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sábado, 16 de agosto de 2008

Capítulo XIX

Lisa entrou em casa sentindo uma grande apreensão no peito. Respirou fundo e olhou ao redor. A sala estava vazia. Ouviu um barulho na cozinha e caminhou para lá sentindo a cada passo as pernas mais pesadas. Sentiu uma vontade louca de desistir de tudo e fugir para seu quarto trancando a porta para sua duvidas, seus conflitos, enfim, sua vida real.
- Lisa é você? Ouviu sua mãe a chamar e o coração disparou. Esfregou a mão na testa. ‘Coragem Lisa’.
- Sou eu mãe, está só?
- Sim, filha. – Paula viu a filha entrar na cozinha e enxugou a mão no pano de prato. – O jantar está pronto. Vai comer agora?
- Err... não... eu... eu estou sem fome - Lisa a olhou em expectativa. – Mãe os meninos vem comer aqui?
- Só o Junior. Fernando está cobrindo algumas aulas de um colega e só volta mais tarde.
Lisa sentou na cadeira e observou a mãe arrumando a mesa. Sentiu um bolo enorme na garganta e ao levantar os olhos percebeu sua mãe a lhe encarar. Ela lhe sorri e Lisa sentiu os olhos se encherem de lágrimas. ‘Deus, não quero perder o amor de minha mãe’.
- Mãe... eu... eu...
- Lisa...
- AMORES DE MY LIVE! Lisa saltou da cadeira apavorada segurando a faca que estava a sua frente em punho.
- PAIIIIII EU TE MATO! - Gritou, vendo o pai segurar a barriga de tanto rir. Lisa olhou indignada para a mãe, mas a viu olhar o marido com um sorriso complacente de quem já está conformada com as atitudes inesperadas dele. O pai lhe deu um grande abraço de urso tirando a faça de sua mão.
- Lisa, minha amada filha, cuidado com esta faca. Não sabia que tinha pensamentos assassinos com seu próprio e amado pai.
- Meu querido e amado pai, descobri hoje que te acho uma tremendo de um crianção insuportável! ME SOLTA!
- Que isso menina foi só um sustinho.
- Me solta paiiii! – gritou Lisa tentando se soltar dos braços paternos.
- Só se me der um beijo – dizendo isso o pai encheu de ar a bochecha direita e a virou para o rosto de Lisa, que o olhou revoltada, mas, sem saída, estalou um beijo na mesma.
- Satisfeito? Agora me solta – o pai a soltou rindo e caminhando em direção a esposa, lhe dá um afetuoso beijo na boca. Lisa observou o carinho entre os pais e sentiu o aperto dentro de si aumentar. ‘Deus, não quero perdê-los. Eles vão me matar, não vão aceitar”. Virou-se e caminhou em direção à porta.
- Lisa não vai comer?
- Perdi a fome, mãe.
- Que isso Lisa, seu pai só brincou. Não é motivo para deixar de jantar menina! – Lisa olhou o pai que agora a olhava meio surpreso. Seu coração se enterneceu. Como era linda a relação dos dois. Que família maravilhosa ela tinha.
- Tem razão, mãe. Desculpe pai, é claro que vou jantar com vocês – sentou-se à mesa já se servindo de uma grande colher de arroz.

