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sexta-feira, 4 de julho de 2008

Capítulo XII

Lisa ficou quieta no calor daquele abraço. Estava tão bom ficar ali, nos braços de Jô. “Meu Deus, que beijo foi aquele? Tão... maravilhoso! Jô tem um sabor divino!” Queria tocá-la mais, porém sentia vergonha, receio. “E se ela der pra trás? Tipo pode ficar ofendida.” No entanto, sentiu os braços de Jô a estreitarem mais forte. Abraçou-a também, com a mesma força, suspirando... Sentia-se tão bem ali!

Jô abraçou Lisa bem forte. Ainda sentia na boca o sabor do beijo. “Delicia! Quero mais, muito mais” Pensou alisando delicadamente as costas de Lisa. Desceu as mãos para perto do cós da bermuda e tocou a pele com leveza. Sentiu o estremecer de Lisa e um ligeiro retrair. “Calma Jô, não seja precipitada, calma”, respirou fundo, buscando o autocontrole e, com pesar, soltou-se lentamente dos braços de Lisa, que reagiu como que lamentando perder o calor de seus braços.
- Li vamos fazer algo pra comer? - Jô disse, acariciando lhe o rosto. Lisa segurou a mão que lhe afagava, com uma expressão de puro enlevo. Abriu os olhos lentamente e a encarou com aqueles maravilhosos olhos cor de mel.
- Vamos sim... Jô?
- Hum?
- Eu... er... Tá tudo bem, né.
- Quer a verdade Lisa? - Perguntou Jô parando de lhe acarinhar o rosto para segurá-lo com ambas as mãos. Lisa sentiu o coração gelar.
- Eu... eu... Jô...
- Eu não tô bem, eu tô super bem! – Exclamou Jô, a interrompendo - Eu tô feliz como há muito tempo não me sinto. E você não sabe como eu amei beijar você – seu rosto avermelhou um pouco – e quero mais, muito mais – disse com um olhar ardente.
Lisa pôs a mão sobre o coração
- Quer me matar de ansiedade??? Ai Jô, sente como meu coração tá disparado. – levou a mão da morena de seu rosto para entre os seios. Jô enlouqueceu ao ouvir as batidas fortes daquele coração tão amado. Baixou o olhar para onde sua mão estava e, sem pensar muito em seu ato, a escorregou para o seio esquerdo, segurando-o delicadamente. Sentiu a maciez daquele monte pequeno e macio, e estremeceu com a sensação. Sua mão se tornou trêmula e ela ergueu o olhar para Lisa, como a querer saber a reação que seu gesto ousado provocara. Não ousou mexer muito a mão... A deixa ali, simplesmente, sobre o seio, desejando tocá-lo mais, apertá-lo mais. Sentiu uma vontade louca de erguer a blusa da loira. Nunca se imaginara numa situação como essa, sentindo tanto desejo por uma mulher. Desejo de tocar seu corpo, beijar seus seios, dar-lhe prazer.
Lisa a olhou em expectativa, nada faz para tirar a mão do seu seio. Então, Jô moveu lentamente suas mãos e, com as pontas dos dedos, contornou-o. Sentiu seu próprio coração bater fortemente, não duvidava que Lisa pudesse ouvi-lo. Ao tocar de leve o bico já teso, viu Lisa fechar os olhos e entreabrir os lábios, suspirando baixinho. Não resistiu e tomou os lábios da loira com uma paixão impulsiva, louca. Penetrou sua boca com a língua, pedindo, exigindo a retribuição que não lhe era negada. As línguas se encontram e se tornam mais ousadas. Jô apertou o seio de Lisa, que lhe enlaçava as costas, apertando-se contra ela. Já não pensavam, só sentiam... A descoberta da paixão, da maciez do corpo feminino, do sabor incomparável do beijo tão desejado, as isolava do mundo. Buscavam uma na outra a conclusão de tantos conflitos, tantos questionamentos. Era tão simples. Elas se queriam, se completavam. Novamente o telefone tocou tirando-as daquele momento maravilhoso. Lisa afastou a boca da de Jô.
- Jô... Melhor atender... Pode ser sua mãe. – disse ofegante. Jô arregalou os olhos, imediatamente saindo do enlevo que se encontrava. Deu um pulo, atendendo ao telefone que estava à cabeceira de sua cama.
- Alô? – atendeu ansiosa
- Alô, Jô!? É Paula, tudo bem querida? Lisa está ai?
- Ah! Oh, olá dona Paula! – Olhou para Lisa que agora se encontrava a seu lado. – sim, Lisa tá aqui.
- Posso falar com ela?
- Claro, vou passar tá. Beijos
- Beijos, querida.
- Li, sua mãe quer falar com você. – disse passando o telefone para ela. Apontou para a loira a direção da cozinha e saiu do quarto sentindo o olhar da loira queimando lhe as costas.
Lisa desligou calmamente o telefone. No entanto, era uma calmaria aparente. Por dentro era um vulcão em erupção. Não conseguia ainda acreditar no que havia acontecido. Tocou lentamente os próprios lábios. “Meu Deus, que delicia é o beijo, o toque de Jô”. Quando ela lhe tocara o seio ficara quietinha com medo que o momento passasse. Foi algo tão gostoso, mas tão gostoso, que quando sentira seus dedos no bico de seu seio foi como se o ar lhe faltasse. E uma ânsia, um desejo de muito mais tomou conta de si. “Aiii, o beijo”. Jogou-se de costas na cama e cobriu o rosto. “Não é um sonho, é real, é real!!” Deu uma gargalhada de pura felicidade. Sentia-se viva como nunca se sentira na vida. Jô a queria... queria ela! ”Meu Deus, o paraíso existe!”

