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terça-feira, 14 de outubro de 2008

Capitulo XXIV

A semana começou nublada. Lisa caminhava cabisbaixa pelos corredores da universidade. Sua postura corporal expressava a enorme derrota de quem sentia a vida escoar por suas mãos.
- Vai, não pode ser tão ruim assim.
- Como? - Lisa ergueu o olhar surpresa, vendo à sua frente a mesma garota da biblioteca. - Ah não! Você de novo, não! - tentou dar meia volta e fugir, mas a jovem a segurou pelos braços.
- Calma loira. Não estou aqui pra te sacanear nem... nada mais. Mas você está numa pose tão “quero morrer” que não resisti e mexi com você. Sinceramente ninguém merece isso.
Lisa se sentiu afrontada. Quem aquela mulher pensava que era? Nunca conhecera alguém tão cara de pau.
- Mas você deve se achar a melhor mesmo, né. Então nem sofrer, sentir a ausência de alguém se pode mais nos corredores da universidade?
- É isso que sente? Morreu alguém? É isso? Puxa, lamento. Desculpe, fui meio insensível. Foi mal mesmo. Eu realmente me aproximei com a melhor das intenções – Juliana disse soltando-lhe o braço. Lisa a olha melhor. A morena estava vestida meio hippie, com saia longa colorida e uma blusa decotada. “Aliás, bem decotada”, pensou, vislumbrando o começar dos seios.
- Olha não morreu ninguém. Só não estou em um bom dia. Mas obrigada pela simpatia - respondeu já retomando seu caminho.
- Tudo bem. Não vou ficar te perturbando - disse Juliana caminhando a seu lado. Lisa a olhou de lado.
- Mesmo? - disse irônica. Juliana riu espontaneamente.
- Ok, ok. - ergueu a mão com um bilhetinho entre os dedos. - Este é meu telefone. Para o caso de resolver aceitar meu convite. Ehh! - ergueu o dedo em riste. Não jogue fora! Sempre mudamos de ideia e o que parece péssima ideia hoje é excelente amanhã.
Pôs o bilhete na mão da loira que o observa e, em silêncio, retoma seu caminho. Não percebe o sorriso da morena ao esta notar que guardou o bilhete na bolsa.
Juliana a observa se afastar com um sorriso leve no rosto. Sorriso este que se alargou ao vê-la guardar o bilhete na bolsa. ‘Isso é dor de amor perdido’. Agora mais do que nunca investiria nela. Reparara seu olhar no decote. Caminha em direção à saída do prédio. Ao sair sapateou nas escadas. Ela se sentia o remédio ideal para curar o sofrimento de Lisa.
Lisa olhou para trás e viu a morena sumir pela porta de entrada do prédio que estudava. Balançou a cabeça como a lamentar a inconveniência de algumas pessoas e retornou seus pensamentos à Joyce. Decidira dar a ela o tempo para aceitar os acontecimentos e as mudanças que ocorreriam na vida de ambas. Nada de pressão. Sentia o coração se oprimir cada vez que imagina perdê-la, mas confiava... acreditava que o amor venceria cada uma das barreiras que se erguiam implacáveis ao redor delas. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas. O que não daria para poder sentir seus braços seus beijos, seu toque. ‘Jô... que falta você me faz’.

 - Joyce!! Bela Dama! Jô olha para trás e vê Carlos correndo para alcançá-la. Sorriu e parou, aguardando-o.
- Atrasado novamente, doutor? Carlos sorriu feliz.
- Como vê Joyce, pontualidade não é o meu forte. Você está bem? - olhou-a preocupado - Está com o rosto abatido.
Joyce tocou levemente o próprio rosto. O final de semana deixara marcas de grande abatimento nele.
- Tive alguns problemas. Mas estão resolvidos - disse decidida, ignorando a sensação de vazio dentro de si.
- Hum... - Carlos a olhou descrédito. - Tudo bem. Olha, consegui ingressos de camarote pro jogo do Cruzeiro e Atlético, no Mineirão. Topa?
- Mentira! - Joyce o olhou extasiada. – Sou cruzeirense doente. Claro que topo.
- Aeeee! Sabia que não ia me decepcionar. – Se fosse atleticana nem respiraria mais o mesmo ar que você. Neimmm. Imagina... tão bela e atleticana. Estragava tudo.
- Sei... vou fingir que acredito - virou-se sensualmente olhando-o por sobre o ombro com um sorriso levado e voltou a caminhar no pátio. Carlos a observou caminhar com um rebolar mais que chamativo e sorriu abobado. Essa mulher era tudo de mais maravilhoso na natureza. Feliz a acompanhou brincando e contando pequenos ‘causos’. Joyce o olhava rindo. Carlos realmente tinha o dom de deixá-la bem. Muito bem.

As semanas passavam lentamente. Lisa não aguentava mais de ansiedade. Precisava procurar Jô. Não tinha santo que aguentasse tanta provação. Tinha tanta certeza que Jô iria procurá-la que anulara os problemas da mente e se dedicara só aos estudos. Mas agora as coisas já estavam ficando insustentáveis. De tudo isso a única coisa boa que acontecera fora a volta às boas com Junior.
- Lisa ajude aqui. Lisa olhou pela janela e viu seu pai tirando compras do carro e equilibrando-as precariamente nos braços
- Tô indo - ergueu-se ágil e correu para pegar as sacolas que quase caiam no chão. Rindo muito, os dois procuravam, no meio do passeio, não deixarem as compras caírem, aprontando uma verdadeira algazarra circense. Nesse momento, Carlos passou de carro pela rua, com Joyce no banco de passageiro
- Olha só aqueles dois - riu divertido, reparando a cena de pai e filha.
Joyce, extática, olhava Lisa aos risos com o pai. Tanto tempo procurando anulá-los da mente e Carlos resolve passar logo em frente a casa deles. Que saudade! Observou Lisa insistemente. Ela usava um short minúsculo e uma blusinha justa que valorizava cada curva. Estava mais magra, notou meio sentida. Passou a mão nos cabelos. Sentia tanta falta da alegria, da farra da família de Lisa. Sentia falta de Paula, de Marcos, dos irmãos de Lisa... de Lisa. Virou o rosto para trás tentando guardar mais um pouco daquela cena. Que falta sentia da sua... família.

