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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Capítulo XVI

Deise sorri enquanto saboreia o creme de chocolate
- Cara, adoro isso – Lambe os dedos gulosa.
Lisa olha a ruiva com carinho. A noite entre elas fora deliciosa e maluca.
- Não sei como consegue comer isso pela manhã.
Deise a olha divertida.
- Sou chocólatra amor.
Um pouco depois deixa o lanche de lado e coloca o cotovelo sobre a pequena mesa, encarando Lisa.
- Você é linda... Nua então, uau!
A loira sorri um pouco sem graça. Elas lanchavam nuas.
- Você também é linda, Deise.
A ruiva recosta satisfeita na cadeira.
- Show perfeito, noite perfeita... – Olha Lisa com carinho. – Mulher perfeita.
Lisa estende a mão e toca-lhe o rosto com carinho.
- Você foi maravilhosa Deise. É muito boa em... – Para a frase sem saber exatamente como continuar.
- Fazer amor? – Deise completa com um olhar brincalhão cheio de expectativa.
- Sim... Isso também.  Você... É experiente com mulheres.
- Nem tanto Lisa. Você que é uma grande motivação a fazer meu melhor. – Sorri colocando o queixo sobre a mão. – Na verdade, tive poucas mulheres. Você é a terceira e mais perfeita.
Lisa se mexe na cadeira constrangida.
- Terceira... Sabe, não consigo mesmo entender como alguém pode se atrair pelos dois sexos.
Deise a olha tranquila.
- Lisa, desisti  a muito de tentar entender também. A verdade é que, da mesma forma que lésbicas e gays querem ser compreendidos em sua preferência, nós bissexuais também queremos ser aceitos nas nossas.
Lisa coça a cabeça num gesto de incompreensão.
- Sei lá... acho estranho. – Olha Deise sorrindo. – Me lembrava de você tão quietinha! Tão... Tão...
- Certinha? – Novamente Deise complementa a frase sorrindo. – Mudei bastante estes anos Lisa. Decidi correr atrás de meus sonhos, minhas metas se tornaram um grande incentivo. Sabe, o  mundo musical é mais promiscuo que pensa. E no primeiro momento de êxtase, por fazer parte dele, me deixei  levar por isso.  Hoje não mais. Mas, de certa forma, me tornou alguém mais livre, mais liberal entende.
- Não muito. Mas dá para imaginar.
- Hoje sou seletiva. – Deise a olha séria – Nunca durmo com alguém  sem sentir um grande envolvimento. E muito menos na primeira noite.
Lisa a olha com um olhar irônico e zombador. Deise levanta as mãos rindo.
- Sei o que está pensando. Mas deve entender que estar com você aqui e agora é a realização de uma fantasia, de um desejo bem antigo. Nunca me arrependerei desses nossos momentos.
- Muito menos eu, Deise. Muito menos eu.
As duas sorriam e um silencio gostoso se faz presente. Deise se ergue e caminha em direção a cama,  sem nenhuma vergonha da nudez. Lisa sorri. Era sardenta demais. E isso era um charme.
Suspira.  Devagar e sem perceber, esfrega a mão na testa.
- Lisa... Tudo bem?
- Tudo Deise... Eu... Sabe, na verdade estou sem saber  como agir.
- Lisa... Eu vou embora hoje. Tenho uma serie de shows. Estou em turnê.  Mas... Queria manter contato... entende?
A loira a olha surpresa e ao mesmo tempo tensa.
- Deise... eu adoraria manter contato com você ...eu...mas... não saberia... – Suspira e a olha firme. – Não saberia dividir você com... pessoas.
- Quer dizer homens, né. Lisa, eu estou só. Acho que devíamos nos dar essa chance.  Gosto de você. Tenho um super carinho aqui. – Poe a mão sobre o coração.
- Deise... até quando se contentaria com uma mulher? E se sentir falta do homem?
- Lisa! Seu pensamento é preconceituoso! Não devia ser assim. Se quero estar com você é porque VOCÊ me satisfaz. Não vou querer outro ou outra.
- Mas... Quantas vezes nos veríamos Deise? E as tentações por que passa? Vi como as pessoas se jogam para você.
