mariana sentada já de pijama na sala.
- Vai dormir aqui mãe? Joyce suspira longamente.
- Melhor Mariana... Não estou com paciência para mais brigas.
- Mãe... Você e Carlos estão bem? Olha eu... não quis provocar brigas, mas... poxa o comentário dele foi demais né.
- Eu sei... eu sei. – Joyce se senta no sofá ao lado da filha – Mariana tente entender. Lisa é... lésbica e isso não é bem visto pela sociedade. Queira você ou não ela sempre sofrerá por isso e quem estiver do lado dela também.
- Por isso deixou de ser amiga dela? Jô encara a filha sem saber o que responder.
- Mariana... eu... teve vários motivos e este foi um deles. Olha, realmente preciso deitar. Eu... Foi uma noite longa. Lamento o fim dela. Não queria realmente que nada estragasse seu aniversario.
- Ah, mãe! – Mariana abraça Joyce com carinho – Acha mesmo que vou deixar que esse acontecimento bobo estrague o melhor aniversario de minha vida??? Foi maravilhoso! Eu adorei a festa! De verdade! Obrigada por tudo, obrigada por ser minha mãe. Jô sente os olhos se encherem de lágrimas. Retribui com carinho o abraço da filha e sorri tremula.
- Gostou mesmo filha?
- Não só gostei mãe. Eu amei!!! Você é a melhor mãe do mundo!!
Jô suspira sentindo uma leveza tomar conta de si. ‘Graças a Deus algo bom nesta noite’


O dia começava a clarear... Carlos respira fundo... ‘ Ai minha cabeça... que dor! Procura a esposa ao lado da cama, mas não a sente. Abre os olhos tenso. ‘Droga... mas que droga! ’
Joyce vê pela janela da sala o amanhecer... Não pregara o olho. Lisa, Carlos, Mariana, o poste... Tudo parecia se embaralhar em sua mente. Tudo nebuloso como sua vida. Tampa a cabeça com o travesseiro. ‘ Sua merdinha... sua praga... sua mal amada... sua... Lisa, por que você voltou???’
Mariana dormia o sono dos inocentes. Em seus sonhos ela corria para Lisa que lhe estendia os braços e sorrindo lhe dizia. ‘ Minha Mari... minha... você voltou para mim!’
Lisa abre os olhos lentamente... Olha para o lado. ‘ Luiza... minha Lu... ’ Estende o braço e a toca levemente. Luiza solta um ligeiro gemido, vira de bruços e continua dormindo. Lisa sobe sobre ela e começa distribuir beijinhos sobre a face amada. Suas mãos deslizam sobre o belo corpo e com carinho começa a fazer amor com sua bela morena despertando-a. Os corpos se entrelaçam e os beijos se tornam mais sensuais. Mas nada tão afoito ou desesperado. Era uma suave despedida com sabor de quero mais... A história delas não terminaria ali.  

"Todo homem é o arquiteto de seu próprio destino.”

(Salústio)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Capítulo XIII

Joyce engole em seco e instintivamente dá um passo para trás buscando apoio em Lisa. Luiza com um sorriso irônico dá mais um passo a frente.
- Ok. ok. Não preciso ser apresentada. – Estende a mão para Joyce – Acredito que seja a mãe da aniversariante não!?
Joyce olha a mão estendida à sua pessoa com receio. De lado observa a expressão de Lisa se transformar de surpresa para divertida diante de sua reação cautelosa. Com arrogância aperta a mão da outra morena.
- Sim... Por acaso sou. – Tenta soltar a mão, mas sente esta presa pela outra. - E também a sem vergonha que por acaso estava dando em cima de minha namorada – O sorriso de Luiza se torna ainda mais frio e o olhar mais ameaçador.
- Eu... Você está enganada. - O coração de Joyce dispara e o medo toma conta de suas feições ao sentir o aperto cada vez mais forte na mão. – Lisa... diga a ela que não dei em cima de você!
- Lisa não tem que dizer nada querida... Tenho olhos e ouvidos. - Faz um silencio intimidador e logo após solta a mão de Joyce que a esfrega tensa. - Agradeça eu ter classe e não querer estragar o momento de uma jovem tão querida à família de Lisa. Mas... Entenda bem... Se você ousar se insinuar a minha mulher novamente não respeitarei momento, lugar ou pessoa.
Estende a mão a Lisa que a segura surpreendida diante da situação que se vislumbrava a sua frente. Os olhos bem abertos denotavam não querer perder nem por um segundo o embate das duas. Sentia- se estranha e calma, sem vontade de impedir em nada o que acontecia entre as duas morenas.
- Alias – Luiza sorri ainda mais arrogante – A festa está linda. Parabéns.
As duas se retiram do toalete deixando uma Joyce pálida e tremula para trás.
- Luiza do céu! Precisava tudo aquilo!
- Foi pouco Lisa... Muito pouco. O olhar de Luiza estava frio e tenso. Para por um momento e vira-se para Lisa. - Você baqueou diante dela.
- Eu? Não!! Eu... Lu... eu senti o passado voltar dentro de mim mas só por alguns segundos. Jô sempre será a mulher egoísta que deixei para trás. Ela é o passado, não meu presente e muito menos meu futuro! Luiza observa atentamente Lisa e depois num leve balancear da cabeça retorna o caminho interrompido. - É o que espero Lisa... É só o que espero.
Lisa observa a morena se afastar e a apreensão toma conta de si. Não queria e não podia perder Luiza.
‘Você estragou minha vida uma vez Joyce... Não permitirei que o faça novamente’ Acelera os passos e delicadamente põe as mãos nas costas morenas num ligeiro carinho.
- Lu, por favor, não permita que ela coloque duvidas em sua cabeça. Por favor... eu... é você que eu quero.
- Lisa... Olha, temos uma festa para curtir. Não vamos deixar que nada estrague este momento ok. Depois conversamos. E segue em frente sem mais palavras.
- LISA!
Lisa já estava ao lado dos pais quanto ouve o chamado. Olha para trás e lá estava ela... sua Mari!!
- Mari! Nossa como você está linda!!
- Lisa! Mariana a abraça forte. – Eu sabia que você viria! Eu sabia!
As duas não se soltam. Lisa feliz aperta ainda mais a cintura delicada de Mari como a não acreditar que a tinha nos braços e esta feliz agradecia a Deus ter trazido sua Lisa para ela.
- Mari, você está linda menina!
- Vindo de você Lisa é o maior elogio! Mas... não vai me apresentar? Diz se virando para Luiza.
- Claro, Luiza, Mari, Mari, Luiza.
Luiza estende a mão para a outra.
- Linda festa Mari. É um prazer estar aqui.
O sorriso vem fácil a seus lábios e olhos. Não sabia bem porque, mas simpatizara com a jovem mulher. Seus olhos atentos observam a beleza que despontava naquele corpo adolescente e ao encarar os belíssimos olhos verdes percebe ali uma alma verdadeira e sincera. Olha para Lisa e vê nos olhos da amada uma claridade jamais vista. ‘Um belo encontro de almas. ’ Não sentia ciúmes da jovem. Não via perigo em relação a ela. A história entre elas – Lisa e Mariana - não lhe pertencia e não interferiria na sua com Lisa. Tinha plena convicção disso.
Mariana sorri educada para a convidada de Lisa. Era bonita e simpática apesar da pose esnobe. Encolhe o ombro, uma tristeza se instala em seu coração. Era a hora errada, seu lugar não era ali naquele momento. Olha de novo para Lisa que dirigia um sorriso luminoso e agradecido a morena. ‘ Lisa... será que um dia terei minha chance?’. Retorna o foco de sua atenção a Luiza que lhe dirigia um olhar compreensivo. Sentiu o coração palpitar. Ela parecia saber demais.
- Lisa... eu... queria que soubesse que sua presença faz muita diferença pra mim... muita mesmo.
- Eu sei Mari... por isso vim. As duas se abraçam novamente.
- Gente olha quem veio prestigiar a pimentinha!
Um belo homem chegava de braços dados com uma simpática mulher.
- Junior! Lisa abraça o irmão feliz. - Que saudade seu tratão! Disse que ia me visitar e necas.
- Calma mana, para de babar em mim. - Abraça Mariana carinhoso e sorri a irmã - Não tive tempo ué. Mas não vai...hum...não vai me apresentar sua amiga?
- Mal educado. Ei Alice, ainda não conseguiu por meu irmão na linha? Troca três beijinhos com a cunhada.
- De forma alguma Lisa. Adoro estes momentos descontraídos de Junior. Ele tem mais é que perder a seriedade. Olhava curiosa a mulher que permanecia sentada à mesa.
- Junior, Alice, esta é Luiza... uma médica que trabalha junto comigo.
- Médica??? Amor acho que vou ficar doente. Sorri divertido e se inclina um pouco segurando a mão elegante de Luiza. – Prazer bela mulher. Sorri lhe dando um beijo suave e cavalheiro na mão.
- Mas que marido é esse? Desaforado!! Não, não se levante Luiza. - Alice arregala os olhos. - Já está em minha altura sentada. Ave Maria. Quem dera tivesse essa sua altura. Junior ia andar fininho comigo. Alice ri divertida.
- Como se não andasse – Marcos ri diante do próprio comentário e olha o filho divertido.
Mariana gargalha diante do olhar assassino que Junior direciona ao pai. As provocações continuam. Lisa ria e participava das brincadeiras. Uma família e tanto pensa Luiza encantada. Junior, irmão de Lisa, a tratara de forma brincalhona e natural e seu olhar apesar de admirado não dizia mais nada a não ser uma clara aceitação de sua pessoa. E Alice sua esposa era divertida e palhaça. Simpáticos, muito simpáticos.
- Ah mãe, Fernando não vem. – Junior vira-se para Mariana - Pediu para dar suas desculpas Mari, mas infelizmente o clube não o liberou de vir.
- Ele está em Salvador né.
- Está sim. Vida de treinador é barra!
- O que importa é que esteja feliz.
Um rapaz loiro e bonito se aproxima da mesa.
- Mari, você pode vir aqui? As meninas estão cheia de dúvidas na entrada pra valsa.
- Claro Peter. Bom gente dá uma licença tá. - Olha Lisa que lhe sorri doce. – Eu volto tá.
- Vai lá Mari, estarei aqui. Observa os dois jovens que se retiram. Um belo casal. ‘ Será que eram namoradinhos?’
- Ela é linda Lisa.
- Como Lu?
- Eu disse que Mariana é linda.
- Demais né amor? Eu sou fascinada com a beleza dela. Viu os olhos dela? Que cor!!
- Sim... lembra muito a mãe.
- Joyce? De forma alguma! Mari é muito mais bonita, mais tudo!
- Pode ser... mas puxou a beleza da mãe. - Lisa se vira para Luiza.
- Quer me irritar? É isso?
- Acalma loira que sua ex vem ai.
Lisa sente o coração gelar. Vira-se lentamente na cadeira. Joyce aproximava-se encarando - as altiva. Um silencia estrondoso se fez na mesa antes divertida. Todos observam a troca de olhar entre elas. Joyce com seus olhos negros expressava claramente o desgosto da presença de Lisa. E esta com os belos olhos cor de mel claros a olha fria.
- Lisa. Quanto tempo. Que... surpresa vê-la aqui.
Lisa se surpreende com a atitude de Joyce. ‘ Como assim surpresa?’ Percebia que Joyce agia como se só a encontra-se nesse momento Relance-a o olhar para Luiza que se mantinha séria e calma apesar do olhar irônico dirigido a Jô que a ignorava.
- Olá Joyce. Tem razão... é muito tempo. - ‘ Preciso me controlar’.
É quando sente uma mão tocar com carinho a sua. Luiza estava seu lado. Joyce coloca-se ao lado do marido, mas não se senta à mesa. Olha para Luiza e com um olhar frio e controlado diz:
- Não vai nos apresentar sua amiga?
Luiza então se ergue tranquilamente e se põe frente a frente com Jô.
- Luiza. Ergue a mão arrogante em direção a Joyce que novamente se encolhe intimidada com a altura da outra. Cautelosa Jô lhe segura a mão.
- Você é alta Luiza.
- Um pouco mais de 1.80m. Solta – lhe a mão educadamente
- Fiquei... Surpresa. Desculpe-me se lhe pareci indiscreta.
- Sem problema. Estou acostumada às pessoas surpreenderem com minha altura.
- Pois é... Sabe, mulheres como você não deviam usar salto.
- Por quê? Minha altura a intimida?
- Não. É apenas uma questão de bom senso. Salto alto não combina com mulheres altas.
- Bem... Joyce. Você está equivocada. Salto combina com toda e qualquer mulher que se sente bem com sua própria beleza e postura diante da vida. Repare bem... estou mais a vontade com os meus saltos que você com os seus.
Joyce estreita o olhar diante da frase da outra.
- Engano seu Luiza.
Joyce se senta na cadeira ao lado do marido. Sentia-se cansada física e mentalmente.
- Mas realmente não importa não é? Salto é salto. Se você está à vontade é o que importa.
- Com certeza.
As duas se encaram fixadamente. Lisa, encabulada com o clima, começa a puxar assunto com Junior e logo toda a mesa debatia sobre a política brasileira. Joyce não conseguia tirar os olhos de Lisa. Carlos não tirava os olhos de Luiza. Junior calado observava toda a situação. Volta o olhar para o pai que com um olhar sério meneia a cabeça. Problemas a vista.

