Páginas

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Capítulo IV

- Lisa!! Lisa olha para trás ao ouvir seu nome. Luiza vinha com passos acelerados em sua direção. Sente a respiração acelerar e observa a morena. Como era elegante com aquele andar arrogante, confiante de quem sabe que impõe, cativa, domina.
- Obrigada por esperar Lisa. A médica um pouco ofegante pela marcha acelerada respira fundo e se apoia em seu braço. Sente um formigamento tomar conta de todo o seu lado direito. ‘ Que isso gente? Pare Lisa ela nem é seu tipo’
- Pois não Luiza? Percebe tensa que sua voz saiu meio tremula A morena a observa séria e Lisa instintivamente desce os olhos para a covinha em seu queixo. Que vontade de dar uma lambida, pensa sonhadora.
- Lisa me ouviu?
- Ah?
- Você aceita ir?
- Aceitar? Aceito tudo!
- Lisa você esta bem?
- Maravilhosa!
- Lisa você bebeu? Luiza lhe dá uma ligeira sacolejada.
- Claro! Esfrega a testa nervosa e... excitada, percebe arregalando os olhos. – Eu... vou aonde mesmo? A médica a olha assustada.
- A festa em meu novo apartamento. Vou fazer tipo uma inauguração na sexta de vem.
- Serio? Puxa! Legal! Eu vou claro. A morena começa a rir. Lisa lhe parecia uma linda bobinha ali meio perdida, com um olhar inseguro e porque não dizer infantil.
- Luiza posso te fazer uma pergunta?
- Claro – sorriu - apesar de que eu que deveria as estar fazendo diante de sua atitude – responde com um olhar meio sedutor.
- Qual sua altura? E sua idade?
- Fez duas. Diz Luiza erguendo uma sobrancelha
- Aff.
- Calma Lisa... menina, você é muito esquentada. Tenho 40 anos e 1 81 cm e excelentes antecedentes. Quer também o numero de minha CI? Diz um tanto irônica. Lisa a olha ainda meio sem ação.
- Não, não precisa. Estarei lá.
Retoma seu caminho se sentindo fora do corpo. Não gostara nada das sensações de seu corpo na presença da morena. E aquele olhar? Nossa! NÃO! Nada de pensar na médica desta forma. Balança a cabeça vigorosamente. Sentia-a como uma ameaça a sua postura de vida e não queria de forma alguma mudanças nela.

Luiza, meio rindo, observa Lisa afastar totalmente distraída. Observa quando ela balança a cabeça numa negativa veemente. Percebera que de alguma forma atingira a loira. Sorri satisfeita. Com sua experiência percebera que ela gostava de mulheres. Seus olhares aos corpos femininos não a enganavam e a forma que há olhara uns minutos antes fora totalmente revelador. Com um pouco de paciência - e isso ela tinha de sobra - ela logo teria Lisa em seus braços.

- Burra! Idiota! Retardada! Ignóbil! Débil!!
 - Uau Doutora! Ninguém saberia expressar meu sentimento em relação à equipe medica desta clinica com tanta clareza.
Lisa levanta os olhos para cima erguendo os braços num ar de enfado e com uma postura irônica vira o corpo para trás.
- Com certeza seu problema não é audição. Deise ri divertida e simula estar se preparando para uma luta de Box.
- Olha lá em doutora! Já consigo me defender de uma boa briga!
Interessante como ela não a questionara do porque estar se xingando, pensa Lisa
- Não abuse menina! Fala, sem perceber que sua conduta se amaciara e seu olhar se tornara mais meigo. - Parece que a dor diminuiu bastante.
- Bom – A ruiva coça a cabeça - Entreguei pra Deus. Tudo que quero agora é voltar a tocar meu violão e voltar a minha vida normal. Diz erguendo ligeiramente a mão e olhando-a pensativa. – Na verdade o tratamento da Doutora Luiza é uma benção. No inicio era complicado. Mas agora...
- Fico feliz Deise – olha o relógio – não sabia que tocava violão... Mas porque esta até esta hora na clinica? Deise a olha agora sem o ar brincalhão.
- Já não consigo tocar... apesar que estou sempre tentando. Mas dói muito ainda. Quanto a sua pergunta estou sem vontade nenhuma de ir pra casa. Alias minto... estou morrendo de vontade de ir pra casa que, não sei se sabe, não é esta cidade infernal, bagunçada e barulhenta. Já não suporto esse barulho.
- Não exagera Deise! SP é uma cidade alegre e cheia de atrativos. Mas onde mora realmente?
- Florianópolis – diz a ruiva com os olhos sonhadores. Olhos... os olhos de Deise eram verdes escuros, mas hoje pareciam mais claros. Engraçado... cada dia mais ela lhe parecia mais familiar.
- Linda cidade, alias o sul é maravilhoso.
- É...
- Alguém vem lhe buscar Deise?
- Não... minha mãe teve que voltar pro sul... meu pai chega amanha. E assim eles revezam.
- Mas, e hoje?
- Hoje é dia de batatas fritas e televisão.
- Mas onde esta hospedada?
- Numa pousada um pouco longe do centro graças a Deus. – Faz um fingido ar de alivio.
- Sei... Sente naquele banco e me espere. Vou te levar para casa. Deise sorri brejeira
- Floripa??? Começa a dar pulinhos com uma fingida alegria. – Eba!!!
- Engraçadinha! Não vamos tão longe. Me espere aqui.
E retoma seu caminho com um sorriso a despontar nos lábios. Sentia-se leve. Deise senta no banco pronta a esperar a doutora. Passa mão nos longos cabelos e suspira. Lisa tinha um olhar tão doce! Sentia-se segura com ela.

Da porta de entrada da clinica Luiza observa a jovem. Seus olhos penetrantes se desviam para a sala por onde Lisa adentrara. Em nenhum momento pensara poder ter algum empecilho entre ela e Lisa. Agora descobrira que sua arrogância lhe fechara os olhos. Lisa tivera com esta jovem uma postura delicada, muito diferente da sua atitude normal. Deise de alguma forma despertava na loira algo de muito puro e suave. Aperta as mãos num gesto nervoso. Abaixa a cabeça e sem se fazer notar volta para trás e caminha em direção ao jardim da clinica. Senta-se num banco de madeira e observa com olhar fixo as flores a sua frente. ‘Lisa... não cometa erros. Eu sou seu futuro. Só eu posso te fazer feliz’  

"Nunca faças aposta. Se sabes que vais ganhar és um patife, e se não sabes és um tonto."
(Confúcio)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Capítulo III

