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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Capítulo XIII

Mariana desce desanimada do carro. Não dormira nada. Se sentia jogada num limbo onde nada fazia sentido. Como sua vida podia mudar tão radicalmente? Sua mãe... Lisa. Olha a casa de seus pais e abaixa a cabeça. Lisa... ela perdera Lisa. E a culpa era de sua mãe. Volta o olhar para o padrinho que tocava o interfone. Olha para o outro carro e desanimada faz um gesto de despedida para a madrinha que, corajosamente, viera de Lagoa Santa a BH, ao volante.
- Carlos? Tudo bem? É Marcos. Vim trazer Mariana.
A jovem ouve o clique do portão sendo aberto. Logo Carlos surge, de short e camisa polo.
- Marcos!
Os dois homens se cumprimentam com um abraço. Mariana observa o rosto de Carlos e percebe que ele nada sabia. Marcos tem a mesma percepção.
- Hum... E então Carlos? E Joyce? - Pergunta olhando de soslaio para a afilhada.
- Pois é rapaz! A mulher está mal. Nunca vi Joyce com enxaqueca. Pensei ate levá-la ao hospital. - Olha a enteada sério. - Devia ter voltado com ela.
- Ela não admitiu, Carlos. - Marcos interfere rapidamente.
Carlos observa atentamente o rosto de Mariana. As olheiras profundas, o ar extremamente triste.
- Mariana... - Carlos se aproxima da jovem – Não foi exatamente uma enxaqueca, não é?
- Eu... Carlos...a gente... brigou.
- Eu sabia! A história estava muito estranha. O que aconteceu?
- Eu...minha mãe...- Olha o padrinho sem saber exatamente o que dizer. - Ah, Carlos, prefiro deixar para lá. Eu... estou cansada. Vou para meu quarto.
Carlos observa-a entrar na casa e se volta para Marcos, que lhe estende a chave do carro.
- O que aconteceu Marcos?
- Olha Carlos, isso é algo que deve conversar com sua esposa. Bom, tenho que ir. Apareça lá em casa.
- Claro.
- Até logo.
Carlos entra devagar em casa. O desespero de Joyce, a tristeza evidente de Mariana. Seja lá o que ocorrera entre elas, não fora pequeno.