Mari caminha lentamente de volta a mesa dos pais. De longe percebia claramente o clima pesado. ‘ Basta minha mãe chegar e tudo merda. Saco. ’
- Lisa? Toca ligeiramente o ombro da loira
- Oi Mari? Senta aqui a meu lado!
Mari sorri e senta-se sem cerimônia entre Lisa e Luiza. Pela primeira vez na noite Jô se sente vingada. Sorri irônica e se vira para dar um beijo rápido em Carlos.
- Que foi querida?
- Nada Carlos. Deu vontade. Tudo está correndo bem né!
- Está sim.
- Reparei que não tira os olhos da morena amiga de Lisa. Carlos avermelha
- Er... Ela é bem imponente. Mas não veja isso com maldade.
- Claro que não amor... Ate porque ela é sapata... Nem olharia para você. – Sorri lhe dá outro beijinho, e se volta para conversar com Paula. Tudo sem perder a atenção em Lisa e Mari.
Carlos engole em seco e volta novamente o olhar para Luiza que sorria e conversava com Marcos e Junior. ‘Sapata? Porra será que elas são amantes? Que desperdício! Isso é porque ainda não conheceu o poder de um bom pau! Quem me dera poder lhe mostrar o verdadeiro prazer’ Frustrado toma um gole longo da bebida. Passa a mão sobre o ombro da esposa e suspira. A noite ia ser longa.
Lisa observa Carlos dançar a valsa com Mari. Como ela estava linda! Sorri quando ocorre a troca de par e vê o amigo da jovem a pegar desajeitadamente nos braços. ‘Estranho... não passei por isso’. As nossas opções muitas vezes não nos permitem vivenciar alguns momentos
de nossa juventude.
- Tudo bem Li?
- Tudo Lu... Melhor que eu imaginava.
Joyce, depois do primeiro momento, não mais se aproximara delas. Na mesa se manteve educada e na dela. Passado o primeiro momento de mal estar todos souberam lidar bem com a situação constrangedora. E também Mari, com sua alegria e emoção de estar ao lado daquela que muito admirava, impedia qualquer atitude mais infeliz entre ela e Joyce. Antes de tudo Mari.
A noite seguiu festiva. Já eram 3 h quando decidiram embora.
- Lisa! Você não vai embora logo vai? Quer dizer, de BH.
Lisa se vira para Mari e percebe que esta se aproximava junto com a mãe. As duas evitam se olhar.
- Bem Mari, eu ainda fico esta semana. Consegui uns dias na clinica. Mas Luiza terá que voltar infelizmente.
- Serio? Uau! Que legal!! Vamos sair conversar!! – Passado o primeiro momento de euforia Mari se volta sem graça para Luiza. – Nossa desculpe... Eu queria também que ficasse... Mas olha, numa próxima eu levo você em todos os passeios turísticos de BH falou?
Luiza ri achando graça.
- Eu entendi você Mari. Tranquiliza. Infelizmente não poderei mesmo ficar, mas não dispenso a oferta numa próxima. Isso, claro, se sua mãe deixar. – E olha Jô com fingida seriedade.
- Na época vemos. - Jô sorri educadamente. – Foi... Um prazer recebê-las na festa.
Prazer maior era o calor que sentira por dentro ao saber que Lisa ficaria mais uns dias em BH. ‘Mostre seus 32 dentes Jô e seja educada. Depois você decifra esse calor e pensa em tudo que ocorrera na noite. No momento se atenha a dispensar esse poste. ’
Já no hotel, da varanda, Luiza olha para o céu estrelado. Não fora tão horrível quanto pensara.
- Lu? Acho que precisamos conversar.
Ao ouvir a frase Luiza suspira e se vira para Lisa.
- Eu sei amor... Podemos nos sentar?

 "Digno de admiração é aquele que, tendo tropeçado ao dar o primeiro passo, levanta-se e segue em frente.”
(Carlos Fox)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Capítulo XII

A festa estava perfeita! Joyce caminha sorridente entre os convidados. Observa atenta os garçons. ‘ Não posso esquecer-me de agradecer a Maria por me indicar este Bufê! São ótimos’
- Joyce! A festa está linda!
- Paula! Marcos! Que bom que chegaram! Olha em volta ansiosa. – Estão... sós?
- Junior não deve demorar Jô. E Nando também. Observa atenta a postura de Joyce e prefere se silenciar quanto a Lisa. – Mas onde está a aniversariante?
Joyce suspira frustrada e aponta para o centro do salão. Paula olha na direção indicada e sorri deliciada.
- Como ela está linda Jô! Que vestido maravilhoso!
Paula esperava vê-la de vestido rodado típico de uma debutante, mas para sua surpresa Mariana estava com um lindo vestido longo aperolado. O corpo jovem e magro revelava a beleza juvenil e expunha as curvas suaves. O rosto com uma maquiagem suave realçava os belíssimos olhos verdes.
- Marcos, vamos lá cumprimentar Mari! Marcos? Paula olha ao redor. Onde estava seu marido??
- Paula, Jô segura seu braço afetuosa. - Marcos está ali com o Carlos.
- Meu Deus! O homem some e nem me diz nada! Bom, vou lá cumprimentar Mari.
- Não Paula sente-se na mesa conosco. Eu aviso Mari que chegaram.
- Ok Jô... Obrigada.
Joyce caminha em direção a filha que sorria e brincava com as amigas. ‘ Como estava linda. ’ Mariana era a promessa de uma futura mulher maravilhosa. Se com quinze anos atraia e muito os olhares masculinos imagina aos vinte!
- Mariana, sua madrinha chegou e quer cumprimentá-la.
Mariana se vira excitadíssima. ‘Lisa chegou!’ Mas qual sua decepção ao ser o aceno de Paula e Marcos e nada de Lisa. Retribui o aceno educadamente com um sorriso simpático. Jô percebe a decepção no olhar da filha ‘ Inferno!’
- Esqueça Mariana, ela não virá. Espero dela o mínimo de bom senso.
- Ela virá sim mãe. Lisa virá. Vira-se para a mãe chateada. – E ai de você se a destratar. Ela é minha convidada.
- Ela não virá! E você não queira me dar ordens. Nunca entenderá o porquê de eu não a querer aqui. Devia ter me respeitado.
- Preconceito mãe. Puro preconceito. Mas graças a Deus não puxei isso de você.
- Cala a boca! Você não sabe nada! Nunca entenderá nada!
- O que devo entender mãe? Me diz? Me mostre sua verdade!
- Mari? As duas olham enfurecidas ante o chamado. Peter, o par de Mariana na noite, coça a cabeça constrangido. - Er... bom... o pessoal tá olhando.
Joyce olha ao redor ligeiramente avermelhada. Dá um sorriso forçado e volta o olhar para a filha.
- Será possível Mariana? Até na sua festa! Sempre sonhei em te dar o melhor! Que vexame!
Mari olha a mãe e seu coração amolece. Ela podia ter seus defeitos, mas sempre se dedicara a ela com todo o amor e carinho. Abraça mãe e lhe dá um suave beijo no rosto.
- Tem razão mãe, me desculpe. Obrigada pela festa, por tudo. Você é a melhor mãe do mundo viu!
Os olhos de Joyce se enchem de lágrimas. Sabia que a cada dia seu relacionamento com a filha deteriorava mais e não sabia como mudar isso.
- De tudo que podia me puxar foi puxar logo meu gênio né senhorita Mariana?
- Que isso mãe! Zombeteira dá uma rodada em volta de si mesmo. – Olha só que gata eu sou. Puxei minha mãe!
As duas sorriem já esquecidas do pequeno embate e Peter suspira aliviado.
- Mari, vamos lá no grupo. A Leila e o Jaques chegaram.
Mariana olha o belo rapaz a seu lado. Seu amigo mais precioso. Todos ironizam a amizade de ambos, falavam que eram namorados tamanha afinidade que sentiam. Como estavam enganados!
- Logo vou Peter. Vou ali cumprimentar minha madrinha.
Joyce sorri um pouco constrangida para as pessoas ao redor enquanto Mari se afasta. Mas logo o constrangimento desaparece quando vê os gêmeos correrem do outro lado do salão aos gritos. ‘ Mas que praga! Cadê a babá?’ Caminha apressada em direção aos filhos. ‘ Eu devia estar doida quando engravidei desses pestinhas!’