Deise caminhava lentamente pelos corredores da clínica. Sentia uma dor constante na mão depois dos exercícios de fisioterapia. Percebe passos próximos e abaixa o rosto de forma que os longos cabelos ruivos escondessem seu rosto marejado de lágrimas.
Lisa diminui os passos ao notar a jovem a sua frente. Nunca a vira na clínica, mas pela sua postura e a forma que segurava a mão esquerda notava-se que estava tomada pela dor.
- Olá, você está bem? Pergunta de forma profissional, mas delicada. Deise olha a bela loira vestida com um jaleco que parara a seu lado.
- Eu... doutora... tá tudo bem... eu...é que é minha primeira semana e eu... – Deise não suporta mais se controlar e cai num choro compulsivo. Instintivamente Lisa a abraça acariciando os longos fios ruivos e dizendo palavras de consolo.
- Calma logo tudo vai melhorar você vai ver.
- Desculpe, desculpe... dói tanto. Meu Deus como dói.
- Eu sei... mas é preciso ser forte. Vai tudo dar certo, mas precisa persistência.
Aos poucos Deise se acalma e afasta-se constrangida. A dor em sua mão parecia cada vez mais forte e latejante e para ajudar agora se misturava com a vergonha de cair nos braços de uma desconhecida.
- Tomou o remédio prescrito? Deise a olha mais atentamente. A mulher sabia como eram os procedimentos da clinica. Volta o olhar para o bolso do jaleco que ela usava. Dr°. Lisa... mais uma torturadora.
- Eu... sim... eu faço tudo conforme mandam aqui na clinica tortura
Lisa ri alto. A jovem apesar da dor conseguia ser espirituosa. Muito bom. Atitude uma pessoa lutadora, que não desiste facilmente.
- É seu primeiro dia?
- Não... terceiro. Mas parece pior que o primeiro. Deise torce o nariz. – Bom... tenho que ir. Obrigada por se preocupar.
- Tudo bem. Verá com o tempo que cada esforço vale à pena.
Vê a jovem se afastar ainda segurando a mão. Nova ainda, não deve ter vinte anos. Sorri sozinha ao lembrar o rostinho de menina. ‘Sardas... combinam com o tipo dela... delicada, suave e tímida’. Ao chegar à sala se surpreende ao ver uma bela morena observando os livros de sua estante.
- Pois não? Lisa se surpreende com o rosto forte da visitante. Morena clara, ligeiramente bronzeada de sol, olhos grandes, escuros e amendoados e uma linda covinha no queixo. Não tinha uma beleza clássica, mas o conjunto de traços irregulares dava-lhe uma beleza única. Seu porte elegante e um olhar arrogante completavam a sua pessoa que ajudada pela altura intimidava as pessoas.
- Olá, meu nome é Luiza. A voz forte e grossa ressoa na pequena sala. Sou a nova medica especialista em distúrbios da dor.
- Verdade! Soube que chegaria hoje. Aperta a mão que a outra estendia e sorri educadamente.
- Espero que possamos trabalhar bem juntas... Lisa. E faz um ligeiro movimento com a cabeça atestando que soubera seu nome porque o vira escrito em sua roupa. Isso a intimida. Quem ela pensa que é? Que arrogância é essa?
- Com certeza que sim.
- Conto mesmo com sua ajuda. Desta vez sorri mais simpática. - Sinto-me como no meu primeiro dia de emprego. Aponta os livros. - Ótima coleção, espero que empreste alguns. Dizendo isso caminha rapidamente para a porta e se retira fazendo um ligeiro aceno.
Lisa não o retribui. Fica ali parada meio assustada com sua insegurança, meio revoltada com a arrogância da outra. Passa a mão na testa. ‘ Vejo problemas ali’.

Luiza caminha lentamente pelo corredor. ‘Uau que loira!’. Sabia que não fora nada simpática, mas quando a vira entrar na sala sentiu um deslumbre tão grande, um choque de reconhecimento tão maravilhoso que se desconcentrara totalmente sobre os motivos que fora procurá-la. Põe a mão sobre o coração.
- Achei você... achei você. Diz baixinho suspirando profundamente – Achei você... Lisa.

A semana passa rápido. Luiza rapidamente se adaptara a equipe da clinica e Lisa a cada dia se surpreendia mais com a competência profissional da outra apesar de manter uma distancia segura de sua pessoa. Não só isso. Diferente de sua primeira impressão a medica não era nada arrogante... ao menos com os pacientes. Firme, decidida e porque não dizer manipuladora, deixava os pacientes tranqüilos e confiantes na recuperação.
- Boa tarde Lisa, procurava mesmo por você. Gostaria de sua opinião sobre uma paciente. Luiza segurava uma ficha na mão.
- Claro, venha a minha sala.
Já em posse da ficha da paciente vê que esta fazia um tratamento para recuperar os movimentos da mão após um acidente de carro.
- Hum... rompeu os tendões de três dedos.
- Exato. O problema é que a jovem tem pouca resistência a dor. Estou pensando em amenizar isso com bloqueios nervosos. Qual sua opinião?
- Bem, nesse caso, diz Lisa ainda lendo o relatório, acho o procedimento mais correto. Pode levar a abolição temporária ou permanente da dor tornando todo o tratamento mais produtivo e os resultados mais satisfatórios. Levanta os olhos e encara a médica. -  Há quantos dias que... olha novamente o relatório para ver o nome da paciente, Deise está em fisioterapia?
- Começou a duas semanas, mas os resultados, como vê, foram insignificantes.
- Jorge que te encaminhou ela? Jorge era outro fisioterapeuta da clinica e excelente colega de trabalho. - Exato. Já conversei com ele que sugeriu também uma terceira opinião. No caso a sua.
- Tudo bem. Lisa se levanta. - Encaminhe a paciente a mim e te confirmo minha opinião.
- Ok. Luiza se levanta tranquilamente. Até mais ver Lisa.
- Luiza!
- Pois não. A morena olha para trás ao chamado da Loira.
- Queria lhe agradecer e pedir desculpas.
- Por?
- Agradecer por pedir minha opinião em um caso que sei que tem total competência de decisão. E desculpas por deixar que minha primeira impressão prejudicasse nosso convívio. Achei - a arrogante e hoje vejo o quanto estava errada. A médica sorri irônica.
- Você não me conhece Lisa. Sou arrogante sim, reconheço e lido bem com isso. Mas também sei reconhecer que um bom trabalho se faz em equipe. Quero dar meu melhor sem margem para erros. Por isso a procurei.
- Não é o que vejo em suas atitudes com os pacientes.
- Eles são o meu sustento e a minha propaganda. Bom, obrigada por seu tempo.
Lisa observa a medica sair sentindo que algo de estranho permanecera no ar. Que mulher estranha... que médica competente. Que pessoa difícil, que... perfume fascinante... pensa respirando profundamente e inalando essa essência que sem ela perceber começa a dominar seus sentidos.
A tarde passa rapidamente. Lisa já descabelada de tanto passar as mãos nos cabelos levanta os olhos às primeiras batidas na porta.
- Entra, diz impaciente
Deise intimidada pelo tom da fisioterapeuta caminha ligeiramente até a mesa.
- Boa tarde... sou Deise e a Doutora Luiza me encaminhou a você. Lisa observa há jovem um pouco surpresa. Não associara a ruiva do corredor ao relatório que lera.
- Claro. Sente-se. Procura pela mesa o relatório da jovem que Luiza deixara ali. Abre-o ligeiramente. Deise Vasconcelos. 25 anos. Tudo isso??? Levanta rapidamente os olhos e os abaixa novamente. Cara de ninfeta. Ouve um suspiro. Jeito de ninfeta. Levanta novamente o olhar e a jovem está lhe franzindo o nariz meio em desdém. É uma ninfeta! Pensa ligeiramente irritada.
- Gostaria de examinar melhor sua mão. Pode se sentar naquela mesa?
Uma hora depois com o relatório sobre sua mesa Lisa sorri deliciada. Folheia-o distraidamente relembrando flashes da conversa com Deise. Que rosto lindo, um sorriso infantil com dentes ligeiramente tortos que lhe dá um ar brejeiro. Não gosta de envolver trabalho com sua vida pessoal mas a jovem a encantara. Sim... ela valia a pena. Fecha o relatório. Amanha daria seu parecer a Luiza. Era hora de ir para casa.

