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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Capítulo XV

- Como assim Lisa? Luiza? Meu Deus! Sinto muito... não sabia.
Deise se mostrava contrita.
- Pois é... Quem entende os desígnios de Deus, Deise.
- Verdade... Eu gostava de Luiza. Sabe, chegamos a conversar umas vezes sobre você.
Deise a olha meio de lado, enquanto se servia de água no frigobar. Lisa passa os olhos pelo quarto da ruiva. Tudo muito agradável. Também, era um dos melhores hotéis de BH.
- Mesmo? Que falaram?
- Minha paixão sobre você. - Deise a olha sorrindo – Agora entendo porque ela não incentivou. Estava apaixonada.
- Pode ser... Luiza quando decidia algo era implacável.
- Nem me lembre... morria de medo dela.
As duas silenciam. Lisa suspira e busca mudar o assunto.
- Mas mudando de assunto... adorei ver seu sucesso. Menina, nem acreditei quando a vi no palco.
Deise ri divertida.
- Eu que não acredito que você não sabia sobre minha carreira. Modéstia a parte, já tem um bom tempo que estou nas paradas.
- Eu estive fora do Brasil um bom tempo, Deise. Ouvia as musicas na radio, mas não sabia que era você. Desculpe nem ter ideia de seu sucesso.
- Que isso! Sabe, adorei te reencontrar. - Deise a olha insinuante e lhe entrega um copo com Coca Cola
- Obrigada. Também adorei revê-la.
- Só isso? - Deise faz um ar de carência comovedor. - Poxa Lisa, cantei uma musica só para você!
- Deise! Nem me lembre. Que vontade de te matar!
- Lembra a primeira vez que a cantei para você?
- Humhum.
Deise faz um ar saudoso.
- Eu te desejava tanto Lisa... mas não sabia como chamar sua atenção... demonstrar isso. Acabou que nem deu certo.
- Jamais me envolveria com uma paciente, Deise.
- Bom... Hoje já não sou mais sua paciente. - E sorri safada. - Você me deve algo Lisa.
- O que? - Lisa começava a curtir o jogo de sedução que a ruiva promovia.
- Lembra o beijo que me deu no cinema? Ficou um gosto de quero mais que nunca consegui satisfazer. - Insinuante aproximasse de Lisa. