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terça-feira, 16 de setembro de 2008

Capitulo XXI

Lisa entrou em casa quase na ponta dos pés. Ouviu barulho na cozinha, mas seguiu em direção ao quarto. Tinha ainda a mente agitada pelos acontecimentos da semana e, principalmente, do desentendimento com Junior. Assim, trancara-se dentro de si mesma e, evitando muita conversa, não dava margem para que sua mãe se aproximasse para o tão comentado papo. Bem... ao menos acreditava nisso.
- Lisa, não precisa evitar fazer barulho. Percebi que chegou.
A loira olhou para trás e viu sua mãe parada na porta da cozinha enxugando as mãos no pano de prato, encarando-a.
- Ahh... Oi, mãe. É que eu... estou com dor de cabeça e preferi evitar muito barulho... É isso.
- Lisa... – a mãe se aproximou séria. – Sei que está me evitando.
- Eu? Que é isto! – Lisa ensaiou uma cara de espanto, mas sentindo o quão falso soaria, baixou o rosto. - Desculpa mãe. É que não estou mesmo me sentindo bem.
- Não está bem desde a conversa com Junior, certo?
- Mãe, não quero falar nisso, ok. Vou para o meu quarto – virou-se em direção ao quarto.
- Filha, eu sei o assunto que você e Junior conversaram.
Lisa virou-se repentinamente para a mãe e respondeu agressiva.
- Não! Você não sabe nada! Nada, entendeu! Junior é um intrometido! Você não sabe da missa a metade, dona Paula! Então não se ache entendida do assunto!
- Lisa, não adianta ser agressiva comigo! Baixe o tom, modere a língua e me respeite! – Paula elevou ligeiramente a voz.
- Então não se intrometa na minha vida! - Lisa entrou no quarto e tentou fechar a porta, mas sua mãe a impediu.
- Eu sei de você e Joyce, Lisa! - falou alto. - Eu sei que vocês são... estão... que vocês... estão juntas.
Lisa parou, em choque. Olhou sua mãe fixamente até sentir perder a força das pernas. Caminhou com dificuldade até a cama, sentou-se e começou a tremer. Paula lentamente adentrou no quarto, fechou a porta e foi sentar-se ao lado da filha.
- Lisa, eu sempre desconfiei. Sempre! Quando Junior me contou eu já percebia os sinais, mas não queria ver. Só que existe sempre o momento em que não da mais para fechar os olhos. Ultimamente percebia sua angústia e criava coragem para lhe falar.
- Mãe... mãe... Deus... eu... mãe... – Lisa explodiu em lágrimas desesperadas. – Não me odeie mãe!! Eu... eu não faço por querer... eu... não faço por querer... desculpe – começou a balançar o corpo para frente e para trás abraçando os próprios braços.
- Lisa... filha! - Paula abraçou a filha, angustiada. – Filha, eu... não chore, por favor! – beijava o rosto tão amado de sua menina. - Calma Lisa...
Lisa, porém, não a escutava. Em prantos abraçava a mãe fortemente, temerosa. Sabia que agora não havia mais volta. O que mais temia estava acontecendo e só conseguia pensar que o bem maior de sua vida - sua família - estava por um fio. Sentiu as forças lhe faltarem e, lentamente, perdeu a consciência. Paula, em pânico, a segurou com mais força, deitando-a na cama em seguida. Chorando, percebeu que começava naquele momento a maior provação de sua vida. Sabia não ter opções. Só havia dois caminhos a tomar: apoiar sua filha em sua escolha, ou não. E sabia que qualquer que fosse a decisão tomada, sofreria.
- Ah Lisa... Lisa... Por que você não é como as outras? Por quê?

Joyce respirou fundo. “Ok, vamos ligar para Lisa”. Discou o número e... desligou. Soltou o ar que prendia angustiada. “Vamos, Jô! Que covardia é essa?” Discou novamente o número. Ouviu o toque chamando e sentiu o coração disparar.
- Alô?
- Dona Paula? Oi... é Joyce. Lisa está?
O silêncio do outro lado deixou-a insegura.
- Paula? Dona Paula?
- Desculpa Joyce... eu... bem, Lisa passou mal e está deitada. Melhor que ligue mais tarde.
Joyce sentiu a apreensão tomar conta de seu corpo. “Como assim passando mal? Lisa tem uma saúde de ferro!”
- Mas... ela tá bem? O que ela tem? Eu vou pra aí agora!
- NÃO! Não... Joyce, não. Olha, ela está dormindo... Melhor não vir, não quero nada a agitando.
Joyce sentiu um gelo descer ao coração que antes batia acelerado. A voz de Paula estava estranha, tensa, fria. Começa a se sentir como uma menininha que fez algo muito, mas muito errado. “Será que ela está chateada com meu sumiço?”
- Ah, olha Dona Paula... sei que andei sumida. Sabe como é, a faculdade, Mariana. Andei meio agitada esta semana. Mas... eu quero muito, mas muito mesmo ver Lisa. Por favor.
Um novo silêncio tomou conta da conversa. Jô começou a sentir o ar lhe faltar. “Mas o que está acontecendo?”
- Esta bem, Jô. Mas olha, não quero Lisa agitada. Se estiver dormindo não irei acordá-la entendeu?
- Mas... que aconteceu? Dona Paula, que aconteceu?
- Emocional Jô. Apenas isso. Ou melhor, tudo isso. Bem, até logo.
Paula desligou o telefone. Jô se sentia na Antártida tal o gelo que sentia na voz de Paula. Desligou rapidamente o telefone.
- Mãe vou à casa de Lisa! Ela não está bem! Não demoro!
Jô saiu correndo sem esperar a resposta. Pelo caminho só rezava que não fosse nada sério. Lisa não! Sua loirinha tinha que estar bem! Emocional!? “Será que foi por minha culpa? Aff! Com certeza! Ah, Jô você está magoando a melhor pessoa de sua vida! Loirinha, amo você. Amo você. Tô chegando!” Parou em frente à casa de Lisa e tocou a companhia. Ouviu os passos que reconheceu serem de Paula. Sem entender bem por que, sentiu o peito se oprimir. Nunca sentira isso com a mãe de Lisa. Por que isso agora?
- Olá, Joyce. Veio rápido.
- Eu... Oi Dona Paula. Eu... Cadê Lisa?
- Olha Jô... Joyce. Ela está dormindo. Pode vê-la sim, mas, por favor, não a acorde, ok.
- Mas... o que ela teve?
- O médico esteve aqui. A pressão caiu e ela desmaiou. Mas está tudo bem. Vá lá vê-la.
Joyce queria fazer mais perguntas, mas via-se claramente que Paula não estaria disposta a responder. Aliás, a mãe de Lisa também estava muito abatida. Caminhou em direção ao quarto de Lisa sentindo o olhar de Paula em suas costas. O ambiente estava pesado e ela, sem saber como agir, entrou no quarto de Lisa de cabeça baixa. Ao ver sua loirinha dormindo, o coração deu um baque. Lisa! Sua loirinha! Aproximou-se dela. Estava com um semblante tão triste, abatido. “Loirinha... que aconteceu?” Segurou a mão amada e começou lentamente a acarinhá-la. Perdeu minutos ali, procurando transmitir a Lisa todo seu amor e carinho. “Lisa, diz que não está assim por minha causa, diz. Acorda, diz que me ama, que me entende. Desculpe... desculpe.“ Levou a mão de Lisa ao rosto e o acariciou com ela se pondo logo depois a beijá-la.
- Ah, loirinha... loirinha - disse baixinho. Sentiu então alguém nas suas costas, olhando para trás viu Paula a encarando fixamente. Voltou o olhar a Lisa, colocou sua mão calmamente sobre a cama com carinho e se ergueu lentamente.
- Ela está mesmo bem, Paula? - perguntou ainda olhando Lisa.
Paula percebeu em Jô o olhar preocupado, carinhoso, fixo em sua filha. Teve uma vontade louca de tirá-la dali, afastá-la de Lisa. Expulsá-la. Mas ao mesmo tempo sentia um carinho imenso por esta jovem que vira crescer. Ainda assim não se sentia pronta para o que estava acontecendo.
- Sim, Joyce. Eu já disse que ela está bem. Só precisa descansar. Fique... tranquila. Melhor sairmos agora e a deixarmos dormir.
- Claro... claro - Joyce deu um beijo no rosto de Lisa e acompanhou Paula na saída do quarto.
- Dona... Paula – segurou o braço da mãe de Lisa e a sentiu ficar tensa. – Eu... é verdade que Lisa está bem, né.
Paula virou-se devagar para a jovem e responde carinhosamente.
- Sim, Jô. Ela está bem. Só precisa descansar. Mais tarde ela te liga, fique tranquila.
- Está bem... Qualquer coisa me avisa??
- Aviso sim... pode deixar. Mas está tudo bem.
Jô baixou ligeiramente e cabeça e quando a ergueu os olhos estavam cheios de lágrimas.
- Eu não quero que nada aconteça a Lisa, Paula. Não me esconde nada, tá! Se precisar durmo aqui... eu..
- JÔ! Eu já disse que está tudo bem. Façamos assim, se algo acontecer te ligo. Dê um beijo em Mariana e em sua mãe por mim, está bem. E fica calma porque não foi nada.
Joyce percebeu que foi dispensada e se retirou devagar da casa de Lisa. Despediu-se da mãe da loira sem se sentir ressentida com a atitude dela. Acreditava ser tensão por Lisa não estar bem. Ao chegar em casa viu que tanto a mãe como Mariana não estavam. Sentou-se lentamente no sofá e suspirou. Ainda bem que sua loirinha estava bem. Por que a vida tinha que ser tão complicada?

 Lisa acordou lentamente. Sentia fraqueza no corpo, mas ainda assim se levantou. Parecia que dormira por séculos. Olhou o relógio e se assustou ao perceber que já eram dezessete horas. Caminhou lentamente em direção à sala onde a mãe assistia televisão. Paula, ao vê-la, ergueu-se imediatamente. As duas se encararam e então, lentamente, a mãe estendeu os braços para a filha. Lisa correu e se aconchegou neles. A escolha estava feita. Paula apoiaria Lisa em todas as circunstâncias e a amaria... sempre. E para sempre.
Mais tarde, já bem mais calma, Lisa resolveu ligar para Joyce. Ficara muito feliz ao saber que ela estivera lá. Estranhou que não tivesse permanecido, mas sua mãe assumiu alguma culpa nisso, pois expressara certa resistência à presença da morena.
- Alô, Jô?
- Lisa? Meu Deus, Lisa!! Como você está? Nossa, tava aqui já meio enlouquecida, mas não liguei porque sua mãe disse para deixar você descansar. Você está bem? Que houve? Como está agora? Quer que eu vá ai? Tá sentindo fraqueza? Não devia estar deitada? – parou para puxar fôlego, e Lisa aproveitou o momento para interrompê-la, sorrindo.
- Jô, calma! Está tudo bem. Eu estou bem. Foi só minha pressão que baixou. Eu... bom... depois queria falar com você.
- Claro Li, tudo bem. Vamos falar, sim. Eu sei que tive meio ausente estes dias, mas... eu... a faculdade tá foda. Mas eu vou aí. Claro que vou. Mas... bom... acho que nem pensar ir lá na festa da sua faculdade, né!? O melhor é você deitar e descansar viu!
- Claro Jô, eu já desisti! Bom, vem pra cá, então. A gente vê um filme, sei lá.
- Não, Lisa hoje não. Sua mãe tava meio estranha, sei lá. Prefiro ir amanhã, tá.
- Hum... ok te entendo. Mas amanhã você vem, né. Tenho muita coisa pra te contar mesmo, Jô.
- Claro que vou, né loirinha! Pode me esperar. E vê se cuida melhor de sua saúde.
- Jô... é serio. Eu... bom, te conto amanhã.
- Está tudo bem mesmo, Lisa?
- Está. Só queria te ver um pouco. Mas amanhã falamos, então.
- Esta bem. Lisa... eu te amo loirinha.
Lisa sentiu o coração se aquecer.
- Também te amo, Jô. Boa noite.
- Boa noite, loirinha.
Lisa desligou o telefone. Estava feliz de ver que ela e Joyce estavam bem, mas ainda assim sentia necessidade de contar a ela tudo que acontecera durante o dia. Estava se sentindo muito bem. Sabia que muita coisa ainda tinha a enfrentar, mas no momento só queria estar com Jô.
- Mãe! – gritou. – Eu vou à casa de Joyce. Não demoro, tá.
- Lisa, espera – Paula surgiu na porta. – Eer... jante primeiro, depois você vai. Por favor. Ficarei mais tranquila.
Lisa olhou para ela. Estava ansiosa para ver a morena, mas sabia que a mãe tinha razão, e que isso a tranquilizaria.
- Está bem, mãe. Vou jantar primeiro.
Lisa viu a mãe caminhar um pouco arqueada em direção à cozinha. Sabia que ela estava triste, confusa e se entristecia de saber ser ela a causadora de tudo isso. Mas ao mesmo tempo sentia alívio. Era muito bom poder ser o que era para as pessoas que amava. “Espero que meu pai tenha a mesma ponderância”