Lisa adentra a casa praticamente sem fôlego. Seu pai vivia pondo-a em vexames e diversão. Colocou as compras na mesa e observou o irmão mais novo entrar na cozinha com o resto das compras.
- Nando, você chegou na hora certa - disse rindo. Fernando a olhou meio irônico.
- Seu Marcos não vai mudar nunca. Bom, tenho que sair... tô atrasado. No caminho pareceu pensar e deu meia volta. - Lisa, mana, tô com ingressos pro show dos Titãs e a Marcinha não poderá ir. Surgiu um problema na família dela. Não quer me dar a honra de sua companhia?
- Mentira Nando, não acredito. Você está me convidando para sair? Fernando ficou sem graça.
- Olha não me zoa. A Márcia só fica tranquila se eu for com você. Tô louco para ver esse show e não quero me indispor com ela. Vamos, vai! Lisa olhou o irmão divertida. Nunca imaginara que um dia o veria apaixonado.
- Por que não chama um de seus amigos? O irmão a olhou sério.
- Olha mana, sendo sincero. Você anda tão tristinha ultimamente que acho que faria bem sair um pouco. Pô sou tão mala assim?
Lisa encarou o irmão. Fernando a chamava porque estava preocupado com ela. Não podia negar, tinha a melhor família do mundo.
- Eu vou, Nando. Obrigada por pensar em mim, viu - respondeu dando-lhe um beijo no rosto. - Que dia vai ser?
- Amanhã. Vai gata, tá. Agora deixa ir que tô atrasado mesmo.
Lisa o observou sair. Titãs... Seu olhar se nublou. Jô adorava Titãs.

- Titãs? Não acredito! - Joyce pulou no pescoço de Carlos. – Eu amoooo Titãs. Carlos sorriu
- E eu não sei? Olha aqui, Jô – mostrou os ingressos. - Amanhã, hem! Vê se não esquece.
- Claro que não vou esquecer – beijou-o, carinhosa
- Jô - Carlos a abraçou mais forte e olhou para sua casa de dentro do carro. - Que dia poderei conhecer sua família? Joyce estremeceu e saiu dos braços dele.
- Eu... - passou a mão nos cabelos. - Eu tô preparando Mariana, Carlos. Não quero que ela te hostilize. Olha, me de só mais um tempo.
- Tudo bem - Sorriu sem graça. – Às vezes fico ansioso, desculpe. Joyce o olhou com carinho.
- Tem paciência. Logo vou marcar um jantar em casa, tá.
- Ok. Bom, tenho ir agora. Te ligo mais tarde?
- Liga sim - respondeu dando-lhe um beijo leve. Sorriu olhando-o se afastar, porém logo ficou séria. Voltou o olhar para sua casa e entrou lentamente.
- Mãe!!
- Hei linda. Que boca suja é essa? - disse enojada, desviando o rosto do beijo de Mariana.
- Ah mãe, é chocolate com mel - respondeu passando a mãozinha na boca.
- É? Então vai lavar esse rosto e depois, ai sim, você pensa em me dar um beijo.
Viu, sorrindo, a filha sair da sala. Caminhou lentamente para a cozinha onde a empregada fazia um lanche.
- Olá, Fátima. Tudo bem por aqui?
- Está sim, Joyce. Quer que te prepare algo?
- Não, obrigada. Hã... alguém ligou?
- Sim, a Lisa ligou.
Jô ficou alerta.
- O que ela queria?
- Pediu para falar com Mariana. Ficaram um bom tempo no telefone.
Jô sentiu uma raiva dentro de si, mas manteve o rosto impassível.
- Bom... Ok, então. Depois ligo para ela.
Saiu da cozinha possessa. Lisa sempre ligava para Mariana, mas nunca a chamava. Tudo bem que era melhor assim, mas achava isso ridículo. O que tinha elas conversarem? Aliás, elas precisavam conversar. Ambas fugiam do confronto. Sentia tanta falta da loira! Vê-la acabara com suas defesas. Olhou para o telefone e o segurou. “Mas... o que dizer?” “Lisa, tô namorando. Pois é ninguém aqui em casa sabe ainda, mas já não tá dando pra esconder mais não. Quanto a nós? Bom, eu... eu te amo... e preciso de você.” Bateu o telefone. “Você é ridícula, Joyce. Que mulher sã vai aceitar ser a outra? Deus quero Lisa!” gemeu baixinho. “E quero Carlos”.
Mariana entrou na sala e viu a mãe perto do telefone.
- Mãe? Joyce ouviu alguém a chamando ao longe. Balançou a cabeça ao ver Mariana perto dela.
- Hum... hei linda! Ah, de rosto lavado! - ajoelhou-se e tascou um beijo longo no rosto da filha. Mariana riu deliciada e as duas começam a brincar, rolando pelo chão. Após um tempo, cansadas, Jô perguntou à filha que estava em seus braços.
- Soube que Lisa ligou para você. Que ela queria?
- Ah, saber como tô na escola, se tô bem, dizer que me ama muito - respondeu a criança, feliz Jô sentiu uma onda de ciúmes dominá-la, mas se controlou.
- E... ela perguntou por mim?
- Não, mãe. Mãe... por que Lisa não vem mais aqui? Às vezes a vó me leva lá na casa dos padrinhos, mas Lisa não vem mais aqui.
Joyce ficou desconcertada. O que responder?
- Bom, Mariana, eu e Lisa tivemos uma briguinha, mas vamos resolver. Nada sério viu. Logo tudo fica bem.
- Mas mãe, você mesmo disse que brigar não resolve nada. Se bem que vive gritando né.
- É mesmo, senhorita Mariana? - Joyce se apoiou no cotovelo e olhou a filha ameaçadora.
- Sim e também diz que não se deve falar palavrão e sempre fala!
- Ah menina, me respeita, viu! Não faço isso.
- Faz.
- Não faço!
- Faz.
- Vou te mostrar como faço - Jô fez cócegas na filha, fazendo-a rir e rolar pelo chão.
Mais tarde, observando Mariana assistir desenhos Joyce volta novamente o pensamento à Lisa. As coisas não podiam ficar como estavam. Estava decidido. Sábado ira procurar Lisa e conversar. Tinha certeza que juntas achariam uma saída para toda esta bagunça que se colocaram. Afinal... eram amigas, certo!?