 - Nossa senhora Luiza! Que demora é essa! A festa já deve estar acabando!
- Calma Lisa... que ansiedade! Não são ainda 9 horas!
Lisa olha a porta entreaberta do banheiro ansiosa. Que desespero. Vontade de ir lá arrancar Luiza a força, por no carro e ir logo pra porra da festa. Já ia reclamar novamente quando Luiza aparece na porta. Tudo lhe some do pensamento. Que monumento era aquele? Luiza não estava apenas bonita. Estava magnífica. Vestida em um longo cor de salmão, e sapatos altíssimos ela parecia realmente uma amazona pronta a defender o que é seu. A maquiagem valorizava o rosto e o vestido destacava cada curva do corpo maravilhoso. Literalmente vestida para matar. Luiza chega sorrindo perto de Lisa e delicadamente lhe segura o queixo.
- Feche a boca meu amor. Estou pronta para o meu embate.
- Ah?
- Você é tão linda Lisa!!
Lisa estava linda. O vestido azul turquesa valorizava seu corpo harmonioso e delicado e o rosto parecia mais suave do que nunca com a maquiagem leve que destacava seus lindos olhos cor de mel. Tinha o tipo de beleza que parecia não envelhecer.
- Você é simplesmente perfeita Lisa. Toda você. Mas me parece mais baixinha. Dá um sorriso irônico e caminha em direção a porta.
- Baixinha?? Você que é uma amazona. E ainda põe esses saltos absurdos!!! Meu Deus não estou chegando nem seus ombros e... e... você esta maravilhosa...
- Ahh... finalmente um elogio! Sorri e abre a porta para a passagem de Lisa. – Lembre-se meu amor, eu estou com você.

A tensão toma conta do corpo de Lisa ao adentrar o salão. Um silêncio repentino acontece. ‘ Que houve meu Deus!’ Parecia que todos olhavam para elas. Luiza segura delicadamente seu braço e a empurra com delicadeza para frente.
- Lembre-se Li... estou com você... e você está maravilhosa, diz baixinho.
Luiza sabia que a presença de ambas causaria impacto. Sua altura aliada a beleza exótica e a delicadeza e perfeição de Lisa certamente não passariam despercebidas.
- Lisa minha filha!!!
Lisa vê os pais irem em sua direção e os abraça carinhosa. As palavras e a presença de Luiza a seu lado tinham aquecido e acalmado seu coração. Sentia de repente uma inesperada segurança.
- Pai, mãe, quero lhes apresentar Luiza.
Marcos, de olhos arregalados, olhava a mulher a sua frente. Que monumento era aquele? Sente um cutucão nas costelas e olha constrangido o olhar irônico da filha.
- Acorda pai!!
- Er... nossa! Desculpe filha, eu... Vira-se pra Luiza – Como você é alta filha. E bonita. Minha filha tá podendo!
Luiza sorri deliciada. O pai de Lisa não era nada discreto, mas gostara de forma como ele conduzira a situação.
- Ela merece Marcos... posso chamá-lo assim não!? Também é um prazer conhecer a você Paula.
- Sempre filha. Você é muito bem vinda à família.
Luiza olha sorridente para Lisa, mas percebe esta com o olhar parado e fixo para o outro lado do salão. Olha também e vê uma mulher olhando fixadamente para elas. Seu olhar se estreita. ‘ Joyce’ Observa melhor a outra e sente um aperto no coração. Não podia negar. Era uma das mulheres mais lindas que já vira.
- Lisa? Lisa? Olhe para mim! Olhe para mim Lisa!
- Lu?
- Lembre-se... você é melhor do que ela. E está acompanhada por mim. E é a mim que você terá sempre. Entendeu?
Lisa olha para ela séria. Mas sorri de repente divertida.
- Aff, Lu terei dor no pescoço ao final da noite. Tranquiliza. Não deixarei ela me afetar.
- Ótimo. Podemos nos sentar com seus pais?
- Estamos com eles amor.

Joyce tremia incontrolável. Lisa estava simplesmente maravilhosa. Não mudara muito da adolescente que fora. Mas estava mais bela, mais mulher. O corpo mais curvilíneo. Leva a mão aos cabelos e geme baixinho. ‘ Preciso me controlar’ Estava distraída observando se os convidados estavam sendo bem servidos quando uma força inexplicável a fez olhar para a porta do salão. Exatamente naquele momento Lisa surgira, linda, cativante como sempre fora. E quando sorrira para a mãe ela se iluminara. “Que saudade desse sorriso meu Deus! ’ Foi só quando a viu apresentar a mulher que estava a seu lado que reparara a morena. A dor em seu coração foi certeira. Quem era aquela... aquele poste? Respira raivosa e revoltada repara que todos os homens do salão não tiravam os olhos dela. ‘Também, vulgar como parecia ser! Transpira sexo. Como Lisa ousa trazer um tipo desses a festa de minha filha? ’.
Volta o olhar para Lisa e percebe que esta a encara. O coração bate acelerado. ‘Lisa... Lisa... você está linda! Que saudade de você!’ O contato visual de ambas é cortado pelo poste que cutuca Lisa. Esta sorri alegre para a outra. ‘ Vou matá-la!’ Jô angustiada sai apressadamente em direção à cozinha do bufê. Precisava de um tempo seu onde pudesse recuperar as forças. Um par de olhos escuros e profundos acompanha seu caminho. ‘ Você não é páreo para mim Joyce. ’
 - Mas vamos nos sentar.
Sorrindo Marcos Paulo oferece o braço a Luiza que aceita alegremente o gesto.
- Ahhh agora sou o homem mais invejado do salão.
- Marcos! Paula olha com fingida indignação para o marido e resmungando segura Lisa pelo braço dando uma piscadela. – Vamos filha, temos que vigiar de perto seu pai
- Luiza este é Carlos, pai de Mariana, a aniversariante - Marcos os apresenta educadamente ao chegarem à mesa. Luiza olha o homem que se levanta da cadeira para recebê-la. Este não escondia o olhar insistente sobre sua pessoa. ‘ Homem é tudo igual’.
- Prazer... Luiza.
Carlos sorria maravilhado com a bela mulher a sua frente. Que morena! Alta, mas muito alta, com uma postura muito elegante – o tipo que causa impacto por onde passa.
- Prazer Carlos. Vamos sentar Lisa?
Carlos desvia o olhar para a loira que se sentava ao lado da morena com o olhar fixo nele. ‘ Essa então é a sapata! Bonita, mais bonita que nas fotos, mas sem sal diante desse mulherão. ’ Educadamente estende a mão para Lisa.
- Então é a famosa Lisa! Um prazer conhecê-la.
Lisa olha o espécime masculino a sua frente. ‘Então este é Carlos o homem pelo qual fui trocada’. Um tanto sem graça aperta sua mão, sorri e então se vira para a mãe que estava a seu lado perguntando baixinho.
- Mãe, me diz que não estou na mesmo mesa que Jô, por favor.
- Ok filha eu não digo. O olhar desesperado que lança a mãe faz esta se justificar. - Filha, tão logo chegamos Joyce nos trouxe para esta mesa. Não podíamos ser mal educados.
Carlos já voltara a se sentar e tentava a todo custo chamar a atenção de Luiza.
- Mas... Já nos conhecemos? Você me parece familiar. É advogada?
Luiza o observa estreitando os olhos.
- De forma alguma. Sou médica e com certeza não nos conhecemos.
- Médica? Uma linda profissão.
- Sem duvida. Maravilhosa. Eu e Lisa trabalhamos juntas e temos os mesmos... ideais.
Sorri educadamente e se vira para Lisa que parecia não prestar atenção ao papo.
- Tudo bem Lisa?
Lisa há olha um pouco angustiada.
- Eu... . Vou ao banheiro Lu.
- Quer que eu vá com você?
- Não, eu não demoro. Com licença a todos.
Luiza esquecida de todos na mesa observa sua amada se retirar. Lisa visivelmente estava perturbada com toda a situação. De repente seu olhar se torna duro. Olha novamente Carlos que percebendo lhe dá um sorriso. ‘ Se Carlos está na mesa significa que... Joyce também está. Mas que miserável esta mulher!’
Lisa já no toalete respira fundo várias vezes. ‘ Você consegue Lisa... você consegue’ Já estava se acalmando quando ouve a voz que tantas vezes lhe assombrara no passado.
- Não acredito que teve coragem de vir.
Sente o corpo tenso e ergue o olhar. Pelo espelho vê a imagem daquela que fora o grande amor de sua vida. Joyce belíssima num vestido branco a encarava com raiva no olhar. Seu coração dá um baque. ‘Jô... Jô... Meu Deus... Minha Jô... ’ Vira-se lentamente para ela.
- Não vim por você Joyce. Vim por Mari.
- Mariana, Lisa, minha filha. Se você tivesse a mínima decência teria inventado uma desculpa.
O coração batia acelerado no peito de ambas. Lisa sente o sangue correr mais rápido nas veias. A raiva começa a brotar e sem pensar revida a agressividade da outra.
- Se fosse por sua pessoa com certeza não apareceria Joyce... mas Mari merece todo meu carinho e respeito.
- Você veio porque não tem vergonha na cara isso sim. Devia se colocar em seu lugar e sumir de minha vida e de minha filha.
- Você realmente se acha né Jô? Por mim você podia explodir que não estaria nem ai.
- Vá embora Lisa. Tenha o mínimo de decência e vá embora. Não estrague a festa de minha filha.
- Eu não vou embora Joyce. Se quer saber, o passado está morto. Não gosto de você, mas não permitirei que isso influencie em meu carinho por Mari.
De tão nervosa que estava Lisa não percebe o olhar sofrido de Joyce por trás de toda a raiva expressa.
- Morto? Morto Lisa? Joyce aproxima o corpo de Lisa. – Então porque esta com a respiração acelerada me diz? Você sempre mentiu muito mal. Sorri irônica.
Lisa afasta- se de Joyce surpreendida com sua atitude.
- Sabe Lisa... Joyce a olha agora mais calma e misteriosa - Na verdade não me surpreendo com você aqui. Sempre quis mostrar ser mais forte do que todos. Ser mais forte que eu! Sempre a boazinha, a melhor. Não deixaria passar a oportunidade de se fazer de coitadinha diante de todos... a vitima.
- Você enlouqueceu Joyce.
Novamente Joyce aproxima o corpo do de Lisa. Esta sente o perfume sensual e um frêmito de desejo passa por seu corpo. - Ainda usa o mesmo perfume...
Joyce se surpreende com a frase inesperada, dita baixinho. Olha para Lisa e estremece ao ver o olhar saudoso no seu rosto.
- Lisa... eu... sim eu uso... sempre gostou dele.
Lisa a olha com um olhar nublado como que perdido no passado. Joyce, quase que instintivamente, ergue o braço e toca o rosto de Lisa. O coração enternece e o desejo tão reprimido renasce em seu coração.
- Você continua linda... Li. O toque inesperado desperta Lisa do passado. Novamente se afasta de Joyce. - Não me toque Joyce. Nunca mais me toque.
- Seu corpo diz o contrario Lisa. Você sempre foi tão... previsível. Dizendo isso desliza o dedo pelo decote de Lisa. – Quem sabe não podemos recordar um pouco o passado já que fez tanta questão de voltar para o meio de minha família.
- Enlouqueceu Joyce? Ignorando a ânsia de tomar aquela mulher nos braços afasta com grosseria seus dedos de si e diz raivosa. – Deixe de ser oferecida. É uma mulher casada.
Joyce sorri sentindo-se poderosa.
- Pode dizer o que quiser Lisa. Você me quer. Seu passado esta mais vivo do que nunca.
- Você continua não valendo nada. O desprezo na voz de Lisa faz Joyce ficar séria.
- Não Lisa... Você se engana. Só você me faz perder meus valores. Você não me deixa ser feliz Lisa! Diz quase desesperada.
- Eu? Ora, me poupe! Me faz um favor Joyce, me deixe passar que vou voltar para perto dos meus.
- Dos seus? Quem? Seus pais? Me faz rir. Quase nem vem vê-los. Olha para ela com revolta – Não seria para perto daquela... mulher que trouxe com você? É para ela que vai voltar? Anda perdendo o bom gosto Lisa. Aquilo parece um homem travestido. Deve faltar só um bom p...
- Se fosse você pensaria duas vezes antes de terminar a frase.
A voz repentina assusta as duas mulheres. Lisa arregala os olhos assustada e avermelha. Joyce se vira cautelosa diante da expressão que vê no rosto da loira e dá de cara com a mulher quase 20 centímetros mais alta que ela. O olhar duro, frio e arrogante faz seu coração gelar.
- Não vai me apresentar Lisa?