Joyce ergue a cabeça do travesseiro ao ouvir a campainha. Mariana! Se ergue tensa. Volta o olhar para a porta e, desanimada, volta a se deitar. Não sabia o que dizer a ela. Não tinha como desmentir os últimos acontecimentos. Tudo lhe era escuridão. O que fizera de sua vida?
Levanta-se e caminha em direção ao banheiro, onde toma um banho demorado.
Ao voltar para o quarto, encontra Carlos sentado na cama.
- Vai me contar o que realmente aconteceu no sitio?
Joyce suspira tensa. A vontade de jogar tudo para o alto, se faz ainda mais presente dentro dela.
- Carlos... é algo que somente eu devo resolver.
- Joyce, eu quero saber o que aconteceu neste sitio. Primeiro você me alega uma dor de cabeça insuportável, e agora é Mariana que chega com cara de enterro. Me responda agora, o que aconteceu!
Jô o olha displicente. Responder agora? Quem ele pensa que é?
- Carlos, preste muita atenção no que EU vou lhe dizer agora. Não me interessa se quer saber agora ou depois. Não me interessa sua opinião. Estou cansada de suas exigências sem nada dar em troca. Estou cansada de investir em um casamento falido. Se está desagradado vá embora. Mas, preste atenção, eu só lhe darei a resposta que deseja, quando e se achar que devo.
Carlos arregala os olhos surpreendido. Não esperava o ataque de Jô.
- Sempre parte para ignorância, quando não quer falar em determinado assunto! - Faz uma cara de desgosto.
- Ignorância? Ignorância reconhecer que nosso casamento está uma merda? Que você nunca conversa, só impõe? - Jô faz um gesto de descaso - Carlos, eu não preciso de você. Não preciso de sua autoridade, de sua complacência fingida. Se me acha ignorante, a porta da rua está aberta
- Que quer dizer exatamente com isso Joyce?
- Que estou cansada! Cansada entendeu! - Joyce se vira violenta para ele. - Quer mesmo saber o que aconteceu? Pois eu lhe digo. Peguei Mariana aos beijos com Lisa.
- O...que????
- Exatamente. As duas estavam lá aos agarras.
- Eu... eu... eu to chocado! Aquela vaca!
Joyce dá um sorriso de escarnio.
- Vaca maior fui eu, Carlos. - Aproxima dura do marido. - Vaca sou eu, que mantenho esse casamento de fachada enquanto vejo minha filha trazer meu passado à tona.
- Não entendo – Carlos faz um ar de desentendido
- Mesmo Carlos? Não entende, ou finge não entender? Por que sempre teve birra de Lisa? Me responda.
- Exatamente pelo que acaba de me contar! Ela não tem escrúpulos! É uma sem vergonha.
- Carlos... você sempre a odiou, porque sabia que ela era a única que poderia me tirar de você.
- Como... como é?
- É isso mesmo! Você sempre soube Carlos. Sempre soube que tive um caso com Lisa!
- Cala a boca! Me recuso a ouvir isso!
- Por isso sempre me incentivou a manter a briga com ela. Por isso fez de tudo para afastar Mariana dos padrinhos.
- Já disse para calar a boca!
- Não calo! Estou cansada de aguentar seu ar superior, como se fosse melhor do que eu! Em que é melhor? Em nada! Acha que não sei de seus casos? Eu não aguento mais!
- Você está sendo ridícula.
- Ridícula? Eu gritei, Carlos, para todos ouvirem que Lisa foi minha um dia.
Carlos a olha nervoso e impotente. Não queria ter aquela conversa. Por anos conseguira ignorar tudo, toda a vida de Jô. Fechara os olhos, para sua certeza sobre o caso de amor de sua esposa e Lisa. Como ela ousava agora, trazer isso a tona?
- Você não quer conversar sobre isso. - Caminha angustiado pelo quarto.
- Sim, eu quero. Estou cansada. Cansada de fingir que tudo está bem. Eu... não aguento mais Carlos. O grito sai angustiado – Não aguento mais fingir que tudo está bem. Minha filha está naquele quarto me odiando. Estou cansada, e você... você é o menor de meus problemas.
Carlos engole em seco.
- Menor? Menor? Você é uma vagabunda, Joyce. Brinca com os sentimentos de todos a seu redor! Sim, eu sabia! Sabia de você e Lisa! E daí! Foi um momento adolescente, uma brincadeira sem grande consequências. - A olha raivoso - Eu te amava! A queria para mim. Lutei por isso e venci. Assim como sempre lutei por este casamento! Acha que é a única cansada?
- Chega Carlos.
O marido a agarra pelos braços, tenso.
- Não chega! Joyce, eu sou um cara bom! Eu quero ser feliz! Por que não suporta a ideia de ser feliz, mulher. Por que?
- Por que sem Lisa não sou feliz!!!!
Carlos a solta surpreso.
- Meu Deus! Quem é você! Com que me casei!
Joyce o olha entre as lágrimas. Carlos passa a mão sobre o rosto. Dentro de seu desespero, relembra o motivo da briga entre Jô e Mariana.
- Joyce, você nunca terá Lisa. Mesmo que eu seja o menor de seus problemas, você nunca terá Lisa. Sabe por que? Por que alguém mais nesta casa a quer. Sua filha. Até onde irá seu egoísmo?
Joyce lhe vira as costas
- Não adianta me virar as costas, Joyce. Você desistiu de nós? Tudo bem. Mas desistirá de sua filha? De seus filhos? Porque lutarei cada dia de minha vida por eles. Não deixarei serem criados por uma sapatão.
- Você é nojento Carlos! Você não merece ser feliz! - Joyce o olha com ódio.
Carlos a olha angustiado. Os ombros caídos mostram todo seu desespero.
- Onde errei Joyce? O que fiz de errado?
Jô engole em seco quando vê os olhos do marido marejados. Ela estava destruindo tudo. Tudo e todos.
- Deus...Deus... Deus...
- Eu...tenho que sair daqui. - Carlos abre a porta nervoso – Jô, eu não vou sair desta casa.
- Eu... não pedi isso...
A porta se fecha com um estrondo.