Joyce caminhou lentamente para o ponto de ônibus. Com os pensamentos vazios e um olhar distraído não viu o carro que parou ao seu lado.
- Carona, linda dama? - assustada, olhou para o carro e viu Carlos lhe sorrindo do volante.
- Não... Carlos obrigado eu... prefiro ir de ônibus, ok.
Carlos estacionou o carro, saiu e caminhou em direção a ela.
- Joyce olha, eu não vou fazer nada, só vou lhe dar uma carona, ok. Além que você não me deu o seu endereço para que eu possa lhe pegar na sexta.
- Me... pegar??? – Jô entrou em pânico. – Esta louco? Não quero você indo a minha casa! - ao perceber que gritara, avermelhou. – Err... desculpe... é que... bom eu... Carlos eu tenho uma filha. Não quero... bom... é isso. Sou mãe solteira e não quero que minha filha me veja com ninguém. Não agora. – fechou os olhos angustiada: ‘ Agora é hora do fora’. Sentiu então uma mão lhe tocar delicadamente o rosto e abriu os olhos. Carlos a olhava, ainda um pouco assustado com seu grito, mas tinha o olhar meigo.
- Querida Dama, eu já sabia que tinha uma filha. Mas veja, isso em nada faz diferença. Compreendo sua insegurança em que eu vá a sua casa, mas ainda assim precisamos marcar um local para nos encontrarmos, não acha?
Joyce o olhou surpresa, mas feliz. Não interessava onde ele buscou esta informação sobre sua vida, nunca foi segredo mesmo. Sentiu um calor aquecer seu coração e então suavemente, ainda sem graça tirou-lhe a mão do rosto.
- Conhece o Chico Mineiro, na Savassi?
- Sim, conheço – Carlos sorriu abertamente. – Chico Mineiro às... 20h de sexta. Está bom?
- Está ótimo! Combinadíssimo.
- Bem, então vou indo nessa? Tem mesmo certeza que não quer a carona? - Tenho Carlos, mas obrigada. - Tudo bem então. Beijos linda Dama. – Carlos se afastou lentamente, entrou no carro e com um gesto de até logo, partiu. Joyce observou o carro se afastar, respirou fundo e retornou o caminho ao ponto de ônibus, agora com os pensamentos em polvorosa. ‘Que roupa vou usar? Meu Deus, nossa, ele é lindo! Imagina ele em minha casa! - balançou a cabeça - Minha mãe ia infernar ate descobrir quem é de onde, como o conheci!’ riu deliciada. Mas de repente o sorriso morre de seus lábios e ela parou.
- Lisa... – disse baixinho. Um soluço subiu-lhe pela garganta e ela voltou a caminhar, agora mais rápida. Não percebeu que de seu rosto as lágrimas corriam livremente, extravasando todos os sentimentos contraditórios que tomavam conta de seu ser. E caminhou rápido, rápido ate correr... Como se tentasse fugir de seus demônios internos que insistiam em lhe torturar o coração e a mente.
Enquanto isso Lisa sentada à mesa se torturava imaginando como iniciar a conversa com sua mãe. Observa-a conversando com seu pai tranquilamente, mas não lhe escapava os olhares furtivos que lhe lançava a toda hora. Virou a cabeça quando ouviu a porta da sala ser aberta.
- Boa noite a todos – era Junior que chegava de mais um dia de trabalho. Seu irmão se tornara um belo homem. Nada musculoso, mas muito elegante. De terno então ficava um charme. Retribuiu o boa noite e pediu licença para se retirar da mesa. O irmão a acompanhou com o olhar e quando os olhos de ambos, tão iguais na cor e na doçura, se encontraram, Lisa sentiu uma paz invadir seu interior. Desde que há alguns anos Junior fora a seu quarto e confessara sua paixão por Jô, eles se tornaram mais próximos. Nunca mais, como num acordo tácito, o assunto fora novamente discutido entre os dois, mas para ela Junior há muito vencera o sentimento por Jô. Namorava agora uma colega de trabalho, advogada como ele, e parecia muito feliz.
- Você esta bem, mana? Parece agitada! - ‘ Bolas Junior, precisa ser tão perceptivo?’ pensou Lisa ao ver o olhar da mãe se tornar ainda mais atento à sua pessoa.
- Nada Ju, é só porque cansa muito ficar um dia inteiro na faculdade, só isso – e passou a mão na testa, esfregando-a fortemente. Olhou para todos. – Bom... boa noite vou para meu quarto, tomar um banho e deitar. Ao se retirar escutou a mãe a chamando e se virou lentamente para ela.
- Filha, não esqueci nossa conversa. Quando puder é só me chamar - Disse muito séria. Engoliu em seco e automaticamente relanceou um olhar para os outros membros da família. Seu pai comia como se nada a seu redor lhe afetasse e Junior... bom Junior olhava fixadamente sua mãe que mantinha uma expressão cautelosa no rosto. Depois virou lentamente o rosto cheio de indagações para ela.
- Está tudo bem? - Junior perguntou como se sentisse que algo muito importante lhe fugisse do conhecimento.
- Tudo Ju, é que eu... bom... apenas quero conversar com a mãe uns problemas que estou tendo ai. – ‘Porque estou me justificando? Ai Deus!’ pensou já sentido o suor frio em sua testa. – É... Valeu mãe eu falo depois desencana tá! Boa noite de novo gente. – e saiu quase fugida da cozinha.
Após um banho demorado Lisa, já mais calma foi à sala e ligou para Jô.
- Alô.
- Jô é Lisa, tudo bem? A loira estranhou o silencio súbito que se fez do outro lado - Jô??
- Lisa? her... desculpe é... é Mariana aqui, mas já resolvi. Está tudo bem sim e você?
- Um pouco agitada, mas bem. Ah... olha, vai ter uma festa lá na faculdade sexta feira da turma. É para acarretar grana pra formatura e eu já peguei dois convites pra nós, tá. Um silencio ainda maior se fez do outro lado da linha. – Jô? Jô?? Lisa tirou o fone do ouvido, o olhou indagadora e depois o pondo novamente repetiu. – Jô? Está ai?
- Ah... eu... tô... tô. Lisa olha eu... tô com uns problemas aqui. Depois te ligo e a gente conversa tá. Beijos. – E desligou o telefone. Sem ação, Lisa pôs lentamente o telefone no gancho. Sentiu um grande aperto no coração. A distancia de Jô nos últimos tempos nunca lhe parecera tão amedrontadora e essa sua atitude só lhe deixava ainda mais angustiada. Passou a mão sobre os longos cabelos e quando se virou para o corredor deu de cara com Junior que a olhava em silêncio. Pôs a mão sobre o coração.
- Meu Deus, os homens dessa família tiraram o dia hoje para me assustar.
- Lisa, eu queria falar com você. Tem um tempinho? – O irmão a olhava muito sério. Lisa o olhou apreensiva.
- Claro Ju. Tá tudo bem?
- Comigo sim. Podemos ir ao seu quarto? – E sem esperar resposta, caminhou em direção ao quarto, abriu a porta e disse: – Vamos?

 "Damos, muitas vezes, nomes diferentes às coisas: O que para mim são espinhos, vós chamais-lhe rosas"

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Capitulo XVIII

Paula estava angustiada. Há dias queria conversar com Lisa, mas, apesar de ser necessário, não sabia por onde começar. Precisava esclarecer dúvidas que vinha sentindo há muito tempo. Os filhos sempre pensam que as mães não sentem suas mudanças. Ledo engano. Elas, na verdade, parecem ser dotadas de um radar sensitivo quando se refere à sua prole. E o dela há muito tempo apitava para Lisa. A tão necessária conversa seria difícil, algo lhe dizia que teria que amar muito a filha para que ambas não conflitassem ou se agredissem verbalmente. Sempre se deram bem, mas nunca o amor de ambas havia sido testado. Não a este ponto. Paula pôs a mão na testa num gesto tão característico seu, que Lisa herdara.
- Mãe? Tudo bem?
- Lisa? Ah, claro filha! E você?
- Tudo bem – respondeu sentando-se à mesa. – Hoje tenho uma prova difícil. Pior que estudei pouco. Posso ir com seu carro?
- Sabe que sim filha - Paula a olhou meio hesitante. – Lisa... Eu... precisamos conversar não acha?
Lisa observou a mãe. Sempre pensara consigo mesma que mãe era um ser muito intuitivo e por mais que você pense que ela não sabe, ela sempre sabe do que acontece com os filhos. Finge não saber, ignora, se faz de boba, mas sabe. Ela não queria ter este papo com a mãe, não agora. Há dias sentia certa angustia no seu relacionamento com Joyce como se algo estivesse para acontecer. Algo que sabia e que não ia gostar muito. Mas seu amor pela morena era tão grande que preferia fechar os olhos à sua intuição. Jô há alguns dias estava mais cautelosa como que pisando em ovos. Achava que era porque tinha medo que ela voltasse a pressionar para as duas assumirem o relacionamento e então aquietara. Como a vida era engraçada! Logo ela que era a certinha, a bonitinha da família pressionava para se assumissem. Olhou a mãe e deu um sorriso triste. Assumir? Às vezes chegava a ser irônica sua postura. Gritava dentro de um quarto com Jô que queria assumir, mas quando era confrontada no “mundo real”, adiava ao máximo a revelação. Realmente era mais fácil viver seu mundinho limitado, mesmo que ele fosse insatisfatório.
- Mãe, tenho que sair – a mãe a observa em silêncio se levantar e caminhar para a porta que dava para a rua. Neste momento Lisa parou pensativa. Respirou profundamente e se voltou para Paula. - Mãe eu aceito a conversa. Pode ser quando voltarmos?
- Sim filha pode ser - O coração de Paula deu um baque. Agora mais que nunca ela teria que aprender o significado da palavra mãe e o real sentido do amor.