- Ah Lisa...  existe fidelidade e amor também no meio artístico, por mais difícil que seja acreditar nisso. – A ruiva a olha agora tensa - Sabe o que penso? Que na verdade não quer se envolver.
- Que isso Deise! Sou solteira! – Engole em seco.
- Justamente por isso deveria era curtir a idéia, e não achar empecilhos. Olha que sou bom negocio! – Rindo faz uma pose sensual.
Lisa a olha divertida e mais uma vez engole em seco. Deise era o sonho de muitas pessoas no Brasil e sabe mais onde. Por que ela hesitava?
- Lisa... - Deise se aproxima dela e a abraça. – A ultima vez que dei em cima de você também era solteira lembra?
Lisa a olha triste e nada responde.
- Tentava me dizer, e ainda hoje diz que era por que eu era sua paciente. Mas a verdade é que já gostava da doutora. Sabe, minha intuição me diz que, novamente, cheguei tarde demais em sua vida.
Lisa abaixa a cabeça e a abraça também.
-Deise... você sempre foi uma pessoa tão linda... por dentro e por fora.
- Eu sou Lisa... mas isso não é o suficiente para você. - Ergue a cabeça da outra. – Você ama alguém. 
Lisa balança a cabeça em negativa.
- Lisa, eu estou afirmando. Você ama alguém.  Ah amor... Não perde tempo. Você, mais que ninguém, sabe que a vida sempre nos reserva muitas surpresas. Umas boas, outras nem tanto.  Pode amanha não ter a oportunidade que lhe é dada hoje.
A loira arregala os belos olhos cor de mel.
- Eu...
- Pode amanhã esta pessoa não a querer mais Lisa... É isso mesmo que quer? Porque se é, agarre-me agora e viva o presente que lhe é oferecido.
Lisa a olha angustiada.
- Agora se não é isto que quer amor, vá embora.  Guarde estes nossos momentos com carinho, como eu mesmo guardarei, e lute... Lute por sua felicidade.
- Deise... você... eu...
- Foi lindo! – Deise sorri agora triste - Lisa recebi um presente esta noite. Tive você em meus braços. – Esfrega lhe os braços carinhosa - Amor, não posso dizer que te amo... Mas com certeza mora em meu coração, como alguém muito querido. 
Lisa fecha os olhos. Outra pessoa a amava. Profunda e sinceramente. E ela fugia disso.
- Deise. Você trouxe luz a meu coração.  Eu...  também te tenho em meu coração. Obrigada por tudo... tudo mesmo.
A ruiva sorri.
- Isso dá uma musica.  – Suspira desalentada. – Bom... acho que nosso momento passou.  – A olha delicada. – Me guarde em seu coração, Lisa. Porque sempre estará no meu.

Mariana olha a madrinha triste.  Lisa não passara a noite em casa.
- Bom madrinha... eu estava com saudades de vocês... Me desculpe a distância.
- Eu entendo querida – Paula sorri e lhe segura a mão.
- Eu...  – Mariana a olha desamparada. – Eu a amo mesmo madrinha... amo Li... mas... tem o momento que nada mais nos resta, né.
- Mariana... filha... – Paula a olha tensa - Eu nunca imaginaria que isso tudo aconteceria...
- Eu que nunca imaginei minha mãe e Lisa juntas.
- Filha... Lisa sofreu muito quando sua mãe a deixou.  Tenho certeza que nunca mais tiveram nada.  Tentaram resgatar a amizade, e isso me deixou satisfeita. Mas hoje... Não sei nem se isso é possível.
- Madrinha... – Mari  a olha desamparada. – Você acha que... que... é possível Lisa... ainda amar minha mãe?
- Como mulher não, Mariana. Lisa viveu muitas coisas no tempo que ficaram separadas. Coisas boas e ruins, mas que a tornou a pessoa que é hoje.  Ainda assim, conheço minha filha e sei como é rancorosa. Ela jamais confiaria em sua mãe. Não como mulher. Talvez como amiga, mas não como mulher. Surpreenderia- me muito se ela perdoasse Joyce e mais ainda... Surpreenderia- me ainda mais sua mãe querer estar com Lisa.