Joyce desligou o telefone aliviada. Lisa estava bem. Olhou para o relógio. Ainda estava em tempo de se encontrar com Carlos. Mas se questionava se devia ir. “Bom, Lisa já está bem, não foi nada sério. Não vamos mesmo à festa da Federal. Não vejo problema de sair.”
- Mãeeeee! Eu vou sair mais à noite. Será que você pode ficar com Mariana pra mim?
- Joyce, não grite! Fico sim, você vai sair com Lisa?
- Lisa? Não, ela passou mal, mas já está bem. Eu... eu vou sair com uns colegas, nada muito chique. Tudo bem?
- Tudo bem, Jô. Mas não volte tarde.
Joyce revirou os olhos. Sua mãe ainda era jovem, mas sempre a tratava como uma menininha.
- Dona Lúcia, a criança aqui agora é Mariana. Aliás, você anda saindo bem menos. Está agindo como uma velha.
- Bom, alguém tem que cuidar de Mariana.
- Ah, me poupe! Te peço isso uma vez ou outra.
- Sei... Jô, melhor ir se arrumar que faz mais negócio.
Joyce saiu rindo. Agora tudo estava bem. Sentia que seria uma bela noite. “Bom, com que roupa vou?” pensou franzindo a testa e caminhando em direção ao seu quarto.
Mariana viu a mãe caminhar para fora da sala. Ouvira-a falando com a avó e não gostara de saber que Lisa estava doente. Caminhou em direção ao seu quarto e se ajoelhou frente à cama. Rezou baixinho. “Papai do céu, cuida da Lisa. Não deixa ela sofrer, não. Eu amo ela muito... muito. Se ela sarar eu prometo pro Senhor que serei boazinha e comerei... argh, jiló.” Ergueu-se feliz. Tinha certeza que depois da promessa de comer jiló, Deus iria sarar Lisa rapidinho.

 “Não é a montanha que nos faz desanimar, mas a pedrinha que trazemos no sapato.”
 (Autor desconhecido)

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Capítulo XX

Lisa caminhou lentamente em direção à porta de seu quarto. Passou por Junior e entrou no ambiente tão familiar, mas que naquele momento a fazia sentir-se como que indo para a forca. A seriedade de seu irmão a fazia perceber que o assunto era sério e que tinha tudo, mas tudo mesmo, a ver com ela. “Seja otimista, Lisa” pensou. “Ele não vai falar de você e muito menos sobre o assunto que imagina”
 - Bom, Ju, cá estou. Aconteceu algo? Quer ajuda em alguma coisa? Conselho? Sei lá, parece urgente, hein!? – sorriu meio sem graça, coçando a cabeça.
- Lisa, já disse que comigo está tudo beleza. É sobre você que quero falar – olhou-a meio cauteloso. – Há muito tempo adio este papo com você, mas ultimamente tô te sentindo muito angustiada.
Lisa engoliu seco. Junior sempre fora muito observador e isso era, no momento, algo que a assustava muito.
- Eu... Tô com uns problemas ai... Mas resolvo, fica tranquilo - Passou a mão pela testa.
- E esses problemas têm a ver com o papo que quer ter com mamãe? Ou... com o telefonema de agora a pouco?
- Mamãe? O telefonema? O... o telefonema... Ju... uai... era a Jô... a Joyce... eu... bom era a Joyce... que é isso? - perguntou Lisa, empalidecendo um pouco.
- Lisa... mana – Junior se aproximou da irmã e segurou sua mão. - Senta aqui. - Sentou-se na cama com ela. - Lisa há muito tempo tô sacando você e Jô - Olha sério para a irmã.
- Eu... e Jô? Como assim? Que é isso? Eu não tô te entendendo, não - Lisa tentou se levantar da cama, mas o irmão a segurou. Sentia uma angustia enorme no coração. “Este papo é com a dona Paula e não Junior! Meu Deus, isso não tá acontecendo”.
- Lisa... conversa comigo. Sou teu irmão. Eu tô preocupado com esse papo que vai levar com a mãe.
Ela o observou calada, com um bolo se formando rapidamente em sua garganta. Abriu a boca para tentar dizer algo, mas não conseguiu pronunciar uma palavra sequer.
- Ok mana, se não vai dizer nada falo eu – virou-se de frente para ela. – Lisa, você sabe de toda a paixão louca que tive por Joyce. Mesmo me propondo a esquecê-la eu ainda, por muito tempo, tive ela aqui - apontou para o próprio coração. – Mas já não tinha esperanças de tê-la. Mesmo assim, eu adorava cada vez que ela vinha aqui. Só a presença dela me deixava feliz. Passei numa loucura bem boba, diga-se de passagem, a observá-la escondido - balançou a cabeça meio inconformado. – Pô, ela cada dia mais gata, bonita... eu ficava doido. E isso não me deixava ver o que tava ali na minha cara – olhou-a, agora sério e condescendente. Lisa sentiu o coração dar uma parada e segurou o peito com a mão. “Vou enfartar... é hoje”.
- Eu... eu não tô entendendo porque tá me dizendo tudo isso...
- Lisa, tudo era desculpa, entende? Eu queria estar assim, no mesmo ambiente que ela. Junior soltou a mão da irmã e se levantou da cama. Caminhou lentamente pelo quarto, aumentando a angustia de Lisa com seu silêncio. Virou-se repentinamente para ela. - Eu vi você e Jô.
- Hã?? – Lisa empalideceu.
- Eu vi você e Jô – repetiu como a falar com uma criança.
- Viu... viu... como?
- Lá na área... Fui atrás de vocês e não estavam – olhou-a constrangido e... com algo no olhar similar à pena. – Mana, quando achei vocês... vocês... estavam atrás da parede da dispensa...
- PÁRA!!! Para, Junior! - Lisa ergueu-se apavorada da cama. - Você viu errado! Não é isso que pensa! Eu... Que isso! Eu... NÃO QUERO FALAR DISSO - gritou, enquanto passava a mão nervosamente pelo cabelo e apertava a testa. – Deus... Deus... Deus...
Junior caminhou até ela para segurar suas mãos.
- Quando vi aquilo, Li, eu não acreditei. Bateu uma raiva enorme. Senti meio que traído, sei lá. Eu achando que você estava me apoiando pra ficar com ela... E quem estava era você!
- NÃO! Eu... não, Ju, quando você me contou tudo eu não tava com ela!! Foi depois!! – arregalou os olhos e tapou a boca quando percebeu o que gritara. Junior a olhou entristecido.
- Bem Li, já não importa muito não é!? Mas na época... cara... doeu muito. Fui pro quarto planejando mil formas de fazer todos descobrirem vocês. Senti muita raiva... Mas depois, já na sala, vendo vocês... o carinho... sei lá... Eu fiquei meio perdido. Decidi me calar. E fui observando. Cada gesto, cada olhar. Mana, vocês não disfarçavam. Só cego não via. - passou a mão nos cabelos. – Aqui em casa a gente não via maldade por que... Pô, nós vimos vocês crescerem juntas, né.
Lisa já não falava, não retrucava. Sentia um sufocamento por dentro, uma sensação angustiante, como se uma mão lhe apertasse o coração. Baixou a cabeça, escondendo o rosto com as mãos.
- Lisa... agora que vem o pior – ela olhou angustiada para ele.
- Pi... Pior?
- Li, mesmo decidindo me calar... eu... tava puto. Eu andava revoltado e você nem percebia de tão envolvida que estava com ela. Mas a mãe... você sabe que ela... bom, ela vê tudo.
- Ahhh, não! Junior, diz que não!
- Eu contei a ela Li... eu contei...
- Aii... - apertou o rosto, ainda mais angustiada.
- Ela, claro, não acreditou... disse que eu tinha visto errado, que vocês eram só amigas e que o assunto morria ali. Eu me calei e, a partir dali, o assunto morreu. Pus a cabeça no lugar, decidi que ia viver minha vida. Com o tempo passei a sentir pena... pena de vocês... pena da situação de vocês.
Lisa quase não o ouvia. A mãe sabia. Preferia fingir que não sabia, acreditar que não era verdade... Mas sabia. “Vou me matar”
- Lisa... Lisa! - ela o olhou perdida. Sentiu uma raiva repentina invadir seu peito.
- Sai daqui, Junior!
- Não, Lisa
- Sai agora!!!
- Não, Lisa, não acabei! – segurou-a nos braços. – Lisa, quando disse que sinto pena, não é só pelo envolvimento de vocês.
- Sai Junior!! - Lisa gritou, tentando se soltar dos braços do irmão.
- Tenho pena de você, Lisa!!! De você! Porque a Joyce gosta de homem! Ela gosta de homem Lisa! - grita lhe dando um arranque com os braços fazendo-a se calar e olhá-lo em choque.
- NÃOO! Você quer me magoar, ferir porque acha que te sacaneei! Não sacaneei, cara! Para com isso!
- Lisa! Você que não quer ver! Eu a beijei, droga! Ela gostou. Mesmo não querendo, ela gostou! E ela nunca deixou de olhar os caras! Lisa acorda, ela sempre fez charminho pra eles mesmo não indo em frente. LISA, ela faz charme pra mim!!!
- É o jeito dela!!! Ela sempre foi assim Junior! Que é isso?? Nunca me traiu, não!
- Você faz isso? Fala! Faz?
- PÁRA!!
- O que acontece aí dentro???
A voz da mãe por trás da porta fez com que se calassem. Olhavam-se medindo forças, até que Lisa desviou os olhos e respondeu à mãe.
- Está... tudo bem, mãe. Eu... Junior... estamos conversando.
- Me deixem entrar!
- Não mãe, não. O Junior... já tá de saída. – olhou o irmão impondo que este se retirasse de seu quarto. Junior sentiu a tristeza tomar conta de si. Não era assim que queria que as coisas terminassem.
- Tudo bem Lisa, eu vou - caminhou até a porta e, ao segurar a maçaneta, novamente a olhou. – Eu não sou seu inimigo, Lisa. Quis te alertar, só isso. Posso ter feito errado, fui emotivo, deixei um pouco da mágoa tomar conta. Mas... te quero bem e na boa, você merece mais. Não importa suas escolhas... você merece mais - abriu a porta, olhou a mãe e segurou seu braço sorrindo meio triste. - Vem mãe, eu disse umas coisas à Lisa e ela precisa pensar. Vem comigo.
A mãe o seguiu séria. Mais tarde falaria com Lisa.
- O que fez Junior? O que disse?
 - A verdade, mãe... A verdade – beijou-lhe o rosto e caminha em direção ao próprio quarto. Apesar de tudo se sentia leve. Fizera o certo.
Dentro do quarto, Lisa continuava em choque. Seu mundo virara de cabeça para baixo. Ele sabia... A mãe sabia... Quem mais saberia?? Sentou-se na cama e tentou esvaziar a mente. Não queria pensar... só ficar ali... Quieta... Vazia... Vazia... Vazia...