Mariana se sobressalta quando houve a porta batendo. Sabia que os pais estavam brigando. A vida se tornara um inferno. De repente, a porta de seu quarto se abre. A mãe entra a olhando em silêncio.
Mariana também a encara sem desviar os olhos.
- Mariana, não peço que me entenda, nem que me desculpe. O meu passado pertence a mim. Minha historia com Lisa é algo que... faz parte de mim. Somente de mim. E... exatamente por saber o sofrimento que passei, não desejo que passe o mesmo. É por amá-la, que lhe proíbo de se envolver com Lisa.
Joyce silencia, observando o rosto da filha. Nada. Nenhuma reação. O silencio se torna opressivo. Devagar se vira para sair do quarto. Não haveria diálogo entre elas.
- É só isso que tem a me dizer?
Joyce a olha angustiada.
- Filha, eu... cometi muitos erros nesta vida. Muitos mesmo. Mas eu a amo. Se …se soubesse que estava gostando de Lisa, eu teria de contado tudo.
- Teria mesmo, mãe?
- Sim... eu teria. Eu não posso negar nada. Realmente era eu naquele restaurante.
Mariana abaixa a cabeça.
- Quem ...era ela?
- Minha ex amante.
- Ex?
- Sim... já não estamos mais juntas.
O coração de Mari se oprime.
- Não? E por que?
- Resolvi... lutar por meu casamento. - Joyce espera que seu rosto não denuncie a mentira.
- Mentira!! Você fez isso, porque quer Lisa de volta! Diz que não é verdade!
- Pare com isso Mariana! Nada disso. Não quero saber do passado. Quero um futuro! É isso que quero.
- Você trai o Carlos! Que futuro tem nisso! Você... você gosta de mulher e casa com um homem! Que futuro tem isso? Como pode se orgulhar do que é mãe?
- Você não entende nada, Mariana! Se acha uma mulher, mas não passa de uma criança cheia de ilusões. A vida não é cor de rosa como pensa!
- Você e Lisa não precisaram se esforçar muito para me mostrar isso.
Joyce a olha tensa. Respira fundo, tentando controlar seu gênio forte.
- Você está enganada. Eu gosto de homem. Não me peça para explicar, mas gosto. As vezes me vem...este desejo pelo feminino, mas é passageiro. E…exatamente por ser assim comigo, SEI que com você é igual! Lisa não passa de um capricho seu. Se permita viver Mariana! Conhecer rapazes, pessoas. Você nunca se deu este direito e hoje sei que é por causa desse... dessa obsessão por Lisa. Acabou, entendeu! Não a quero perto de Lisa!
- Você não esta nem aí para o que sinto né mãe. Só importa você...você, você!
- Você também nunca tentou me entender, Mariana! Eu estou pensando em você!
Mariana dá um sorriso de desprezo.
- Sei... olha, não me interessa o que você pensa, não me interessa o que quer. Estou de saco cheio de tudo, e você mãe... você é sempre uma decepção.
Os olhos de Joyce se enchem de lágrimas.
- Um dia você me dará razão, filha.
Mariana a olha fria. Os olhos verdes estavam claros... muito claros.
- Olha, você acha que não tem que se desculpar, desmerece os meus sentimentos e ainda diz que te darei razão. Ok, se acha que é assim, tudo bem. Agora quem vai falar sou eu. - Olha a mãe sem conseguir esconder o olhar cheio de mágoa. - Eu te desprezo. Você é tudo que jamais serei em minha vida. Não importa os caminhos que vou seguir, tenha certeza que você nunca será meu exemplo.
Joyce engole em seco. Um soluço seco chega a sua garganta.
- Eu...eu sempre te amei filha... eu te amo.
- Que amor é esse mãe!!! - Mariana não consegue conter o grito. - Que amor é esse que só exige? Você, em nenhum momento, pensou o que estou sofrendo. Só sabe dizer que me quer longe de Lisa!
- Não quero que ela te faça sofrer como fez a mim! Você não entende!
- Mãe, olha para mim! - Mariana se aproxima de Joyce – Olha para mim... eu to sofrendo. Eu amo Lisa.
- VOCE NÃO AMA NINGUEM! - Joyce grita e começa a tremer angustiada. - Mariana do céu, que vida deseja para você? Lisa é velha, nossa senhora! Ela tem minha idade!
Mariana balança a cabeça desconsolada.
- O que me dói não é a idade dela, é saber que vocês... vocês... Por que sempre escondeu isso? Porque sempre foi tão preconceituosa quando você... eu não entendo!
Joyce engole em seco.
- Isso é passado. Erros do passado.
- Não tão passado assim! Ou não estaria agarrando uma mulher num bar!
- Foi recaída! Coisa de momento! Preste atenção! Não tenho que dar satisfação de minha vida!
- Muito menos eu minha mãe. Tenho dezoito anos, não preciso te dar satisfações.
- Você é minha filha! Mora em minha casa! E me deve satisfações sim! Enquanto eu quiser, entendeu!
Mariana a encara com ainda mais raiva.
- Se é assim, saio de casa. Isso não é problema. Mas na minha vida mando eu!
Joyce arregala os olhos. Como assim sair de casa?
- Não me faça rir. E pensa ir para onde, Mariana? Sua avó jamais irá contra mim, e seus padrinhos... depois de ontem, não acho que seja um bom lugar.
Mariana a encara mais arrogante que ela. Eram duas oponentes a altura.
- Tem razão mãe. Mas eles não são minha opção. Tenho um pai sabia?
- Pai? - Joyce ri nervosa. - Carlos jamais aceitará o que fez. Ele ficará de meu lado. Além que ele mora aqui menina.
Mariana a olha irônica.
- E por acaso Carlos é meu pai? Esqueceu dona Joyce, que você, que tanto preza satisfações, engravidou aos dezesseis anos com... Daniel? Meu pai?
Joyce abre a boca chocada.
- Como...como assim?
- Como assim minha mãe, que MEU pai não hesitará de abrir as portas de seu lar para mim. O que ele mais deseja é me conhecer mais e mais. - Mariana dá um sorriso ainda mais irônico. - Sabia que ele está bem de vida? Trabalha numa multinacional? Pois é... como vê, tenho sim, onde ir.
- Como... como? Como você conheceu Daniel? - Joyce começa a tremer e nervosa gesticula os braços.
- Não te interessa. - Mariana lhe vira as costas. Joyce a pega pelos braços nervosa.
- Não me vire as costas! Como conheceu este homem?
- Eu o procurei está bem? Queria conhecer o homem que me deu a vida.
- O homem que me destruiu!! E você... você... ousou procurá-lo? Conhecê-lo? Com que direito o conheceu?? Com que direito?
- O mesmo direito que tenho de lhe dizer. Me deixe em paz! Suma de minha frente! Olha, estou no limite! Sou capaz de sumir de sua vida e nunca mais voltar!
Joyce começa a tremer. Daniel. Segura a cabeça com as mãos, expressando no gesto, todo seu desespero.
- O que você fez comigo? Por que? Você... - Olha a filha horrorizada. - O que você fez?
Mariana a olha, tentando ignorar o sentimento de culpa dentro de si. Bastava pensar em tudo que acontecera no dia anterior, para que toda a raiva suplantasse qualquer sentimento de pena em relação a mãe.
- Fiz o que achei certo. Como disse, não te devo satisfação. Saia de meu quarto mãe. - Mariana aponta a porta.
Joyce arqueia os ombros totalmente apática. Seu passado voltara com toda a força a sua vida. Sem nada enxergar, caminha em direção a porta.
- E mãe! Não se preocupe quanto a Lisa. Não a quero mais. - Mariana sufoca a angustia que lhe bate quando profere estas palavras. - Ela é como você. Uma decepção. - A vontade de dizer que as duas se merecem fica entalada em sua garganta. Não daria Lisa de mão beijada a mãe. - Quero distância de vocês duas.
A porta se fecha devagar. O silencia é sepulcral. Mariana, finalmente, permite que as lágrimas escorram de seus olhos. Sentia-se traída, machucada.
Chega de lágrimas senhor... vou mostrar a elas que posso ser melhor. Eu vou ser melhor.