 “Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.”
 (Eduardo Galeano)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Capitulo XXIII

Lisa chegou à casa ensopada. Correu para o quarto, tomou um banho quente e pôs um roupão. Só então estranhou o silêncio da casa. Foi até a sala e viu o bilhete preso à televisão: “Estamos na casa de seu tio Armando. Qualquer coisa ligue. Beijos, Papai e Mamãe.” Olhou para os lados rindo e imaginando onde estaria a criancinha que eles pensavam ainda ter em casa. Foi ate a cozinha e abriu a geladeira. “Hum, vamos ver o que tem para comer”. Nesse momento ouviu a porta da frente se abrir. Olhou para trás e viu Junior surgir na entrada da cozinha. Os dois se encararam em silêncio. Depois Lisa viu o irmão virar as costas e sair em direção ao quarto. Baixou a cabeça e fechou a geladeira. De repente já não sentia mais fome.
Joyce por sua vez caminhava em direção à casa de Lisa. “Meu Deus, que dilúvio! O mundo está acabando.” Perdera a hora e não fora a faculdade. Esperava encontrar Lisa em casa também. Não acreditava que tendo passado mal no dia anterior ela tivesse saído, ainda mais com a chuva que caia. Tocou a campainha e viu a loira surgir a sua frente.
- Lisa! Não me diga que saiu hoje! - disse ao ver a loira com o cabelo molhado. Lisa a encarou surpresa. Não imaginava que a morena fosse aparecer à sua porta ainda pela manhã.
- Ah... Olá, Jô. Entra.
- Está sozinha? - Jô perguntou dando-lhe um beijo no rosto e olhando para os lados.
- Não... Junior está no quarto. Não foi à faculdade hoje?
- Não... dormi mais que a cama - respondeu a morena se jogando no sofá. – Como você está? Não me respondeu se saiu hoje.
- Claro que sim. Fui à faculdade, uai.
- Doida! Passa mal ontem e hoje sai e ainda com este tempo? Não tem juízo, Li?
- Ah, para, Jô. Já estou em casa, sã e salva.
Sem querer, sua mente se voltou à morena da biblioteca. Que loucura! Olhou para Joyce e pensou em lhe contar o que acontecera, mas depois resolveu se calar.
- E você? Por que perdeu a hora?
- Por quê? - Joyce olhou rindo para ela. – Porque dormi demais.
- Por quê? Dormiu tarde? - Lisa fez cara de inocente.
- Hã... dormi sim. Estava sem sono.
- Por que sem sono, Jô? Você não é de perder sono à toa.
- Às vezes perco, oras. Mas me diga, você está melhor mesmo? Me deixou muito preocupada ontem, loirinha - Jô tocou delicadamente o rosto dela. Lisa observou Jô com olhos semicerrados. “Será que ela não vai me contar que saiu ontem?”
- Estou bem, Jô... Estou bem. Ah... e você? Tudo bem? Que fez ontem depois que foi para casa?
- Eu? - Jô a olhou desconfiada. –Eu? Nada. Eu li um pouco, fiquei com Mariana, aproveitei para por a conversa em dia com minha mãe. Por quê?
- Nada... - a loira percebeu que Joyce não sabia que estivera em sua casa e silenciou. Seu coração se oprimiu. “Porque ela não me conta que saiu?”
- Li você me disse que queria me dizer algo. Bom, tô aqui.
Lisa a encarou em silêncio, o que deixou Joyce ansiosa.
- É sobre você ter passado mal ontem, né. Sei que andou angustiada e por minha causa, porque andei distante, mas saiba que sou eu mesmo. Eu ando cheia de coisa na cabeça e fico perdida. Acabei por descuidar das pessoas que gosto. Você não é a única que reclama sabe. Mariana, mamãe estão sempre reclamando dizendo que estou impaciente, nervosa. Mas olha, vou mudar. Quero que saiba que não vai se repetir e...
Lisa interrompeu Joyce.
- Mamãe já sabe da gente.
Joyce a olhou em choque. Abriu e fechou a boca várias vezes. Percebeu o cérebro lento como se não assimilasse o que acabara de ouvir.
- Co... como?
- Mamãe sabe da gente. Eu contei ontem.
Joyce sentiu o ar lhe faltar. Pôs a mão sobre o coração sentindo-o acelerado. Olhou Lisa e tentou falar, mas a voz não saia. Tentou se levantar, mas as pernas estavam paralisadas. A loira observava-lhe cada gesto. Sabia ter sido muito franca ao falar, mas não vira outra forma de introduzir o assunto.
- Co... mo contou? Eu... contou da... gente? Mas... eu... não me disse!
- Não disse o que, Jô? Foi de repente. Ela me pôs na parede para saber se era verdade que éramos namoradas. Acabei assumindo que sim.
- Mas... como? Como sabe? Ela desconfiava? Por que ela desconfiava? QUE LOUCURA É ESTA, LISA? Joyce começou a gritar em desespero.
- Calma Jô, não precisa gritar.
- Não precisa? NÃO PRECISA! Você desmaiou Lisa, e EU não posso gritar?
Lisa se calou. Viu Joyce se erguer do sofá e andar de um lado ao outro na sala.
- Devia ter negado Lisa. Devia ter negado. Meu Deus!! - pôs a mão na boca. – Meu Deus! Lisa... não pode acontecer isso! Que faço? Meu Deus!
- Calma Jô. A mãe aceitou bem - Lisa tenta tranquilizá-la
- Bem? BEM? Agora sei por que ela foi grossa comigo ontem! Claro, receber a mulher da filha. A mulher da mulher que por acaso é filha dela. Puta que pariu!!! Tô fudida. Tamos fudidas.
- Calma Jô. Eu disse que ela aceitou porra. Fica calma.
Jô parecia não escutá-la. De repente se vira em direção a ela.