Joyce desligou o telefone em pânico. “Isso é uma merda!! Só acontece comigo! E agora? Que vou fazer?”
- Mamãe... você ficou de ler uma estória pra mim – Joyce virou-se para a porta e viu Mariana segurando o urso tão amado, dado por Lisa aliás, olhando-a em expectativa.
- Eu... agora não Mariana. Mamãe tá com um problema e precisa pensar.
- Mas você prometeu!!
- Eu disse não, Mariana!! Vá deitar.
- Cadê sua palavra? Você vive me dizendo que tenho que fazer tudo que digo que vou fazer.
- Marianaa!! Eu tô com problema!! Entendeu? Não tô com cabeça pra ler historinha! Que m... coisa!!!
- Por que tá gritando? Não fiz nada, mamãe.
- Eu... ARRE! Se não sai você, saio eu! – Joyce saiu pisando duro da sala, passando pela mãe que vinha pelo corredor. - Não diga nada!!! Se quer ler a estória para ela fique à vontade. Quero ficar só!! Só isso!! Uns minutos! É pedir muito???
- Eu não disse nada, Jô – A mãe a olhou de lado. – Vem, Mari, mamãe está nervosa. Vem que vovó te lê a estória.
No quarto, Joyce não conseguia parar de andar de um lado ao outro. “Vamos, Jô sai dessa... Vai sai dessa”, bateu a mão na testa “SAI DESSA!”. “Preciso de uma saída. Vamos pensar... merda! É só eu resolver dar uma volta e acontece isso. Lisa é foda! Como vou dizer a ela que não vou a festa porque vou sair com... um cara!!!”. Jogou-se em pânico sobre a cama, abraçando o travesseiro. “Ah, mas vou sair sim! A Li que me desculpe, mas poxa... É um passeio diferente, não tô fazendo nada errado. Isso! Nada errado. A merda é que não posso contar pra ela que logo vai pensar besteira.” Sua mente vagou para o rapaz... Relembrou a trombada que deram, ele segurando sua mão, se sentando em sua mesa. Sentiu-se tão bem!! “Poxa, isso não é errado! Não é mesmo! Gostei dele, é legal! Ai que droga!! Que faço? Que droga!”

Sexta feira chegou ensolarada! Em nada combinava com o astral de Lisa e Joyce. Lisa evitou todas as formas encontrar sua mãe. Ela, ostensivamente, virava a cara para Junior. Até de seu pai preferia fugir. Só do leso do Nando, sempre alheio, não tinha motivos para evitar. Não era preciso, ele nunca estava em casa mesmo. Sua angustia aumentava ainda mais com a ausência de Jô. Desde quarta feira, o dia do telefonema, elas não tinham se falado. Sempre que ligava, não conseguia falar com ela. Fora à sua casa e realmente ela não estava. Mari disse que a mãe estava muito brava e que o melhor era ela não ir mesmo lá. Que a mãe estava igual à madrasta da Branca de Neve e os Sete Anões. E que ela e a avó eram os anãozinhos. Lisa riu e perguntou por que ela não era a Branca de Neve. A resposta veio certeira: “Que é isso, Li, ela é muito boba e branquela! Além do que, detesto maçã!” Lisa balançou a cabeça e riu. Apesar da pouca idade, Mariana tinha tiradas ótimas. Logo, porém, ficou séria, pôs a mão na testa e a esfregou.
 "Nossa, desde quando minha vida virou esta confusão?”

Joyce olhou o lindo dia pela janela da sala. “Linda sexta” pensou irônica “tudo a ver com meu lindo astral”. Apoia a cabeça na mesa, não tinha mais como evitar falar com Lisa. Já pensara numa desculpa, mas sentia dentro de si uma pontada... na verdade um rombo de culpa pelo que estava fazendo. Ao mesmo tempo, entretanto, uma ânsia louca de rever Carlos a assolava cada vez que pensava nele. Ergueu a cabeça. “Seja o que Deus quiser. Bola pra frente, que atrás vem gente! Os fins justificam os meios! Não deixe passar a oportunidade, pois ela não volta mais! Caminhe sempre contrário à forca!” pôs a mão na boca, mordeu os dedos e gemeu baixinho... “Ai Jô, você tá na forca!!”

 A primeira e pior de todas as fraudes é enganar-se a si mesmo. Depois disto, todo o pecado é fácil.
(J. Bailey)