Na cozinha, Jô faz um pequeno lanche para as duas. Nada rebuscado. Sentia-se ansiosa demais pra pensar em fazer qualquer coisa mais aprimorada. Os pensamentos estavam na velocidade da luz e repetitivos. Em outras palavras ela pensava no beijo, na maciez do seio... no beijo e na maciez do seio... e no beijo e na maciez do seio... ”PÁRA! Arre Jô, que pouca vergonha... Mas ai ai... que delícia... Calma Jô! Será que consegue ser calma e ponderada uma vez na vida?” – balançou a cabeça energicamente. “É a Lisa esqueceu? Sua amiga racional, cautelosa e... e... Ai mas que gosto ela tem, meu Deussssssss!!!” Segurou na pia procurando normalizar a respiração.
- Vai ser difícil ser calma... Mas vou conseguir - disse baixinho para si mesma. De repente, sentiu a nuca arrepiar e olhou para trás. Lisa encontrava-se na porta da cozinha, olhando-a fixamente. Sorriu meio sem graça e perguntou.
- E aí, Lisa que sua mãe queria?
- Saber se eu ia pro almoço. Eu não avisei nada que ficaria por aqui – disse sem sair do lugar. Sem saber por que, Jô se sentiu tímida e virou-se de novo para a pia onde cortava uns pedaços de mortadela.
- Olha, resolvi fazer um sanduba pra nós. Espero que não se importe porque tô com preguiça de cozinhar além de pouca fome e acho que você também não deve tá, né? Então tô pondo mussarela, mortadela, tomate, alfa...
- Jô cala essa matraca! – Jô estremeceu quando ouviu a repreensão sair de pertinho de seu ouvido.
- Sabe – disse Lisa, ainda baixinho – falei com minha mãe que vou dormir aqui com você pra não ficar sozinha - Sentiu as mãos de Li passarem por sua cintura e arrepiou toda com uma leve mordida na nuca.
- Aiiii – Jô escapou dos braços de Li agitada.
- Que foi Jô? Não gostou?? Não quer que eu durma aqui???
- Arre Liii, adorei, adorei, que porra! Mas para de me dar arrepios, eu tô com faca na mão. E eu... eu... – olhou a loira e se calou. Engoliu em seco. Ela estava com um olhar tão pidão! – Que se dane a faca! – disse rouca, jogando - a  longe. Agarrou Lisa nos braços e a beijou ardentemente.
- Vai ficar comigo, é? – perguntou com os lábios acariciando a boca de Lisa.
- Vou... Jô quero ficar com você. Quero você, Jô. - Afastou-se devagar, olhou os olhos da morena profundamente – quero fazer amor com você. Você faz amor comigo??

"O amor é um acontecimento tão importante na nossa vida que frequentemente nos parece que só ele nos confere o direito de viver.”
Heinrich Hertz