Joyce caminha como autônoma pelo corredor. Daniel... ele destruíra sua adolescência e seus sonhos. Carlos... Carlos os resgatara. Tudo estava tão errado. Lisa, Mariana... era absurdo.
Joyce encosta na parede. Mariana a odiava. Tudo estava errado. Filhos tem que amar os pais. Abaixa a cabeça arrasada. Não queria perder sua filha. E não sabia o que fazer, para que isso não ocorra. Tudo nela estava confuso, contraditório. A filha que amava, também era sua rival. E isso lhe desesperava. Queria agir como mãe, mas gritava e agredia como rival.
Pela primeira vez sente realmente, que seus caminhos estavam errados, suas atitudes também. E que, com sua arrogância, estava perdendo todos que amava. Todos que amava...
Sem pensar muito, volta para o quarto da filha e abre a porta num ímpeto. Mariana arregala os olhos e apruma o corpo, como a se preparar para a guerra. Joyce ergue a mão, tensa e entregue.
- Filha... eu… errei. Me desculpe. Tem razão, não tenho direito de exigir nada, mas... eu... - O rosto distorce com desespero - Eu não posso perdê-la. Você é minha vida filha. E eu te amo. Eu... peço que fique aqui, por favor. - Rompe num choro angustiante. - Mari...Mariana... eu... destruo todos que amo... por... por...favor... eu... vou melhorar... eu... me dê uma chance... eu... - Não consegue mais dizer nada. O choro é intenso.
Mariana a olha entre surpresa e angustiada. O coração doía, mas não conseguia perdoar a mãe... por mais que quisesse não podia.
- Eu... mãe... me deixe só. Eu...vou ficar... mas me deixe só.
A mãe faz um gesto afirmativo com a cabeça e, ainda em prantos, se volta e sai correndo do quarto. Mariana agarra a cabeceira da cama em desespero.
Como um momento tão mágico, tornara sua vida tão horrível? Como um momento único, destruíra todas suas crenças , suas filosofias? Como um momento tão especial, fora profanado pelo passado de sua mãe e de Lisa? Como um amor tão certo, tão único, perdera a força diante das provações da vida dos que nele estavam envolvidos?
'Será que realmente amo? Ou amo a ideia de amar?'

“Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.”


domingo, 26 de setembro de 2010

Gente! Quando ouvi esta musica, imediatamente pensei no conto, rs.
Resolvi partilhar com vcs.
Adoro esta cantora
Bjs


video

sábado, 25 de setembro de 2010

Capítulo XII

As lágrimas não paravam de correr. Mari as enxuga com raiva. Não conseguia enxergar a beleza que se deslumbrava a sua frente. Tudo que via era a mãe gritando, avançando sobre Lisa. Mais uma vez começa a soluçar. Ela, sua mãe, Lisa...elas...amantes. Como não percebera antes? A ânsia da mãe para estar perto de Lisa, o constrangimento desta. A forma que evitava conversar quando o assunto era Jô. Sempre buscando justificar cada atitude dela. Deus, estava ali, na sua cara! E ela, cega de amor por Lisa, não vira.
'Você é uma idiota Mariana. Qualquer um sacaria. Lisa lésbica, a raiva de sua mãe por causa disso. Depois o fragrante de vê-la num bar aos beijos com outra mulher. Estava na cara que elas tinham algo. Sempre tiveram. Mari não consegue controlar os soluços cada vez mais fortes.
Nunca imaginara sentir tanta dor. Nunca.
'Lisa...Lisa... por que fez isso comigo? Por que me iludiu? Por que?'