 “Cuidado... ao dizer alguma coisa, cuide para que suas palavras não sejam piores que o seu silêncio."
(Autor desconhecido)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Capítulo XI

- Estou muito feliz com seu progresso Marcos. Acredito que em alguns dias vou te liberar da fisioterapia.
- Ainda bem né Drª Lisa. Já não aguento mais. Tô sem dor nenhuma. Na verdade to doido por uma bola. Libera ai?
Lisa sorri. Aquele rapaz não dava ponto sem nó. Antes de dar a resposta tão ansiada pelo rapaz a porta do consultório se abre. Luiza entra séria a encarando fixadamente.
- Er... eu... que falava mesmo Marcos?
- Se me libera o futebol Drª Lisa. Bom dia Drª Luiza.
Luiza apenas faz um gesto com a cabeça diante do cumprimento do rapaz. Recosta na porta agora fechada sem tirar os olhos de Lisa que sente dificuldades em respirar.
- Eu... claro Marcos. Está liberado a partir da próxima semana. Mas não abuse. Qualquer dor deve parar ok.
- Cara! Nem acredito! Deixa comigo. Vou nessa?
- Ah?? Que nessa?
- Sair. O rapaz faz um gesto de voando com as mãos.
- Ah tá. Pode ir sim... eu... tá liberado. Vai nessa. E imita o gesto do rapaz.
- Valeu! Até doutoras. Passa por Luiza que lhe abre a porta com um sorriso frio. ‘ Cara essa mulher me dá medo’
Luiza fecha novamente a porta e se volta para Lisa que se mantinha em silencio sentada atrás da mesa.
- Bom dia Lisa. A voz soa como um trovão aos ouvidos de Lisa. Não imaginava o confronto logo cedo. - Luiza... sei que lhe devo explicações mas...
- Cala a boca Lisa. Você precisa sim é de uma lição. Sua sem vergonha.
- Enlouqueceu Luiza? Pode abaixar o tom.
- Vou abaixar sim. Luiza se debruça sobre a mesa e aponta o dedo para a loira. - Você me usou. Até ai tudo bem eu aceitei. Mas deixar meu coração encher de esperanças e sair na calada da madrugada como se eu fosse uma mulher de zona extrapola todo o significado da palavra respeito. Posso ter meus defeitos, mas nunca te tratei como uma puta!
- Me faça o favor Luiza! É o que faz desde que me conheceu. Me poupe. Você transa como uma mulher de rua!
A morena tomada de uma raiva imensa avança sobre Lisa que se encolhe na cadeira.
- Tranqüilize Lisa não vou bater em você. Acabo de perceber que você é uma farsa. Uma covarde emocional. Continue sua vidinha medíocre que não vou me prezar mais a correr atrás de você. – se vira em direção à porta, mas antes que a alcance a resposta de Lisa vem certeira.
- Corre porque não tem vergonha na cara. Sempre mostrei que não queria você.
Luiza se vira lentamente ficando de frente a ela.
- Sabe Lisa. Me chama de orgulhosa e arrogante. Mas este papel se preza a você. Não tive vergonha de lutar pela pessoa que amo. E continuaria lutando se achasse que vale a pena. Mas você não passa de uma pessoa medíocre, covarde, infeliz. Prefiro sofrer a perda do amor que nunca tive que me rebaixar a sua pessoa. Você não é quem acreditei que fosse. Você não me merece. Sossegue que não incomodarei mais. Lisa sente um frio no coração.
- Luiza não! Vê a morena a ignorar e sair pela porta. Sente as pernas tremerem. ‘ Isso não pode acontecer’ Corre abre a porta e grita: – Luiza!!
A morena para, mas não olha para trás.
- Por favor... me escute. Volte. Olha me escute. Se depois que eu falar você continuar pensando assim eu... Eu não chamo mais. Por favor.
Luiza se vira em sua direção. A expectativa de sua ação futura deixa Lisa tensa.
- Por favor.
A morena suspira profundamente passa as mãos no cabelo e volta a entrar na sala. Lisa fecha a porta e se vira para ela.
- Lu... eu. Eu... ai meu Deus será que pode sentar? Sua altura me intimida! Sem uma palavra a morena se senta na cadeira. Lisa a encara ainda mais nervosa. - Para de me encarar... assim não consigo falar e... - Fala logo Lisa que merda!
- Credo que boca suja. Eu... bom... posso começar do inicio?
- Deve.
- Primeiro... eu... tenho que desmarcar um paciente. Caminha em direção ao telefone e após falar com a secretária põe as mãos sobre a mesa. Esfrega a testa. ‘ Coragem Lisa’
- Coragem Lisa. Fale.
- Lu... você tem razão. Eu sou uma covarde. Eu sou uma covarde. Como que derrotada senta sobre a mesa e encara a morena. - Há muitos anos sofri uma grande perda emocional. Eu... a partir dali jurei nunca mais deixar ninguém se aproximar.
- Lisa todos nós sofremos perdas. Isso não justifica!
- Me deixa falar Lu.
- Ok. Luiza de repente sente que aquele momento seria decisivo de sua vida. Dali teria a certeza de seu futuro... com Lisa ou sem ela.
- Sabe... eu sempre acreditei nas pessoas. No lado bom delas. Fui criada em uma família nota 10. Era a típica adolescente classe media de BH. E tinha uma amiga nota 10 também. Olha Luiza desolada. – Ao menos acreditava nisso. Mas percebi que as pessoas te usam. E os amigos que você acredita são capazes das maiores atrocidades.
- Li... seja mais clara
- Eu me apaixonei por minha amiga Luiza. Profundamente. Ela... bom ela tinha uma historia de vida sofrida. Foi abandonada grávida pelo primeiro namorado aos 16 anos e fui uma das poucas pessoas que se colocaram desde o inicio ao lado dela.
Lisa se silencia e seu olhar se torna vago... seu retorno ao passado dolorido. Luiza respeita este momento sentindo um aperto no coração ante o rosto sofrido.
- O nome dela era... é Joyce. Acompanhei cada momento da gravidez junto com ela. Estive a seu lado no hospital e durante os anos seguintes. Nesse tempo... descobrimos o amor... ao menos eu descobri. Olha para a morena angustiada. - Daria a vida por ela Lu. Tudo... mas não foi suficiente. Ela fugiu de mim... me condenou se afastou. Disse que não queria aquela vida para ela... e me traiu. Lagrimas começam a escorrer de seus olhos e ela as seca com raiva. – Jurei nunca mais deixar que alguém me magoasse daquela forma. Que ninguém mais me usaria.
- Você ainda a vê Lisa?
- Vê-la? Não. Eu literalmente fugi dela e de todo o mal que ela me fez. Fui estudar fora, trabalhar em outro estado... nunca mais a vi.
- E tem vontade de vê-la?
- Não!! Nunca! Odeio aquela mulher. Ela se casou Lu! Com o homem com quem me traiu! Sorri revoltada - Sabe o mais engraçado! Quando descobri ela... ela sugeriu sermos amantes. Que gostaria que eu fosse... sua amante. Só este papel me daria em sua vida.
Luiza sente o coração se encher de ódio diante da frase. Gostaria de estrangular a mulher que fizera tamanho mal a sua amada. Mas respira fundo sabendo não ser este o caminho a ser tomado. Ergue o braço e segura mão de Lisa que apertava na mesa do qual estava sentada. Lisa observa a mão morena e sente os olhos novamente encherem de lagrimas.