Capitulo XI

Lisa despertou do transe em que se encontrava desde que a morena abrira a porta.
- Err... Oi, posso entrar? - Disse apontando para dentro da casa.
- Ahn? Ah, claro! - Jô se colocou ao lado da porta, dando espaço para Lisa passar – Desculpa, é que acabei de acordar. Lisa passou por ela, tocando ligeiramente em seu corpo. Sentiu todos os pelos do corpo se arrepiarem.
- Uai, está sozinha?
-Tô sim – fechou a porta – minha mãe foi passar o fim de semana na vó e levou a Mariana. Lisa sentiu uma ligeira decepção. Queria ver a menina. Mas logo a decepção se transformou em expectativa.
- Isso quer dizer que você vai estar sozinha esse fim de semana? - Perguntou como quem não quer nada.
- Sozinha? - Jô a observou – Não, não vou estar sozinha. - Viu a loira olhá-la decepcionada. – Você vai estar comigo. - concluiu sorrindo Viu um sorriso iluminar o rosto de Lisa.
- Isso quer dizer que estamos bem, né!
- Não, Li, não estamos. Nós temos que conversar você sabe disso, mas agora não dá. Tô morta. Não dormi nada esta noite.
- Que foi? Foi a Mari? Mas ela não dá trabalho! Jô a olhou meio revoltada.
- Não dá? Fica uma semana com ela e depois me disse isso de novo! - disse já se dirigindo novamente ao quarto. Lisa a seguiu e viu a morena se deitar na cama.
- Vem Li - bateu as mãos na cama, a seu lado. - Deita aqui comigo. Juro que durmo só um pouquinho e depois conversamos. Faz isso por mim?
Lisa a olhou meio sem atitude. “Ela quer que me deite a seu lado? Ora, vamos, Lisa, você sempre fez isso, por que hoje iria ser diferente? Vá em frente, anda.” Ela foi até a cama, ergueu o lençol e se deitou. Imediatamente sentiu uma mão passar por sua cintura. O coração disparou. Olhou para o teto e começou a contar. Ouviu Jô lhe chamar baixinho...
- Lisa.
- Oi, Jô - disse com a voz meio trêmula.
- Obrigada por estar aqui comigo. - Virou o rosto para Jô, a viu dar um sorriso leve, fechar os olhos e logo já estar dormindo. Lisa vira o corpo de lado, se colocando de frente com a morena para observá-la. Parecia mesmo cansada. Ergueu a mão e a passou delicadamente pelo belo rosto. “Ela fica linda quando dorme”. Jô tinha os traços muito bonitos. Uma testa alta, nariz reto, a boca larga, carnuda. O conjunto era tão exótico que era impossível não chamar a atenção. Ficou assim por vários minutos, olhando-a embevecida, até que, vencida pelo cansaço – ela também dormira mal – adormeceu.
Jô acordou lentamente... Sentia uma languidez gostosa, há muito tempo não dormia tão bem. Abriu os olhos e viu Lisa com o rosto virado para ela, dormindo tranquila. Observou- a com um olhar apaixonado. Ela era perfeita. O rosto era tão delicado, a pele tão clarinha. Os traços eram todos harmoniosos, tornando o rosto leve, suave, de uma beleza que só tendia a aumentar com os anos. E ela estava ali, com ela. Era toda sua. Olhou a sua boca que estava entreaberta, úmida. Respirou fundo e soltou o ar lentamente. Que vontade sentia de beijá-la! Ergueu os olhos e... Lisa a olhava. As duas se encararam. Lentamente, Lisa ergueu a mão e tocou o rosto de Jô. Esta a segurou e a fez acarinhá-la.
- Que horas são? Perguntou Li baixinho, observando a amiga com os profundos olhos cor de mel.
- Já é meio dia e quarenta e cinco, tá com fome? Posso fazer algo pra gente comer - falou já se erguendo para sair da cama.
- Não. - Lisa a segurou, sentando-se na cama – Tô sem fome. Fica aqui.
Jô voltou o corpo para a amiga. Sentia-se insegura, sabia que se ficasse ali muito tempo não iria resistir e beijaria a loira. Fechou os olhos um pouco angustiada. Quando os abriu, a viu com os olhos fixos em sua boca. Sentiu uma expectativa grande tomar conta de seu corpo. Parecia que o tempo tinha parado. Lisa desvia os olhos da sua boca e a encara; senta-se de frente para ela com as pernas dobradas para o lado e segura as suas mãos.
- Jô... Desculpa ter deixado você no shopping daquele jeito, eu tava mal – Desculpou-se. Baixou os olhos para as mãos que mantinha entre as suas, soltou uma delas para acariciar a palma da que reteve. Jô sentia calafrios subirem por seu braço e respondeu com a voz trêmula.
- Eu... Li, eu fiquei... sei lá... Não queria que saísse... Seu irmão... Ele...
- Xiuu... - Lisa pôs os dedos em sua boca – não precisa falar. Eu já sei de tudo.
- Eu o magoei Li... - disse baixando a cabeça, seus cabelos cobrindo-lhe o rosto como um manto negro.
- Jô... Você fez o certo. - disse Lisa se ajoelhando na cama, ainda de frente com a morena e, segurando rosto com ambas as mãos, ergueu-o para ela - Fez bem em não iludir ele. O Ju vai se recuperar vai ver. A gente conversou ontem e ele vai sair dessa. Ele tá bem, viu.
- Ai Li... tomara viu! Doeu muito magoar ele daquele jeito – disse fechando os olhos enquanto uma lágrima solitária descia por sua face.
Lisa  enxugou a lagrima delicadamente, olhando para o rosto de Jô... Os olhos fechados, a boca macia... macia... linda... Jô sentiu mãos carinhosas enxugarem a lágrima que escorria por seu rosto... “É tão bom sentir este carinho... tão gostoso”. Quando ainda saboreava o calor daquelas mãos, sentiu um suave tocar de lábios nos seus... Seu coração disparou imediatamente enquanto seu corpo tremia. Os lábios de ambas se encontram... Tímidos, num roçar suave. Jô instintivamente levou as mãos à cintura de Lisa e a puxou mais para perto de si. Um gemido escapou suave da boca de Lisa, que queria mais, mas que não soube como demonstrar isso. Seguindo seu instinto, afastou suavemente o rosto e tocou o lábio inferior de Jô, pressionando-o com o polegar, obrigando-a a se entreabrir. Olhou para aqueles lábios entreabertos e então baixou os seus de encontro a eles, desta vez com mais vontade, mais ânsia de senti-los por completo. Jô, enlouquecida com a iniciativa de Lisa, apertou-a mais em seus braços e estremeceu violentamente quando sentiu a língua penetrar por entre seus lábios. “Deus, que delicia!” Ela não conseguia acreditar que aquilo estivesse realmente acontecendo. Um beijo tão esperado tão... desejado! Sugava a língua de Lisa, insegura. “É tão gostoso o sabor”. O beijo terminou tão suave quanto começou. Lisa ergueu os olhos para o rosto de Jô e pode a ver ainda com os olhos fechados e as mãos em sua cintura. Observou-a passando a língua suavemente nos lábios como a saborear a lembrança do beijo e assim voltar a sentir seu sabor.
- Jô... eu tô... Jô... – disse que a voz quase sumida. Joyce abriu os olhos, observou com um desejo evidente a loira à sua frente e disse
- Não diga nada, Lisa... Não diga nada – e buscou novamente os lábios da loira, desta vez não pedindo, mas exigindo, tomando. Invadiu com a língua, sua boca estava cheia de vontade de sentir de novo aquele sabor. Lisa correspondeu com o mesmo desejo, levando as mãos aos quadris da morena. Sentiu uma necessidade imensa de senti-la por completo. Ouviu Jô gemer e, então, os apertou com mais força.
- Jô... Jô... - disse sussurrando entre os lábios da morena.
O telefone tocou de repente, assustando-as e levando-as a se afastarem automaticamente. Jô olhou desoladamente para o aparelho, sem iniciativa, ainda em choque com o que acabara de acontecer entre elas. Quando ele parou de tocar, voltou o olhar para Lisa que a observava com os olhos cor de mel, escurecidos de desejo. Desceu os olhos para seus lábios sem notar que expressava claramente em seu rosto o desejo de beijá-los novamente.
- Ai Jô... não me olha assim... eu... Jô... - diz a loira se aproximando dela novamente. – Eu sou louca por você... louca! Me ajuda... que eu faço?- Abaixa a cabeça meio sem jeito, tentando esconder sem sucesso o olhar cheio de desejo. – eu... eu preciso de você Jô... preciso de você!
- Eu também, Lisa... Eu também – sussurrou Jô estendendo os braços e abraçando Lisa com força. - quero você para sempre aqui... em meus braços... sendo minha... minha... só minha.