- Mari?
A jovem ergue o olhar para Paula, que a olhava penalizada.
- Ah, filha, não fique assim. - Paula senta-se ao lado de Mari e a abraça. - Tudo deve ter uma explicação.
Mari não responde. Tenta controlar a angustia e o choro
- Mari, tem que se acalmar filha. Olha, sua mãe foi embora com Junior. Você vai ficar aqui, tomar um banho e se acalmar. Vamos pare de chorar.
- Ma...ma...dri...nha, dói tanto.
- Ah filha, eu sei que tudo tem explicação.
- Ela...brincou comigo. Ela...sabia que eu a amava e mesmo assim...ela... ela...
Novamente Mari cai em lágrimas. Era horrível saber que Lisa brincara com seus sentimentos. Ela que sempre lhe dedicara o mais puro dos sentimentos.
- Filha... olha, as coisas podem não ser exatamente como pensa.
- Elas são amantes Paula! - Mari grita com a madrinha. Paula surpreende em ver a afilhada, sempre tão carinhosa, gritar e lhe chamar pelo nome.
Mari se afasta e novamente enxuga o rosto com raiva.
- Ela brincou comigo. Ela e minha mãe.
- Mariana, Lisa pode ter seus defeitos, mas tenho certeza que não feriria seus sentimentos por querer.
A jovem se vira para ela.
- Então me diz... me diz que elas não tem, nunca tiveram nada!
Paula estremece.
- Esse assunto cabe a Lisa e Jô responder, Mariana.
Mariana solta uma risada irônica.
- Você acaba de responder.
- Não é assim Mariana! Eu conheço minha filha.
Mari abaixa a cabeça e permanece em silencio. Paula a observa por alguns minutos, ate que não consegue mais segurar a pergunta que a sufoca.
- Você... Lisa... vocês estão juntas? Mari... não compreendo. Você e ela... ela te viu crescer.
- Pelo amor de Deus! - Mariana se levanta impaciente. Põe a mão sobre a garganta e se vira revoltada para a madrinha. - Por que sempre me jogam a idade na cara? Olha para mim madrinha!
- E coloca as mãos ao longo do corpo. - Pareço uma criança? Veja! Tem dó! Eu sou uma mulher! Sinto como mulher! Sofro como mulher! E to morrendo por dentro!
- Ah Mari...
- Eu sempre a amei... sempre. - A jovem coloca a mão sobre a boca, sufocando um soluço. - Sempre... esperei por ela. Eu...sempre a amei... e ela... ela... fez pouco de mim, de meus sentimentos... de tudo.
- Filha... meu Deus... Lisa é muito mais velha que você.
Mariana olha para a mãe de Lisa sentindo-se repentinamente sem forças.
- A dor está em minha alma... o amor também... o amor tem idade madrinha?
Sua frase cala fundo dentro de Paula, que se ergue perturbada. Lançando um novo olhar para a afilhada, que voltara a sentar na pequena bancada, retira-se em silencio. Marcos observa a esposa caminhar lentamente de volta a residência.
- Paula? - Abraça-a carinhoso.
- Querido, posso pedir algo, do fundo de meu coração?
Marcos suspira já sabendo o que a esposa queria.
- Dei minha palavra Paula.
- Não, querido. Você disse que cuidaria de Mariana e que olharíamos por ela. - Toca o rosto do marido – Elas precisam conversar.
- Querida...
- Marcos, eu não acho que trará grandes mudanças, mas... Mariana precisa ouvir Lisa. Elas precisam conversar. Acredite.
Marcos suspira tenso e passa as mãos nos cabelos.
- E hoje era para ser um dia alegre... ok amor... Mas antes quero falar com Lisa. Ok?
- Tudo bem... - Paula olha triste a afilhada ao longe. - Hoje foi um dia difícil. Vá. Vá chamar Lisa.

Lisa enxuga os cabelos, totalmente sem animo. Suspira e põe as mãos sobre o colo. Sente os olhos lacrimejarem e balança a cabeça angustiada. Nunca vira Joyce enlouquecida daquela forma. E Mari... a dor lhe vem no coração de forma desesperada. Os olhos de Mari eram a expressão de sua alma. E vira a luz desaparecer daqueles belos olhos verdes. A decepção apagara toda a beleza daquele olhar. E ela era culpada. Somente ela....
'Ah Jô, que fizemos? Que fizemos?'
Ouve a porta se abrir.
- Lisa...
- Pai... - balança a cabeça desalentada e segura os braços defensiva.
O pai senta-se a seu lado na cama.
- Lisa, não vou perguntar nada. Prefiro acreditar que você jamais brincaria com os sentimentos de Mari...e mesmo de Joyce.
- Pai, não... eu...
O pai ergue a mão resoluto.
- Não quero saber. Sempre respeitei suas escolhas. E não foi fácil. E você filha... você nunca me deu motivo para me entristecer por suas escolhas. Até o dia de hoje. E espero, realmente espero, que vá lá fora e busque consertar as coisas da melhor forma possível. Não admito que brinque com Mariana. Nunca mais! Entendeu! Nunca mais!
- Pai... eu jamais faria isso! - A voz de Lisa era tremula.
- Lisa! Vou ser sincero. Por mim, você não conversava com ela. Mas sua mãe acha que é o melhor. Então não discuta e vá logo, antes que eu mude de ideia.
O pai não espera resposta. Se ergue e sai do quarto, mostrando claramente seu desagrado com toda a situação.
Lisa abaixa a cabeça. O desgosto do pai era mais uma dor que teria que carregar.