Mariana olha o envelope em suas mãos. Passa os dedos ligeiramente sobre o nome escrito... Lisa. Sorri delicada, os olhos verdes iluminados por uma luz que vinha da alma. Ela tinha certeza que Lisa viria a sua festa de 15 anos. Nunca esquecera a força de seu olhar, as cartas carinhosas que ela sempre lhe escrevia, os abraços aconchegantes que ela sempre lhe dava quando ia visitar a madrinha Paula. Levanta os olhos do envelope ao ouvir a porta bater. Sua família entra espalhafatosa e agitada como sempre enchendo todo o ambiente da casa. Com um suspiro conformado, calmamente Mariana guarda os envelopes na caixa.
- Mariana? Já preencheu todos os convites?
- Sim mãe. Acabei de fazer o ultimo.
- Quer que eu ponha no correio para você?
Mariana, desatenta, observa os irmãos brigarem por causa de um chocolate no meio da sala e ri ao ver o padrasto desajeitado tentar lhes separar.
- Mariana!! Assusta com os estalos frente a seu rosto. - Falei com você.
- Desculpe mãe. Que disse mesmo?
- Eu disse, quer que eu ponha no correio para você? Repete Joyce já mexendo na caixa.
- Não. Mãe... eu mesmo faço isso. Diz tentando lhe impedir de mexer nos envelopes.
Joyce observa o nome sobre o ultimo envelope da pilha e sente o coração gelar.
- Pelo que vejo não vai me atender e chamar mesmo ela a sua festa.
- Ela tem nome mãe. Se chama Lisa e um dia foi sua melhor amiga. Joyce altera a voz
- Foi, disse bem!! Não a quero na festa Mariana, já disse.
- Mãe, ela é filha de meus padrinhos e só tenho lindas recordações dela. Nunca esqueceu meus aniversários e só não esteve mais presente por causa dessa rixa estúpida de vocês. Não tenho nada com isso e ela será chamada. Mariana responde em um tom ainda mais alto.
Os gêmeos param empolgados. A briga entre elas prometia ser mais emocionante que a deles. Carlos seu padrasto a muito desaparecera em direção ao quarto.
Joyce encara a filha em silencio. Como lhe dizer que não quer ver Lisa? Que sua presença pode desenterrar fatos que ela quer deixar no passado? Num rompante vira as costas para a filha e caminha para fora da sala batendo a porta com força. Mariana observa-lhe a saída e passa a mão nos cabelos curtos arrepiando-os ainda mais. Sorri divertida ao ver a decepção dos irmãos com a saída intempestiva da mãe. Até parece que não a conheciam. Com certeza aquilo não terminaria ali. Pega a caixa e coloca-à frente ao corpo. Nada como se prevenir, pensa despedindo-se dos gêmeos e caminhando em direção a seu quarto.  

“Semeia um pensamento e colherás um desejo; semeia um desejo e colherás a ação; semeia a ação e colherás um hábito; semeia o hábito e colherás o caráter.”
(Tihamer Toth)

domingo, 29 de março de 2009

Capítulo ll

- Hummm... Lisa espreguiça, alongando os músculos doloridos. “Nossa, que dor é essa?” pensa antes de arregalar os belos olhos cor de mel ao se ver em um quarto totalmente desconhecido. Curiosa, observa o ambiente até se dar conta das estranhas que dormiam um sono profundo na mesma cama que ela. Abafa um grito com a boca e lentamente seu cérebro, ainda anestesiado pelo excesso de bebida, começa a registrar os fatos da noite passada. ‘ Puta que pariu! O que fiz? Porra! Merda! Caralho! Perdi mesmo a noção da realidade’. Ergue-se da cama sem fazer movimentos bruscos e, sem olhar os rostos das mulheres adormecidas veste a roupa. Nas pontas dos pés caminha em direção a porta até que ouve um suspiro profundo. Olha para trás e vê dois belos olhos castanhos a observarem. A bela morena... alias belíssima, lhe dá um sorriso meio triste... Viviane... sim este é o nome dela, parece conformada ao observar sua fuga silenciosa e lhe manda um beijo silencioso acompanhado de uma deliciosa piscada. Lisa observa-lhe séria, vira-lhe as costas e sai.
Viviane vê a bela loira sair sem nem um movimento de hesitação e fechar a porta, como que finalizando os momentos de prazer que passara naquele quarto desconhecido. Controla sua ânsia de ir atrás dela. Sua intuição lhe diz que isso só a faria sofrer. Sente um aperto no coração, um vazio inexplicável dentro de si. ‘ Uma pena... tão linda... ’ se aconchega mais à bela morena em seus braços e fecha os olhos. Mas não consegue dormir.
Lisa sai para rua se apercebendo que se encontrava na mesma boate que entrara na noite passada. Uma loucura. Saíra de um barzinho onde estava com amigos e quando passara pela boate sentira uma inexplicável vontade de entrar. Passa a mão na testa. "Meu Deus eu trepei com duas mulheres ao mesmo tempo. Eu fiz isso!!" Olha para os lados desorientada. "Aff, onde deixei o carro?"
Já ao volante começa a relembrar cada momento da noite e um sorriso irônico começa a despontar em seu rosto. ‘Que loucura!’ Fora bom... mas não iria repetir a experiência. Não gostava de dividir a mulher que tinha em seus braços. Respira fundo e sorri, agora já sem ironia. Ainda guardava vestígios da adolescente possessiva que fora.
Sem saber bem porque Lisa começa a pensar no passado. Joyce... balança a cabeça vigorosamente. Aquela... coisa! Não vou pensar nela! Deixa então sua mente vagar à procura de Juliana. Ahh Juliana... A cura de sua mágoa, o começo de sua vida adulta. A bela jovem esteve com ela em seus momentos mais difíceis. Foi ela quem abraçou seu corpo quando, mesmo contra sua vontade, lagrimas caíam por seu rosto. Foi para ela que sorriu em sua formatura, mas também foi ela que lhe virou as costas e partiu sem olhar para tras. “Lisa você é linda! Mas é fria. Quero mais que um corpo quente ao meu lado. Quero um coração apaixonado, Um sorriso verdadeiro. Sei que me aproximei de você com todas as intenções safadas do mundo, mas convivendo com você percebi que preciso de mais que apenas a safadeza. Coloca a mão em seu peito acima do coração. Eu sei que aqui, em algum lugar, está aquela jovem mulher que um dia conheci na biblioteca. Calorosa, esquentada, de olhos expressivos e sinceros. Espero de coração que um dia a reencontre.”
Nunca mais a vira. Mas as lembranças, estas, permaneciam em seu coração, sempre em agradecimento por ela ter lhe mostrado um mundo novo, de pessoas descomprometidas e fugazes. Ali ela se satisfazia, sem cobranças, entre corpos femininos diversos. Homens? Apenas amizades. Não se atraia pelo corpo masculino. Nem mesmo tinha intenção de tentar descobrir algo neles... Desnecessário. Não lhe serviam e pronto.
Chega a casa e silenciosa caminha em direção a cozinha. O apartamento era pequeno, mas funcional. Começava a colher lentamente os louros de toda sua dedicação à profissão que escolhera. Após formar na faculdade, fizera pós graduação e com afinco batalhara para conseguir uma bolsa para o mestrado no Canadá. Acabara por ficar por lá e trabalhando em uma clinica especializada em sua área, investiu também no doutorado. Antes mesmo de terminá-lo, fora chamada por uma das maiores clinicas de fisioterapia de São Paulo para integrar o quadro de excelentes profissionais, com um salário mais que satisfatório. A vida lhe corria bem profissionalmente. Após fazer o chá senta-se lentamente na poltrona da sala. Observa o telefone fixadamente com o pensamento vazio e assusta-se quando este toca.
- Lisa? Olá filha. Como está?
- Mãe? Eiiii, que saudade! Estou bem, hã... cheguei a pouco da clinica, estava numa emergência. Já ia dormir.
- Você anda trabalhando muito.
- Não, nada da velha ladainha.
Lisa sorri meio que nostálgica. Mas porque me liga tão cedo?
- Filha... Lisa... É aniversario de 15 anos de Mariana. Ela veio trazer o convite pessoalmente e bem... pediu que eu a convencesse a vir. Lisa sente um baque no coração. Mariana, sua Mari. Respira fundo
- Mãe... você sabe que não posso.
- Meu Deus filha. Depois de tanto tempo ainda guarda essa magoa? Nem mesmo por esta jovem que lhe dedica tanto carinho você não pode passar por cima de seu orgulho?
- Orgulho? Orgulho mãe? Tá doida!!! É a pior época de minha vida!
- É porque você quer. Porque você escolheu lembrar somente as partes ruins. Tudo na vida são opções filha. Lisa abafa um palavrão. Sua mãe sempre lhe tirava todos os argumentos. Que droga!
- Olha mãe vou pensar. Eu... vou pensar.
- Tem três meses para se acostumar à idéia Lisa. Você já é uma adulta. Esta na hora de se portar como tal.
- Que???? Mãe, você esta falando com uma doutora... acha mesmo que sou criança? Responde arrogante
- Bem filha, se é esta sua resposta, ela já nos mostra que título não torna as pessoas melhores que as outras. Ao contrario né. Aliás, se título fosse exemplo de maturidade e lucidez nosso mundo não seria a tristeza que é. Não acha? As pessoas seriam mais tolerantes e sensatas. E sim, antes que fale, foi a indireta mais direta que pude lhe dar. Tenho que desligar, seu pai chama e a ligação é muito cara. Beijos e te amo.
Lisa olha o telefone em suas mãos de boca aberta. Sua mãe era um ó. Dissera tudo sem puxar fôlego uma única vez e, sem nenhuma chance de resposta ainda lhe desligara o telefone na cara. Põe o telefone no gancho e esconde o rosto nas mãos. Mariana... como lhe doía decepcioná-la. Evitara ao máximo ir vê-la por todos estes anos, mas agora... O que fazer? Ter que ver ...Joyce? Quinze anos... como o tempo passa rápido. Respira fundo e então sente um cheiro característico de sexo exalar de seu corpo. Banho... preciso de um banho.
Era a fuga dos pensamentos que não queria ter. Dos amores que queria esquecer. Da vida que já não lhe pertencia mais. Dos fantasmas do passado... Do seu passado.  