- Quem contou a ela? Diz Lisa, quem contou? - gritou agarrando-lhe os braços.
- Jô, você está me machucando. Me solta. - Lisa gritou, soltando-se com um safanão.
- A culpa é sua, Lisa! É sua! Sempre querendo assumir. Deve ter dado bandeira! Queria isso o tempo todo! Você me sacaneou. Só pensou em você!! Lisa a olhou em choque.
- Tá louca, Jô? Nunca faria isso! Não dei bandeira como diz e nem fiz nada por suas costas.
- Não quero isso! Não quero que me vejam como sapata!!!! Você devia ter desmentido até a morte, porra. Você é foda. Droga... não acredito nisso.
Lisa a olhou como que não acreditando no egoísmo de Joyce. Acabara de contar que sua mãe descobrira delas e tudo que a morena sabia pensar era que não queria ser vista como sapata. Sentiu uma tristeza enorme e respondeu desanimada à Joyce.
- Eu não tive como desmentir. Desmaiei.
Joyce a olhou em silêncio. Não queria acreditar que aquilo estava acontecendo. “Meu Deus, o que dona Paula devia estar pensando! Não quero isso. Isso não está acontecendo”.
- Lisa, você tem que desmentir. Diga que foi paranoia sua, sei lá, inventa algo.
- Impossível Jô. Já está feito. A questão agora é... você está nessa comigo?
Joyce a olhou assustada. Como assim nessa? Lisa só podia estar louca!
- Tá louca Li? Sou mãe! Tenho mãe! Não consigo nem imaginar elas descobrindo isso! E a faculdade?? E... e... as pessoas!! NÃO. Não posso. Deus Li, não posso... tá louca?
Sentou no sofá e cobriu a cabeça com as mãos. Lisa a olha sem acreditar nas atitudes da morena. Tentava assimilar o que ela dizia, mas tudo que lhe vinha à mente era. “Ela está me deixando só nessa.”
- Jô... onde esteve ontem à noite? Joyce ergueu a cabeça surpresa.
- Como?
- Onde esteve ontem à noite. Sei que saiu. Estive em sua casa.
Jô ergueu-se enfurecida. Inflou o peito e gritou.
- Quer saber o quê??? Me solta uma bomba dessa e vem me questionar onde estive? Vá à merda, Lisa. Vá à merda. Quero sair daqui.
Saiu revoltada da casa de Lisa batendo a porta. Onde estivera a noite passada era o de menos. O que não queria e não iria acontecer era ser apontada como a sapata do bairro. Começou a chorar em desespero. “Meu Deus, Lisa o que você fez? O que você fez comigo?” Sentia o coração bater descompassado. Lisa conseguira. Estragara tudo. Ela não nascera para ser apontada na rua como “a diferente”. Já prejudicara sua vida uma vez e não faria isso novamente. Começa a respirar fundo. “Bem Jô, vai calma. Para tudo existe saída”. Pensou em Carlos. Sentia-se bem com ele, adorava suas conversas seu jeito alegre e ao mesmo tempo responsável. Tentou analisar seus sentimentos. Gostava dele... na verdade, sentia atração por ele. Era seu maior conflito. Como se sentir atraída por uma mulher e por um homem? Isso existia? Passou a mão nos cabelos. “Claro que existe, né Joyce, songamonga. Você está!” Pensou, batendo a mão na testa. Mas... e o amor? Bom... amor se conquista com o tempo... é isso. Ergueu o queixo. Olhou para trás e viu a casa de Lisa ao longe. Baixou a cabeça. Mas... Meu Deus. Lisa em seus braços, seu toque cheio de paixão. Sentiu um frêmito dentro dela ao lembrar. Porra há quanto tempo não fazia amor com Lisa. Burra, fugindo dela estas semanas se privara do prazer de estar em seus braços. Balançou a cabeça energicamente. Para Jô. Volte aos prós e contras. Lisa te cobra mais que pode dar. A vida com ela seria sempre conflituosa, com pessoas olhando de lado, ouvindo criticas e sendo vítima do preconceito. Sua filha seria sempre hostilizada na escola e ela... ela seria sempre apontada como a sem vergonha que sempre fez as escolhas erradas na vida. Já vivera isso e as recordações não eram as melhores. Aliás, nunca mais queria sofrer como no passado. E Carlos... sentiu o coração aquecer. Carlos era a oportunidade de consertar todos os erros que cometera. Soltou o ar lentamente, pois sem o perceber prendera a respiração. Foi como se então colocasse para fora todas as incertezas. Com tristeza de quem sabe que não existe outra saída voltou o olhar para frente e virou a esquina em direção a sua casa. “Eu te amo, Li, mas não posso... e vou fazer o que é certo. Um dia me dará razão.”
Lisa estava sem ação. Joyce tivera uma reação que não esperava. Pôs a mão na testa e a esfregou. Sentou-se no sofá e sentiu lágrimas virem-lhe aos olhos. “Meu Deus, ela vai me deixar... ela vai me deixar!” A angustia tomou conta de todo seu ser. O que fazer? Como... que atitude tomar frente a tudo que estava acontecendo? Ela amava Joyce, não queria perdê-la. Escondeu o rosto com as mãos e sentiu lágrimas quentes entre os dedos. Soltou um gemido angustiado. Foi quando braços calorosos lhe abraçaram os ombros. Ergueu a cabeça e viu Junior a olhando solidário. Lisa resistiu de inicio. Depois, entregue, enlaçou a cintura do irmão e chorou. Ergueu a cabeça, triste.
- Desculpa Ju.
- Shiii... Tudo bem Li. Tudo bem.
Não disseram mais nada. Ali permanecem, unidos, pelos laços de sangue e de amor.