- Ela me jogou fora Lu... como um produto descartável, sem utilidade. Eu me senti tão... pequena. Minha família toda estendeu a mão pra ela. Meus pais são padrinhos de Mari. Demos tudo a ela... eu dei tudo a ela. Meu amor... meu corpo... minha alma.
- Lisa... Lisa.
- E ela achou pouco... ela riu de meu amor... ela só queria possuir, usar. Ela não amou. Ela me usou Lu! Ela me usou!!
- Lisa... calma amor... vocês duas eram jovens. Não pode deixar isso interferir em sua vida.
- Não era jovem para amar Lu. Não era jovem para ser ferida, magoada, traída. Jô fez de mim um boneco para manipular e fazer suas vontades. Uma egoísta que só pensou nela... na satisfação dela.
- Lisa... deve esquecer o passado meu Deus!! Você hoje é adulta! Sabe que tem que recomeçar. Você tem tanto amor pra dar. Esqueça-a, comece de novo!
Lisa sorri irônica.
- Esquecer? Como? Vira o corpo na direção de Luiza. - Meus pais são padrinhos de Mari, Lu. Filha de Joyce. A criança que amei como se fosse minha. O ser que dediquei todo o sentimento mais puro de minha vida. Todas as vezes que ia à casa de meus pais ela estava lá. Me esperando. É um carinho que jamais foi perdido com a distância. Amo Mari... na mesma proporção que odeio a mãe dela. E por ela, exatamente daqui a um mês, quando completa 15 anos, vou encarar Joyce... a mulher que destruiu minha vida.
Luiza sente o coração gelar. Lisa encarar Joyce? O amor perdido, mas não esquecido?
- Lisa... Meu Deus...
- Ela vai me esfregar aquele... merda na minha cara... seu casamento perfeito...seus lindos filhos e eu... eu... Deus Lu que eu faço?? QUE EU FAÇO??? ODEIO ELA! ODEIO ELA!!!
Finalmente depois de anos de angustia e dor guardados na alma Lisa explode em lágrimas sentidas. Luiza se ergue a abraçando forte e sussurrando palavras sem sentido em seu ouvido. Seu coração nada mais se fazia sentir. Só a dor da perda, da rejeição. Lisa ali expunha seu sofrimento e lavava sem saber a alma. O choro descontrolado se tornou lagrimas sentidas. Após longos minutos Lisa suspira e exausta se afasta de Luiza.
- Desculpe... desculpe. Luiza olha o rosto vermelho da loira e o carinha com afeto.
- Está tudo bem? Lisa somente meneia a cabeça num gesto afirmativo.
- Lisa... você vai a festa não vai?
- Tenho que ir... Deus...
- Me deixe ir com você.
- Como?
- Me leve com você Lisa. Como sua namorada.
- Como é que é?
- Lisa... quer namorar comigo?
Lisa encara Luiza em choque. Namorar??? Não se sentia com forças nem para se levantar quanto mais namorar.
- Lu... Luiza...eu... não é hora para isso... eu preciso lavar o rosto.
- Tudo bem eu te espero.
Enquanto Lisa lava o rosto Luiza vai à recepção e pede à secretaria que desmarque todos os pacientes de ambas.
- Mas doutora. Isso é impossível!
- Então os direcione para outros médicos. Ninguém é indispensável garota.
- Não posso fazer isso sem a permissão da direção.
Luiza ergue o corpo intimidando ainda mais a jovem secretaria.
- Se eles questionarem minha decisão diga que me liguem. Se coloque em seu lugar e apenas faça o que mando. Vira-lhe as costas e retorna a sala de Lisa. ‘ Tem gente que não se põe em seu lugar’
- Luiza?
- Lisa, já desmarquei nossos pacientes. Vamos para casa.
- Como assim desmarcou? Com que permissão?
- Não preciso de permissão Lisa. Você está sem condições de trabalhar hoje. Pega bolsa de Lisa. – Vamos.
- Mas... você também vai?
- Acha realmente que vou deixá-la sozinha num momento desses? Aproxima-se de Lisa a ponto desta sentir o calor de seu corpo. - Você agora não está só Lisa. Você tem a mim. No seu carro ou no meu?
- Como? Você me confunde Luiza.
- Ok decidido. Meu carro. Depois pegamos o seu. Vamos para sua casa.
Lisa se sente tão cansada que não discute as decisões da morena. Na verdade estava achando ótimo não ter que tomar decisões. A cabeça doía se sentia sem energias. Luiza de repente se tornara sua força. Em casa vê a movimentação de Luiza em seu apartamento. Parecia que estivera ali várias vezes tamanha desenvoltura em sua cozinha.
- Está se sentindo em casa né Luiza.
- De forma alguma Lisa. Seu apartamento é um ovo. Me sufoca. Terrível!
Lisa revoltada prepara-se para responder, mas ao ver o olhar zombeteiro da outra percebe que esta a provocava.
- Você gosta de me deixar nervosa né Lu?
- Gosto de ver vida em seus olhos Li... Sorrindo lhe estende uma xícara de café fresquinho. - Saboreie o mais delicioso café madame.
- Que honra... hum... gostoso mesmo. Sorri agradecida. – Obrigada Lu.
- De nada senhorita
- Lu... você não falava serio né?
- Sobre o namoro? Sim, falava sim Li. Sei que posso fazer você esquecer o passado.
- Mas Lu... você merece alguém que te ame... eu... não quero usar você.
O coração de Luiza se aperta. Queria tanto o amor de Lisa. E iria conquistá-lo tinha certeza disso.
- Lisa... sei que gosta de mim... por mais que negue isso. Dê-me a oportunidade de provar que posso te fazer feliz. Arrisque. Permita-se sorrir para a vida. Se dê esta chance
- Lu... você me acompanha mesmo ao aniversário?
- Não o perderia por nada neste mundo.
 Lisa se aproxima da morena e lhe dá um pequeno beijo nos lábios.
- Sim...
- Sim?
- Sim Lu... quero namorar você.
O sorriso e o grito de alegria de Luiza enternecem a loira. Presa nos braços morenos Lisa sente o coração se aquecer. Ergue os belos olhos cor de mel para a morena. Não estava mais só.

Foi um mês de descobertas e alegrias para ambas. Lisa descobriu que por trás da arrogância e petulância morena existia uma mulher entregue que lhe dedicava imensa ternura. Seu sorriso se tornava mais fácil e sincero, seus gestos mais suaves e naturais. Brincalhona chamava Luiza de Valquíria e esta em resposta agarrava-a pela cintura num sentimento de posse que preenchia seu coração. Não sentia necessidade de outras mulheres e nunca se sentira tão segura nos braços de alguém. Lisa aos poucos ia cicatrizando o coração repleto de magoas e devagar instalava nele o amor maduro, forte e presente que a libertava do passado.
- Você é linda Lisa... Você é o meu amor. O amor que me completa, me torna a mulher mais feliz do mundo. Obrigada por existir. Obrigada por fazer parte de minha vida.

 "A mudança é a lei da vida. E aqueles que confiam somente no passado ou no presente estão destinados a perder o futuro.”
John F. Kennedy