- Minha mãe... ela... ela... acho que ela ama Lisa, madrinha. – Os olhos de Mari se enchem de lágrimas.
- Pode ser filha. Mas um amor que não foi destinado a ser realizado, por suas próprias escolhas. E sem estas escolhas ela jamais será feliz.  –Paula a olha com carinho – Mariana... você também deve buscar a sua felicidade. Ela não depende dos outros, de Lisa... depende de você.
Mari abaixa a cabeça conformada. Em outras palavras a madrinha dizia para perder qualquer esperança em relação à Lisa.
- Eu... tenho que ir. Dá um beijo no padrinho por mim.
 
Mariana caminha arrasada pelas ruas. Arriscara todas as cartas ao visitar os padrinhos pela manhã. No fundo, guardava a esperança de Lisa estar em casa. A dor que tomara conta de seu coração, ao perceber que esta não estava ainda a machucava.  Lisa, com certeza, estava com a ruiva.
Ela perdera. Na verdade, nunca tivera nenhuma chance. Apenas em seus sonhos acreditara existir alguma. O momento de paixão no sitio nada significara. Essa era a realidade.
Senta-se sobre o banco na parada de ônibus. Discretamente enxuga a lágrima no canto do olho.
-Você está bem?
Mariana olha para o lado sem graça. Uma jovem simpática  a olhava com ar preocupado.
- Eu... estou sim... é que... entrou um cisco em meu olho.
- Hum... quer que eu olhe?
- Não! Eu... Acho que já saiu. Obrigada. – E volta o olhar para frente.
- Meu nome é Nadia.
Mari  olha de novo a jovem que agora lhe estendia a mão.
- Mari – Aperta-lhe a mão educada.
- Hoje o ônibus está demorando. – Nadia olha para frente um pouco impaciente – Daria tudo para ter um carrinho nesse momento. Podia ate ser um fusca.
Mariana a olha sem responder. A jovem era...  bom...  interessante por assim dizer.  Percebia em sua fala um ligeiro sotaque. Nadia, sem ter resposta, a olha indagativa.
- Tudo bem?
- Eu... estou sim... é que pensei  se, de repente,  já a conhecia.
Nadia sorri. Os dentes eram tortos, dando-lhe um ar de moleque, que se intensificava por conta dos cabelos curtos.
- Na verdade, já pegamos onibus juntas neste mesmo ponto. Mas nunca conversamos. Obvio né.  – Dá uma pequena gargalhada.
- Bom... falamos agora.
- Verdade... graças a um cisco no olho – E a olha compreensiva.
- Verdade. – Mariana a olha sem graça. – Você está com pressa?
Nadia olha o relógio.
- Estava. Passado. Ia ao cinema, mas agora com certeza não chego a tempo. E você... Está?
- Não... nenhuma...
- Que tal um sorvete? Topa? Sempre é bom adoçar a vida. Fica mais alegre! E de quebra ganha uma boa companhia.
Mariana não consegue conter a risada.
- Nossa... como você é modesta.
- Constatação Mari. Então... topa?
Mariana se ergue do banco decidida a relaxar e ter um dia sem tristezas.
- Vamos nessa.

As duas conversam  animadas na sorveteria. Nadia fazia Educação Física, era filha única e também praticava vôlei.
- Adoro vôlei Mari. Mas, infelizmente, sou baixa.  Senão, investia no esporte.
- Qual sua altura?
-1,74.  – Nadia sorri debochada. – A realidade é que nem sou tão boa assim. Mas adoro me enganar. E você?
- Eu? Só malho três vezes por semana. Tenho tempo curto.
- Bom... O que faz já dá o efeito necessário. Você esta super em forma. – Sorri insinuante.
Mariana a olha apertando ligeiramente os olhos. Era impressão sua ou a jovem a cantava discretamente? Observa melhor a outra. Não era bonita pelos padrões da sociedade.  Magra, mas curvilínea, a pele muito morena, quase mulata, e os olhos castanhos. Mas algo nela cativava a primeira vista. Talvez o sorriso aberto e despretensioso, ou a postura elegante. O cabelo curto expunha  a nuca bem feita e o pescoço longo. Sim... Ela tinha muito charme.