"Podemos escolher o que semear, mas somos obrigados a colher aquilo de plantamos"
(Provérbio chinês)

sábado, 20 de dezembro de 2008

Segunda Parte - Amor

Segunda parte – Amor

Quando Viviane a viu entrar na boate sentiu todos os seus pelos se arrepiarem. “Meu Deus, que loira é essa?”. Viviane já estava acompanhada, mas nem se deu ao trabalho de ser discreta, mesmo quando Josie a beijou, ela não tirou os olhos da loira. Mas ela não podia ser culpada; loiras sempre foram seu fetiche, desde a infância alegrada pela Xuxa e a She-Rá. Aquela loira tinha um olhar de quem estava procurando por algo que não estava lá, que Viviane conhecia bem e que lhe dava ainda mais vontade de chegar perto dela. Vontade louca, insana. Viviane não a conhecia, não sabia o que ela queria e ainda por cima estava acompanhada. Josie era o nome da sua companhia, já haviam transado rapidinho no segundo Box do banheiro feminino, mais cedo aquela noite. Havia sido bom, mas agora que Viviane pensava bem e via aquela loira, não havia sido o bastante. Não que Josie não fosse gostosa ou boa de transa, de beijo... Ela era uma morena belíssima, pela alva, cabelos negros lisos num corte moderno um pouco acima dos ombros, uma delícia. Normalmente Viviane se saciaria com alguém do tipo, mas só Deus sabia quando ela teria a oportunidade de ver (e possivelmente ter) uma loira daquelas novamente. Viviane a queria, mas não podia simplesmente dispensar Josie, era muita sacanagem. Hum... Sacanagem..
- ... me deixa louca, eu nunca havia feito nada do tipo antes.- sussurrou Josie no ouvido de Viviane.
- O quão aberta você está hoje, Josie? - perguntou Viviane no seu ouvido.
- A tudo. - gemeu Josie mordendo a orelha de Viviane. Era tudo que ela precisava ouvir.
- Seu drink, senhorita. - falou o garçom servindo um copo para Lisa.
- Mas eu não pedi nada. - ela tentou argumentar.
- Gentileza da senhorita ali na outra ponta. – explicou o garçom lhe estendendo um guardanapo dobrado.
Lisa olhou para a tal “senhorita na outra ponta” e não pôde evitar um suspiro, a mulher era linda. Mais parecia uma daquelas modelos saídas de um comercial de xampu, com longos cabelos castanhos, corpo bem feito, marcado pelo vestido que usava, uma boca carnuda com dentes brancos (como ela pôde constatar quando a mulher sorriu). Lisa abriu o guardanapo onde leu: “Você não sabe o que procura, mas eu sei o que quer encontrar”. Lisa olhou surpresa para o bilhete, levantou o olhar e recebeu um sorriso sedutor da mulher, que se dirigiu para a pista de dança. Lisa se sentiu totalmente hipnotizada por aquela mulher. Não soube exatamente o que era, talvez sua beleza estonteante, seu sorriso, seu bilhete um tanto quanto misterioso, o jeito como ela se mexia na pista de dança, meu Deus... Era como se tivesse um imã atraindo Lisa aquela bela mulher misteriosa, quando se deu conta, estava sendo segurada pela cintura. Ela sentia seu corpo responder a cada batida da música, a cada toque daquela bela estranha. Ficaram cara a cara, seus rostos ficando cada vez mais próximos, olhos nos olhos, até que suas bocas se juntaram num ardente beijo. Lisa interrompeu o beijo quando sentiu as mãos da mulher se aventurarem por baixo do seu vestido, levantando aos poucos enquanto apalpava suas pernas.
- Mas eu nem sei seu nome.
- Uma rosa, com qualquer outro nome, não teria o mesmo doce perfume? Falou com um sorriso tão sedutor, que Lisa a puxou para mais perto, encaixando sua coxa no meio das pernas dela e lhe perguntando ao pé do ouvido:
- E como se chama essa rosa? A mulher deu uma gargalhada gostosa antes de gemer no ouvido de Lisa:
- Viviane.
- Lisa. - falou Lisa antes de lhe beijar.
Entre beijos, abraços e pegadas, elas continuaram a dançar na pista. Dado certo tempo Viviane olhou na direção do balcão, encontrou o que, ou melhor, quem procurava. Piscou o olho, mordeu o lábio, instigou uma aproximação. Em circunstancias normais Viviane ficaria nervosa ao ver Josie se aproximando, tudo poderia acontecer. Mas a bebida já estava fazendo efeito, as mulheres eram lindas, a música era boa e seja o que Deus quiser. Viviane sentiu Lisa ficar tensa quando Josie se juntou a elas na dança, ficando cara a cara com Lisa. A loira tentou fazer um sinal para Josie, indicando que já estava com Viviane, quando esta trocou de lugar ficando atrás de Josie, sussurrar algo em sua orelha que a fez gemer e lhe beijar os lábios, passando a mão por baixo da blusa que a mulher vestia. Lisa fez uma cara tão assustada que só o que a impediu de se afastar das duas, foram as mãos de Viviane a trazendo para perto, lhe sussurrando no ouvido “Relaxa...” antes de lhe dar um beijo.
Lisa não soube ao certo como, mas após duas danças extremamente eróticas na boate, elas acabaram numa espécie de apartamento em cima da boate. As três deitadas numa cama estilo japonês, no chão, Viviane no meio das duas, beijando Lisa enquanto a outra mulher observava com uma expressão de prazer. Viviane terminou o beijo, olhou para a mulher e depois para Lisa:
- Josie, Lisa. Lisa, Josie. As duas se olharam por um estante, sérias.
- Está tudo bem. - sorriu Viviane segurando as duas gentilmente pela nuca e as juntando num beijo. Lisa estava tão perdida no beijo de Josie, que mal sentiu as mãos de Viviane tirando seu vestido para depois despir a própria Josie. As duas pararam de se beijar, olharam para Viviane que estava em pé, calmamente tirando seu vestido e ficando apenas de calcinha e sutiã pretos. Josie e Lisa a olharam com desejo, contudo tinham receio de tentar alguma coisa e Viviane leu isso em seus olhos.
- Relaxem gatas, eu sei o que to fazendo. - sorriu se deitando entre as duas. Puxou Lisa para um demorado beijo na boca, enquanto Josie lhe sugava os seios, descia lentamente pela sua barriga entre beijos e chupões.
Um pensamento, talvez o mais lúcido de toda aquela noite, passou pela cabeça de Lisa. Se perguntou o que estava fazendo ali beijando aquela desconhecida, ou melhor, Viviane, enquanto outra mulher lhe fazia gemer. Lisa sentiu quando Viviane gemeu na sua boca um sonoro “huuuum” quando Josie lhe tomava o sexo, enfiava a língua fundo. Viviane interrompeu o beijo, puxou Lisa pelos cabelos da nuca, virando seu rosto para o meio de suas pernas.
- Você tá vendo o que ela tá fazendo em mim? – perguntou Viviane perto da orelha de Lisa, que concordou com um breve aceno, estava hipnotizada pela cena – Você vai fazer igualzinho, não vai? Lisa sorriu, um sorriso tão irônico e cafajeste que ela duvidava que poderia sair de seus lábios, que desceram até os seios de Viviane, lhe abocanhando com uma fome a muito contida. Não demorou para que o corpo de Viviane tremesse num espasmo que se seguiu de um orgasmo. Por alguns segundos Viviane permaneceu deitada, recuperando seu fôlego, antes de puxar Josie para cima e lhe dar um demorado beijo, sentindo seu próprio gosto. Lisa apenas observada, como que hipnotizada pela cena, aquilo tudo era muito surreal, como num sonho em câmera lenta, aquilo não era fazer amor, estava longe disso. Era uma luxúria sem limites, sem pudores e ela estava nostalgeada. As duas mulheres a fizeram deitar na cama, se revezavam em lhe chupar os seios, morder os biquinhos, brincar com eles usando a ponta da língua, sugá-los lentamente, rapidamente, calma e rapidamente, deixando Lisa louca. Viviane desceu para o meio das suas pernas, lhe lambeu lentamente, contrastando com as chupadinha rápidas que Josie dava nos seios de Lisa. Era como se combinassem, cada vez que Viviane aumentava o ritmo de chupadas no seu sexo, Josie diminuía nos seios e vice-versa. Lisa se contorcia com aquelas duas mulheres lhe chupando os seios, o sexo, lhe penetrando, gemendo... Não pode evitar dar um gritinho quando Viviane estocou dois dedos nela ao mesmo tempo em que Josie mordeu um de seus seios, não importava, ninguém poderia escutar, a música da boate abafaria tudo.
A música não poderia ser mais perfeita “Enjoy the Silence” do Depeche Mode.  