sábado, 16 de agosto de 2008

Capítulo XIX

Lisa entrou em casa sentindo uma grande apreensão no peito. Respirou fundo e olhou ao redor. A sala estava vazia. Ouviu um barulho na cozinha e caminhou para lá sentindo a cada passo as pernas mais pesadas. Sentiu uma vontade louca de desistir de tudo e fugir para seu quarto trancando a porta para sua duvidas, seus conflitos, enfim, sua vida real.
- Lisa é você? Ouviu sua mãe a chamar e o coração disparou. Esfregou a mão na testa. ‘Coragem Lisa’.
- Sou eu mãe, está só?
- Sim, filha. – Paula viu a filha entrar na cozinha e enxugou a mão no pano de prato. – O jantar está pronto. Vai comer agora?
- Err... não... eu... eu estou sem fome - Lisa a olhou em expectativa. – Mãe os meninos vem comer aqui?
- Só o Junior. Fernando está cobrindo algumas aulas de um colega e só volta mais tarde.
Lisa sentou na cadeira e observou a mãe arrumando a mesa. Sentiu um bolo enorme na garganta e ao levantar os olhos percebeu sua mãe a lhe encarar. Ela lhe sorri e Lisa sentiu os olhos se encherem de lágrimas. ‘Deus, não quero perder o amor de minha mãe’.
- Mãe... eu... eu...
- Lisa...
- AMORES DE MY LIVE! Lisa saltou da cadeira apavorada segurando a faca que estava a sua frente em punho.
- PAIIIIII EU TE MATO! - Gritou, vendo o pai segurar a barriga de tanto rir. Lisa olhou indignada para a mãe, mas a viu olhar o marido com um sorriso complacente de quem já está conformada com as atitudes inesperadas dele. O pai lhe deu um grande abraço de urso tirando a faça de sua mão.
- Lisa, minha amada filha, cuidado com esta faca. Não sabia que tinha pensamentos assassinos com seu próprio e amado pai.
- Meu querido e amado pai, descobri hoje que te acho uma tremendo de um crianção insuportável! ME SOLTA!
- Que isso menina foi só um sustinho.
- Me solta paiiii! – gritou Lisa tentando se soltar dos braços paternos.
- Só se me der um beijo – dizendo isso o pai encheu de ar a bochecha direita e a virou para o rosto de Lisa, que o olhou revoltada, mas, sem saída, estalou um beijo na mesma.
- Satisfeito? Agora me solta – o pai a soltou rindo e caminhando em direção a esposa, lhe dá um afetuoso beijo na boca. Lisa observou o carinho entre os pais e sentiu o aperto dentro de si aumentar. ‘Deus, não quero perdê-los. Eles vão me matar, não vão aceitar”. Virou-se e caminhou em direção à porta.
- Lisa não vai comer?
- Perdi a fome, mãe.
- Que isso Lisa, seu pai só brincou. Não é motivo para deixar de jantar menina! – Lisa olhou o pai que agora a olhava meio surpreso. Seu coração se enterneceu. Como era linda a relação dos dois. Que família maravilhosa ela tinha.
- Tem razão, mãe. Desculpe pai, é claro que vou jantar com vocês – sentou-se à mesa já se servindo de uma grande colher de arroz.

Joyce caminhou lentamente para o ponto de ônibus. Com os pensamentos vazios e um olhar distraído não viu o carro que parou ao seu lado.
- Carona, linda dama? - assustada, olhou para o carro e viu Carlos lhe sorrindo do volante.
- Não... Carlos obrigado eu... prefiro ir de ônibus, ok.
Carlos estacionou o carro, saiu e caminhou em direção a ela.
- Joyce olha, eu não vou fazer nada, só vou lhe dar uma carona, ok. Além que você não me deu o seu endereço para que eu possa lhe pegar na sexta.
- Me... pegar??? – Jô entrou em pânico. – Esta louco? Não quero você indo a minha casa! - ao perceber que gritara, avermelhou. – Err... desculpe... é que... bom eu... Carlos eu tenho uma filha. Não quero... bom... é isso. Sou mãe solteira e não quero que minha filha me veja com ninguém. Não agora. – fechou os olhos angustiada: ‘ Agora é hora do fora’. Sentiu então uma mão lhe tocar delicadamente o rosto e abriu os olhos. Carlos a olhava, ainda um pouco assustado com seu grito, mas tinha o olhar meigo.
- Querida Dama, eu já sabia que tinha uma filha. Mas veja, isso em nada faz diferença. Compreendo sua insegurança em que eu vá a sua casa, mas ainda assim precisamos marcar um local para nos encontrarmos, não acha?
Joyce o olhou surpresa, mas feliz. Não interessava onde ele buscou esta informação sobre sua vida, nunca foi segredo mesmo. Sentiu um calor aquecer seu coração e então suavemente, ainda sem graça tirou-lhe a mão do rosto.
- Conhece o Chico Mineiro, na Savassi?
- Sim, conheço – Carlos sorriu abertamente. – Chico Mineiro às... 20h de sexta. Está bom?
- Está ótimo! Combinadíssimo.
- Bem, então vou indo nessa? Tem mesmo certeza que não quer a carona? - Tenho Carlos, mas obrigada. - Tudo bem então. Beijos linda Dama. – Carlos se afastou lentamente, entrou no carro e com um gesto de até logo, partiu. Joyce observou o carro se afastar, respirou fundo e retornou o caminho ao ponto de ônibus, agora com os pensamentos em polvorosa. ‘Que roupa vou usar? Meu Deus, nossa, ele é lindo! Imagina ele em minha casa! - balançou a cabeça - Minha mãe ia infernar ate descobrir quem é de onde, como o conheci!’ riu deliciada. Mas de repente o sorriso morre de seus lábios e ela parou.
- Lisa... – disse baixinho. Um soluço subiu-lhe pela garganta e ela voltou a caminhar, agora mais rápida. Não percebeu que de seu rosto as lágrimas corriam livremente, extravasando todos os sentimentos contraditórios que tomavam conta de seu ser. E caminhou rápido, rápido ate correr... Como se tentasse fugir de seus demônios internos que insistiam em lhe torturar o coração e a mente.
Enquanto isso Lisa sentada à mesa se torturava imaginando como iniciar a conversa com sua mãe. Observa-a conversando com seu pai tranquilamente, mas não lhe escapava os olhares furtivos que lhe lançava a toda hora. Virou a cabeça quando ouviu a porta da sala ser aberta.
- Boa noite a todos – era Junior que chegava de mais um dia de trabalho. Seu irmão se tornara um belo homem. Nada musculoso, mas muito elegante. De terno então ficava um charme. Retribuiu o boa noite e pediu licença para se retirar da mesa. O irmão a acompanhou com o olhar e quando os olhos de ambos, tão iguais na cor e na doçura, se encontraram, Lisa sentiu uma paz invadir seu interior. Desde que há alguns anos Junior fora a seu quarto e confessara sua paixão por Jô, eles se tornaram mais próximos. Nunca mais, como num acordo tácito, o assunto fora novamente discutido entre os dois, mas para ela Junior há muito vencera o sentimento por Jô. Namorava agora uma colega de trabalho, advogada como ele, e parecia muito feliz.
- Você esta bem, mana? Parece agitada! - ‘ Bolas Junior, precisa ser tão perceptivo?’ pensou Lisa ao ver o olhar da mãe se tornar ainda mais atento à sua pessoa.
- Nada Ju, é só porque cansa muito ficar um dia inteiro na faculdade, só isso – e passou a mão na testa, esfregando-a fortemente. Olhou para todos. – Bom... boa noite vou para meu quarto, tomar um banho e deitar. Ao se retirar escutou a mãe a chamando e se virou lentamente para ela.
- Filha, não esqueci nossa conversa. Quando puder é só me chamar - Disse muito séria. Engoliu em seco e automaticamente relanceou um olhar para os outros membros da família. Seu pai comia como se nada a seu redor lhe afetasse e Junior... bom Junior olhava fixadamente sua mãe que mantinha uma expressão cautelosa no rosto. Depois virou lentamente o rosto cheio de indagações para ela.
- Está tudo bem? - Junior perguntou como se sentisse que algo muito importante lhe fugisse do conhecimento.
- Tudo Ju, é que eu... bom... apenas quero conversar com a mãe uns problemas que estou tendo ai. – ‘Porque estou me justificando? Ai Deus!’ pensou já sentido o suor frio em sua testa. – É... Valeu mãe eu falo depois desencana tá! Boa noite de novo gente. – e saiu quase fugida da cozinha.
Após um banho demorado Lisa, já mais calma foi à sala e ligou para Jô.
- Alô.
- Jô é Lisa, tudo bem? A loira estranhou o silencio súbito que se fez do outro lado - Jô??
- Lisa? her... desculpe é... é Mariana aqui, mas já resolvi. Está tudo bem sim e você?
- Um pouco agitada, mas bem. Ah... olha, vai ter uma festa lá na faculdade sexta feira da turma. É para acarretar grana pra formatura e eu já peguei dois convites pra nós, tá. Um silencio ainda maior se fez do outro lado da linha. – Jô? Jô?? Lisa tirou o fone do ouvido, o olhou indagadora e depois o pondo novamente repetiu. – Jô? Está ai?
- Ah... eu... tô... tô. Lisa olha eu... tô com uns problemas aqui. Depois te ligo e a gente conversa tá. Beijos. – E desligou o telefone. Sem ação, Lisa pôs lentamente o telefone no gancho. Sentiu um grande aperto no coração. A distancia de Jô nos últimos tempos nunca lhe parecera tão amedrontadora e essa sua atitude só lhe deixava ainda mais angustiada. Passou a mão sobre os longos cabelos e quando se virou para o corredor deu de cara com Junior que a olhava em silêncio. Pôs a mão sobre o coração.
- Meu Deus, os homens dessa família tiraram o dia hoje para me assustar.
- Lisa, eu queria falar com você. Tem um tempinho? – O irmão a olhava muito sério. Lisa o olhou apreensiva.
- Claro Ju. Tá tudo bem?
- Comigo sim. Podemos ir ao seu quarto? – E sem esperar resposta, caminhou em direção ao quarto, abriu a porta e disse: – Vamos?