- Passei?
- Como?
- Você me analisava com bastante precisão. – Sorri divertida.
- Er... eu... bom... tem a cor de pele linda.
- Minha mãe é negra. Meu pai alemão azedo. Mistura legal.
- Exótica.
Nadia arregala ligeiramente os olhos. Depois sorri.
- Verdade. Até ano retrasado vivi na Alemanha. Como meu pai aposentou mudamos para cá.
- Sério? E não sente falta da Europa?
Nadia coloca cabeça de lado a olhando fixo.
- Mari... o povo lá é muito frio. Nunca puxaria papo com alguém num ponto de ônibus. Eles desconfiam de tudo e todos. Gosto da receptividade do brasileiro.
- Sua mãe é daqui?
- É sim.  Nossa, isso estava delicioso. –E raspa a vasilha. – Olha, estou com dois ingressos para o vôlei amanha. Brasil e Cuba. Topa?
Mariana se surpreende com o convite. Porque não! Não tinha nada a perder!
- Topo. Vou adorar.

A partida de vôlei foi o inicio de uma amizade entre elas. Logo saiam juntas e se divertiam. Tinham gostos parecidos e riam dos mesmos assuntos.  Mariana esforçava para se desligar da tristeza, procurando evitar tudo que a fizesse lembrar Lisa. Nadia percebia os olhos da nova amiga, muitas vezes distante e triste, mas em vez de pressioná-la pelo motivo, procurava distraí-la. Logo a confiança se fez  presente.  Sem saber, ambas se ajudavam, se apoiavam.
Isso era o melhor da existência física. O encontro de almas amigas, sinceras, que engrandeciam e faziam a vida valer à pena.  Se a tristeza existia, também existia a sinceridade, a amizade, a oportunidade de sempre poder conhecer alguém que nos acalenta o espírito.
O amor está presente, onde menos acreditamos o encontrar.

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.
(A Hora da Estrela)






quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Capítulo XV

- Como assim Lisa? Luiza? Meu Deus! Sinto muito... não sabia.
Deise se mostrava contrita.
- Pois é... Quem entende os desígnios de Deus, Deise.
- Verdade... Eu gostava de Luiza. Sabe, chegamos a conversar umas vezes sobre você.
Deise a olha meio de lado, enquanto se servia de água no frigobar. Lisa passa os olhos pelo quarto da ruiva. Tudo muito agradável. Também, era um dos melhores hotéis de BH.
- Mesmo? Que falaram?
- Minha paixão sobre você. - Deise a olha sorrindo – Agora entendo porque ela não incentivou. Estava apaixonada.
- Pode ser... Luiza quando decidia algo era implacável.
- Nem me lembre... morria de medo dela.
As duas silenciam. Lisa suspira e busca mudar o assunto.
- Mas mudando de assunto... adorei ver seu sucesso. Menina, nem acreditei quando a vi no palco.
Deise ri divertida.
- Eu que não acredito que você não sabia sobre minha carreira. Modéstia a parte, já tem um bom tempo que estou nas paradas.
- Eu estive fora do Brasil um bom tempo, Deise. Ouvia as musicas na radio, mas não sabia que era você. Desculpe nem ter ideia de seu sucesso.
- Que isso! Sabe, adorei te reencontrar. - Deise a olha insinuante e lhe entrega um copo com Coca Cola
- Obrigada. Também adorei revê-la.
- Só isso? - Deise faz um ar de carência comovedor. - Poxa Lisa, cantei uma musica só para você!
- Deise! Nem me lembre. Que vontade de te matar!
- Lembra a primeira vez que a cantei para você?
- Humhum.
Deise faz um ar saudoso.
- Eu te desejava tanto Lisa... mas não sabia como chamar sua atenção... demonstrar isso. Acabou que nem deu certo.
- Jamais me envolveria com uma paciente, Deise.
- Bom... Hoje já não sou mais sua paciente. - E sorri safada. - Você me deve algo Lisa.
- O que? - Lisa começava a curtir o jogo de sedução que a ruiva promovia.