 “A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos.”
 (George Bernard Shaw)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Capitulo XXII

Mariana olhava entediada para a televisão. Naquele horário não passava nenhum desenho. Sua avó a deixara ficar acordada até mais tarde, mas não tinha graça nenhuma, já que a avó ficava só assistindo novela e se ela tentasse falar nesse momento era só para ouvir “Psiu! Está na parte mais emocionante”. Cadê esta parte que ela nunca via? Suspirou alto e se levantou do sofá. Nesse momento a campainha tocou. A avó se assustou, pois quem poderia ser naquele horário?
- Lisa? Menina, que surpresa! Soube que passou mal hoje.
- Olá Lucia, tudo bem? Eu estou bem e... Lisa foi interrompida pela menina que a abraçou fortemente pela cintura.
- LISAAA!
- Mari! Linda! - beijou-a carinhosamente no rosto. – Nossa, cada vez mais bonita! Esses olhos verdes me matam! - pôs a mão sobre o coração, em brincadeira. Mariana sorriu feliz
- Você tá bem, Lisa? Mamãe disse que você tava doente! Já sarou? Diz que sim!!
- Já, lindinha. Não foi nada, não. Não estou mais doente, viu!
Mariana junta as mãozinhas, contente, Deus tinha ouvido sua oração! De repente seu rosto se transtornou. Lisa reparou a expressão de horror no rosto da criança e se preocupou.
- Tudo bem, Mari?
- Ah... tudo... A menina virou-se repentinamente para a avó. – Vovó, amanhã terá jiló?
- Como? Jiló? Não, Mariana, por quê? - Lúcia olhava-a sem entender nada. A menina suspirou aliviada.
- Nada não... eu... posso ir pro quarto? Deu... sono.
- Claro querida. Se despeça de Lisa e boa noite. Logo vou te cobrir direitinho.
- Tchau, Lisa. Deu um beijo rápido em Lisa, que estranhou sua atitude, mas retribui com carinho o afeto. - Durma com Deus, Mari. Não esquece de rezar, viu.
A criança olhou-a com olhos meio arregalados.
- Pode deixar Li... tenho mesmo que falar com Ele - respondeu, correndo para o quarto, em seguida.
Lisa balançou a cabeça rindo. Mari só podia ser filha de Joyce, mesmo. Ambas eram imprevisíveis. Ao pensar em Jô, voltou-se para Lucia e perguntou.
- Lucia, cadê Jô? Queria falar com ela.
Lúcia olhou-a indagadora.
- Uai, Lisa, não está sabendo? Jô saiu com uns colegas.
- Saiu? Mas... como assim, saiu? Ela não me disse nada! Lucia olhou surpresa com a frase.
- Bem Lisa, ela só me disse que ia sair e não voltaria tarde.
- Eu... bom, desculpe - falou passando as mãos no cabelo. – Ela comentou algo mesmo, mas eu esqueci. Eu... bom, tenho que ir.
- Espera Lisa. Você está bem mesmo? Soube que teve um desmaio. Liguei para sua mãe. A loira olhou-a meio assustada.
- Minha mãe?
- Sim, para ter noticias suas.
- Eu... Eu tô bem. Foi só uma queda de pressão, mesmo. Nada demais. Ela... te disse algo mais?
- Só preocupação de mãe mesmo. Por quê?
- Nada não... bom, tenho mesmo que ir. Desculpa pelo horário, Lucia. Bom... boa noite.
- Boa noite, Li. Olha, se cuide, tome muito líquido. Faz bem.
- Claro... claro... Tchau.
Lúcia observou Lisa sumir na esquina. Passou a mão na testa e a franziu. Suspirou alto, fechando a porta e depois se encaminhou ao quarto de Mariana. Olha de relance a televisão. ‘Bom, espero que ainda consiga ver a última parte da novela’.
Lisa caminhou pensativa para casa. Joyce saíra e não comentara nada, tentava decifrar a charada: “para onde ela fora?”. Mesmo sem querer, relembrou o que seu irmão dissera. Bateu na testa. ‘Para Lisa! Para de pensar nisso. Ele só queria envenenar sua relação com Jô. Puros ciúmes’. Baixou a cabeça e apressou o passo. Dentro de si a semente da desconfiança germinava. Com quem Jô fora se encontrar?

Joyce não conseguia deixar de rir. Carlos era divertidíssimo. Contava casos hilários do tempo de faculdade e buscava sempre agradá-la em pequenos gestos. Isto a encantava e comovia. Só agora percebia como sentira falta de paquerar, descobrir a outra pessoa. Olhou para o relógio e notou que, infelizmente a noite estava acabando, já havia passado da meia noite.
- Carlos estou adorando a noite, mas... tenho mesmo que ir.
- Claro Joyce... desculpe prendê-la por tanto tempo. Mas juro... nem senti o tempo passar. Joyce baixou a cabeça, tímida.
- Eu também não, Carlos.
- Joyce – Carlos segurou sua mão. – É muito bom estar com você. Há muito tempo não me sentia assim com alguém.
Jô sente o coração acelerar.
- Também estou adorando, Carlos. Você é divertido, tem um papo maravilhoso. Obrigada por esta noite tão especial.
Carlos insistiu em levá-la para casa. Joyce o observou pelo caminho. O assunto entre eles nunca acabava. Ela se sentia tão à vontade, que ria como uma criança. Carlos a olhava fascinado. Queria esta mulher para ele.
- Bem, linda dama, está entregue em casa, sã e salva – disse abrindo a porta do carro para ela.
- Nossa tão cavalheiro!
- Claro! Acha mesmo que não vou acompanhá-la até a porta?
Já na porta da casa de Jô, ela se voltou para ele e estendeu a mão.
- Bom - disse meio sem graça. Boa noite. Carlos segurou sua mão com carinho, mas não a soltou.
- Joyce... Jô será que poderíamos nos ver novamente? Eu gostaria muito. A morena sentiu uma alegria quase infantil com o convite.
- Claro... também adorei. O rapaz abriu um lindo sorriso.
- Você não se arrependerá, Jô. Te levarei a um lugar incrível. Em Nova Lima. Pode ser amanhã?
- Amanhã? Eu... Carlos... bom, eu tenho uma filha. Tenho que ver. Mas você podia me ligar.
- Mesmo? Então me dê o número.
- Espere... vou buscar papel e caneta.
Joyce entrou na casa. Não percebeu sua mãe deitada no sofá, que, ao contrário, viu a filha pegando papel e caneta. Curiosa, levantou-se e foi à janela. Pela cortina viu um belo rapaz anotar algo e depois sorrir para sua filha. Joyce observou o lindo sorriso que a fascinava e o retribuiu. Cauteloso Carlos aproxima sua boca dos lábios dela, e percebendo que ela não se afastou a beija delicadamente. Ela se entregou ao beijo, que se aprofundou. Um fim perfeito para uma noite perfeita. Lúcia fechou a cortina e sorriu deliciada. Caminhou em direção ao quarto de Mariana que dormia serena. Beijou-a com amor... Sim, agora sim, tudo estava caminhando bem.