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Capítulo X

‘Dia tenso’ Luiza suspira cansada e acaba de passar o café. Enche a xícara e prova em pequenos goles a bebida quente. ‘ Delicioso’. Caminha na direção da sala onde se joga desajeitada sobre o sofá. Sem lugar se levanta e caminha em direção ao quarto. Olha a cama e recorda os momentos maravilhosos vividos com Lisa. ‘ Por que sempre desejo o mais complicado?’ O telefone toca a tirando do passado recente.
- Luiza?
- Li... Lisa?
- Tudo bem?
Luiza sentia como se a garganta tivesse travada. Puxa o ar repetidas vezes e quando fala sente a voz rouca.
- Tudo... aconteceu algo? Eu...
- Lu sei que esta surpresa com meu telefonema. Eu... bom... Lu eu posso subir?
- Subir? Luiza sente o coração disparar. – Subir onde?? Eu... Subir?
- Eu to em frente a seu prédio Lu... Posso subir? Luiza estremece. ‘ Ela esta aqui?’
- Clã... claro... eu... sobe sim... agora?
- Sim.
- Suba agora. Vou avisar o porteiro.
Mal termina de falar como porteiro Luiza começa a esconder a bagunça à vista. ‘Merda, porque sou tão desorganizada’ A batida na porta a assusta. Corre e a abre de supetão sorrindo abobada ao ver a loira a sua frente.
- Que... surpresa Lisa
- Espero não estar incomodando.
- Não, claro que não. Acompanha o olhar de Lisa para sua mão e avermelha ao ver que ainda segura uma calcinha estilo cueca que estava jogada no chão do banheiro
- Er... é... bom...é confortável. Diz erguendo sem graça a mão com a peça intima. Lisa dá um meio sorriso.
- Na mão? Novo uso?
- Não... eu ... arre entra.
Caminha sem graça em direção a área de serviço e joga a calcinha no cesto de roupa suja. Ergue os ombros, respira como que a criar coragem se vira e...
- Lisa!! Que susto! Me seguiu...
Não termina a frase, pois é agarrada quase com desespero. Lisa busca sua boca com verocidade e a beija sequiosa. Luiza nem se pergunta o porquê daquilo. Retribui o beijo trazendo Lisa para mais perto de si. As duas parecem se digladiar na área de serviço. Lisa quase cegamente agarra a camiseta que Luiza usa e a puxa. O som de algo rasgando soa no silencio, mas ambas ignoram. Voltam a se beijar e Luiza termina de rasgar a peça agora inútil. Sente os seios serem agarrados e geme entre os lábios de Lisa. A loira abaixa a cabeça e se delicia com a visão dos seios fartos
- Você é minha? Você é minha?
A morena escuta as palavras abafadas por seus seios que Li chupava e beijava enlouquecida. Segura os belos cabelos loiros e ergue o belo rosto de sua amada.
- Sim Lisa. Sou sua... Mal termina de ouvir a frase Lisa se afasta como que em choque. Esfrega a testa com os dedos e geme.
- Eu... nossa... desculpe... eu...
Como dizer que endoidara ao ver a calcinha na mão da outra? Como dizer que vela só de camiseta e calcinha atender a porta lhe tirara as defesas? Evitando olhar em direção a morena Lisa olha para a área externa do prédio.
- Nossa poderiam ter visto a gente. Desculpe mesmo.
- Lisa me poupe. E eu me preocupo com vizinhos? Alem que não tem ninguém. Lisa olhe pra mim. Lisa?
Ainda olhando para fora Lisa evita olhar em sua direção. O coração batia descompassado e tentava sem muito sucesso restabelecer o bom senso.
- Lisa?
O chamado em um tom de voz diferente chama a atenção de Lisa que cautelosamente olha para o lado buscando a morena. O coração antes disparado explode em chamas ante a visão a sua frente. Esplendorosa em sua nudez Luiza a olhava por sobre o ombro apoiada sobre a máquina de lavar. A visão das nadegas nuas e tão sedutoramente oferecidas lhe mina qualquer chance de resistência. Um gemido rouco sai de sua garganta e sem mais pensar se volta para a morena agarrando seus quadris com volúpia.
- Você é minha morena! Minha!
Puxa os cabelos castanhos e a obriga a se por de quatro sobre o chão. Se sentindo poderosa toda vestida com a outra nua em seus braços Lisa sorri deliciada. Hoje Luiza satisfaria todas as suas taras. Seria sua fuga, sua satisfação, suas respostas. Luiza geme ao toque ansioso de Lisa. Entregue se deixa usar submissa às vontades da outra. Geme de prazer ante as estocadas firmes e aceleradas de Lisa dentro de si e rebola para delírio dos olhos da loira. Quem agora assumia o momento? Luiza com toda a experiência busca insaciável o prazer com o toque de Lisa em si e dentro de si. Seus gemidos e movimentos ritmados impõem a Lisa um comando indireto em busca do próprio prazer. Lisa sente um frêmito dentro de si ao acompanhar todo aquele show de sensualidade animal. Sem perceber começa a gemer junto com a morena e surpreendida vê seu corpo estremecer em um orgasmo delicioso ao ver a outra gritar chegar ao ápice do prazer. Exausta deixa-se cair ao lado de Luiza no chão frio.
- Lisa? A voz parecia vir de longe – Lisa levanta, o chão está frio e estamos aqui há muito tempo aqui. Lisa abre os olhos lentamente e olha o teto branco da área de serviço. Olha para o lado e percebe Luiza já de joelhos, linda em sua nudez, lhe estendendo as mãos. Aceita a ajuda e juntas se erguem colocando-se de pé uma frente à outra. Sem mais palavras Luiza a leva para o banheiro e frente ao Box começa a lhe tirar as roupas. A água quente aquece não só o corpo como o espírito de Lisa. Sentindo-se leve e segura nos braços de Luiza se deixa ensaboar. O toque de Luiza nunca seria delicado e macio. Mas transmitia segurança e uma certeza de continuidade que há muito tempo não sentia. Já enrolada na toalha Lisa se deixa levar para a cama onde juntas deitam e se abraçam. A paixão não tinha lugar naquele momento. O sentimento era de plenitude. Um sentimento que Lisa jamais esperou encontrar nos braços daquela mulher arrogante e intrometida. E dormiu... profundamente. Pela primeira vez em muitos e muitos dias.

Luiza observa o rosto amado adormecido. Como a amava! Lisa talvez ainda não entendesse, mas ambas eram a força uma da outra. Este momento pertencia a elas, era destinado a elas. Estreitando mais o abraço suspira enternecida. Tinha o seu sonho nos braços. As horas passam e Luiza percebe quando sua amada acorda suavemente. Afrouxa o abraço e Lisa se movimenta alongando o corpo.
- Lu?
- Oi linda
Lisa ri divertida.
- Linda? De onde tirou isso?
- Você fica linda quando dorme.
- Ah tá. Sei... Lisa a olha séria. – Lu... precisamos conversar. Sabe disso né.
Luiza se senta na cama.
- Lisa... eu sei. Sei também que não veio aqui atrás de... de...
- Sexo? Não Lu não vim... eu... quando vi você na porta tudo mais me sumiu da cabeça. Eu... precisava de ...
- De satisfação? De me dar uma lição? Mostrar que mesmo alguém como eu, arrogante e metida como você mesmo diz, pode ser usada e gostar disso?
Lisa sente o olhar angustiado de Luiza em si e percebe que pela primeira vez há muito tempo não quer embora sem olhar para trás e esquecer a mulher sobre a cama.
- NÃO LU... não... não foi minha intenção. Eu... precisava de alguém que me entendesse... mesmo quando eu não soubesse usar as palavras. Seus olhos buscam a compreensão da outra. O silencio impera entre as duas.
- Lu... se eu disser que não gostei do que aconteceu... eu estarei mentindo. Lisa se vira para a morena – Eu amei você entregue em meus braços. Há muito tempo não sinto... eu... há muito tempo não me entrego a alguém como o fiz hoje.
- Quem se entregou fui eu Lisa.
Luiza tenta não deixar a esperança tomar conta de seu coração.
- Não Lu. Eu me entreguei. Vim aqui disposta a tirar satisfação de tudo que você fez desde que nos conhecemos, a forma como agiu com Deise a afastando de meu caminho. Luiza tenta falar, mas Lisa ergue o braço e com um gesto a silencia. - Não negue Lu... eu sei. Achei-a tão arrogante, tão... sem limites. Você imperava sobre o meu destino com sua certeza e se impunha a minha pessoa com essa postura irritante achando que eu devia simplesmente abaixar a cabeça.
- E você abaixou Lisa.
- Não me venha com sua arrogância Luiza. Você arrisca cada passo de sua vida com essa atitude e eu não gosto disso. Não gostei da forma que planejou a minha sedução aqui na festa, a forma como tirou Deise do caminho, a forma como busca me dominar. Sou uma pessoa com opiniões e vontades.
- E então veio aqui e quando me percebeu entregue, mostrou como sabe usar uma mulher. É isso?
- Já disse que não Luiza! Que inferno! Não sou como você! Você que usa métodos assim para alcançar seus objetivos.
- Meus métodos podem não ser de seu agrado, mas jamais os usaria para magoar alguém. Deise não era para você Luiza. Mesmo gostando dela você a estaria usando e sabe disso.
- Mas você não acaba de dizer que te usei?
- Me usou porque sabia ou acreditava que eu saberia lidar bem com isso. Me usou porque comigo acreditava que poderia virar as costas e partir sem remorsos.
- Já disse que não a usei.
- Não me importo Lisa. Não importo que me use. Sabe por quê? Porque comigo você sabe que estará segura.
Lisa não responde. Abaixa a cabeça sem saber exatamente como agir ou o que falar.
- Mas sabe? Não está tão segura quanto pensa. E eu particularmente cansei de tentar entende-la. Tenho coisas melhores para fazer a esta hora. Olha com um olhar sedutor para Lisa e puxa o lençol até expor totalmente a nudez amada. – Minha vez de mostrar aqui quem manda.
Já era quase manhã quando Lisa acorda. Observa Luiza adormecida, fecha os olhos e os abre novamente lentamente. Luiza perdia toda a postura arrogante quando dormia. A expressão se tornava suave, tranqüila, sem aquele ar que tanto intimidava as pessoas. ‘Parece outra pessoa’ Levanta-se delicadamente da cama procurando não acordá-la e, na ponta dos pés, caminha em direção ao banheiro de onde já sai vestida e arrumada. Sai do apartamento sem despertar a morena e já a caminho de casa suspira angustiada. ‘Nada ocorre como quero quando o assunto envolve Luiza. Não acredito no que fiz droga, no que aconteceu. Não fui eu que entrei naquele apartamento, não pode!’ Estremece ao lembrar todos os momentos da noite ao lado dela. A sensualidade morena, a confiança em cada toque cada beijo. Com Luiza ela se tornava mais impulsiva, conseguia se libertar da postura imposta de não sentir e viver apenas o momento. Com ela tudo se tornava mais vivo mais intenso, a ponto de não conseguir deixar de pensar, desejar, querer tudo de novo. Essa era a verdade. Luiza a impulsionava a viver. E é esta mulher que irá acordar sozinha, se sentindo usada na sua entrega. ‘ Só faço merda’  

"É preciso viver, não apenas existir".
(Plutarco)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Capítulo IX