Joyce estava sentada à mesa do refeitório. Com a mão apoiada no queixo pensava em Lisa e em como a situação das duas parecia meio tensa. Sabia que a culpa era sua, mas... Não sabia explicar, mas já há um tempo sentia que faltava algo. Isso lhe parecia ilógico já que tinha plena certeza de seu amor pela loira. Não só amor, mas também um desejo delicioso. Só de pensar que Li era sua, ela sentia o coração aquecer. Então por que esta expectativa de que algo tinha que acontecer? De que algo iria mudar? Por que esta insatisfação com algo que parecia tão... completo?
- Ora! Olá! Tudo bem? Posso me sentar com você? Joyce ergueu o olhar e se assustou. Era o rapaz que lhe fizera beijar o chão há algumas semanas. Segurou a mesa meio brincalhona.
- Pode, já estou me segurando! – fez uma cara de brincadeira fingindo receio e expectativa.
- Prazer, meu nome é Carlos - ele estendeu a mão enquanto se sentava sorrindo
- Prazer Carlos, Joyce – ao tocar os longos dedos sentiu um suave calor aquecer a palma de sua mão e então voltou o olhar às mãos ainda unidas. Soltou-a lentamente e sorriu.
- Então nos encontramos novamente, linda dama.
- Parece que sim – Joyce não sabia por que, mas se sentia tímida.
- Você estuda aqui. Faz direito? - Carlos perguntou como quem não quer nada. Na verdade desde que trombara com a bela morena não conseguira tirá-la dos pensamentos. Sentira-se tocado por sua beleza, mas sabia que havia algo mais. Ela, de alguma forma, tocara seu coração. Todos os dias, sem que ela soubesse, observava-a de longe. Agora já sabia cada gesto, cada sorriso, cada trejeito seu. Naquele dia, vendo-a sozinha na mesa da lanchonete não resistira e se aproximara.
- Faço sim, adoro! E você? - Ela o olhou com um lindo sorriso. Não ia confessar nem a si mesma que durante estes dias percorrera os olhos pelos pátios da faculdade na expectativa de vê-lo de novo. Isso seria assinar o início do fim de sua relação com Lisa e isso definitivamente ela não queria.
- Opa, que frase maravilhosa de se ouvir! Quem me dera voltar a ser estudante. Na verdade sou professor assistente.
- Mesmo? Que legal! Pena que não sou sua aluna – Sorriu meio irônica
- Pois graças a Deus que não é! – Carlos retribuiu o sorriso irônico.
- Por quê?
- Porque senão como poderíamos jantar juntos, não é?
- Jantar? Como jantar?
- Sexta, não lembra? - Pôs a mão sobre o coração como se sentisse uma imensa dor. – Oh, você esqueceu nosso encontro! Joyce começou a rir. Estava adorando o jogo de palavras.
- Mas não podemos sair. Você é professor esqueceu? Seria muita falta de ética de sua parte sair com uma aluna.
- Daí a sorte, linda dama – sorri deliciado. – Por isso não sinto nenhuma pena de você não ser minha aluna. Estarei jantando com uma bela mulher que nunca vi em sala de aula – olhou-a em expectativa. – Agora sério, aceita jantar comigo na sexta?
Joyce o observou, encantada com o sorriso dele. Seu pensamento foi automaticamente à Lisa, mas ela o bloqueou.
- Sim aceito. Espero teacher, que não me arrependa.
- Minha linda dama, este jantar será apenas o inicio de uma linda história de vida.
Joyce fechou os olhos ligeiramente. ‘O que estou fazendo?’. Mas quando os abriu e viu Carlos à sua frente sentiu que deveria, teria que fazer aquilo. ‘ me desculpe Lisa, eu preciso descobrir isso’.
O fim do dia chegou rapidamente às duas. Joyce com os pensamentos em conflito pelo convite aceito e sentindo um aperto enorme no coração. A toda hora do dia sentira a culpa assolar sua mente e tentava em vão encontrar justificativas para sua atitude. ‘É só um jantar de amigos, não existe mal algum nisso’. Passou a mão diversas vezes no cabelo e não conseguiu prestar atenção a nenhuma aula. Ao fim das aulas enquanto todos se retiravam da sala ela apoiou a testa na mesa e se entregou a um momento de pura angustia. “Sou uma idiota”
- Jô? Você está bem? – ergueu a cabeça e viu Márcia, sua colega de curso à sua frente, olhando-a preocupada. Ergueu-se da cadeira e sorriu contida
- Tô sim, Márcia, são só uns pensamentos infelizes. Vamos?
Márcia olhou-a preocupada.
- Tudo bem - segurou-a delicadamente pelo braço. – Olha Jô, precisando falar estou aqui, ok? Joyce olhou a colega, agradecida.
- Ok, Márcia, obrigada.

 Lisa por sua vez saiu da faculdade com certa pressa. Agora que decidira ter um papo definitivo com a mãe sentia-se ansiosa para concretizá-lo logo. Sentiu uma vontade louca de falar com Jô e juntas decidirem como as coisas se encaminhariam depois disso. Mas sabe que se a morena sonhar que vai se abrir para a mãe terá um verdadeiro ataque de pânico. Sorriu triste. Sentia que realmente não queria este relacionamento limitado, sem sentido. Queria o viver plenamente, totalmente entregue.
O que Lisa não percebia ou não queria ver é que a sociedade que hoje a considerava esforçada, brilhante, com um futuro promissor seria a mesma que a condenaria por suas opções, a faria sofrer por ser simplesmente quem é em suas escolhas. Uma sociedade que rejeita quem não anda em seus padrões de vida e foge de suas regras de conduta. Uma sociedade que não a deixaria jamais esquecer que para ela não importa a felicidade do indivíduo e sim a certeza que ele estará sob suas normas limitadas e preconceituosas.
As duas, em um mesmo dia, tomaram atitudes surpreendentes e decisivas. Decididas, mesmo dentro de seus conflitos pessoais e sem tomarem conhecimento uma da outra, ou mesmo darem ouvidos à intuição que tanto as alertara, seguiam por caminhos contrários. O amor gritava dentro delas, angustiado. Um aperto profundo no coração das duas se fazia sentir ao mesmo momento, ao mesmo tempo. E cada uma, a caminho de suas residências, tinham um único sentimento. Estavam sós.