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
Clarice Lispector

Capítulo X

O sábado chegou ensolarado. Lisa olhou o relógio... 8 horas. Levantou-se num salto e foi imediatamente ao banho. Ao chegar à cozinha sentiu o cheiro delicioso de café.
- Hummm... Ai! Tava louca num cafezinho – disse dando um beijo no rosto da mãe, que estava sentada à mesa. – Bom dia, mãe.
- Bom dia, Lisa, dormiu bem? - Perguntou observando o rosto cansado da filha.
- Na verdade não, mãe. Minha mente tava a mil. Ontem briguei com Jô. - Respondeu comendo um pedaço de pão.
- De novo? Vocês só brigam meu Deus! O que foi desta vez?
- Ah, ela tá implicando ai com um carinha que tá a fim de mim.
- Ah, é mesmo? - A mãe tentou disfarçar o interesse – Mas e você? Está a fim dele?
- Bom - acabou de engolir o pão – na verdade tava pensando seriamente em ficar com ele, mas a Jô me fez ver que não tem nada a ver a gente namorar só por namorar. Quando chegar a pessoa que quero mesmo, namoro. Não vou me cobrar.
- Entendo. ...- A mãe observava a filha – vai chegar o homem certo filha, é só ter paciência. Concordo com Jô, não se deve namorar por namorar. Ainda é nova, não precisa se precipitar. Além de quê, devemos ao máximo evitar magoar alguém. Despertar um sentimento sem intenção de retribuí-lo é uma maldade muito grande com o outro.
- É... é sim mãe – disse Lisa, a mente automaticamente indo ao irmão. Balançou a cabeça tristemente e tomou um gole de café – Mas nem sempre conseguimos evitar este sentimento, né. Nem sempre conseguimos retribuir.
- Com certeza, mas temos ao menos a consciência tranquila que não alimentamos esperanças inúteis, certo? - Observava a filha atentamente e, a seguir - Tem algo a me dizer? - Perguntou repentinamente.
- Eu? - Lisa olhava a mãe, assustada - Eu não mãe... eu não. Hã... Júnior levantou?
- Não, ainda não. O que ele queria ontem com você?
- Ontem? Nada... Só conversar. A gente conversa pouco né. - Disse, acabando de tomar seu café. – Bom mãe, vou indo nessa. – Levantou-se antes que a mãe pudesse fazer mais perguntas. “Se tem alguém que deve dizer algo a ela, se quiser, é Júnior.”
- Aonde vai? - Perguntou Paula vendo a filha se dirigir à porta de saída.
- Vou lá na Jô. Quero ficar na boa com ela senão fico ansiosa o dia todo.
- Pelo amor de Deus, Lisa! Está muito cedo para ir à casa dos outros.
- Que é isso mãe é mais de 9 horas. Acha mesmo que Mari as deixa dormir mais que isso? Só rindo, hem! - Saiu de casa rindo, enquanto a mãe balança a cabeça. “É, pensando bem, a Lisa tem razão. Quem tem filho pequeno não sabe mais o que é dormir até tarde.” Pensou sorrindo.

Jô acordou pregada. Não dormiu nadinha. “Saco” pensou enquanto caminhava automaticamente para o banheiro.
- Mariana hoje abusou viu! - resmungou – Bebês deviam nascer mudos e já sabendo cagar.
Um pouco depois foi ao quartinho da filha, mas viu que ela não se encontra no berço. Dirigiu-se à cozinha e... pimba! Lá estava ela no colo da avó.
- Paparicando a neta, né vó! Essa coisinha aí não me deixou dormir nada. - Disse dando um beijinho na filha e outro na mãe.
- Meu Deus, Jô! Que cara! - Lúcia ria quando sua filha ergueu o rosto todo amarrotado para ela. - Desculpe rir, mas você esta horrível.
Jô olhou a mãe, linda, de banho tomado e exalando frescor e pôs a mão no rosto.
- Ai mãe, por mim dormiria o dia todo. Lúcia a observou. Sempre que podia ajudava a filha, mas não a deixava se isentar das obrigações de ser mãe. O quartinho de Mariana se interligava com o de Jô e, pela cara desta, percebia-se claramente que a neta resolvera sair de seu normal e dar trabalho à noite.
- Jô, querida. – disse enquanto observa a filha tomar uma xícara inteira de café num gole. – Se quiser levo Mariana hoje comigo para sua avó e você fica descansando, quer?
- Ai mãe, faz isso? - Olhou extasiada para a mãe. – Eu não quero abusar, mas tô mesmo derrubada.
- Não será abuso, Jô. Sabe que adoro sair com Mariana. - Disse dando um beijo no rosto da neta, que quase dormia em seus braços. Jô olhou a filha, “abusada, agora dorme, né!” pensou, com um sorriso. O telefone tocou assustando as três. Jô pôs a mão no coração e Mariana, no colo da avó, arregalou os lindos olhos verdes.
- A vingança tarda, mas não falha! - disse Jô, rindo muito ao ver a filha acordar num rompante. Pegou-a do colo da mãe, para que esta fosse atender ao telefone. Quando voltou uns minutos depois, flagrou Jô dando pedacinhos de pão à filha. Sentou-se na cadeira à frente das duas para observá-las.
- Jô, ela é sua cara! - A filha ergueu o rosto, orgulhosa. - É né! Mas de olhos verdes. Quem me dera ter estes olhos - comentou sorrindo.
- Os seus também são lindos.
- Claro, puxaram os seus, né dona Lúcia! - brincou olhando para a mãe.
- Hum hum, isso mesmo! - Lúcia sorriu. – Jô, era sua avó no telefone. Seu avô resolveu ir pescar com aquele amigo dele... qual o nome mesmo?
- João César, mãe.
- Esse mesmo. Bom, ela pediu que durmamos lá, não quer ficar só.
- Ai mãe, por favor, me tira dessa. - “Pronto lá se foi o meu descanso”, pensou – Mas pode ir, eu fico com Mariana na boa, nada vai acontecer.
A mãe observou Jô atentamente. Sabia que o dia de ontem fora estressante para a filha. Ouvira toda a conversa com Júnior e se solidarizava com ela.
- Olha se quiser e não se importar levo Mariana. Sabe que sua avó a adora. - ofereceu.
- Sério, mãe? Nossa!! Eu quero sim. Mas não vai atrapalhar?
- Fiz a oferta não fiz? - Lúcia pôs as mãos sobre o tampo da mesa e se levantou. - Vamos lá arrumar as coisas para sair. As duas saíram da cozinha. Enquanto a mãe arrumava uma malinha para a neta, Jô observava a menina em seu colo. Sentiu um aperto no coração. Seria a primeira vez que a filha dormiria longe dela. Ergueu o rosto para a mãe.
- Mãe, se ela sentir qualquer coisa, me liga tá?
- Ok, filha.
- E se ela chorar, também me liga.
- Ok, filha.
- E se ela sentir saudade me liga que falo com ela no telefone, assim ela ouve minha voz, tá?
- Ok filha. - Lúcia parou de arrumar a malinha e olhou para a filha.
- Mãe e a amamentação? Ela não vai mamar o que fazemos?
- Filha tem leite Nan e papinha. Ela não morrerá de inanição ok?! - Lúcia voltou a arrumar a mala.
- Ok... - Jô olhou sua filha e sentiu uma angústia tomando conta de si.
- Mãe acho melhor ela ficar aqui, eu não ligo não. Pode ir sozinha. Vai que depois acontece algo. Lúcia parou, exasperada, o que está fazendo e encarou sua filha.
- Joyce, por acaso eu criei você e, pelo que vejo você está perfeitinha. – a olhou de cima abaixo – Deixe de ser chata! Sei muito bem cuidar de minha neta, que coisa.
- Desculpa mãe, não foi por mal. - Jô falou sem graça. - É que tá dando um aperto no coração saber que ela vai ficar o fim de semana fora.
- Eu sei como é - a mãe deu um sorriso compreensivo – Jô aproveita este fim de semana e vá ao clube. Chame Lisa, vão passear. Ao ouvir o nome de Lisa, Jô ficou séria e pensativa.
- É mãe, pode ser não sei. Mas de momento vou é tomar banho e cair de novo na cama. - falou, rindo.
- Sim, faça isso. - Lúcia fechou a malinha – Pronto. Agora é só pegar a comida na cozinha. Já volto. - Disse saindo do quarto. Joyce voltou o olhar para a filha que adormecera. Abraçou-a com mais carinho. “Tá filhinha, eu deixo você dormir, viu? Mamãe é mais legal que você, hunf!”