“Você não entende, oh minha garotinha?
Tudo que eu queria, tudo de que precisava,
Está aqui em meus braços
Palavras são muito desnecessárias,
elas só poderão fazer mal”.
 

  http://br.youtube.com/watch?v=M0ca92mk0A8

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Capítulo XXVI – Final da 1º parte (Traição)

O sábado começou triste para ambas, Lisa e Joyce. Joyce, sem ânimo para sair, observava a mãe se arrumar para passar o dia num clube local. Voltou o olhar para Mariana que tentava ler as palavras no jornal, rindo dos próprios sons que fazia. Tinha tanto! Por que então se sentia tão derrotada? Porque faltava Lisa, concluiu colocando os cotovelos sobre a mesa. Novamente olhou a mãe que já estava pronta para sair. Nada fora comentado entre elas sobre a noite passada. Melhor assim.

Lisa arrumava-se devagar. Escolhe aleatoriamente uma blusa para usar com o jeans sem se preocupar em colocar um sutiã. Sabia que tinha que tomar uma atitude, ver Joyce. Tentava inconscientemente adiar o confronto de ambas. Estranhou que não chorara. Sentia uma ansiedade enorme, uma imensa angustia pelo que podia acontecer, mas não sentia vontade de chorar. Queria ouvir o que Joyce iria dizer para justificar o que vira no bar, ao mesmo tempo, porém, sentia raiva. Muita raiva. Como se todo sofrimento pelo qual passara tivesse sido em vão.
- Bom dia, mãe.
- Bom dia, Lisa. Tudo bem?
- Não mãe, mas vai ficar - sorriu tristemente dando-lhe um beijo no rosto e caminhando em direção à porta da rua.
- Não vai tomar café, Lisa?
- Não mãe, to sem fome. Vou... resolver algo que to adiando há muito tempo. Abriu a porta e, antes de sair, virou-se para a mulher mais velha. - Mãe... Eu sei que ainda não lhe disse, mas... Obrigada. Eu amo muito você.