 “Acreditar em nossa própria mentira é o primeiro passo para o estabelecimento de uma nova verdade." Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Capitulo XVII

Joyce caminhava apressada pelo campus da universidade. Olhou para o relógio constatando que iria se atrasar. “Droga, já são 7h40min! Logo hoje que tenho trabalho”. Acelerou os passos e...
- Aiii, que porra! - reclamou ao trombar violentamente contra outro aluno da faculdade.
- Uff desculpe garota, foi sem querer! Eu não quis te machucar. Ela olhou para cima e viu um rapaz muito bonito, um pouco mais velho que seus 21 anos, estendendo-lhe a mão.
- Você se machucou? Me perdoe, foi sem querer. Às vezes eu me distraio.
Joyce, ainda no chão, encarava muda aquele belo exemplar masculino à sua frente. Moreno, olhos castanhos esverdeados, físico alongado. “Como é bonito!” Olhou para a mão estendida à sua frente e a segurou, erguendo-se do chão.
- Não, tudo bem... Eu que estava correndo, tava distraída. Tô super atrasada.
- Então somos dois, hem. Vamos lá!
- Como? - E isto foi tudo que Jô conseguiu dizer antes que o rapaz, que até então segurava sua mão, saísse correndo em direção ao prédio da universidade, a levando junto. Chegaram ofegantes ao prédio onde Joyce fazia o primeiro ano de Direito. Ainda buscando ar para respirar, olhou para o rapaz que segurava sua mão com a dele.
- Obrigado pela bela corrida. - risonho, inclinou-se numa mesura frente à Jô - Minha linda dama. Saiba que fui eu e não você quem caiu a seus pés. – disse dando-lhe um suave beijo na mão e, soltando-a em seguida, deu um tchau alegre e simplesmente se foi. Joyce ficou ali, parada, ainda com a mão meio erguida, sentido uma deliciosa sensação de bem estar.

 - Lisa, você aqui?
- Olá, Lúcia!
- Não foi à aula??
- Hoje não tive aula e resolvi vir ver a Mari. Ela já melhorou da gripe?
- Menina – Lucia lhe deu passagem para que entrasse na casa – Quem está ruim agora sou eu. Essa gripe derruba até elefante - comentou sorrindo - Assim tirei hoje o dia de folga. As duas seguiram em direção ao quarto onde Mariana, na altura de seus quatro anos, tentava trocar alguns passos de Balé.
- MARIANA!! Não era para estar deitada??
- Vovó! Er... eu... – a menina olhou a avó desconcertada, mas ao ver Lisa logo atrás dela gritou feliz, esquecendo qualquer justificativa. - Liiii!!
As duas se abraçam sorrindo, numa troca de energias positivas, repleta de amor e muito carinho.
- Mari, amorzinho, não devia desobedecer a sua avó – Lisa disse carinhosa, enquanto colocava uma mecha dos longos cabelos negros da criança atrás da orelha. A menina a encarou dengosa, com seus belíssimos olhos verdes e, fazendo biquinho.
- Ahhh Li, não aguento mais a cama. E vovó toda hora trás coisa ruim pra eu tomar.
- Psiu – faz cara de repreensão – é para seu bem. Pegou-a no colo e a levou de volta à cama, tudo sob o olhar atento de Lucia, que sorria para elas. Sempre a impressionava a afinidade existente entre as duas. Mariana tinha uma personalidade fortíssima, como a mãe, mas com Lisa a pequena fera virava uma gatinha.
- Pronto! - Lisa disse assim que ajeitou a garota na cama – E esta proibida de sair daí sem ordem expressa de sua avó, entendido?
- Mas é chato!  Você vai ficar aqui comigo, Li? Diz que vai!
- Sim, vou sim, minha linda. Será que agora posso te contar a queda que tive ontem quando saia da escola?
- Contaaaa!
Lucia se afastou ouvindo as risadas das duas. Balançou a cabeça com um sorriso. Lisa era mesmo um anjo na vida de sua filha e neta. Por um momento, o sorriso lhe sumiu do rosto e ela parou sob o batente da porta da cozinha. Depois, balançou a cabeça ligeiramente como que a espantar seus pensamentos e seguiu em direção ao fogão, iniciando o preparo de um belo sopão.
Já era quase uma hora da tarde quando Jô chegou em casa. Entrou silenciosa, sabendo que tanto sua mãe quanto a filha estavam adoentadas. Viu a mãe deitada no sofá da sala, dormindo calmamente. Caminhou até ela e pôs a mão em sua testa e, sorrindo, lhe deu um beijo no rosto adormecido. Deixou o material sobre a outra poltrona e caminhou ao quarto da filha. Ao abrir a porta, sorriu embevecida com a cena à sua frente. Lisa e Mariana dormiam de mãos dadas sobre a cama. Mariana, com a cabeça sobre o ombro de Lisa, parecia tão serena! Seu coração se encheu de amor. Daria a vida por sua filha. Olhou então para Lisa e mais uma vez sentiu o coração se aquecer. Ela se transformara da adolescente lindinha em uma loira de arrasar quarteirão. Os cabelos loiros e lisos agora quase na cintura, as curvas mais pronunciadas, a cintura mais marcada, por onde passava arrancava suspiros apaixonados. Mas ainda eram os olhos, os lindos olhos cor de mel, suaves e sonhadores, que aqueciam e cativavam as pessoas que a conheciam. Era linda por fora e por dentro. Jô suspirou um pouco cansada. Aproximou-se da cama e deu um suave beijo no rosto da filha. Olhou para Lisa e, com carinho, passou a mão em seus lábios.
- Li...
- Jô?
- Acorda Li... vem comigo.