Joyce olhou o relógio sob o sofá. Oito horas. A mãe acabara de sair com Mariana. Teria um final de semana inteiro pra ela. Pensou em ligar para Lisa. “Hum melhor descansar um pouco antes, depois ligo pra ela”. Ainda estava baqueada com o lance de Júnior, no dia anterior. Aliás, com o lance de Júnior e Lisa. Ainda não se conformava dela tê-la deixado sozinha no shopping, naquela situação. Tomou um banho, pôs um shortinho curto, de malha e uma mine blusa do mesmo tecido, deitou-se na cama e dormiu quase que imediatamente. Ouviu um barulho ao longe... “Ai Deus só pode ser pesadelo” pensou Jô pondo o travesseiro por cima da cabeça ao notar que era a campainha da porta. “Vou ignorar, assim a pessoa vai embora.” A campainha disparou novamente, num código conhecido para ela. Era o código que Lisa usava quando ia à sua casa. Tocava duas vezes, parava, mais duas, parava e depois uma. Levantou-se e ficou por um momento sem saber o que fazer. Olhou-se ligeiramente no espelho “Que horror!” pensou se olhando e foi atender a porta.

Lisa já estava impaciente, na porta. “Será que elas não estão?”. Olhou o relógio, eram mais de 9h30. “Será que saíram?” Tocou novamente, desta vez usando o código que ela e Jô inventaram para saber que eram elas na porta. Ouviu um barulho e percebeu movimentação na casa. Aguardou que lhe atendessem. Estranho, não ouvia Mari, ela sempre há esta hora, estava acordada. A porta se abriu e Jô apareceu com a cara de quem acaba de acordar. Lisa a olhou fascinada. A morena estava com um short e uma blusinha de malha que deixava pouco de seu corpo para a imaginação. Os cabelos negros soltos, indo bem abaixo dos ombros, estavam ligeiramente atrapalhados. Seu olhar, contrastando com o rosto cansado, brilhava intensamente. Lisa sentiu o coração disparar e as mãos começarem a suar. Não se mexia. Tudo que queria era olhar para Jô para sempre.
Jô ao abrir a porta, sentiu que o coração, que já estava a mil por hora, quase parar. Lisa estava ali, linda, loira, vestida com uma bermuda jeans até o joelho, uma blusinha leve e sandálias. Simples, mas maravilhosa. Tudo caía bem nela. Tinha um corpo alongado e elegante. Sua cintura era tão fina que os quadris, mesmo sendo estreitos, ganhavam um formato maravilhoso. Resumindo, ela tinha o corpo simplesmente perfeito. Seus olhos brilham ao perceber o olhar da amiga passear por todo o seu corpo. Agora tinha certeza que a atração que sentia era recíproca. Não queria entender como ela surgira nem o porquê. Tudo que sabia é que queria viver tudo isso. Mas e Lisa? Será que ela, sendo tão certinha, arriscaria viver esse amor que estava aflorando entre elas?

“Para viver intensamente é necessário conviver com os riscos.”
Roberto Shinyashiki