- Mari?
Mariana ergue a cabeça alerta, ao ouvir a voz de Lisa. Enxuga as lágrimas e se ergue com raiva, evitando olhar para a loira.
- Que você quer?
Lisa suspira triste e devagar se senta onde antes sentava a jovem morena. Olha a escuridão e, quase sem sentir esfrega a testa.
- Mari... precisamos conversar.
- Não quero falar com você.
- Mari... por favor... por favor. - Sua voz sai tremula.
Mariana sente os olhos lacrimejarem.
- Eu... você... você... e minha...minha...mãe!!
- Não! Mari... não...
A voz e postura de Lisa é tão derrotada, que Mariana instintivamente a olha. Lisa retribui tristemente o olhar. O rosto de Mariana estava inchado de tanta chorar.
- Eu... me deixa falar?
Mariana permanece em silencio, o que Lisa entende como permissão.
- Mariana... eu... eu... - Lisa passa as mãos nos cabelos úmidos – Meu Deus, isso vai ser difícil.
- Diz logo Lisa! - Mari fala repentinamente, a voz repleta de raiva e magoa.- Diz logo de você e minha mãe! De como me fizeram de boba!
- Mari, não!! - Lisa se levanta, colocando-se de frente a ela. – Não! Não estou com sua mãe, Mari! Não somos amantes!
- Ela... ela disse que você... que você... comeu ela. - Os olhos se enchem de novas lágrimas.
- Deus... Mari... eu. - Lisa respira fundo – Mari, eu e sua mãe, nós... ela foi minha primeira namorada.
- Não... - A voz de Mari sai baixinho
- Ela foi meu primeiro amor Mari. - Lisa olha o infinito, sem perceber o quanto seu olhar se tornara distante – Minha primeira mulher.
Mariana abaixa a cabeça soluçando baixinho.
- Desculpe não contar, Mari. - Lisa volta a olhar para ela, os olhos escuros e angustiados. Ergue as mãos impotente. - Mas também como contar? Mari, querida, eu e sua mãe já fomos namoradas. - A ironia atinge Mariana.
- Teria sido mais honesto, Lisa! Não me sentiria tão idiota e nem correria igual cachorrinho atrás de você pedindo migalhas de atenção.
- Mari, não! Nunca te dei migalhas! Eu...
- Que me deu então, Lisa? Compaixão? E para minha mãe, que deu? Me diz!
- Mari... eu... sua mãe é passado. Eu, ela... meu Deus foi na adolescência!
- Quantos anos tinham?
- Dezessete.
- Um a menos que eu, Lisa. Esta menosprezando o que sentia por você?
O coração de Lisa falha ao ver Mariana se referir a ela no passado.
- Não! Droga Mari. Eu amei sua mãe. Muito. Era capaz de tudo por ela. Mas ela não quis. Não queria ser apontada na rua como a… como uma lésbica. Já era mãe solteira, não queria outro rotulo.
Mariana a olha em silencio.
- Mari... ela me deixou por Carlos. Disse que era a vida que queria para ela. E eu... me senti morrer por dentro.
Mariana a olha altiva. Lentamente o desespero começa a sumir de seu rosto.
- Então agora sabe como estou me sentindo, Lisa.
Lisa a olha chocada. Nunca imaginara Mariana possuída de tamanha dor. 'Meu Deus... que estou fazendo? Ela me ama! E eu menosprezei este amor...'
- Eu vou te esquecer Lisa. Eu vou ser melhor que você jamais foi. Vou ser feliz.
Vira-lhe as costas caminhando, em direção a casa. Lisa, após o primeiro momento de apatia se ergue e a segura pelos braços.
- Mari, não é assim que as coisas se resolvem.
- Me solta Lisa.
- Mari, quando sua mãe preferiu um homem a mim, deixei o ódio tomar conta de minha pessoa. Passei a não acreditar no amor e... eu... acabei me envolvendo com várias mulheres. Nada sério. Não queria mais amar ninguém. Eu... foi uma época que não me orgulho, mas... não traz alegria Mari. Não traz nenhuma alegria.
- Lisa...
- Luiza foi minha redenção. Ela me mostrou o que realmente era o amor.
- A grande e insuperável Luiza. Quer saber. Tô de saco cheio disso tudo. De você, de minha mãe, de tudo!!! - Mari termina a frase aos gritos.
- Mari! Eu não quero que você cometa erros! Por favor! Pare com este rancor. É passado!
- EU não sou passado, Lisa. Eu não sou passado!!! Você acabou comigo, será que entende! Você era tudo para mim!!!