 "Damos, muitas vezes, nomes diferentes às coisas: O que para mim são espinhos, vós chamais-lhe rosas"

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Capitulo XVIII

Paula estava angustiada. Há dias queria conversar com Lisa, mas, apesar de ser necessário, não sabia por onde começar. Precisava esclarecer dúvidas que vinha sentindo há muito tempo. Os filhos sempre pensam que as mães não sentem suas mudanças. Ledo engano. Elas, na verdade, parecem ser dotadas de um radar sensitivo quando se refere à sua prole. E o dela há muito tempo apitava para Lisa. A tão necessária conversa seria difícil, algo lhe dizia que teria que amar muito a filha para que ambas não conflitassem ou se agredissem verbalmente. Sempre se deram bem, mas nunca o amor de ambas havia sido testado. Não a este ponto. Paula pôs a mão na testa num gesto tão característico seu, que Lisa herdara.
- Mãe? Tudo bem?
- Lisa? Ah, claro filha! E você?
- Tudo bem – respondeu sentando-se à mesa. – Hoje tenho uma prova difícil. Pior que estudei pouco. Posso ir com seu carro?
- Sabe que sim filha - Paula a olhou meio hesitante. – Lisa... Eu... precisamos conversar não acha?
Lisa observou a mãe. Sempre pensara consigo mesma que mãe era um ser muito intuitivo e por mais que você pense que ela não sabe, ela sempre sabe do que acontece com os filhos. Finge não saber, ignora, se faz de boba, mas sabe. Ela não queria ter este papo com a mãe, não agora. Há dias sentia certa angustia no seu relacionamento com Joyce como se algo estivesse para acontecer. Algo que sabia e que não ia gostar muito. Mas seu amor pela morena era tão grande que preferia fechar os olhos à sua intuição. Jô há alguns dias estava mais cautelosa como que pisando em ovos. Achava que era porque tinha medo que ela voltasse a pressionar para as duas assumirem o relacionamento e então aquietara. Como a vida era engraçada! Logo ela que era a certinha, a bonitinha da família pressionava para se assumissem. Olhou a mãe e deu um sorriso triste. Assumir? Às vezes chegava a ser irônica sua postura. Gritava dentro de um quarto com Jô que queria assumir, mas quando era confrontada no “mundo real”, adiava ao máximo a revelação. Realmente era mais fácil viver seu mundinho limitado, mesmo que ele fosse insatisfatório.
- Mãe, tenho que sair – a mãe a observa em silêncio se levantar e caminhar para a porta que dava para a rua. Neste momento Lisa parou pensativa. Respirou profundamente e se voltou para Paula. - Mãe eu aceito a conversa. Pode ser quando voltarmos?
- Sim filha pode ser - O coração de Paula deu um baque. Agora mais que nunca ela teria que aprender o significado da palavra mãe e o real sentido do amor.