Lisa, ainda sonolenta, afastou com cuidado a cabecinha de Mariana de seus ombros, sem acordá-la, e seguiu Joyce em direção ao seu quarto. Ao entrarem no quarto Joyce segurou a loira sonolenta nos braços e lhe dá um beijo suave.
- Com sono, loirinha?
- Hummm... Vai continuar tentando me acordar assim se disser que sim?
- Boba – Jô, rindo, deitou-se na cama acompanhada por Lisa – Não teve aula hoje? - Perguntou afagando Lisa nos braços.
- Não... Hoje foi dia de paralisação. Estudar em Federal dá nisto.
- Sei... Então pague uma particular pra ver o que é pior.
- Mas, Jô, assim você vai formar primeiro que eu.
- Ah, dá um tempo, Li! Você tá dois anos na minha frente.
Lisa passara na UFMG (Universidade do Estado de Minas Gerais), em Fisioterapia, aos dezoito anos em sua primeira tentativa de vestibular. Joyce já preferira não arriscar e fizera um ano de cursinho. Mas depois de tentar Direito por dois anos consecutivos na Federal e não passar arriscou uma particular na qual agora estudava.
- Jô, mas que dá preguiça dá. O governo é foda. Sempre dá com uma mão, mas tira com outra. Sabia que os funcionários federais não têm aumento decente há mais de 10 anos? O salário tá super defasado. Pô, o pessoal estuda horrores pra estar lá repassando seus conhecimentos e não é valorizado. Tô sendo prejudicada, mas eles também, né.
- Ah não, Li, não me vem com filosofia, não. Nem papo cabeça. Hoje a aula foi um saco e ainda me deram uma trombada que beijei o chão.
- Sério? Como foi? - Lisa se apoiou no cotovelo.
- Ah, um cara lá tava maluco que nem eu por causa do atraso e deu de frente comigo. A diferença é que ele ficou em pé e eu cai que nem jaca.
Lisa explodiu em gargalhadas.
- Minha Jaquinha. – disse rindo e dando um selinho na namorada. Joyce faz um bico, mas logo acompanha a loira nas risadas.
- Ahh Li... Li você é linda sabia? – disse dando um abraço apertado na loira.
- Você que é Jô. - Lisa a olhou, como sempre, deslumbrada com a beleza morena. Joyce recuperara de vez a forma, mas manteve um corpo maravilhosamente curvilíneo. Seus cabelos negros agora só um pouco abaixo dos ombros emolduravam o rosto anguloso, dando-lhe um ar quase felino. Jô não era apenas bonita. Era deslumbrante em seu ar aparentemente descontraído e ciente de sua feminilidade. As duas mantinham o namoro em segredo e nunca haviam sido descobertas. Como sempre foram muito unidas as pessoas achavam mais que natural o grude que viviam. Nem mesmo a opção por cursos diferentes na universidade conseguira afasta-las. Lisa sempre pensava que o amor das duas era indestrutível e que nada nem ninguém as separaria. Jô, de olhos fechados, pensava em todos os momentos que ela e Lisa viveram depois que assumiram o amor uma pela outra. Os conflitos que vivera, o medo da mãe descobrir tudo. Alias – pôs a mão no queixo – percebera ultimamente olhares estranhos da mãe sobre ela. Muito estranhos.
- Li... - Olhou para a loira indagadora – você percebeu alguma mudança no comportamento de minha mãe, ultimamente?
- Hum? Não Jô, por quê? Tem algo te grilando?
- Sei não... Ela anda parando o olhar em mim e ficaaaaaa... Tá muito estranho. Sabe quando você sente que tem algo ali?
- Jô, você acha que ela tá desconfiando de nós? É isso? – Lisa afastou ligeiramente o corpo do de Jô
- Ave Maria, Nossa Senhora, São tudo que houver! Tá doida? Nem pode sonhar! Lisa ao escutar aquilo e o tom de pânico de Jô ao dizê-lo sentiu uma tristeza tomar conta de si. Já há muito tempo repensava a situação das duas e achava que deviam dar mais um passo no relacionamento.
- Jô olha... - afastou-se da morena e a olhou nos olhos – Seria tão ruim assim???
- Lisa, tá doida??? Claro que seria! Pensa! Acha mesmo que as pessoas aceitam assim? O pessoal só finge ser cabeça. Quando é pra provar isso a mente é desse tamanhinho – e faz um gesto com os dedos a mostrar algo minúsculo.
- Jô... para. Quer que a gente fique assim sempre, é??? Temos que começar a pensar nisso.
- Lisa, não quero falar nisso, tá bom? Para! Vai voltar de novo esse papo?
- Joyce, não é papo. Poxa, a gente se ama. Não tô pedindo que grite ao mundo que gosta de mulher, mas sei lá, a gente pode contar... - Calou e passou mão nos cabelos. – Jô, tô cansada de esconder, é isso.
Joyce se levantou da cama e olhou a loira.
- Li... não tô pronta pra isso, você sabe. Pô, a gente nem formou nem nada. Eu tenho uma filha, não posso ser impulsiva.
- Impulsiva??? - Lisa se ergue e ficou de frente à Jô. – Impulsiva? Acorda Jô! Estamos nessa há quatro anos.
- Então amor, vê... Nôs damos bem assim – ergueu a mão e tocou a loira levemente – não apressa, vai. Não faz isso. Eu amo você, mas não tô pronta pra mais. Segura a onda.
Abraçou Lisa sabendo que assim ela iria ceder e a beijou. Não gostava muito de usar este artifício, mas seu coração gelava sempre que ela vinha com este papo de assumir.
- Eu te amo Li... Beija-a profundamente e uma pontada de desejo despertou em seu íntimo. – Que tal se fecharmos a porta???