A campainha tocou e Joyce se ergueu lentamente. Sabia, na verdade, sentia ser Lisa. Abriu a porta e as duas se encararam. Em ambas, uma postura de sofrimento e angustia. O amor aflorou dentro delas e uma ânsia de se tocarem se faz presente. Então a loira, vencendo este sentimento, cortou o contato visual e se abaixou para beijar Mariana, que lhe sorria.
- Olá Mari, que saudades!
Jô observou Lisa abraçar sua filha com carinho e sentiu um aperto no coração. Precisava ser forte. Pediu à filha que fosse para o quarto. Mariana relutou, como a querer impedir a conversa, mas se retirou, não sem antes olhar para trás. Os olhos verdes se encontraram com os de mel e Lisa lhe sorriu tranqüila, com um olhar doce. Não importava o que pudesse acontecer, elas nunca se perderiam.
O silêncio entre ambas parecia interminável. Joyce passou a mão nos cabelos.
- Eu... Lisa... sei que deve estar com raiva...eu...
- Jô, sua mãe disse à minha que está namorando - interrompeu Lisa. - É verdade? O que vi ontem... É verdade? Joyce encarou Lisa, angustiada. Não esperava um ataque tão direto. Não era assim que queria as coisas.
- Não é bem assim, Li. Loirinha eu...
- Não me chame loirinha, ok.
- Eu... Li... não... bom... Eu to saindo com Carlos.
- Carlos é o nome dele, então. Lisa a encarou séria. Jô não sabia como lidar com a mulher que surgia à sua frente.
- Lisa. Eu... errei. Eu to mesmo saindo com ele, mas é como uma fuga! Eu tentei esquecer você, mas não dá. E mesmo assim vou tentando, tentando. O beijo... não foi o primeiro - levantou os braços, desanimada. – É tudo para esquecer você.
Lisa passou a mão na testa e baixou o rosto. Joyce a traia, só isso conseguia entender.
- Quanto tempo?
- Quanto tempo o quê?
- Quanto tempo me trai?
- Lisa, não é assim - Joyce sentiu uma tristeza enorme no coração. Lisa ergueu o rosto repentinamente para ela e lhe apontou o dedo.
- Aquele dia... o dia que saiu... que lhe contei de minha mãe, tudo. Foi com ele que saiu não foi? Responde! Joyce a encarou culpada. Foi quando Lisa perdeu totalmente o controle.
- Você tem noção do que me fez, Joyce? Que merda você fez? Meu Deus, você já me traia antes de toda a briga! - passou a mão no rosto. - Você me traía!
- Calma lá, Lisa... eu não namorava ninguém . Foi a primeira vez que saí com ele, ok. Você me soltou a bomba naquele dia e eu fiquei sem saber o que fazer. Eu...
- Sei!!! SEI. E isso justificou você ir trepar com um cara!
- Eu não trepei com ninguém! Que isso, Lisa! Qual é! Só porque você resolve se assumir quer que eu siga o mesmo caminho? Sempre assim, né! Acha que é dona da verdade! Nunca erra Lisa? Nunca?
- Erro. Erro! - Lisa gritou. - Errei de amar você, sua idiota, egoísta. Com que direito me trai assim? Fosse mulher! Assumisse suas atitudes!
- Atitudes? Atitudes! - Joyce abriu os braços. – E viva a senhorita virtude. Sempre certinha, tomando atitudes corretas. Nossa! Pôs a mão no rosto, irônica. – Como ela pode ser sapata?
- Sua falsa! Você é tanto quanto eu! Ou pensa que eu estive sozinha todos esses anos, comendo um fantasma?
- Maneira o palavreado, Lisa! Eu não disse que não gosto. Apenas não sou como você, entendeu. Não quero essa vida para mim. Lisa a olhou incrédula.
- Como assim? Esta abrindo mão de mim? Vai se casar com o babaca porque não quer ser... sapata? Joyce passou a mão no cabelo e caminha impaciente pela sala. Olhou para o corredor e espiou se a porta do quarto de Mariana estava fechada. Voltou-se para Lisa e respondeu.
- Lisa... Eu amo você. Amo mesmo. Por favor... eu sei que estou errada, mas... Deus, é tão difícil! Tento de todas as maneiras fugir disso. Tenta entender. Eu não sei lidar com isso! - terminou gritando.
Lisa a observava. Desviou o olhar de seu rosto e passeou por seu corpo. Como era linda! Porque lhe fizera isso? Sentiu os olhos lacrimejarem. Joyce percebendo seu momento de fraqueza e seu olhar de desejo não hesitou. Agarrou-a ali mesmo, na sala e a beijou profundamente. A loira não resistiu e se entregou aos braços da morena. Passou os braços pelo seu pescoço e se deixou levar pelo desejo que despertou em seu íntimo. Sentindo sua entrega, Joyce segurou - lhe os seios pequenos apertando-os enlouquecida. Que saudade daquele corpo, de seu calor. Levantou-lhe a blusa e levou a boca aos seios alvos. Sua loirinha...sua. Segurou seus quadris apertando-a mais junto a si. Lisa gemeu apertando-se ainda mais a morena. Buscou - lhe novamente a boca, exigindo, tomando, buscando esquecer  todo o sofrimento que lhe ia na alma.
- Lisa... Lisa. Como te desejo, Li! - Jô passou as mãos pelo corpo esbelto e suspirou profundamente. Lisa, como que acordando de um sonho ao som da voz de Joyce, se afastou. Tremula, abaixou a blusa e passou a mão na testa.
- Isso não era para acontecer... não era.
- Amor... loirinha. Olha para mim. - Mostra-lhe as mãos tremulas - Vê?  Eu te amo. Nós nos amamos. Você não pode nos privar disso! Vamos ficar juntas. Pare de querer tanto. Podemos ter tudo se você aceitar as coisas.
- Jô... como? Não vejo aonde quer chegar. O que quer dizer? - Lisa a olhava sem compreender nada. Joyce respirou fundo. Era a cartada final. Lisa a amava. Iria dar certo.
- Lisa, podemos para sempre sermos amigas... amantes. Entende? Sem ninguém saber. E... casar... casamos agradamos a sociedade, nossas famílias e...
- Espera. Quer que eu seja sua amante... enquanto casa, tem filhos, etc? Ser a outra?
Joyce a olhou sem graça. Ficou estranho dito assim, em voz alta, pela boca de outra pessoa.
- Não é bem assim, Lisa. O que não quero é ser apontada como a sapata do bairro.
- Vá à merda, Joyce! Nunca aceitaria isso. Quero amor, não ser uma... uma... amante. Quero alguém que me ame e para quem eu seja sempre a primeira! Eu mereço isso! Você é uma idiota! Abre mão do nosso amor por causa de pessoas mesquinhas e preconceituosas.
- Então me recusa, é isso? - Joyce sentiu o peito se oprimir.
- Sim! - Lisa a olhou triste, mas decidida. - Assim não quero, Jô. Quero você completa, sendo só minha. Joyce apontou o dedo a ela, inflamada.
- Diz isso porque sua família te apoia. Acha mesmo que o mundo vai te bater palmas, Lisa? Acha? Pois saiba que te hostilizarão. Virarão a cara para você, terão nojo de teu toque. Perderá oportunidades, empregos, amigos. Quer mesmo isso?
- Pode ser, Jô. Sofrerei muito, pagarei por minhas escolhas. Mas serei autêntica, não um fantoche social como você.
Joyce a olhou, sentindo-se agredida e, com a língua cheia de veneno, revidou suas palavras.
- Pois saiba que assim não quero também. Acha mesmo que não gosto de homens? Pois saiba que adoro estar com eles. Não sou sapata. Sapata é você. E não passará sempre de uma sapata. Uma sapata de quem tenho vergonha e que jamais assumirei como alguém que faz parte de minha vida. Tenho nojo de você!
O som do tapa ecoou por toda a sala. Joyce calou-se levando a mão à face sem acreditar que Lisa lhe esbofeteara. Ainda segurando o rosto, sentiu um calafrio percorrer toda a extensão de seu corpo ao ver o olhar da loira. Nunca em toda a sua vida vira os olhos de Lisa tão claros. Não mais expressavam aquele amor, aquela suavidade que aproximava as pessoas e as cativavam. Ao contrário, estavam frios, vazios, sem nenhum calor humano. Não conseguia dizer nada, parecia que suas cordas vocais estavam paralisadas. Sentia como se o chão se abrisse sob seus pés e uma escuridão tomasse conta de sua alma. As duas se encararam por vários minutos. Na sala, só o tic tac do relógio parecia anunciar os últimos segundos de duas vidas que a partir dali tomariam rumos totalmente diferentes. Lentamente, com uma calma que deixou Joyce ainda mais angustiada, Lisa virou-lhe as costas. Abriu a porta da saída e se retirou, sem um único olhar para trás. As pernas de Joyce fraquejaram e ela se deixou escorregar pelo chão da sala. Um sentimento de perda gigantesco tomou conta de seu ser e ela solta um grito dolorido, desesperado. Conscientiza-se que com suas atitudes perdera não só a mulher, mas também a amiga, aquela que sempre estivera a seu lado, que nunca lhe faltara. Lisa não merecera suas atitudes, sua TRAIÇÃO..
Levantou-se e correu à porta, na esperança de Lisa, sua Lisa, ainda estar ali, esperando-a com os braços estendidos para que pudessem juntas superar mais este momento de provação. Em seu egoísmo, mesmo com tudo o que fizera, ainda quer resgatar a amiga. Sim, sentia que elas podiam ainda ser amigas, tinham que ser amigas. Mas não havia ninguém, não havia mais Lisa. Joyce não soube por quanto tempo ficou ali parada até que sentiu um puxão em sua blusa. Olhou para baixo e viu dois calorosos e maravilhosos olhos verdes a encararem.
- Mamãe, você está bem?
Mariana parecia perceber a angústia de Joyce e estendeu então os bracinhos em sua direção. Joyce se ajoelhou e abraçou a filha, estreitando-a nos braços. O pranto se fez presente e Mariana, em silêncio, se deixou ficar ali nos braços da mãe. Aquele momento não era mais a criança e sim uma alma solidária, ciente de toda a dor que acometia Joyce.
Ela fizera sua escolha.