- Lembra o beijo que me deu no cinema? Ficou um gosto de quero mais que nunca consegui satisfazer. - Insinuante aproximasse de Lisa. Devagar passa o dorso da mão pelo rosto querido. - Sempre fico agitada, quente depois de um show. Cheia de energia entende.
Lisa respira fundo, sentindo o perfume suave da ruiva. Deise tomara um banho refrescante e sua pele exalava um delicioso cheiro de lavanda. Leva o olhar para o decote que vislumbrava o colo cheio de sardas. Que charme.
- Deise... Você está me cantando?
- Que isso Lisa!! Imagina! - Deise faz um ar indignado. - Mulher, estou literalmente me jogando para você!
- Eu... - Lisa ergue o olhar, observando os suaves olhos verdes. Diferentes dos de Mariana. Mais claros, mais brincalhões. Mari tinha um olhar mais sério.
Lisa balança a cabeça irritada. Isso não era hora de lembrar Mariana.
- Tudo bem Lisa? - Deise a encara mais séria.
- Tudo Deise... eu... só estou um pouco surpresa.
- Por quê? Por que quero ficar esta noite com você? Lisa, eu estou solteira, acredito que você também. Não está? - Deise a olha meio desconfiada.
- Sim... - Lisa ignora o sentimento em seu peito que parece negar suas palavras. - Na verdade Deise, eu... eu... Desde a morte de Lu, eu nunca mais estive com ninguém.
- Como é? - A ruiva não esconde a surpresa. - Nossa Lisa, mas tem mais de um ano!
- Eu sei... - E a olha com um ar desamparado.
Deise sorri carinhosa e caminha em direção a ela.
- Sabe... Dizem que transar é como andar de bicicleta. Nunca esquecemos. Lisa... esta noite quero você. Não vai me dizer não novamente né.

Mariana não conseguia dormir. Só conseguia imaginar Lisa nos braços da ruiva famosa. Geme angustiada e treme. E claro, Lisa deve estar adorando! Imagina uma ruiva gostosa nos braços. Ela está solteira. Nem vai negar. Os olhos enchem de lágrimas e agitada joga as cobertas de lado. Caminha agitada em direção a cozinha e bebe água em grandes goles. Sentia-se febril.
- Mariana, você está bem?
Joyce adentra a cozinha indagativa. Mariana estava com as bochechas vermelhas, o olho injetado.
- Eu... estou... to bem
- Mariana, filha... não parece bem.
A filha a olha tensa e angustiada.
- Mãe... não está dando certo – O desespero é visível na voz de Mari. - Não está dando certo! Eu tentei! Eu saí com rapazes. Até beijei um deles. - Faz cara de nojo – Eu to saindo em grupo, vou ao cinema... está horrível.  Eu olho as mulheres... acho-as lindas... mas nem me dão vontade! - O desespero era cada vez maior na voz que aumentava o tom. - Mas Lisa... quando imagino ela, eu fico louca! Ela... ela... me deixa... louca. E ela... ela está agora com aquela ruiva safada! Eu… vou enlouquecer... ela... elas... que raiva! - Grita – Elas agora devem estar... estar... - Olha a mãe descontrolada – E eu aqui... aqui... ela... nem nunca tentou algo comigo a não ser aquela vez... Antes ela... me ignorava... não me quer... e tá lá com a ruiva e eu... e eu... - Explode em lágrimas e soluços de cortar o coração. - E eu... eu... queria que fosse eu... eu... - O choro se faz ainda mais sentido – Eu que devia estar lá!
Joyce sente o coração se apertar ante o desespero da filha. Lisa, de novo Lisa. Mas desta vez que culpa ela tinha? A verdade que Mariana a amava. Joyce treme ao abraçar a filha. Deus meu... Mariana realmente amava Lisa.  Geme baixinho ao sentir as lágrimas molharem a blusa de seu pijama, os soluços arrasados de Mari. Começa a sussurrar baixinho palavras de carinho, procurando acalmar a filha. A grandiosidade do amor materno suplantava qualquer outro sentimento no momento.