- Mariana, pela amor de Deus! Droga, que posso fazer?
- Eu te amava Lisa!!! Eu te amava! - Mariana deixa as lágrimas voltarem a correr no rosto jovem. - Você era tudo para mim!
- Mari! – A voz de Lisa era sofrida.- Que mais posso fazer!
Mariana tenta controlar a ânsia de novamente cair em pranto.
- Nada Lisa. Nada. Você não é, nunca foi, a pessoa que pensei que fosse. Você é uma decepção. Para mim você era perfeita.
Lisa ergue as mãos impotente.
- Bem vinda a realidade Mari. Ninguém que está nesse mundo é perfeito. Se seu amor dependia de perfeição da minha parte, só posso lhe dizer que ele nunca foi real.
- Cala a boca! - Mariana avança o corpo sobre o de Lisa. - Nunca mais tente colocar o que sinto em palavras. Somente eu sei o que tenho dentro de mim! Você alimentou seu ego em cima de minhas atenções, em cima de meu amor. Ele nunca foi real? Abracei com desespero, cada migalha de atenção que me deu. Você me usou Lisa! Usou meu amor, minha devoção a você! Nunca se permitiu sentir nada por mim! E sabe por que? Porque no fundo você é uma covarde, uma preconceituosa como minha mãe!
- Você está louca!
- Você só olhou idade, Lisa! Não queria aceitar que podia gostar da menina que teve nos braços. Na filha da sua ex amante - Mari praticamente cospe as palavras em cima de Lisa. - Tenho nojo de você!
- Nojo! Você tem nojo! - Lisa sente o corpo inflamar de indignação com as palavras de Mariana. - Vamos ver quem tem nojo!
Lisa agarra a jovem nos braços, segura-lhe a nuca e a beija profundamente. Mariana tenta se soltar dos seus braços. Mas logo começa a tremer e cede. Por mais que sua mente gritasse não, seu corpo clamava o de Lisa. A loira a abraça pela cintura, apertando-lhe com paixão. Geme revoltada ao sentir seu corpo ceder cada vez..
- Não...não...
Lisa estava perdida em sua paixão. Não queira perdê-la, não podia perdê-la. Desliza as mãos, segurando as nádegas de Mari por baixo do biquíni. Aperta-lhe o bumbum, sentindo-se molhar de tanto desejo.
- Mari... Mari... me ame Mari...
- Para Lisa... não faz isso... não... não mereço isso...
Lisa volta a beijar Mari, penetrando sua boca com a língua. Ela era sua. Mari não podia deixá-la. Leva as mãos aos seios jovens, afastando o biquíni e segurando a carne suave.
- Minha... minha...
De repente, sente o gosto de sal em sua boca. Mariana chorava em silencio, entregue em seus braços. Lisa começa a tremer. Não era assim que a queria em seus braços. Devagar, solta-a. Mariana permanecia a sua frente com a cabeça baixa, os seios expostos.
Lisa respira fundo, tentando se controlar e a olha tensa.
- Vá, Mariana.
A jovem morena ergue os olhos angustiados. Devagar arruma o biquíni e ainda chorando começa a se afastar de Lisa.
- Mariana!
A jovem para, sem se virar, diante do chamado.
- Me desculpe. Desculpe por decepcioná-la. Nunca quis desmerecer você nem o que sentia. Se … se você quer mesmo afastar de mim, vou respeitar. Não vou incomodá-la.
Lisa observa Mari, esperançosa que a jovem se vire para ela e diga que está tudo bem, que juntas superarão o momento angustiante que viviam. Mas Mari não a olha. Devagar volta a caminhar. E parte.
Lisa volta o olhar para o céu, tentando controlar a angustia dentro de si. Aperta o punho sobre o coração. Ela perdera Mariana. E isso lhe doía. Doía o corpo. Doía a alma.

A cada passo que Mariana dava, sentia um pouco de si morrer. Afastava-se de Lisa, aquela que era a sua certeza, o alento de seu coração. Sua decepção...
Ela a esqueceria. Tudo que achava ser verdade, não tinha sentido nenhum. Ela não pertencia a Lisa. Ela pertencia somente a si mesma. Devagar seu andar se torna mais duro. Nunca mais sofreria assim. Nunca mais. Estava na hora dela tomar as rédeas de seu destino.

O que me atormenta é q tudo é 'por enquanto', nada é ' sempre'“.