O sábado amanheceu nublado. Lisa caminhou em direção à biblioteca da faculdade. Dormira muito pouco à noite pensando em Joyce e seu passeio misterioso.
- Bom dia, queria entregar este livro. A jovem atendente olhou-a por cima dos óculos.
- Infelizmente não tenho como receber. A bibliotecária não chegou e não tenho acesso às fichas de empréstimo.
- Poxa... mas se não entregar hoje pago multa! Lisa sentiu-se desanimada. Parecia que tudo estava dando errado em sua vida.
- De forma alguma. Vou anotar aqui que você esteve aqui para entregar o livro. Só não o pego porque é muita responsabilidade – pega sua carteira de estudante e escreveu seus dados em um bilhete no qual esclareceu o acontecido. - Fica mais tranquila assim?
- Muito. Não posso ficar sem minha carteira de biblioteca e já tenho uma ocorrência.
- Nossa quem diria! Logo você que é tão... certinha – Olhou-a irônica por cima dos óculos.
Lisa surpreendeu-se com o comentário. Ela a conhecia?
- Não sou certinha. Mas também não gosto de errar. Infelizmente aconteceu.
Um relâmpago iluminou toda a biblioteca. Logo após as luzes se apagaram. Uma chuva torrencial começou.
- Não acredito - Lisa bate a mão na testa e a esfrega. – Hoje é mesmo o dia. Observou que somente ela e a atendente estavam na biblioteca. Aliás, na recepção, porque a porta que dava acesso à mesma encontrava-se fechada.
- Calma menina, chuva passa. Aliás, meu nome é Juliana.
- Beleza, Juliana. Legal. Prazer – cumprimentou desanimada.
- Ave Maria, se você também tem este entusiasmo todo no amor, coitado do homem que está com você... ou mulher - disse irônica a observando atenta.
Lisa olhou assustada. ‘Deus, será que eu ser lésbica dá na cara?’
- Como é?
- Nada... nada... quer uma cadeira para sentar?
- NÃO. Quero é ir embora. Você... você disse aquilo mesmo?
- O quê? - Juliana faz cara de inocente.
- Nada! Gente, mas como você é cara de pau!
- Calma, menina, quem não faz não teme – olhou-a, agora nos olhos. – Estou certa?
- Papo mais louco, meu - Lisa olhou para fora, a chuva caia impiedosa.
- Bem, em momento algum eu disse que era normal... ou anormal. Sou apenas eu. – Juliana tirou os óculos e os limpou na blusa. A loira a observou melhor. A mulher era bem doidinha, mas era um mulherão. - Gostou?
- Ah? - Lisa a olha desentendida
- Gosta do que vê?
- Do que está falando, criatura!! Gostar do quê? Não, você definitivamente não regula bem.
A morena riu deliciada.
- Vejo que vou gostar de você, loira. Não gostaria de depois da chuva tomar um lanche comigo?
Lisa a olhava com descrédito. Lanche com aquela... maluca? Nem pensar
- Tô sem fome.
Estremeceu quando a morena aproximou o corpo do seu e lhe sussurra baixinho no ouvido.
- Posso te deixar com fome rapidinho. Lisa a encarou de boca aberta. Estava totalmente sem fala. Viu-a se afastar olhando-a nos olhos com um sorriso safado. - Sabe loira... Lisa, meu gaydar nunca falha. E ele está apitando agora.
- A... apitando?
- Sim... apitando – beijou-a na boca assim que respondeu. Lisa se afastou repentinamente.
- Endoidou mulher??? ENDOIDOU? Sai pra lá! – empurrou a morena e saiu correndo.
Juliana observou a loira correr sob a chuva e sorriu deliciada. Estendeu a mão na chuva e molhou os dedos, lambendo-os logo após. “Gostei dela... gostei mesmo. Ah, a chuva... sempre tão bela... e produtiva". Voltou a se sentar na cadeira, aguardando a chuva passar.

 “Se não queres que ninguém saiba, não o faças.”
 (Provérbio chinês)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Capitulo XXI

Lisa entrou em casa quase na ponta dos pés. Ouviu barulho na cozinha, mas seguiu em direção ao quarto. Tinha ainda a mente agitada pelos acontecimentos da semana e, principalmente, do desentendimento com Junior. Assim, trancara-se dentro de si mesma e, evitando muita conversa, não dava margem para que sua mãe se aproximasse para o tão comentado papo. Bem... ao menos acreditava nisso.
- Lisa, não precisa evitar fazer barulho. Percebi que chegou.
A loira olhou para trás e viu sua mãe parada na porta da cozinha enxugando as mãos no pano de prato, encarando-a.
- Ahh... Oi, mãe. É que eu... estou com dor de cabeça e preferi evitar muito barulho... É isso.
- Lisa... – a mãe se aproximou séria. – Sei que está me evitando.
- Eu? Que é isto! – Lisa ensaiou uma cara de espanto, mas sentindo o quão falso soaria, baixou o rosto. - Desculpa mãe. É que não estou mesmo me sentindo bem.
- Não está bem desde a conversa com Junior, certo?
- Mãe, não quero falar nisso, ok. Vou para o meu quarto – virou-se em direção ao quarto.
- Filha, eu sei o assunto que você e Junior conversaram.
Lisa virou-se repentinamente para a mãe e respondeu agressiva.
- Não! Você não sabe nada! Nada, entendeu! Junior é um intrometido! Você não sabe da missa a metade, dona Paula! Então não se ache entendida do assunto!
- Lisa, não adianta ser agressiva comigo! Baixe o tom, modere a língua e me respeite! – Paula elevou ligeiramente a voz.
- Então não se intrometa na minha vida! - Lisa entrou no quarto e tentou fechar a porta, mas sua mãe a impediu.
- Eu sei de você e Joyce, Lisa! - falou alto. - Eu sei que vocês são... estão... que vocês... estão juntas.
Lisa parou, em choque. Olhou sua mãe fixamente até sentir perder a força das pernas. Caminhou com dificuldade até a cama, sentou-se e começou a tremer. Paula lentamente adentrou no quarto, fechou a porta e foi sentar-se ao lado da filha.
- Lisa, eu sempre desconfiei. Sempre! Quando Junior me contou eu já percebia os sinais, mas não queria ver. Só que existe sempre o momento em que não da mais para fechar os olhos. Ultimamente percebia sua angústia e criava coragem para lhe falar.
- Mãe... mãe... Deus... eu... mãe... – Lisa explodiu em lágrimas desesperadas. – Não me odeie mãe!! Eu... eu não faço por querer... eu... não faço por querer... desculpe – começou a balançar o corpo para frente e para trás abraçando os próprios braços.
- Lisa... filha! - Paula abraçou a filha, angustiada. – Filha, eu... não chore, por favor! – beijava o rosto tão amado de sua menina. - Calma Lisa...
Lisa, porém, não a escutava. Em prantos abraçava a mãe fortemente, temerosa. Sabia que agora não havia mais volta. O que mais temia estava acontecendo e só conseguia pensar que o bem maior de sua vida - sua família - estava por um fio. Sentiu as forças lhe faltarem e, lentamente, perdeu a consciência. Paula, em pânico, a segurou com mais força, deitando-a na cama em seguida. Chorando, percebeu que começava naquele momento a maior provação de sua vida. Sabia não ter opções. Só havia dois caminhos a tomar: apoiar sua filha em sua escolha, ou não. E sabia que qualquer que fosse a decisão tomada, sofreria.
- Ah Lisa... Lisa... Por que você não é como as outras? Por quê?