A medida de Mariana acalmava, os pensamentos de Joyce iam para Lisa. Como a loira era tão presente, tão única na vida das duas? Por quê? Por que ela despertava este amor tão grande em ambas? Relembra quando a filha nascera e o olhar de deslumbramento no rosto de Lisa. Depois a afinidade absurda de ambas. Inexplicável. Beija os cabelos negros com amor.
- Mãe... mãe... eu...  - Mariana ergue a cabeça do colo de Joyce – Mãe... me desculpe. Desculpe por ter procurado… Daniel sem te contar. Eu... na verdade ia contar... só que... eu... mãe...
- Xiii... Tudo bem Mariana... era normal sua curiosidade. eu... também errei. Me desculpe filha. Eu amo você. Amo muito você.
- Nem o vi mais, mãe... A gente às vezes se fala, mas... Só isso. Desculpe.
- Mariana...
- Eu te amo, mãe.
Joyce sente os olhos se encherem de lágrimas e abraça a filha mais forte.
- Vai tudo ficar bem, Mariana.
- Mãe, não vai. Lisa... ela... e você...
- Passado Mariana. É... passado. Lisa e eu... - Joyce abaixa a cabeça contrita – É passado.
Mariana continua deitada no colo da mãe. Vez ou outra suspira triste, e o coração de Joyce se aperta. 
- Estou com você Mariana. Eu... estou com você.
Procura não pensar em Lisa com outra mulher. Sente os olhos lacrimejarem e abraça a filha mais forte. Por ela faria tudo. Somente por ela.

Lisa olha a bela ruiva que lhe sorria convidativa. Engole em seco ao vê-a passar a mão insinuante pelo colo, abrindo um pouco mais o decote.
- Gosta do que vê Lisa?
- Deise...
Devagar Deise se aproxima da loira e a abraça sensual.
-Você é meu sonho não realizado, Lisa. Você despertou em mim o desejo pelo feminino. Quero você. Sempre quis.
- Deise eu... eu... – Lisa sente o coração acelerar, o desejo tomar conta de seu corpo.
- Lisa... eu quero você... – Devagar lhe beija o canto da boca. – Desejo você... faz amor comigo, faz.
Lisa solta um gemido rouco e abraça a ruiva com força. Sim, ela a queria. E a teria.
As duas se beijam com paixão. Imediatamente Lisa abre o roupão de Deise expondo o corpo delicado, cheio de sardas.
Deise lhe sorri safada.
- Quero que as beije uma a uma.
Deise era lisinha, sem nenhum pelo. Lisa segura a ruiva pelas nádegas e abocanha o bico do pequeno seio, chupando-o com vontade.
- Isso, Lisa... isso.
As duas trocam caricias sem nenhum pudor.  Deise se deita sobre a cama larga e abre as pernas desavergonhada, expondo a vulva molhada. Lisa começa a se despir freneticamente sem tirar o olho da mulher que se tocava sensual.
As duas rolam nuas pela cama. Deise segura as mãos de Lisa sobre sua cabeça e olha o corpo sarado.
- Quantas vezes imaginei você assim... nua... entregue. Lisa... eu vou te dar prazer. Vou te dar muito prazer.
Lisa arregala os olhos, quando a bonita ruiva ergue suas pernas até quase sua cabeça, expondo-a de forma indecente. Geme ao sentir a língua em seu períneo, indo em direção a vulva. Deise a chupa com tesão, penetrando-a varias vezes com a língua. A posição não era cômoda, mas o prazer era indescritível. A mente se perde no prazer, anulando qualquer outro pensamento que lhe pudesse inibir o momento de paixão. Sente a língua novamente escorregar pelo períneo, agora em direção ao anus. Tenta evitar, mas Deise a segura firme nas coxas.
- Deixe fazer tudo que quero. Deixa...
Devagar volta a lamber-lhe o clitóris, o dedo se insinuando pelo anus da loira.
- Isso não quero Deise...
Deise faz um ar de falsa tristeza e com um sorriso maroto, penetra repentinamente a vulva macia e úmida. Lisa não consegue conter o grito. A penetração é ritmada e constante. Lisa instintivamente tenta mexer o corpo, ainda preso por um dos braços de Deise.
- Deise!
A ruiva sorrindo a solta.
- Você é tão deliciosa Lisa... que gosto bom você tem! Quero mais... desejo mais... Quero também.