Joyce estava sentada à mesa do refeitório. Com a mão apoiada no queixo pensava em Lisa e em como a situação das duas parecia meio tensa. Sabia que a culpa era sua, mas... Não sabia explicar, mas já há um tempo sentia que faltava algo. Isso lhe parecia ilógico já que tinha plena certeza de seu amor pela loira. Não só amor, mas também um desejo delicioso. Só de pensar que Li era sua, ela sentia o coração aquecer. Então por que esta expectativa de que algo tinha que acontecer? De que algo iria mudar? Por que esta insatisfação com algo que parecia tão... completo?
- Ora! Olá! Tudo bem? Posso me sentar com você? Joyce ergueu o olhar e se assustou. Era o rapaz que lhe fizera beijar o chão há algumas semanas. Segurou a mesa meio brincalhona.
- Pode, já estou me segurando! – fez uma cara de brincadeira fingindo receio e expectativa.
- Prazer, meu nome é Carlos - ele estendeu a mão enquanto se sentava sorrindo
- Prazer Carlos, Joyce – ao tocar os longos dedos sentiu um suave calor aquecer a palma de sua mão e então voltou o olhar às mãos ainda unidas. Soltou-a lentamente e sorriu.
- Então nos encontramos novamente, linda dama.
- Parece que sim – Joyce não sabia por que, mas se sentia tímida.
- Você estuda aqui. Faz direito? - Carlos perguntou como quem não quer nada. Na verdade desde que trombara com a bela morena não conseguira tirá-la dos pensamentos. Sentira-se tocado por sua beleza, mas sabia que havia algo mais. Ela, de alguma forma, tocara seu coração. Todos os dias, sem que ela soubesse, observava-a de longe. Agora já sabia cada gesto, cada sorriso, cada trejeito seu. Naquele dia, vendo-a sozinha na mesa da lanchonete não resistira e se aproximara.
- Faço sim, adoro! E você? - Ela o olhou com um lindo sorriso. Não ia confessar nem a si mesma que durante estes dias percorrera os olhos pelos pátios da faculdade na expectativa de vê-lo de novo. Isso seria assinar o início do fim de sua relação com Lisa e isso definitivamente ela não queria.
- Opa, que frase maravilhosa de se ouvir! Quem me dera voltar a ser estudante. Na verdade sou professor assistente.
- Mesmo? Que legal! Pena que não sou sua aluna – Sorriu meio irônica
- Pois graças a Deus que não é! – Carlos retribuiu o sorriso irônico.
- Por quê?
- Porque senão como poderíamos jantar juntos, não é?
- Jantar? Como jantar?
- Sexta, não lembra? - Pôs a mão sobre o coração como se sentisse uma imensa dor. – Oh, você esqueceu nosso encontro! Joyce começou a rir. Estava adorando o jogo de palavras.
- Mas não podemos sair. Você é professor esqueceu? Seria muita falta de ética de sua parte sair com uma aluna.
- Daí a sorte, linda dama – sorri deliciado. – Por isso não sinto nenhuma pena de você não ser minha aluna. Estarei jantando com uma bela mulher que nunca vi em sala de aula – olhou-a em expectativa. – Agora sério, aceita jantar comigo na sexta?
Joyce o observou, encantada com o sorriso dele. Seu pensamento foi automaticamente à Lisa, mas ela o bloqueou.
- Sim aceito. Espero teacher, que não me arrependa.
- Minha linda dama, este jantar será apenas o inicio de uma linda história de vida.
Joyce fechou os olhos ligeiramente. ‘O que estou fazendo?’. Mas quando os abriu e viu Carlos à sua frente sentiu que deveria, teria que fazer aquilo. ‘ me desculpe Lisa, eu preciso descobrir isso’.
O fim do dia chegou rapidamente às duas. Joyce com os pensamentos em conflito pelo convite aceito e sentindo um aperto enorme no coração. A toda hora do dia sentira a culpa assolar sua mente e tentava em vão encontrar justificativas para sua atitude. ‘É só um jantar de amigos, não existe mal algum nisso’. Passou a mão diversas vezes no cabelo e não conseguiu prestar atenção a nenhuma aula. Ao fim das aulas enquanto todos se retiravam da sala ela apoiou a testa na mesa e se entregou a um momento de pura angustia. “Sou uma idiota”
- Jô? Você está bem? – ergueu a cabeça e viu Márcia, sua colega de curso à sua frente, olhando-a preocupada. Ergueu-se da cadeira e sorriu contida
- Tô sim, Márcia, são só uns pensamentos infelizes. Vamos?
Márcia olhou-a preocupada.
- Tudo bem - segurou-a delicadamente pelo braço. – Olha Jô, precisando falar estou aqui, ok? Joyce olhou a colega, agradecida.
- Ok, Márcia, obrigada.

 Lisa por sua vez saiu da faculdade com certa pressa. Agora que decidira ter um papo definitivo com a mãe sentia-se ansiosa para concretizá-lo logo. Sentiu uma vontade louca de falar com Jô e juntas decidirem como as coisas se encaminhariam depois disso. Mas sabe que se a morena sonhar que vai se abrir para a mãe terá um verdadeiro ataque de pânico. Sorriu triste. Sentia que realmente não queria este relacionamento limitado, sem sentido. Queria o viver plenamente, totalmente entregue.
O que Lisa não percebia ou não queria ver é que a sociedade que hoje a considerava esforçada, brilhante, com um futuro promissor seria a mesma que a condenaria por suas opções, a faria sofrer por ser simplesmente quem é em suas escolhas. Uma sociedade que rejeita quem não anda em seus padrões de vida e foge de suas regras de conduta. Uma sociedade que não a deixaria jamais esquecer que para ela não importa a felicidade do indivíduo e sim a certeza que ele estará sob suas normas limitadas e preconceituosas.
As duas, em um mesmo dia, tomaram atitudes surpreendentes e decisivas. Decididas, mesmo dentro de seus conflitos pessoais e sem tomarem conhecimento uma da outra, ou mesmo darem ouvidos à intuição que tanto as alertara, seguiam por caminhos contrários. O amor gritava dentro delas, angustiado. Um aperto profundo no coração das duas se fazia sentir ao mesmo momento, ao mesmo tempo. E cada uma, a caminho de suas residências, tinham um único sentimento. Estavam sós.

 “Acreditar em nossa própria mentira é o primeiro passo para o estabelecimento de uma nova verdade." Carlos Drummond de Andrade