Joyce respirou fundo. “Ok, vamos ligar para Lisa”. Discou o número e... desligou. Soltou o ar que prendia angustiada. “Vamos, Jô! Que covardia é essa?” Discou novamente o número. Ouviu o toque chamando e sentiu o coração disparar.
- Alô?
- Dona Paula? Oi... é Joyce. Lisa está?
O silêncio do outro lado deixou-a insegura.
- Paula? Dona Paula?
- Desculpa Joyce... eu... bem, Lisa passou mal e está deitada. Melhor que ligue mais tarde.
Joyce sentiu a apreensão tomar conta de seu corpo. “Como assim passando mal? Lisa tem uma saúde de ferro!”
- Mas... ela tá bem? O que ela tem? Eu vou pra aí agora!
- NÃO! Não... Joyce, não. Olha, ela está dormindo... Melhor não vir, não quero nada a agitando.
Joyce sentiu um gelo descer ao coração que antes batia acelerado. A voz de Paula estava estranha, tensa, fria. Começa a se sentir como uma menininha que fez algo muito, mas muito errado. “Será que ela está chateada com meu sumiço?”
- Ah, olha Dona Paula... sei que andei sumida. Sabe como é, a faculdade, Mariana. Andei meio agitada esta semana. Mas... eu quero muito, mas muito mesmo ver Lisa. Por favor.
Um novo silêncio tomou conta da conversa. Jô começou a sentir o ar lhe faltar. “Mas o que está acontecendo?”
- Esta bem, Jô. Mas olha, não quero Lisa agitada. Se estiver dormindo não irei acordá-la entendeu?
- Mas... que aconteceu? Dona Paula, que aconteceu?
- Emocional Jô. Apenas isso. Ou melhor, tudo isso. Bem, até logo.
Paula desligou o telefone. Jô se sentia na Antártida tal o gelo que sentia na voz de Paula. Desligou rapidamente o telefone.
- Mãe vou à casa de Lisa! Ela não está bem! Não demoro!
Jô saiu correndo sem esperar a resposta. Pelo caminho só rezava que não fosse nada sério. Lisa não! Sua loirinha tinha que estar bem! Emocional!? “Será que foi por minha culpa? Aff! Com certeza! Ah, Jô você está magoando a melhor pessoa de sua vida! Loirinha, amo você. Amo você. Tô chegando!” Parou em frente à casa de Lisa e tocou a companhia. Ouviu os passos que reconheceu serem de Paula. Sem entender bem por que, sentiu o peito se oprimir. Nunca sentira isso com a mãe de Lisa. Por que isso agora?
- Olá, Joyce. Veio rápido.
- Eu... Oi Dona Paula. Eu... Cadê Lisa?
- Olha Jô... Joyce. Ela está dormindo. Pode vê-la sim, mas, por favor, não a acorde, ok.
- Mas... o que ela teve?
- O médico esteve aqui. A pressão caiu e ela desmaiou. Mas está tudo bem. Vá lá vê-la.
Joyce queria fazer mais perguntas, mas via-se claramente que Paula não estaria disposta a responder. Aliás, a mãe de Lisa também estava muito abatida. Caminhou em direção ao quarto de Lisa sentindo o olhar de Paula em suas costas. O ambiente estava pesado e ela, sem saber como agir, entrou no quarto de Lisa de cabeça baixa. Ao ver sua loirinha dormindo, o coração deu um baque. Lisa! Sua loirinha! Aproximou-se dela. Estava com um semblante tão triste, abatido. “Loirinha... que aconteceu?” Segurou a mão amada e começou lentamente a acarinhá-la. Perdeu minutos ali, procurando transmitir a Lisa todo seu amor e carinho. “Lisa, diz que não está assim por minha causa, diz. Acorda, diz que me ama, que me entende. Desculpe... desculpe.“ Levou a mão de Lisa ao rosto e o acariciou com ela se pondo logo depois a beijá-la.
- Ah, loirinha... loirinha - disse baixinho. Sentiu então alguém nas suas costas, olhando para trás viu Paula a encarando fixamente. Voltou o olhar a Lisa, colocou sua mão calmamente sobre a cama com carinho e se ergueu lentamente.
- Ela está mesmo bem, Paula? - perguntou ainda olhando Lisa.
Paula percebeu em Jô o olhar preocupado, carinhoso, fixo em sua filha. Teve uma vontade louca de tirá-la dali, afastá-la de Lisa. Expulsá-la. Mas ao mesmo tempo sentia um carinho imenso por esta jovem que vira crescer. Ainda assim não se sentia pronta para o que estava acontecendo.
- Sim, Joyce. Eu já disse que ela está bem. Só precisa descansar. Fique... tranquila. Melhor sairmos agora e a deixarmos dormir.
- Claro... claro - Joyce deu um beijo no rosto de Lisa e acompanhou Paula na saída do quarto.
- Dona... Paula – segurou o braço da mãe de Lisa e a sentiu ficar tensa. – Eu... é verdade que Lisa está bem, né.
Paula virou-se devagar para a jovem e responde carinhosamente.
- Sim, Jô. Ela está bem. Só precisa descansar. Mais tarde ela te liga, fique tranquila.
- Está bem... Qualquer coisa me avisa??
- Aviso sim... pode deixar. Mas está tudo bem.
Jô baixou ligeiramente e cabeça e quando a ergueu os olhos estavam cheios de lágrimas.
- Eu não quero que nada aconteça a Lisa, Paula. Não me esconde nada, tá! Se precisar durmo aqui... eu..
- JÔ! Eu já disse que está tudo bem. Façamos assim, se algo acontecer te ligo. Dê um beijo em Mariana e em sua mãe por mim, está bem. E fica calma porque não foi nada.
Joyce percebeu que foi dispensada e se retirou devagar da casa de Lisa. Despediu-se da mãe da loira sem se sentir ressentida com a atitude dela. Acreditava ser tensão por Lisa não estar bem. Ao chegar em casa viu que tanto a mãe como Mariana não estavam. Sentou-se lentamente no sofá e suspirou. Ainda bem que sua loirinha estava bem. Por que a vida tinha que ser tão complicada?