O olhar de Deise era pedinte. Ela se ajoelha sobre a cama e ergue as mãos, inesperadamente um pouco insegura. Lisa a olha e abrindo os lábios com desejo, a segura pelos quadris colocando a vulva lisinha em sua boca, ao mesmo tento que oferece a sua, aos lábios sedentos da ruiva. O 69 começa como que saboreando um delicioso manjar. Mas, à medida que o desejo se torna maior, mais frenéticas se tornam, as línguas penetrando, lambendo, chupando o mel desejado. Deise chega primeiro ao orgasmo. Lisa sente o doce adocicado na boca e mexe o quadril desesperada, querendo o mesmo prazer. Ainda ofegante, a ruiva volta a chupá-la, ate que o prazer jorrar sobre sua boca. A loira tomba a cabeça sobre a cama. Deise ergue o corpo e sem dó a penetra com os dedos. Lisa abre a boca em busca de ar. Quanto tempo... quanto tempo não sentia este prazer. Geme quando o orgasmo vem forte. 
-Ahh!!
Deise tira os dedos cansada. Lisa a exaustara. Estar com ela superara todas as expectativas de todos estes anos.
- Descanse Lisa. – A abraça, ainda tensa e cheia de tesão. – Descanse, porque a nossa noite esta apenas começando. Eu quero mais, muito mais.

Joyce observa a filha dormir. Custara a acalmá-la. Nunca vira Mariana tão descontrolada, desesperada. Acostumara a ver a filha como uma pequena adulta. Até em sua rebeldia, Mariana buscava manter o controle, a postura. Repara melhor o rosto amado. Inchado, as olheiras escuras. Em sua mágoa, parara de olhar a filha, e se preocupara só com sua dor, sua raiva. Coloca as mãos sobre o rosto e deixa as lágrimas escorrerem livres. Onde deixara de ser mãe, para se tornar a pessoa egoísta e sem limites que se tornara?
Ergue o rosto transtornado. Quem seria a ruiva que Mariana tantas vezes falara? Quem era esta que estava com Lisa, nos braços de Lisa? Meu Deus!  Amava Lisa. Sim a amava. Sempre amara. Mas desistira dela. Por diversas vezes desistira dela. E por quê? Porque ela não poderia lhe dar o que mais almejara na vida. Uma família. Filhos, um companheiro que seria motivo de apreço, respeito social. E com isso perdera o respeito próprio, exigindo, cobrando dos mesmos, o preço de ter aberto mão daquela que sempre estivera a seu lado desde criança. Daquela que lhe dera um amor puro, mas inaceitável. Os culpara de suas escolhas, acusando, desleixando, depreciando os seres amados. Quanto tempo não fazia um programa diferente com os filhos? Quanto tempo, anos, não tinha um gesto de verdadeiro afeto para o marido? E a filha? O olhar se volta para a jovem dormindo. Quantas vezes não deixara o ciúme, a inveja prejudicar a relação das duas, justamente por Mariana ser alvo do afeto... do amor de Lisa?
Angustiada, envergonhada, desesperada, percebe que a filha sofria como ela mesma sofrera no passado, mas com uma grande diferença. Mariana ainda lutava por Lisa. Inconscientemente, a filha ainda buscava saídas para ter Lisa a seu lado, enquanto ela... Ela refizera sua vida. Da maneira certa ou errada, refizera sua vida.
Ergue da cama e abraça o próprio corpo. Sim, ela amava Lisa. Mas... amava ainda mais a filha.
Seria capaz de abrir mão de Lisa, de toda sua esperança de um dia tê-la novamente nos braços, por amor a filha?
Seria capaz de perdoar a Lisa, a si mesma, por todas as oportunidades perdidas?
 Seria capaz de perdoar Lisa por finalmente entender e não aceitar que Mariana, sua filha, era seu verdadeiro destino, o verdadeiro amor?
Seria capaz de perdoar a vida por lhe cobrar um preço tão alto por causa de suas escolhas?
Porque este preço era alto demais. Alto demais.
 
“... faz de conta que ela não estava chorando por dentro -
pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado;
ela saíra agora da voracidade de viver.”