Lisa caminhou tranquilamente pelas ruas até chegar à sua casa. Abriu o portão e deu de cara com seu pai.
- Oi, pai.
- Li? – o pai observou a filha. Percebeu algo de diferente. - Alguma coisa errada?
- Não, pai, por quê? Parece? - perguntou, virando-se em sua direção
- Bem, não sei, está... diferente.
- Impressão sua pai, tem alguém em casa?
- Não, filha. Sua mãe saiu e seus irmãos estão desde cedo estão na gandaia – sorriu saudoso. – Ahhh, que saudades do velho tempo!
- Continua safado, né, velho? - Lisa riu e deu um beijo no rosto amado. – Bom, vou entrar que também vou dar uma saída mais tarde.
- Mesmo? Aonde vai? Vai sair com Joyce? O olhar de Lisa endureceu.
- Não pai, será com outra amiga. Bom, vou tomar banho. Tchau – disse erguendo a mão e entrando na casa. Caminhou em direção a seu quarto, pegou bolsa e tirou dela um pequeno cartão. Foi à sala, pegou o telefone e discou um número.
- Alô, poderia falar com Juliana?
Após o telefonema, tirou toda sua roupa e entrou em baixo do chuveiro. Ergueu o rosto e deixou a água bater nele e escorrer pelo seu corpo. Ficou ali por longos minutos. Seus pensamentos foram para Joyce, mas era como se nada sentisse. Nem amor, nem angustia, nem raiva. Simplesmente nada. Apenas um vazio que parecia tomar conta de seu ser. Como que fugindo da realidade deitou-se e dormiu durante todo o dia. Acordou já no fim da tarde e começou a se arrumar para sair. Maquiou-se com esmero e pôs um lindo vestido preto que faz um maravilhoso contraste com os olhos cor de mel e os longos cabelos loiros. Olhou-se no espelho. “Perfeito”. Calçou um lindo sapato de salto alto, pegou as chaves do carro, despediu-se do pai e dirigiu-se a uma famosa boate GLS de Belo Horizonte. Adentrou o ambiente indiferente aos diversos olhares em sua direção e caminhou em direção à bela morena que se ergueu quando a viu com sorriso deslumbrado.
- Está divina, Lisa – disse Juliana, já antecipando deliciada os momentos delirantes que as duas teriam. Não se perguntara porque a loira lhe ligara. O que importava é que ela estava ali. Observou-a melhor. “Ela está maravilhosa”. A nova expressão em seu rosto, distante e introspectiva, dava-lhe uma aparência mais inatingível, tornando-a a partir daquele dia, foco da atenção de mulheres várias que acreditavam poder atingir seu coração. Lisa fechou ligeiramente os olhos e, por um momento, sente seu coração sangrar e uma dor fina ameaçar crescer em seu peito. Então, num decidir mudo, ergueu os ombros, deu um sorriso frio à morena a sua frente e disse:
- Você também esta linda, Juliana. Algo me diz que hoje é seu dia de sorte – disse irônica. Sentou-se à mesa, ciente que, a partir daquele dia, uma nova Lisa nascia. Mais madura, mais forte, e muito mais precavida. Nunca mais lhe machucariam. Nunca mais. A partir daquele dia ela comandaria sua vida e seus relacionamentos. Ergueu o corpo e deu um beijo rápido na morena
- Ah sim, Juliana você também está divina, deliciosamente divina – riu deliciada com o olhar surpreso e excitado que esta lhe mandou.
O garçom trouxe uma caipivodca que Juliana pedira sem que ela se apercebesse. Ergue o copo para a morena e faz um brinde solitário a si mesma antes do primeiro gole.
“Amanha é um novo dia”

  "Difícil não é lutar pelo que mais se quer, e sim desistir do que mais se ama. Eu precisei desistir. Não pense que desisti por não ter mais forças para lutar, mas sim por não ter mais condições de sofrer." 

Fim 

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Capitulo XXV

A sexta-feira, dia do show dos Titãs, chegou ensolarada. Parecia que a frente fria que pairava sobre Belo Horizonte resolvera sumir de vez. Depois de um dia particularmente agitado, e de uma sensação de angustia que não sabia explicar, Joyce se arrumou para o espetáculo. Uma necessidade de ficar em casa se fazia presente, como se algo muito sério fosse acontecer.
- Mãe tem certeza que posso ir? Você está bem?
- Jô, está tudo bem. Pode ir tranquila.
Joyce observou a mãe. Desde que começara a sair com Carlos, a mãe parecia a fada madrinha. Nunca implicava quando queria sair, sempre deixava seus compromissos para cuidar de Mariana em sua ausência. E ela nem ao menos o conhecia.
- Bom... ok - respondeu meio ressabiada.
Lúcia observava a filha a se arrumar, se perguntando quando ela assumiria que estava namorando. Sorriu sozinha. Vira o rapaz várias vezes pela janela. Era bonito, bem afeiçoado e parecia ter boa estrutura financeira. Comentara com Paula, a mãe de Lisa, a suspeita que Jô estivesse namorando. Suspeita não, a certeza. A amiga a olhara incrédula. Balançou a cabeça lentamente. Algumas pessoas se conformam muito fácil com situações que podem ser mudadas. Mas não queria pensar nisso. Aliás, se recusava a ter certos tipos de pensamento. Finalmente Joyce seguia o caminho certo

 Lisa já estava pronta para o show, mas Fernando ainda não chegara. Só faltava o irmão dar-lhe um belo bolo.
- É mãe, Nando vai me aprontar mais uma das suas.
- Tranquiliza Lisa. Ele vem.
A mãe a olhou de lado. Lisa a encarou. Há muito tempo sentia que a mãe queria lhe dizer algo, mas parecia perder a coragem.
- Mãe, você não quer aproveitar que Nando não chega e me dizer o que está te sufocando e não tem coragem de me dizer? Paula a olhou sem graça.
- Não é nada, Lisa. Eu... não é nada.
- Mãe me sentiria melhor se dissesse. Paula a olhou firme.
- Lisa tenho certeza não gostaria de saber. E, além disso, são só suspeitas, nada certo.
Lisa sentiu o coração apertar.
- É algo relacionado à Jô, né, mãe? Me diz, por favor. Não é justo que me esconda isso.
Paula a olhou com uma olhar sofrido. Não queria ser a causadora de mais um sofrimento para a filha, mais ao mesmo tempo não conseguia mais segurar o que Lúcia lhe contara. Melhor a filha saber por sua boca que pela boca de estranhos.
- Lisa... sente-se - observou a filha sentar-se lentamente na cadeira. Achava-a tão linda. Não entendia porque escolhera esta vida tão cheia de dor e sofrimento.
- Lisa... Lúcia esteve aqui outro dia e comentou que... que Jô... Bom, comentou que Joyce esta saindo com um rapaz. Lisa sentiu seu mundo escurecer.
- Como?
- Filha... - começou Paula, segurando as mãos da filha. - Joyce está namorando... um rapaz.
Lisa levantou-se de supetão.
- NÃO! Não... não acredito nisso! Ela... ela não pode! - Olhou a mãe em desespero.
 - Lisa...
- Não mãe... você... você mesmo disse que não é certo não é? Você mesmo disse! Eu... tem algum engano aí. Deve ser algum colega de faculdade, sei lá. Ela... ela não faria isso. Não Joyce, mãe.
- Filha...
- Não, mãe. Joyce antes de ser... de ser minha... minha... você sabe o que, ela é minha amiga. E como amiga, antes de tudo, não faria uma sujeira dessas, né!? Olha, vai tudo se esclarecer fica tranquila.
Lisa esfregou a testa. Não queria pensar nisso. Não queria. Ouviu o barulho característico do carro de Fernando.
- Olha, é o Nando... eu... tô indo. Tô indo. Tchau mãe - beijou rapidamente o rosto da mãe e saiu.
Paula encostou a testa na mesa sentindo que fizera tudo errado, na hora errada, da forma errada.
- Lisa... Lisa... que escolha é essa? Será que vale toda essa vida de sofrimentos que vai passar? - murmurou para si mesma.
Sentiu mãos se apoiarem em seus ombros e viu seu marido a olhando amorosamente. Marcos puxou uma cadeira para o lado de Paula e a abraçou carinhosamente, dizendo baixinho.
- As escolhas pertencem a Lisa, Paula. Quanto a nós, resta sermos os pais que sempre acreditamos ser.
- Marcos, onde erramos?
- Não erramos Paula. Apenas não podemos desejar que nossos filhos sejam o que gostaríamos que fossem. Eles crescem. Mas espero que sejam felizes. E Lisa, mesmo sofrendo hoje, acredita que este será o seu caminho para a felicidade. E terá todo meu apoio. Nosso apoio.
Paula o abraçou triste, mas conformada. Quando contara a ele sobre Lisa, tivera receio de sua atitude e se surpreendera ao ver uma aceitação muito maior que a sua. Mesmo em seu silêncio, Marcos respeitava Lisa em suas escolhas. A vida não era perfeita. Mas o amor, quando verdadeiro, mesmo dentro das limitações humanas era perfeito. Assim era sua família.