Capítulo IX

Lisa se sentia morrer por dentro. Sabia que deixara Jô numa situação horrível, mas a angústia dentro de seu peito iria explodir se não saísse dali. Deixar a mulher que desejava com seu irmão que também a queria, foi desesperador. Começou a circular sem rumo pelo shopping, sem saber exatamente por onde andava. Segurou-se no corrimão e olhou o vão à sua frente. Quantas pessoas! Eram tantas, e todas com seus problemas. Não sabemos o que se passa nas suas mentes, mas tinha certeza que não era a única sofrendo ali. Direcionou o olhar a sua frente, para o outro lado do shopping e... surpresa! Viu seu irmão e Jô se dirigindo para a saída do shopping. Sentiu o coração oprimido. “Mas porque eles estão saindo tão cedo?”, Observou a mão de seu irmão tocar de leve as costas de Joyce e sentiu uma vontade louca de ir atrás deles e a arrancar dali. Respirou fundo, ergueu o olhar cheio de lágrimas e tornou a caminhar pelas lojas do shopping. Parou em frente à loja que Jô vira o vestido. “Realmente, ficaria lindo nela”, pensou. Balançou a cabeça enquanto se senta em um banco. “Ok, Lisa, vamos ponderar”, segurou o queixo, “reveja a situação. O que Jô ia te dizer na mesa? Bom, não é difícil deduzir. Ou estou imaginando coisas?” Balançou a cabeça lentamente e baixou o olhar ao chão. “Lisa, Lisa! Isso não é brincadeira. Você está gostando da sua melhor amiga. Não consegue mais vê-la sem imaginar seu beijo, seu corpo... Que corpo, meu Deus!”, esfregou a testa, como que querendo afastar o pensamento que fazia seu corpo queimar, “Estou desejando uma mulher!”
Sua posição era tão desolada que atraia os olhares de diversas pessoas. Era uma linda jovem parecendo tão derrotada, amargando solitária, algum pensamento irremediável. “Meu Deus!”, sentia seus pensamentos darem um nó, “E o Júnior, aff! Ele gosta dela! Como nunca notei isso? E se ela der bola pra ele?? E se ela aceitar namorar com ele?”. Ela se levantou do banco num rompante e olhou para os lados, perdida, confusa. “Onde será que eles foram? Devem estar no ponto de ônibus, ainda”. Pensando nisto, correu para fora, mas eles não estavam onde para a lotação. “Onde foram? Ai, Deus, que merda! Onde foram? E se eles tão namorando agora? Nem vou pensar, não pode ser!” Resolveu ir para casa de táxi.
No caminho começou a se lembrar como ela e Jô sempre foram próximas. Poderia mesmo uma amizade assim se tornar amor? Poderia o amor acontecer realmente entre duas mulheres? E o mais inquietante: ela saberia enfrentar isso? “NÃO! Não saberia!” Seus pais iriam matá-la. E Júnior? “Cara ele tá apaixonado pela Jô. E... Eu também”. Olhou pela janela do carro. Sua vida parecia mesmo seguir um destino inimaginável a ela. Será que teria coragem de ir mesmo por este caminho?
Lisa chegou a casa triste e angustiada.
- Oi mãe. - disse ao vê-la deitada no sofá vendo televisão.
- Uai, olá filha, chegou cedo! – estranhou o semblante triste da filha – o que aconteceu?
- Nada não e só uma dor de cabeça, achei melhor vir pra casa. Vou deitar tá? Boa noite.
- Boa noite... – a mãe a observou ir para o quarto silenciosa. Sabia que não adiantaria falar agora com Lisa. Quando esta se fechava em seus pensamentos ninguém conseguia tirar nada dela. Estava tão estranha ultimamente. Queria tanto que se abrisse com ela. “Bem”, pensou, “haverá o momento certo” e volta a assistir a novela, porém com a mente voltada para a filha.
Lisa foi direto para o banho. Tirou o vestido e se olhou no espelho. É... ela não era feia. Deslizou as mãos pelo corpo, sentiu toda sua maciez. Segurou os seios e observou o gesto. Agradava-lhe o que via. Tirou o sutiã e os segurou novamente. Fechou os olhos e imaginou que segurava os seios de Jô. Imediatamente sentiu um arrepio e uma dorzinha gostosa abaixo do estômago. Sentiu os bicos dos seios enrijecerem e os apertou de leve. Desceu uma das mãos ao sexo, sobre a calcinha... Ele estava... “Molhado!!” Arregalou os olhos de repente, ciente de seus pensamentos. Parou imediatamente de se tocar, tirou o resto da roupa e foi para baixo do chuveiro. Ergueu o rosto e deixou a água escorrer por ele. Começou a chorar lentamente. Já se tocara outras vezes, mas nunca tocara em si sentindo não ser ela. Porque ela, na verdade, não estava se tocando... tocava Jô.
Já deitada na cama, Lisa procurava não pensar em Jô e Júnior juntos. Tentava se distrair com uma leitura leve, mas toda hora enxugava uma lágrima que insistia em cair. Fechou o livro pensando em desligar a luz e se entregar de vez ao pranto quando viu a porta de seu quarto ser aberta com brusquidão.
- Hei, não se usa mais bater na porta, não!? - Disse puxando a coberta sobre o pijaminha curto.
- Mana nem ligo, já te vi com menos que isso. Desculpa entrar assim, nem pensei - sentou angustiado na cama.
- Que foi Júnior? - Lisa se sentou ereta
- Olha... Eu vi que você deixou uma brecha pra eu ter um olé com a Jô. Tava na cara assim que eu queria estar com ela né?! Lisa o olha meio desconcertada. “Ele pensou que o deixei lá com ela para ter uma oportunidade pra se declarar? Ai Lisa a coisa só tá piorando”, pensou automaticamente pondo a mão na testa.
- Lisa, - Júnior a olha desesperado – ela me deu o fora!
- Hã?
- Ela me deu o fora - Disse baixando a cabeça. Lisa viu o irmão por a mão no rosto e inclinar o corpo à frente, se balançando para frente e para trás. Ficou sem ação. Os sentimentos se embolaram dentro de si. Ao mesmo tempo em que sentia uma alegria por Jô tê-lo negado, também se condoía com a dor que via no irmão. Como nunca percebera antes que ele gostava de Jô? Estava tão voltada para si mesma que nada via ao seu redor.
 - Mano, fica assim não! – Tocou lentamente as costas de seu irmão.
- Lisa, gosto dela desde os 17 anos cara! Sempre tive certeza que a gente ia ficar junto. Mesmo quando ela namorou aquele babaca, eu sentia que ia dar, sim. Que ainda tinha chance. Mas hoje... Cara... Não sei por que, mas deu um desanimo uma certeza que ela nunca vai ser minha. Tô arrasado. - “Bom agora tenho certeza... Sou uma irmã relapsa.” Deduziu mentalmente Lisa se aproximando do irmão e o abraçando.
- Jú, a Jô nos vê como irmãos, não fez por mal.
- Li, não sou irmão dela, saco!- Junior a interrompeu. Que merda cara, não sou – a abraçou forte. Lisa o segurou nos braços carinhosamente pensando como a vida era injusta. “Porque gostamos de quem não gosta da gente?” Não percebia que nem ela nem Jô não se viam como irmãs. Que o que era amizade transformara-se num sentimento maior e que ambas ainda tentavam entender, tanto o que sentiam, como todas as transformações que ocorriam dentro delas.
- Jú, e agora? - Perguntou desalentada pela tristeza de seu irmão.
- Agora, Li? Agora é tentar olhar pra ela sem desejar, tentar fingir que não disse nada. Ai meu, vai ser foda. – saiu dos braços da irmã, balançando a cabeça, a olhando triste, porém conformado - Li não conta pra ninguém, tá? O Nando nem pode imaginar, nem o pai e a mãe. Fala com a Jô pra ficar na dela. O idiota aqui não vai mais dar de bobo.
- Pode deixar, eu digo sim, a Jô é discreta nisso. Ela também deve tá arrasada. E você não é idiota – olhou para o irmão solidária. Sentia-se mal pelo grande alívio que invadia seu peito, porém... não podia negar, estava mesmo aliviada! Não tinha como evitar esse sentimento que tomou conta de seu coração. Ainda assim, não queria ver seu irmão sofrendo.
- Jú, vai ficar tudo bem você vai ver – não sabia o que dizer, mas queria vê-lo bem.
- É, tem que ficar. Bom, vou pro meu quarto – levantou-se e olhou para a irmã – Lisa isso fica aqui entre nós mesmo, entendeu?
- Fica sim Júnior. Força aê mano. - Disse enquanto o observa sair do quarto com os ombros caídos, numa postura de derrota igual a que ela estava alguns minutos antes.
Lisa dobrou os joelhos na cama e os abraçou. Olhou para frente pensativa e assim permaneceu por vários minutos. Sentia que as coisas teriam que, de alguma forma, caminhar para frente e isso pedia atitude. “Pois é Lisa, está na hora de você ser mais madura, né”, pensou, colocando o queixo nos joelhos e dando um sorriso enigmático, “Me aguarde Jô”.