Paula caminhava lentamente pela rua. As sacolas de supermercado pesavam. ‘ Maridos! Para que servem? Futebol, cerveja e só depois esposa. Deixa ele chegar!’ resmungava baixo.
- Madrinha! Deixa eu ajudá-la.
- Mari, que bom vê-la. Pega tudo vai – diz rindo mas só entregando as que estavam na mão esquerda.
- Saudades – Mari beija o rosto amado.
- Eu também querida. E como esta sua avó, sua mãe, os meninos?
- A avó depois que firmou o namoro com o seu Leal está só nas nuvens. Os meninos insuportáveis. A mãe um saco.
- Que isso Mari. Não são modos de falar de sua mãe.
- Ah... madrinha, mas ela está insuportável desde q confirmei que mandei o convite a Lisa. Disse que sou desobediente, não a respeito e tudo mais.
- Hum... – Paula meneia a cabeça. Essa história sem fim ainda ia dar muita dor de cabeça.
- Sabe madrinha – Mari a olha de relance – sabe o que penso?
- Porque sei que não vou gostar do que pensa?
Mari a ignora. Paula era ‘cabeça aberta’ apesar da idade, a única que podia falar de tudo.
- Acho minha mãe uma tremenda preconceituosa. Não aceita que a amiga dela seja... você sabe né.
- Sei... sabe filha, eu também me sinto desconfortável com isso, com toda esta situação. Mas é minha filha e eu a amo.
- Mas madrinha! Que tem de mais?? A Lisa não incomoda ninguém! É super legal, am... er... adoro ela!                                                                                                                      - Eu também a adoro Mari – Paula ri descontraída. - mas sofro porque sei que ela sofre.
- Minha mãe devia ter ficado ao lado dela! Era a melhor amiga dela pô!!No entanto só malha ela, critica. Que raiva. Olha, desculpe madrinha... a Lisa é sua filha e eu... bom... pra mim mãe tá errada.
- Filha – Paula para em frente a seu portão. – Não importa o que acontece entre minha filha e sua mãe. Você está em meu coração assim como as duas. Um dia tudo se resolve você vai ver.
- Será? Pois eu duvido. Bom, tá entregue. Vou pra casa que hoje lá tá o bicho. A bruxa tá solta, ou seja, minha mãe.
- Uai, ela não foi trabalhar?
- Quem dera! Ela se deu folga hoje. E já tá brigando. Xô ir.
Paula observa Mariana se afastar. A ligação entre ela e Lisa era impressionante. Joyce teria um dia que aceitar que nenhuma atitude afastaria as duas. Era uma ligação espiritual muito bonita. Pena que por causa do passado Lisa tenha se distanciado tanto de todos. Alias Lisa não lhe telefonara esta semana. ‘ À noite vou ligar. Que saudade de você filha’

 Joyce respirava com dificuldade. Os meninos estavam impossíveis. ‘merda ter ficado em casa’. Ouve a porta da sala se abrir e Mari entrar cautelosa.
- QUE FOI QUE ENTRA ASSIM? TEM BICHO NESTA CASA POR ACASO??
- Credo mãe. Nem posso entrar em casa mais?
- Entra na ponta dos pés porque sabe que fez coisa errada!
- E o que fiz Doutora Joyce? Será que o errado foi convidar quem queria pra MINHA festa???
- Convidou quem eu proibi!
- E que queria o que MÃE? Que meus padrinhos chegassem aqui e eu dissesse ‘ olha padrinhos, não convidei a FILHA DE VOCES porque a minha mãe brigou com ela há séculos e a trata como se tivesse lepra e tudo porque ela escolheu SER FELIZ!!! '
- Ser feliz a merda! Ela é uma... uma...
- Uma o que mãe? Diz!
- Uma sapata!
- Porque você não mostra essa sua mesquinharia, seu preconceito pros padrinhos hem? Você é uma falsa!
- Olha o respeito menina!
- Que respeito! Você nem sabe o que é isso! Joyce avança em direção a Mariana, mas se contém ao ver a porta se abrir.
- Que isso gente! Ouvi os gritos das duas lá da esquina.
Joyce cerra os punhos e vira as costas ao marido e filha saindo abruptamente da sala. Já na cozinha se apoia na pia procurando controlar o tremor do corpo. Cada dia os conflitos entre ela e Mariana se tornavam mais freqüentes. Porque ela fazia questão da presença de... Lisa? Elas nem tinham tanto contato assim. Ela fizera de tudo para que se afastassem. Mas não... teimosa como ela só, Mariana dava sempre um jeito de contatar a outra. ‘Lisa’... sua mente vaga para o passado. Começa a lembrar dos momentos que passaram e sente o coração bater diferente. Joga os cabelos para trás e ergue os olhos para cima. ‘Não vou pensar nisso... não vou pensar nisso’ e bate com punho fechado na cabeça.
- Que isso Joyce? Assustada olha para trás e vê Carlos seu marido a olhar sério. - Você anda insustentável!
- Não vem você também não Carlos! Basta Mariana! Carlos se aproxima da esposa conciliador.
- Jô... não entendo porque tanta implicância com Mariana realmente. É por causa de Lisa? Por a ter convidado para a festa? Sei que ela fez uma opção errada, é uma doente, mas não podemos fazer nada. Se queria ter mais atitude devia ter afastado a menina desde cedo de toda a família. Se não o fez, agora que não pode mesmo fazer nada.
- Doente? Quem é doente? Lisa? Carlos você endoidou? Doente é você de pensar isso! Lisa não é doente. ORIENTAÇÃO SEXUAL NÃO É DOENÇA!
- Joyce você pode, por favor, ser coerente? Não entendo! Olha, estou cansado. Cansado de suas brigas seu estresse. Trate de acalmar!
- Eu não gosto de Lisa, tenho meus motivos para não a querer perto de mim, mas ela não é doente! Discordar de você é ser incoerente? É isso??
- Valha-me Deus! – Carlos ergue as mãos para o alto - desisto. Vou para o quarto.
Jô vê o marido sair da cozinha e passa as mãos nos belos cabelos negros. Sabia que estava sendo difícil conviver com ela, mas tremia só de pensar olhar Lisa nos olhos novamente. Durante todos estes anos conseguira evitá-la e fora um alivio ela ir morar fora de Minas. Evitava pensar nela, no passado e tudo que a envolvia. Quando a filha ia à casa dos padrinhos não perguntava nada e se recusava a ouvir qualquer assunto referente à loira. Só assim conseguia viver seu mundinho seguro em paz.
Mariana entra no quarto deprimida. A mãe cada dia parecia mais nervosa. As duas não conseguiam se entender e isso a angustiava. Sabia que para tudo amenizar bastava desistir de ter contato com Lisa, mas isto estava fora de cogitação. Mesmo a vendo tão pouco ela era muito importante em sua vida. Na verdade essencial. Não conseguia esquecer uma passagem de sua infância, quando Lisa e sua mãe tiveram uma briga que a assustara muito. Impossível não lembrar o olhar de Lisa, meigo e amoroso a acalmando, e o sorriso suave que lhe dera a certeza que elas estariam sempre juntas. Que o amor supera tudo. Balança a cabeça triste. ‘ Lisa eu te amo’ como sempre fez a vida toda, Mari conversa sozinha como se Lisa estivesse presente. ‘ Eu te amo Lisa. Será que um dia você vai notar isso? Eu vim pra você... ’ Mariana se deita na cama e pega o livro na gaveta ao lado. O observa e suspira... outro motivo de conflito com a mãe. Adorava a Doutrina Espírita. Sua amiga Leila era kardecista e lhe emprestara vários livros sobre o assunto. Ela adorava. Começara a freqüentar escondido o grupo de jovens nos sábados à tarde, mas a mãe não podia nem sonhar. Dizia que espiritismo era coisa de demônio, de pessoas sem ter o que fazer. Mas só nele encontrara respostas para o elo que sentia com Lisa. Abraça o livro e começa a chorar baixinho. ‘ Lisa! Me ajude! Preciso de você! Sei que tenho que ter paciência, mas tá difícil... ME AJUDE LI!’

Lisa caminha nos corredores da clinica em direção a sua sala. O dia estava sendo bem cansativo. Isso fora a mágica que fazia para não cruzar o caminho de Luiza. Não se sentia ainda pronta para o confronto entre elas. De repente sente um aperto no coração enorme e põe a mão sobre o peito. Sente uma angustia tomar conta de si como se alguém a chamasse. Em sua mente passa a imagem de Mariana, ainda criança, lhe abraçando com a confiança de quem sabe que ela nunca lhe faltará. Sua respiração falha e gotas de suor surgem em sua testa. Lisa se apoia na parede e começa a tremer ‘ mas o que foi isso?’
- Lisa? Sente alguém lhe segurar o braço e olha para o lado. Luiza com o ar muito preocupado a apoia. - Vem Lisa... vamos até sua sala Já sentada e sentindo a respiração normalizar Lisa observa Luiza que lhe aplica uma compressa na testa.
- Eu... estou bem.
- Não, não está. Esta tensa e angustiada. Você quase desfaleceu Lisa!
- Eu sei... eu... to bem. Por favor... não me toque.
- Lisa... Luiza abaixa a cabeça. – está bem. Vá para casa.
- Não posso Lu... não quero. Está tudo bem.
- Lisa... precisamos conversar.
- Luiza... me deixe. Não me perturbe. Eu não estou bem.
Luiza a observa calada. Lisa parecia muito longe dali. Ergue-se e caminha em direção a porta. Não era hora de se impor.
- Ok Lisa... precisando sabe onde estou. Lisa de cabeça baixa parece não ouvi-la. Luiza então, agindo impulsivamente, se volta para perto dela ergue-lhe a cabeça e lhe dá um suave beijo nos lábios. - Eu vim para você...
Lisa a olha chocada e sem palavras. Lu passa a mão delicadamente por seu rosto sorri e se retira. Lisa põe a mão sobre a face onde a morena lhe tocara. Sente um calor e uma sensação de bem estar tomar conta do coração antes oprimido. ‘ Para mim... ela veio para mim... ’

 "Cada um tem um papel único na vida. Todo mundo, especialmente você, é indispensável."
(Nathaniel Hawthorne)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Capítulo VIII