Joyce estava exausta de tanto pular. O show fora simplesmente maravilhoso. Lotado. Incrível como mesmo assim parecia que todos seus conhecidos estavam ali. Já encontrara uns três. Ao final do espetáculo, Carlos a convidou para tomar um chope num barzinho ali perto. Estava rindo, feliz, quando sentiu um gelo na base da nuca. Olhou ao redor pressentindo o olhar de alguém, mas não viu ninguém conhecido. Sentiu uma falta de ar enorme e Carlos, percebendo sua angustia, lhe segurou a mão.
- Jô? Você está bem? Ela o olhou meio perdida.
- Estou... estranho. Senti algo ruim em mim, sei lá. Eu... já estou melhor.
- Mesmo, amor? Nossa, você pareceu perder o ar.
- Carlos... - Joyce segurou o rosto dele. –Tranquiliza, eu estou bem.
- Mesmo? - o rapaz a olhava preocupado.
- Mesmo. E como a querer provar o que dizia, tomou seu rosto nas mãos e o beijou.
O carinho se aprofundou e os dois se deixaram levar, esquecendo as pessoas ali presentes. Ao fim do beijo, Jô abriu os olhos lentamente, com um sorriso satisfeito no rosto. Olhou por cima do ombro masculino e arregalou os olhos, chocada. Com um grito, afastou-se repentinamente do rapaz que, assustado ao ver seu rosto, olhou na mesma direção que ela. Sem nada perceber de anormal, voltou o olhar a Joyce que já se erguia em desespero, correndo em direção à porta do bar.
- Jô? Aonde vai? Jô? Joycee!!!

Lisa ia para o show para não decepcionar o irmão. Esforçando-se para não mostrar sua angústia, dançou e pulou ao som de Titãs. Fernando, dentro de sua alegria quase infantil por estar perto de seus ídolos, não reparava as várias vezes que a irmã parava simplesmente e se deixava ficar, com um olhar perdido no meio da multidão.
- E ai, mana? Curtiu o som?
- Muito, Nando - olhou em direção a um barzinho bem movimentado de esquina. - Hei, aquele não é seu amigo, o João?
- Onde? Cara, é ele mesmo! Vamos lá - disse segurando a mão da irmã e a puxando em direção ao amigo.
- Meu, que legal ver você aqui! - João exclamou ao ver o amigo. - Senta aí - disse já puxando uma cadeira a Lisa, que se sentou meio sem graça. Sua vontade era ir para casa, mas vendo a alegria dos amigos que a muito não se viam, permaneceu quieta, lançando um meio sorriso à namorada do rapaz que a olhava condescendente.
- Esses têm muita coisa para por em dia – ela disse lhe sorrindo. Lisa retribui o sorriso e olhou ao redor. O barzinho era bem legal. Como estava bem cheio, o proprietário espalhara mesinhas pela calçada. Observou pela janela a parte de dentro do bar e sentiu um frio penetrar seu corpo. Empalideceu sensivelmente
- Hei, você está bem? Olhou para a frente e viu a moça olhando-a preocupada. Depois de longos segundos de silêncio, respondeu roucamente.
- Eu... eu... estou. Eu... onde é o banheiro aqui?
- Lá dentro. Quer que eu te acompanhe?
- Não... obrigada. Vou sozinha.
Ergueu-se automaticamente, caminhando em direção à porta do barzinho. Adentrou o ambiente sem ver nada, ouvir nada, sentir nada ao redor. Fixou os olhos na jovem morena que beijava despreocupadamente o rapaz que estava a seu lado. Alguém lhe deu um empurrão nos ombros. ‘Hei, você está no caminho’, mas ela ignorou. Não conseguia desviar os olhos do casal algumas mesas à sua frente. Observou o beijo que terminava suavemente e viu o sorriso satisfeito no rosto da mulher. Foi quando os olhos de ambas se encontraram. Uma descarga elétrica percorreu seu corpo, libertando-o de sua inércia. Virou-se imediatamente para a porta e correu como se diversos demônios a perseguissem. Não escutou o grito atrás de si. Passou pelo irmão que, vendo-lhe o desespero, correu atrás. Não parou de correr. Queria fugir. Fugir da realidade. Fugir da traição. Sentia como se facas lhe perfurassem o corpo. Esquinas à frente, Fernando finalmente a alcançou.
- Lisa? Lisa, que foi, pelo amor de Deus!
- Me tira daqui, Nando. Me tira daqui! - gritou desesperada.
- Calma, Lisa! Ok. Mana, calma, calma, vai - segurou suas mãos com cuidado. Olhou-a sem entender nada, mas conhecendo a irmã, sabia que algo muito sério acontecera naquele bar.
- Vem, vou te levar pra casa.

Joyce olhou ao redor. ‘Meu Deus, não’. Pôs a mão na boca e começou a andar sem rumo pelas mesas do bar.
- Joyce, que houve? - sentiu as mãos de Carlos em seus ombros e se soltou bruscamente.
- Me larga!
- Jô, pelo amor de Deus, que foi?
Ela o olhou angustiada e depois novamente ao redor. Uma onda de pânico tomou-lhe o corpo, que enfraqueceu.
- Joyce, pelo amor de Deus, o que você tem?
- Me leva pra casa, Carlos. Me leva pra casa. Apenas me leve pra casa.
Não se despediu do rapaz. Desceu e correu em direção a porta da casa, entrando sem nem mesmo olhar para trás. Carlos se deixou ficar ao volante, arrasado, sem nada entender. Como uma linda noite podia acabar de forma tão desastrosa? E pior, sem ele ao mesmo saber o porquê.
Joyce já dentro de casa, pôs a mão sobre a boca e um gemido do fundo da alma lhe subiu pela garganta. Sem saber o que fazer, começou a bater as mãos na cabeça.
- Jô? Jô do céu, que é isso? Que você tem?
Lúcia lhe segura as mãos, olhando-a preocupada. Ouvira o barulho e os sons de gemidos e levantara achando ser Mariana. Surpreendera-se ao encontrar Joyce, totalmente sem controle, na sala de estar.
- Joyce, pare com isso! Pare!
- Mãe – Joyce a olhava como que cega. - Lisa me viu! Lisa me viu, mãe!
- Lisa viu onde? O que, Jô? Não entendo nada.
- Ela me viu num barzinho com Carlos. Ela me viu beijando ele! Mãe ela não vai me perdoar. Meu Deus. Lúcia ficou séria. Segurou os braços da filha.
- Lisa não tem nada que perdoar, Joyce. O que tem você namorar? Ela tem que entender que é a lei normal da vida. Você vai namorar, casar e ter mais filhos.
Joyce fixou os olhos na mãe. Ela pareceu-lhe ansiosa demais em rebater seu desespero. Novamente lembrou o olhar de Lisa no barzinho e os olhos se encheram de lágrimas.
- Não, mãe! Eu preciso de Lisa. Preciso explicar! Ela vai achar que a traí! Eu a amo, ela não pode me deixar. Eu tenho que ir lá!!
- Pare, Jô! Olhe a hora! Você não tem que ir a lugar algum a esta hora. E amar... Jô, amamos muitas pessoas, amores diferentes. Lisa aceitará que você tem um namorado.
- Não, mãe! Como? Ela é minha na...
- CALE-SE, JÔ! Eu já disse. Ela tem que aceitar! Você já sofreu muito na vida e ainda sofre com o preconceito das pessoas. Não queira aumentar sua carga de sofrimento, entendeu? Não vou admitir que mais uma vez você nos envergonhe perante todas as pessoas que conheço, sua família, seus amigos. Entendeu? Segurou-a pelos ombros e a sacudiu. - Entendeu, Joyce?
A filha olhou-a com os belos olhos negros nublados e sem brilho. Baixou a cabeça, deixando que os cabelos lhe cobrissem o rosto.
- Sim mãe, entendi e... concordo. Desculpe. Eu... vou deitar.
Lúcia viu-a sair da sala com toda uma postura de derrota. Sentiu o coração se apertar. Não, não deixaria a filha mais uma vez destruir a própria vida. Não reparou a porta do quarto rosa ligeiramente aberta e olhinhos verdes a observarem atentamente, ansiosos e tristes. Mariana nada entendia, mas sabia que, de alguma forma, o que acontecera ali mudaria a vida delas para sempre.

 “Caminhante, não há caminho; faz-se caminho ao andar.”
Antonio Machado