 "Você não pode impedir que os pássaros da tristeza voem sobre sua cabeça, mas pode, sim, impedir que façam um ninho em seu cabelo.”
Provérbio Chinês

Capítulo VIII

Jô olhou o relógio assim que entrou na sala de estar de sua casa. “Será que ela já chegou a casa? Onde será que está?”, pensou angustiada. Sentiu um toque em suas costas e virou-se imediatamente para Júnior que estava atrás de si.
- Jú é melhor ligar pra sua casa. Às vezes Lisa ainda não chegou.
- Hei Jô, relaxa! Lisa não ia pra casa esqueceu? Ia encontrar aquele rapaz... Qual o nome dele?
- FRED! - Ela respondeu quase rosnando.
- Nossa! - Júnior arregalou os olhos tão parecidos com os de Lisa – Dá pra ver o quanto gosta dele. Mas sabe, acho legal a Lisa namorar. Tava na hora, ela é muito gatinha e muito gente boa pra ficar só. Apesar de que hoje ela tava bem estranha. Não quer mesmo falar porque vocês brigaram?
Júnior insistira todo o caminho para saber o motivo da briga das duas. Mas como explicar se nem mesmo Jô conseguia entender bem o que acontecera? Aliás, a briga agora era o de menos. Estava preocupada era com onde Lisa estava e com quem! “Ai que ódio”, pensou, “Ai se ela beijar ele, eu me mato.” Não conseguia imaginar Lisa beijando ninguém. Ignorou abertamente as palavras de Júnior e seguiu para o quarto da filha.
- Olha Jú, ela tá dormindo!- Ergueu as mãos delicadamente e ajeitou melhor a coberta por sobre a filha. Júnior a observou e ficou surpreso com a mudança de expressão no rosto dela. De angustiado passou imediatamente para amoroso, terno. “Ahh queria tanto que olhasse pra mim assim também”, pensou sonhador.
- Jô é maravilhoso como você se adaptou logo ao papel de mãe. - Disse baixinho, quase ao ouvido dela. Jô teve um leve sobressalto ao ouvi-lo, mas respondeu também baixinho.
- Nem eu acredito sabe. Nunca me imaginei assim, sei lá. É muito estranho. Mas não consigo imaginar mais minha vida sem ela. Fez um gesto para que ele a acompanhasse até a porta, que deixou semiaberta, e deixou apenas uma luz fraquinha acesa no quarto. Os dois saíram para o corredor e deram de encontro com Lúcia.
- Jô? Júnior? Olá rapaz, como está? - Parecia surpresa ao vê-lo.
- Olá Lúcia. É também um prazer vê-la! - disse dando-lhe dois beijinhos no rosto. Junior não conseguia jamais chamá-la de senhora, pois era muito nova e bonita. Lúcia, ao mesmo tempo em que passava um ar maduro, mantinha uma postura bem juvenil. Ninguém a imaginaria avó.
- Mãe, a Mariana deu trabalho?
- Nenhum filha, foi um doce. Aliás, ela é um doce, nunca vi uma criança que chora tão pouco. Com certeza não puxou a mãe. - disse rindo
- Ah, sua sem graça!- Jô olhou encabulada para Júnior.
- Mas, cadê Lisa? Vocês não saíram juntas? - Lúcia olhava interrogativamente para a filha, estranhando Lisa não estar com ela e sim Júnior.
- Ela tinha um compromisso e teve que sair mais cedo. - foi Junior quem respondeu ao notar que Jô nada disse à mãe - Logo deve estar em casa.
- Ah sim!? Bem... - Lúcia olhou pensativa para os dois – mas ainda assim chegaram cedo, ainda não são 21h. Querem que eu prepare um lanche?
Jô olhou surpresa para a mãe. Entendera claramente o olhar dela. Será que imaginava que ela e Júnior estavam de... paquera? Olhou para o irmão da amiga e entendeu bem o porquê da ideia de Lúcia. O rapaz se posicionara por trás dela e tocava possessivamente sua cintura, mesmo que bem de leve. “Só me faltava essa”, afastou-se não muito delicadamente do rapaz que a olhou um tanto decepcionado.
- Lúcia vou aceitar sim estou com muita fome mesmo. Não comemos nada no shopping. - Júnior respondeu antes de Jô ter qualquer oportunidade de dizer não. Jô o olhou séria. Não era mulher de deixar o que a incomoda para depois, mas este era Junior, o seu irmão postiço. Irmão... “Aff, pensou em desespero ao notar que ele estava se aproveitando de todas as oportunidades para estar com ela a sós.
- Isso, mãe! Mas prepare para três, Já que está em casa é claro que não querermos que fique só, néeee!!!! - E olhou fixo para a mãe, olhos meio arregalados. A mãe só não entenderia seu sinal se não quisesse.
- Filha – a mãe também a olhava fixo - Acho que você tem assuntos a tratar com Júnior. Além disso, estou vendo um filme. Pensando bem, vou voltar à televisão. – Se virou para o rapaz – Júnior você é de casa, podem ir os dois para a cozinha e fazer algo para comerem. - Virou-se e saiu em direção ao quarto. Jô a observou caminhar pelo corredor em direção ao quarto, “perfeito, hoje é o dia dos foras e das situações constrangedoras”. Não acredito que estou nessa situação!” Virou-se lentamente para Júnior que a olhava, agora sério.
- Jô, você percebeu, né?
- Percebi o quê? - Fez-se de desentendida
- Jô, precisamos conversar, - Júnior estava nervoso. Ela podia perceber que pequenas gotas de suor surgiam acima dos lábios do rapaz. “Ai, Nossa Senhora Desatadora dos Nós!” Rezava mentalmente, “juro que não assalto mais a geladeira à noite, que me tornarei a melhor aluna da sala, que vou à igreja aos domingos, mas, por favor, não o faz dizer o que estou pensando que vai dizer”.