 "No amor não existem pessoas certas, existem pessoas que lutam para dar certo."

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Capítulo XVI

As semanas passavam rápido. Tudo e todo momento era desculpa para Joyce e Lisa se encontrarem. Se antes eram unidas, agora praticamente não se desgrudavam. As duas esperavam ansiosas qualquer oportunidade para se beijar, abraçar, ficar juntas. A descoberta desse amor, dessa paixão pelo corpo feminino as encantava e, a cada dia mais, elas sentiam grande necessidade de ficar juntas. Lisa se tornara presença constante, praticamente diária na casa de Jô que também sempre que podia estava na casa da loira com Mariana nos braços. Mas um pensamento não deixava Lisa em paz. O autocontrole de Joyce ao tocá-la. Ela era sempre controlada... Bem quase sempre, mas na hora H ela respirava fundo e... Não terminava. Tirava as mãos e ia com a boca. Isso frustrava Lisa profundamente e ela estava decidida que hoje elas teriam um papo definitivo.
A campainha tocou e Lisa foi calmamente atender. Seus pais haviam saído para um sítio de parentes e os irmãos tinham ido acampar. Ela estava só.
- Bom dia, Li – disse Joyce sorridente. Sorriso este que morreu ao ver o corpo de Lisa coberto apenas com um roupão vermelho.
- Oi, Jô. Uai cadê Mari?
- Mariana, Li, Mariana! Deixei ela com a mãe. Vão umas amigas dela lá em casa e ela quer exibir a neta - respondeu rindo.
- Hum, sei... e que olhar safado é esse?
- Um olhar de tesão, de desejo - disse Jô assim que fechou a porta. Imediatamente, agarrou Lisa e a beijou cheia de vontade. Suas mãos desceram rapidamente para as nádegas da loira e as apertaram. Lisa retribui o beijo erguendo uma de suas pernas e enlaçando Jô com ela. Empurraram-se para o sofá, onde caíram juntas.
- Jô... Jô... me faz sua...
- Hum... Li... ai adoro você. – Jô abriu o roupão e expôs toda a nudez da loira. Contemplou-a por alguns minutos. Nunca se cansava de olhar o corpo maravilhoso. Ela era simplesmente divina. Passou as mãos pelos seios e, em seguida, as deslizou pela cintura esbelta. – Ai, sou encantada com sua cinturinha, amor – disse mordendo a pele amada. Lisa se entregou totalmente às carícias, segurando a cabeça de Jô ao encontro de seu corpo. Gemeu enlouquecida com o toque cada vez mais seguro de Jô e estremecia a cada palavra que era pronuncia em seu ouvido. Suas mãos buscavam tirar a roupa de Jô que sorrindo se ergueu e ficou à frente de Lisa.
- Quer me ver nua, é? - Debochou.
- Tira Jô. - Lisa pediu se erguendo um pouco do sofá.
- Humm... Deixa-me pensar se você merece. – A morena pôs os dedos no queixo e olhou para cima, como a ver se ia ou não tirar a roupa para sua loirinha.
- Para, Joyce! Venha aqui. – Lisa tentou puxá-la para si, mas a morena se desviou. Ao notar que Lisa começava a se estressar, baixou lentamente a alça do vestidinho de verão que usava, expondo o seio direito. Estava sem sutiã. Segurou-a com os dedos e balançou o corpo numa dança leve.
- Vai ficar aí, isso sim, nesse sofá, nuazinha e quietinha senão não acabo de tirar, entendeu?
Lisa engoliu em seco e, quieta e profundamente excitada, observou Jô dançar sensualmente em sua frente, tirando lentamente o vestido até que ele cai ao chão. Ergueu as mãos para puxá-la para si, mas recebeu um tapinha na mão.
- Não me toque. Está proibida de me tocar entendeu? Joyce tirou lentamente a calcinha vermelha de renda que usava e então, sensualmente, se sentou de pernas abertas sobre Lisa. Esfregou-se nela mostrando toda sua excitação e começou a movimentar ritmadamente o quadril. Lisa gemeu e jogou a cabeça para trás. Joyce, então, lhe ergueu a perna e encaixou seu sexo no dela, começando a se mexer com maior rapidez. Juntas se entregam a mais uma nova expressão de amor físico. Gemiam cada vez mais audaciosas e insaciáveis, até gritarem satisfeitas num orgasmo pleno e arrebatador. Jô se deixou cair sobre Lisa que a abraçava. Sentiu, após alguns segundos, a loira se mexer embaixo dela e se colocou de lado no sofá. Observou então Lisa se levantar e recolher as roupas, caminhando silenciosa até seu quarto. Intrigada foi atrás da loira.
- Li... tá tudo bem? - pergunta se sentando ao lado da outra na cama. Um silêncio imperou no quarto. Joyce aguardou silenciosa Lisa falar. Até que a loira virou-se para ela.
- Jô... – a olhava firme nos olhos – quero que você me toque Jô.
Joyce a olhava meio desconcertada.
- A toque, Li? Mas... Eu faço isso! – Parecia não entender bem onde Lisa queria chegar.
- Não, Jô... Quero que você me toque – pegou a mão da morena e a levou a seu sexo – aqui... Joyce estremeceu.
- Mas Li eu... eu toco – baixou a cabeça e seus longos cabelos negros esconderam a face nervosa. Já sabia onde Lisa queria chegar.
- Jô... – forçou os dedos da morena na abertura de seu sexo – quero que me penetre Jô... me faça totalmente sua... Jô quero você dentro de mim!
- Meu Deus, Lisa você... você é virgem!! Eu... eu não posso – disse a morena tirando a mão, nervosa. Lisa estava lhe oferecendo o que ela há dias desejava e se ela insistisse mais um pouco sabia que não conseguiria se controlar.
- Para, Jô... PÁRA. Meu Deus, o que é virgindade pra você? Uma membraninha idiota que tenho na entrada da minha... minha... Joyce começou a rir. Lisa sempre engasgava quando ia citar o órgão sexual feminino.
- Sua... sua... xaninha? - Disse erguendo as sobrancelhas e a olhando meio irônica.
- Ah, cala Jô. Você entendeu! Eu não me considero mais virgem. Caraça, olha tudo que fizemos, as formas que nos amamos. Uma membraninha na minha... minha... é isso que disse, não é o que vai determinar a minha inocência. Além do mais, Jô... – segurou o rosto da morena entre suas mãos – É de você que quero lembrar sempre neste momento. Por favor... me faça sua! Totalmente. Por favor.
Joyce praticamente já não escutava as palavras de Lisa. O controle que se obrigara a ter por semanas se dissolvia numa ânsia enlouquecida de possuir a loira totalmente. Sem nenhuma delicadeza, empurrou Lisa sobre a cama até se colocar sobre ela. Começa a beijá-la por todo o corpo, hora mordendo, hora chupando, sem se preocupar se iria ou não deixar marcas no corpo delicado. Sugou com força os seios claros para depois beijá-los, lambê-los. Lisa lhe acompanhava a loucura, abraçando e arranhando suas costas. As duas se descontrolaram como nunca antes o fizeram. A morena desceu a boca sobre o corpo já todo marcado e aspirou deliciada o cheiro de sua loirinha, antes de lamber embevecida todo o seu sexo. Lisa arqueou o corpo e gemeu profundamente. Joyce se acomodou melhor sobre a cama, abriu-lhe mais as pernas e começou a chupá-la fortemente, sem nenhum controle. Lisa, longe de temer pela falta de controle da morena, sentia sua excitação ir às alturas e sentia os tremores tomarem conta de seu corpo. Quando notou que o orgasmo estava perto, arqueou as pernas, pedindo mais.
- Jôo – gemeu rouca – me faz sua... me faz sua. - Neste momento sentiu a morena forçar os dedos para dentro de si. Segurou-lhe a mão fortemente e juntas penetram-lhe o corpo. Joyce gemeu e sentiu tanto prazer que gozou ali mesmo, apenas com a sensação de estar dentro de sua loirinha. E Lisa gritou enlouquecida, orgasmo e dor se misturaram num prazer indescritível. As duas se deixaram ficar ali, quietas numa exaustão tanto física quanto emocional. Lisa finalmente abriu os olhos e sorriu feliz. Segurou os longos cabelos de Jô e puxou- delicadamente para si, enquanto sentia que a morena retirava lentamente os dedos de dentro dela. Viu Jô olhando um pouco assustada para seus dedos, quando percebeu o sangue que havia neles.
- Li... ai Li... tá doendo? – olhava preocupada – Eu... eu descontrolei, desculpe – abaixou a cabeça meio perdida, constrangida.
- Jô... Jô olha pra mim. – Lisa tentou lhe erguer o rosto. – Jô, olha pra mim.
Quando finalmente Joyce ergueu os olhos para ela, Lisa sorriu.
- Foi maravilhoso, Jô. Eu adorei cada minuto. Obrigada, amor – disse a beijando com carinho.
As duas abraçaram-se, desta vez sem paixão. O carinho tomou conta de seus gestos e então Joyce, em silêncio, começou a chorar baixinho. Lisa com todo o amor liberto de seu coração beijava-lhe repetidamente o rosto sussurrando baixinho. - Te amo, Jô! Te amo, te amo, te amo...

 “O amor não se define; sente-se."

Capítulo XV

Lisa abriu os olhos lentamente. Meio desnorteada não conseguiu, de imediato, perceber onde se encontrava. Ainda despertando, sentiu um peso em sua cintura e, virando a cabeça, viu Jô colada às suas costas, num abraço estreito e possessivo, apertando sua cintura. Sentiu então um arrepio por todo o corpo, relembrando tudo que fizerem uma com a outra. Voltou a cabeça novamente e pegou o despertador, na cabeceira da cama. Quatro horas da manhã! “Uau, nós perdemos mesmo noção do tempo”. Voltou o despertador ao seu lugar e deixou escapar um suspiro profundo. Virou-se lentamente para não despertar Jô, afastou com delicadeza seus cabelos do rosto, observando enlevada seu respirar tranquilo, satisfeito. Sua expressão estava suave, a boca ligeiramente aberta, um pouco inchada pelos sucessivos beijos trocados pelas duas. “Nossa, aquilo foi tudo de bom!” Ela não conseguia ainda assimilar tudo que acontecera entre elas, porém se sentia maravilhosamente satisfeita, plena, realizada. Jô fora tão carinhosa, tão... tão tudo com ela. Sabia como a amiga era imediatista, ansiosa, até meio brusca, mas com ela fora tão carinhosa que sentia seus olhos se encherem de lágrimas só de lembrar seus momentos juntas. Fora tanta entrega, tanta paixão e amor que não havia como se arrepender de nenhum segundo vivido. “Preciso ir ao banheiro”.
Tentou se levantar, mas Jô estreitou o abraço como que com medo que ela sumisse de seus braços. Lisa deslizou pela cama, erguendo com dificuldade o braço da morena, que acabou se virando de frente entre resmungos, ainda dormindo. Já em pé, olhou para Jô, deitada de costas, o lençol cobrindo-a até a cintura. Sentiu novamente nascer dentro de si um desejo de tomá-la em seus braços e fazê-la mais uma vez sua. “Lisa, juízo! Que coisa! Deixe-a descansar!” Desviou com dificuldade os olhos daquele monumento moreno e correu para o banheiro onde decidiu tomar um banho rápido. Deixou seu corpo dolorido pelas horas de amor praticado por elas, relaxar sob a água quente e, então, suspirou sonhadora. “Que sonho, meu Deus! Se for mesmo um sonho não me deixa acordar”. Depois de vários minutos, ensaboou todo o corpo. Estava tão entretida nesse ritual que soltou um pequeno grito de susto ao ver o box se abrir de repente.
- Ora, ora! Nem me chama pro banho, né – Jô apareceu esplendorosa, em toda sua nudez. Cruzou os braços sobre os seios fartos e desceu o olhar faminto para a nudez de Lisa. - Quem deixou você sair da cama sem minha permissão?
- Ai, Jô... Tava louca por um banho. Desculpe, tentei ao máximo não acordá-la.
- Hum... – Jô entrou no chuveiro e fechou o box. - na verdade senti falta de seu corpo no meu, Li. - tomou o sabonete da loira e começa ela mesma a passá-lo pelo delicado corpo. - Li... Acho que nunca vou cansar de olhar você. É tão linda.
- Jô... humm... – estremece quando Jô passa a mão levemente por seus seios.
- Gostoso amor? Quer mais?
Já era de manhã quando Joyce despertou. Sorriu feliz, apertando mais o corpo de uma Lisa adormecida para si. Já não sabia dizer quantas vezes se amaram. Todas ma-ra-vi-lho-sas. Pôs o nariz no pescoço de Lisa e aspirou deliciada seu cheiro. “Minha toda minha!”. Franziu ligeiramente a testa ao lembrar-se de Fred, o raquítico. Será que Lisa realmente o encontrara? Não importava, dali em diante ela seria apenas sua. Estreitou o abraço, fechou os olhos e não conseguiu deixar de pensar em tudo que acontecera. O rosto de Lisa quando estava tomada pelo prazer era algo inesquecível. Mentalizou cada momento, cada beijo, cada carícia trocada e suspirou satisfeita. “Como a vida com Lisa é rica! Em todas as suas formas”. Sorriu feliz e mordeu levemente a nuca da loira, que soltou um curto gemido, mas não acordou. Além da amizade tinha agora o amor. Riu abobada. “Eita pacote dois em um! Sou uma garota de sorte!!”
As duas passaram a tarde entre beijos, brincadeiras e descobertas. Estavam entretidas num beijo delicioso no sofá da sala quando ouviram o barulho do portão.
- É minha mãe e Mariana – Jô disse enquanto arrumava a blusa que Lisa erguera. Lisa também, na pressa, se punha decente e levanta para receber Lúcia e Mariana.
- Heiiiiii!!!! Lindinha da mamãeeeee!! Que saudade! – Jô pegou a menina nos braços e deu vários beijinhos em seu lindo rosto – Aiii não vou mais deixar você longe de mim! – Olhou para sua mãe, deu-lhe um sorriso e um beijo no rosto – Oi mãe.
- Olá, Jô. Descansou? - Disse retribuindo o beijo – Olá, Lisa
- Olá, Lúcia tudo bem, né? - Voltou o olhar para Mariana - Nossa, que saudade de você, Mari - disse se aproximando da criança nos braços de Jô, dando-lhe um beijo suave. Mariana imediatamente jogou os braços para frente, pedindo o colo de Lisa.
- Heiiiii – reclamou uma Jô indignada – a mamãe sou eu, sua danada. Não sentiu minha falta?? – disse rindo, deixando-a ir para o colo de Lisa.
- Li vou ajudar mamãe lá na cozinha, tá?
- Tá bom, Jô – respondeu Lisa, entretida com a criança em seu colo. Sentou-se no sofá e começou a brincar com Mari, que ria muito de suas gracinhas. - Ah Mari... Que olhos hem, Mari? Quantos corações vai quebrar tendo essa carinha linda, igual a da mamãe e esse verdão ofuscante. – disse sorrindo.
A menina sorriu e pulou em suas pernas, como a pedir mais e mais atenção. Lisa nunca se cansava de estar com Mariana. Sentia tanta alegria com ela que nem sentia o tempo passar. Tomou um susto quando sentiu mãos enlaçarem sua cintura e um beijo leve na nuca.
- Nossa como está distraída! – brincou Jô, rindo
- Jô! Que susto! Tava mesmo – olhou para os lados - Uai, cadê sua mãe?
- Ehh Li, ela já passou aqui e agora foi pro banho. Nossa, mas a Mariana tem o dom de te desligar do mundo, hein.
- Ahh, Jô – disse meio sem graça por não ter notado mesmo a aproximação de Jô - Mas olha que coisa gostosa ela é - falou fazendo caretas para a criança que soltou mais e mais gargalhadas.
- Gostosa igual à mãe? – Jô falou insinuante, com um olhar safado para Lisa, que foi totalmente retribuído.
- Hum... Menos Jô... menos... – disse aproximando os lábios de Jô que se afastou de rompante
- Liii olha a Mariana!
- Que isso, Jô, ela ainda nem entende isso.
- Ah, não! Nem pensar, na frente dela, não.
- Chata – Lisa lhe mostrou a língua.
- Boba.
- Feia.
- Gostosa.
- Saborosa.
- Tesuda.
- Jooo!!! Que horror – disse Lisa caindo na gargalhada.
- Quem manda provocar - Jô ria, fazendo-lhe cócegas, as três caíram no sofá, cheias de brincadeiras. Lisa teve a nítida impressão que nunca um dia passara tão rápido. Foi tristonha que se despediu de Lúcia, Mari e Jô – esta, com uma olhar mais que especial - e fez o caminho de volta para casa.
- Olha só!! Voltou a margarida – o pai a esperava sentado no sofá, com o braço enlaçado em sua mãe.
- Oi pai, oi mãe. E ai como foram as férias sem mim? - disse rindo e se jogando entre eles, no sofá. - Aiiiiii, eu tô tão felizzz!!!!!!!!
- Nossa senhora! – Marcos olhou a esposa – Muiéé tira esse peso de meu colo. Paula riu e abraçou a filha.
- Fizeram as pazes, você e Jô, Lisa?
- Ah? Sim mãe, fizemos. Foi um fim de semana muito... legal. -”Divino, estupendo, maravilhoso, extasiante, tudo, tudooooo”, pensou sonhadora. Levantou-se de um salto.
- Vou estudar. Esqueci que tinha um trabalho pra fazer. Beijo pai, beijo mãe.
Os pais a observaram ir para o quarto e se entreolham, cada um com seus pensamentos. Marcos rindo da alegria da filha, Paula pensativa. Nunca a filha lhe parecera tão inconstante nas atitudes como nos últimos tempos.
 Deitada na cama, Jô não conseguia parar de pensar nos momentos com Lisa. Tudo estava tão perfeito que tinha medo de dormir e ver que era irreal. Acariciou o lençol com a palma da mão e sorriu enlevada. Após um tempo, foi ao quarto de Mariana e viu que ela adormecera. “Ai Mariana, sua mamãe tá boba, uma apaixonada boba”. Voltou ao próprio quarto e novamente se deitou na cama. Tudo que queria era sonhar... sonhar... sonhar...