 Lisa acordou lentamente. Sentia fraqueza no corpo, mas ainda assim se levantou. Parecia que dormira por séculos. Olhou o relógio e se assustou ao perceber que já eram dezessete horas. Caminhou lentamente em direção à sala onde a mãe assistia televisão. Paula, ao vê-la, ergueu-se imediatamente. As duas se encararam e então, lentamente, a mãe estendeu os braços para a filha. Lisa correu e se aconchegou neles. A escolha estava feita. Paula apoiaria Lisa em todas as circunstâncias e a amaria... sempre. E para sempre.
Mais tarde, já bem mais calma, Lisa resolveu ligar para Joyce. Ficara muito feliz ao saber que ela estivera lá. Estranhou que não tivesse permanecido, mas sua mãe assumiu alguma culpa nisso, pois expressara certa resistência à presença da morena.
- Alô, Jô?
- Lisa? Meu Deus, Lisa!! Como você está? Nossa, tava aqui já meio enlouquecida, mas não liguei porque sua mãe disse para deixar você descansar. Você está bem? Que houve? Como está agora? Quer que eu vá ai? Tá sentindo fraqueza? Não devia estar deitada? – parou para puxar fôlego, e Lisa aproveitou o momento para interrompê-la, sorrindo.
- Jô, calma! Está tudo bem. Eu estou bem. Foi só minha pressão que baixou. Eu... bom... depois queria falar com você.
- Claro Li, tudo bem. Vamos falar, sim. Eu sei que tive meio ausente estes dias, mas... eu... a faculdade tá foda. Mas eu vou aí. Claro que vou. Mas... bom... acho que nem pensar ir lá na festa da sua faculdade, né!? O melhor é você deitar e descansar viu!
- Claro Jô, eu já desisti! Bom, vem pra cá, então. A gente vê um filme, sei lá.
- Não, Lisa hoje não. Sua mãe tava meio estranha, sei lá. Prefiro ir amanhã, tá.
- Hum... ok te entendo. Mas amanhã você vem, né. Tenho muita coisa pra te contar mesmo, Jô.
- Claro que vou, né loirinha! Pode me esperar. E vê se cuida melhor de sua saúde.
- Jô... é serio. Eu... bom, te conto amanhã.
- Está tudo bem mesmo, Lisa?
- Está. Só queria te ver um pouco. Mas amanhã falamos, então.
- Esta bem. Lisa... eu te amo loirinha.
Lisa sentiu o coração se aquecer.
- Também te amo, Jô. Boa noite.
- Boa noite, loirinha.
Lisa desligou o telefone. Estava feliz de ver que ela e Joyce estavam bem, mas ainda assim sentia necessidade de contar a ela tudo que acontecera durante o dia. Estava se sentindo muito bem. Sabia que muita coisa ainda tinha a enfrentar, mas no momento só queria estar com Jô.
- Mãe! – gritou. – Eu vou à casa de Joyce. Não demoro, tá.
- Lisa, espera – Paula surgiu na porta. – Eer... jante primeiro, depois você vai. Por favor. Ficarei mais tranquila.
Lisa olhou para ela. Estava ansiosa para ver a morena, mas sabia que a mãe tinha razão, e que isso a tranquilizaria.
- Está bem, mãe. Vou jantar primeiro.
Lisa viu a mãe caminhar um pouco arqueada em direção à cozinha. Sabia que ela estava triste, confusa e se entristecia de saber ser ela a causadora de tudo isso. Mas ao mesmo tempo sentia alívio. Era muito bom poder ser o que era para as pessoas que amava. “Espero que meu pai tenha a mesma ponderância”

Joyce desligou o telefone aliviada. Lisa estava bem. Olhou para o relógio. Ainda estava em tempo de se encontrar com Carlos. Mas se questionava se devia ir. “Bom, Lisa já está bem, não foi nada sério. Não vamos mesmo à festa da Federal. Não vejo problema de sair.”
- Mãeeeee! Eu vou sair mais à noite. Será que você pode ficar com Mariana pra mim?
- Joyce, não grite! Fico sim, você vai sair com Lisa?
- Lisa? Não, ela passou mal, mas já está bem. Eu... eu vou sair com uns colegas, nada muito chique. Tudo bem?
- Tudo bem, Jô. Mas não volte tarde.
Joyce revirou os olhos. Sua mãe ainda era jovem, mas sempre a tratava como uma menininha.
- Dona Lúcia, a criança aqui agora é Mariana. Aliás, você anda saindo bem menos. Está agindo como uma velha.
- Bom, alguém tem que cuidar de Mariana.
- Ah, me poupe! Te peço isso uma vez ou outra.
- Sei... Jô, melhor ir se arrumar que faz mais negócio.
Joyce saiu rindo. Agora tudo estava bem. Sentia que seria uma bela noite. “Bom, com que roupa vou?” pensou franzindo a testa e caminhando em direção ao seu quarto.
Mariana viu a mãe caminhar para fora da sala. Ouvira-a falando com a avó e não gostara de saber que Lisa estava doente. Caminhou em direção ao seu quarto e se ajoelhou frente à cama. Rezou baixinho. “Papai do céu, cuida da Lisa. Não deixa ela sofrer, não. Eu amo ela muito... muito. Se ela sarar eu prometo pro Senhor que serei boazinha e comerei... argh, jiló.” Ergueu-se feliz. Tinha certeza que depois da promessa de comer jiló, Deus iria sarar Lisa rapidinho.

 “Não é a montanha que nos faz desanimar, mas a pedrinha que trazemos no sapato.”
 (Autor desconhecido)