- Jô... sei que não é cega, que já há algum tempo nota que eu, bem... Eu... eu tô a fim de você! – ele tomou coragem e falou tudo de supetão, olhando-a entre ansioso e apaixonado. “Perdeu a promessa, Atadora de nós!!” Gritou mentalmente Jô que colocou as mãos na cabeça e começou a andar pela sala, sem encarar o rapaz.
- Sanduíches. Quero sanduíche!- Disse repentinamente, indo rápido à cozinha.
- Jô sei que você não está surpresa! - ele falou a seguindo de perto - Olha a gente sempre combinou. Lembra bem o passado! Sempre tivemos assunto e eu não me importo com Mariana, ao contrário, adoro ela. E meus pais te adoram. Você ainda não percebeu, mas a gente se gosta. É só me dar uma chance. - disse disparadamente, sem respirar. Observava Jô abrindo a geladeira, agitada, e procurando, feito cega, algo lá dentro. Aproximou-se por trás e quando ela se virou a segurou nos braços. Jô arregalou os olhos.
- Ju... Junior, isso não vai dar certo. Foi interrompida pelos lábios do rapaz que desceram sobre os seus. Júnior a beijou quase em desespero e ela se sentiu sufocar na angústia contida naquele beijo. Ele a abraçou tão forte que ela mal conseguia respirar e, quando abriu a boca em busca de ar ele aproveitou e invadiu sua boca com a língua. Jô sentiu um calor gostoso com o beijo, mas, uns segundos depois, se lembrou de Lisa e começa a se debater. Sentiu que o rapaz estava descontrolado e começou a socá-lo com as mãos. Finalmente se libertou, quase caindo dentro da geladeira.
- PIROUUUU? Júnior, você enlouqueceu?? Cara tu é meu irmão!! Meu Deus meu irmão me beijou! – começou, desesperadamente, a esfregar a boca. Júnior a olhou magoado. Estava cheio de desejo e angústia.
- Não sou seu irmão, Joyce. Não se iluda. Olho você como mulher e não como irmã. E você também não me vê como irmão. Você tava correspondendo o beijo. Jô o olhou assustada, depois o empurrou forte com as mãos. Fechou a geladeira e caminhou com passos duros para a sala. Virou-se para o rapaz, respirando fundo repetidamente, em busca de tranquilidade para falar. - Eu o vejo como irmão sim, Jú. Para com isso. Não quero magoar você. E se tratei você diferente é porque você é como Li, parece com ela. Você passa paz, tranquilidade, me deixa à vontade.
- Não é verdade Jô - Júnior não queria acreditar que as coisas estavam seguindo um rumo que ele não queria, não aceitava – você gostou se parou é porque tem essa ideia boba que sou seu irmão. Sai dessa, nem crescemos juntos assim.
- Júnior, já disse que não tem nada a ver! Pô, cara, não estraga a nossa amizade, não estraga meu contato com vocês – ela pediu em desespero. Júnior a olhou sério e angustiado. Por um momento ela sentiu seu coração bater, um batido diferente, desejoso, prazeroso com o sentimento que via nos olhos do rapaz, mas logo depois a angústia voltou a imperar nele. - Ju, eu... eu adoro você, mas... não como homem, não como namorado. Desculpe, não quero magoá-lo... Não dá. Eu nunca te dei esperanças, nunca. Jamais brincaria com isso. Por favor, vamos voltar o tempo e esquecer essa bobagem e...
- Bobagem??? Bobagem?? - Ele a interrompeu raivoso – Pode ser para você, mas respeite o que eu sinto. E não, não volto o tempo porque isso não mudará o que sinto. – A olhava magoado – Ok Jô, se é o que quer não falo mais disso. Mas saiba uma coisa. Você está perdendo, entendeu! E pode dizer sempre o contrário, mas você quis sim, por um momento você gostou de estar comigo. A partir de hoje caio na real e vou fazer exatamente isso. Esquecer. Continue sim indo lá em casa, mas nunca, nunca me veja como irmão. Porque não sou, entendeu! Não sou!! - Júnior virou-se para a porta de saída, abriu-a e sai sem lhe deixar a mínima oportunidade de dizer nada.
Jô se jogou no sofá e cobriu o rosto com as mãos. Começou a chorar e então sentiu braços a seu redor. Ergueu o rosto para sua mãe que a olhava compreensiva, estreitando o abraço. Jô então a enlaçou também, caindo em prantos. Não foi preciso dizer nada. Não existem palavras para explicar a mágoa que às vezes causamos em pessoas que nos são tão importantes. Mesmo que às vezes seja preciso. Após um tempo, ambas escutaram um choro baixinho. Levantaram-se e, de mãos dadas, caminharam juntas para o quarto de Mariana. Jô segurou a filha nos braços e a ninou, encostando o rostinho no seu. Olhava para mãe, que lhe oferecia um olhar doce, acompanhado de um sorriso suave. Retribuiu tristemente o sorriso da mãe, que a enlaçou num abraço triplo, repleto de amor. Elas não estavam sós.
Júnior chegou em casa angustiado.
- Mãe, Lisa chegou? - A mãe o olhou do sofá, estava assistindo novela.
- Sim Júnior, está no quarto. Aconteceu alguma coisa? Ela chegou bem triste. - Mas o filho não a escutava, estava se encaminhando ao corredor que levava aos quartos.

 “Todos os dias Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. O instante mágico é o momento em que um "sim" ou um "não" pode mudar toda a nossa existência”.