- AIIIIIIII!!! Esqueciii! Meu Deus, o trabalho! – Jô levou as mãos à cabeça, desesperada – Lisa, sua merdinha, você não me avisou!!!!
- Pô, Jô só lembrei ontem à noite. Como ia saber que você esqueceu?
- Ahh, sei!? Você não sabia! Nossa, que inocente você é! – Lançou um olhar mortal para a loira. – Me passa essa coisa ai logo, vou tentar copiar. – disse tomando o trabalho da mão da outra.
- Ai tá, mas vê se muda alguma coisa viu.
- Viu, viu, arreeee que droga!!!! – saiu correndo em direção à biblioteca. – Não vou pro primeiro horário!!
Lisa caminhou meio que rindo para a sala. “Achei mesmo que as coisas iriam mudar?” Joyce nunca mudaria. Para sempre seria esta, meio mulher meio criança inconsequente que tanto a fascinava. Durante todo o dia custaram a disfarçar os olhares maliciosos e insinuantes que lançavam uma para a outra. Ninguém reparava, mas Lisa se deu conta que, se antes tocava Jô naturalmente nas aulas, agora esta parecia inibida com os mesmos toques. No recreio evitou lhe dar as mãos, coisa que antes fazia sem receio.
- Jô, que tem dar as mãos? – diz baixinho
- Ahh, Li e se alguém notar? – retrucou olhando discretamente para os lados.
- Arre, Jô! Nós fazemos isto desde o jardim de infância!
- Tá, mas agora é diferente, sei lá! - jogou os longos cabelos para trás – É diferente.
Lisa ficou emburrada e se encostou à parede da cantina, cruzando os braços.
- Lisaaa! Tava te procurando gata! – Ambas viraram os olhos em direção ao chamado. Fred vinha sorrindo de orelha a orelha em sua direção. Estava bonito. Era magro, mas não raquítico como Jô adorava ressaltar. Enfim, um lindo adolescente caminhando para a beleza da idade adulta. Lisa sorriu meio sem graça e, diante do olhar furioso de Joyce, trocou três demorados beijinhos com o rapaz
- Oi Fred, tudo bem?
- Melhor agora gata. E ai? Quando vamos pegar aquele cineminha que combinamos?
- Bom... - Lisa passa a mão no rosto - Não sei... Eu...
- Nunca!! – Ambos viraram a cabeça para Jô que se manifestara – Nunca, Fred! Quando você vai cair na real que a Lisa não quer nada com você?
- JÔ! - Lisa gritou assustada
- E você Lisa, quando vai ter cara de assumir pro coitado que não é a fim dele? – virou-se novamente para o rapaz - Olha Fred, vai miar noutra freguesia porque a Lisa não tá na sua – Quase rosnava para ele.
Pegou a mão da loira e, com passos duros, saiu puxando-a pelo pátio, deixando um Fred com cara de “tô entendendo nada” plantado na cantina. Lisa a acompanha docemente com um sorriso bobo no rosto. E o resto do recreio uma Joyce emburrada não soltou sua mão.

 “Há, no mundo, milhares de formas de alegria, mas no fundo todas elas se resumem a uma única: a
alegria de poder amar.”
Michael Glent