O Shopping não estava cheio. Era domingo e Deise caminhava lentamente observando as vitrines sem grande interesse. ‘Aff... ninguém merece esse tédio’ sussurra baixinho.
- Não acho que esta blusa ficará bem em você.
Assustada com a voz inesperada perto de seu ouvido Deise vira-se para trás e dá de cara com Lisa sorrindo. Volta o olhar para a vitrine rapidamente reparando a blusa em exposição e sorri. Era mesmo horrorosa.
- Com certeza que não. Estava só olhando.
Começam, como que em comum acordo a caminharem juntas. Deise, meio cautelosa e surpresa com a presença da loira que praticamente a ignorara a semana toda, a olha disfarçadamente. Lisa parecia cansada, com olheiras profundas.
- Está tudo bem Lisa?
- Tudo Deise – sorri, mas o mesmo não chega a seus olhos. Passa a mão nos belos cabelos e esfrega a testa. – na verdade nem tanto.
- Quer falar? Lisa olha Deise e para de caminhar. Gostava realmente dela. Passava algo de positivo, uma energia boa, suave, sincera.
- Gostaria sim. Que tal um lanche?
Já sentadas na praça de alimentação Deise pede um chope. Com certo enjôo Lisa torce o nariz e pede uma limonada suíça.
- Não quero por álcool na boca tão cedo.
- Hum... andou abusando?
- Abusando e ‘burrando’ muito por causa dele. Mas na verdade não é isso que realmente me aflige. – Poe a mão sobre o queixo e respira fundo. – Sabe quando você sabe que deve tomar certa atitude, mas não quer tomar por conta de um passado que ainda te atinge?
- Hã? Bom... não entendi bem, mas... tem algo de seu passado que te incomoda é isso? Lisa observa Deise atentamente. Como a ruiva era bonita com seu rosto meio infantil e um corpo de mulher. Os olhos verdes estavam claros, profundos... sérios. Ela lembrava tanto alguém que Lisa chegava a sentir aperto no coração. Arregala os olhos e novamente encara Deise nos olhos. Ela lembrava... Mari!!!
- Meu Deus! – Põe a mão sobre a boca.
- Que foi Lisa? Parece que viu fantasma!
- Não... é que agora, só agora percebi quem você me lembra.
- Nossa! Deve ser alguém bem assustador pela sua cara.
- Pelo contrário. É alguém que amo muito. Na verdade é o meu problema.
- Cada vez mais confuso... e interessante. Toma um gole do chope e sorri – Fala mulher!! Não me mata de curiosidade.
- Ei!! Você é minha paciente. Modere o tom, diz rindo.
- Nunca fui sua paciente. E para sua informação nem o sou mais lá na clínica. Recebi alta na sexta, diz meio triste.
- Sério? Mas isso é muito bom.
- É... acho que sim. Minha mãe está toda feliz. Por ela iríamos hoje mesmo pro sul, mas temos que resolver ainda alguns problemas pendentes. Recebi a noticia sexta à tardinha.
- Hum... não fiquei sabendo.
- Foi a Doutora Luiza quem me chamou. Na verdade eu e ela conversamos um pouco a tarde. Um pouco depois ela mandou me chamar novamente junto com minha mãe. Disse que havia conversado com a equipe que me acompanhava e juntos concluíram que eu já estava apta a receber alta. Agora é comigo. – Deise a olha meio desamparada. – Foi tipo um choque sabe. Não esperava.
- Nem eu... Lisa a olha pensativa – nem eu Deise. Sobre o que conversaram à tarde? A ruiva a olha acuada e sente o rosto esquentar.
- Na verdade foi um pouco pessoal. Eu... falei de algumas duvidas minhas.
- Sobre? Deise toma todo o chope de uma vez.
- Sobre... bissexualidade. Acredita? Falei disso com aquela... amazona!
- Deise... falou do que aconteceu entre nós?
- Eu... eu... não lembro... acho que... não...
Lisa sente o rosto acalorar. Luiza sabia dela e Deise... sabia e planejara cada passo da noite anterior. ‘Vou eliminar aquela mulherzinha!’
- Lisa! Não falei nada que te comprometesse! Não fiz nada!
- Calma Deise. Luiza não é minha chefe. É minha colega de trabalho. Alem que ela não diria nada. Tenha certeza.
- Bom... que bom né.
Mas Lisa parecia distante, o olhar perdido. Deise ergue os dedos e pede mais um chope. Depois estala os mesmos no rosto de Lisa.
- Olha eu não queria envolver ninguém. Mas ela estava ali... se mostrou tão amiga que quando vi estava desabafando.
- Deise tranqüiliza. Luiza pode ser arrogante, mas é uma pessoa de índole. – ‘Índole a porra’ pensa revoltada, mas mantém as palavras.
- Sabe... pensei muito quando perguntou se eu era bissexual. Não acreditava nestas coisas. Mas agora... vejo bastante sentido nisso. Gosto de namorar, gosto de homens, mas me atraio por mulheres também. O que me parecia absurdo antes agora é algo natural. – Deise a olha séria. – Doutora... Lisa... é natural.
- Também acho Deise. Veja bem, eu sou lésbica. Não preciso mais te esconder isso. Mas omito. A sociedade não permite sermos nós mesmos. É cruel, falsa. Uma grande maioria é frustrada, não aceita e reprime seus desejos. Conheço mulheres que seriam felizes assumindo sua condição de lésbicas, mas preferem casar, ter filhos, dar satisfação a uma sociedade que não está nem aí para elas, suas tristezas, suas frustrações. É revoltante a falsidade dos supostos conservadores. Os mesmos que não hesitam de trair as próprias esposas. Odeio falsos valores.
- Verdade...
O silencio impera entre as duas. Cada uma perdida em seus pensamentos. Lisa observa a ruiva sorrir para o garçom que chega à mesa. Simpática e delicada ela não tinha nada de menina como ela pensava. Era uma mulher jovem e maleável, aberta a novos conhecimentos e persistente no que acreditava. Seu olhar se suaviza ao vê-la ‘bicar’ o chope com uma expressão de prazer.
- Que foi? Tá me encarando.
- Hum... Você só se parece com alguém que conheço, mas o gênio é bem diferente.
- Quem é ela?
- Uma menina ainda. Lisa sorri nostálgica – menina, mas com muita atitude. Seu olhar se perde no passado. – Mari... Mariana. Tem alguns anos que não a vejo. Ela é linda alegre... mas tem um gênio terrível!! Como a mãe. O olhar endurece – Como a mãe.
Deise permanece em silêncio. Percebe que aquele momento pertence só a Lisa. Aguarda pacientemente que esta continue falando. Lisa balança a cabeça como em uma negativa e a olha
- Você tem olhos parecidos com os de Mari. Verdes, calorosos, meigos. Passam sinceridade. Na verdade Mari é meu grande problema.
- Por que Lisa?
- Daqui um mês ela faz quinze anos e me convidou para sua festa.
- E...
- E eu e a mãe dela não nos falamos mais... já há uns dez anos. Foi uma grande... amiga minha. Mari é afilhada de meus pais e eu... bem a adoro muito. Sempre que posso a vejo. – Olha Deise séria – Sempre na casa de meus pais.
- Ela parece ter carinho por você né.
- Demais! E eu por ela. Amo demais aquela menina.
- Onde é?
- Minas Gerais. Sou mineira. Belo Horizonte.
- Acho que devia ir. De boa, se você é de lá, seus pais moram lá, sempre teve contato com ela. Porque você vai deixar de dar atenção a alguém que sempre te teve carinho por causa de um conflito que pertence a você e a mãe dela?
- Colocado assim é bem simples – Lisa sorri meio irônica.
- É simples Lisa. Você deve simplificar a vida não complicá-la. – Põe a mão no rosto rindo. – e fui eu que disse isso! As duas riem
- Você me faz bem Deise sabia?
- Lisa... porque me evitou tanto na clinica? A loira a olha séria.
- Deise. Ali sou a profissional. Não posso me envolver com pacientes. Alem que percebi sua confusão com toda a situação e... bem... simpatizo muito com você Deise... eu... jamais aproveitaria de um momento de conflito seu.
- Conflito... é sou conflitante... mas Lisa... se acontecesse algo é porque eu queria. Você realmente me vê como criança né.
- De forma alguma! Ou talvez... justamente por que você me lembra Mari.
- Uma adolescente!
- Exato. Uma adolescente. Sinto muito.
- Tudo bem... mas não sou adolescente. - E como a querer provar isso dá um longo gole na bebida. – Ahhhh!! Delícia!
Lisa sorri e olha para os lados. Vê o cinema e o filme que iria passar.
- Hum... que tal um cinema?
- Menina! Adorei! Vamos fechar com chave de ouro meus dias na Grande São Paulo!
As duas se encaram. Lisa sente uma tristeza ao sentir que não verá mais a ruiva que tanto a cativava. Deise, porque sabia que deixaria para trás aquela que poderia enriquecer e muito a sua existência e suas descobertas. Já dentro do cinema se sentam lado a lado. Deise ciente da presença loira a seu lado sente o coração disparar. Recorda o beijo que trocaram e geme baixinho.
- Tudo bem Deise?
- Hã? Tô... claro... eu to. Lisa... eu...
- Você?
 - Lisa... eu... gostei do beijo. Do nosso beijo.
- Deise... – Lisa diz baixinho - Você não que falar disso.
- Quero! Eu quero! Lisa... eu quero.
Lisa sente a mão da ruiva tocar a sua no escuro do cinema. Delicadamente a aperta e suspira. Vira o rosto e a encara.
- Deise...
- Me beija de novo... beija.
Mesmo pedindo, Deise não espera a ação de Lisa. Segura seu rosto delicadamente e a beija. Um beijo tímido e inseguro. O coração de Lisa se enternece. Segura as mãos delicadas com as suas e aprofunda o beijo.
O escuro do cinema oculta o proibido. O filme segue seu curso até o final inesperado que surpreende a platéia. Alheias a tudo isto duas belas mulheres trocam beijos molhados repletos de ternura e vontade. Buscam uma na outra as respostas do que temem, as respostas do que desejam. Ao final sorriem e se separam.
Sem respostas e sem um final.  

"A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente..."
(Soren Kierkegaard)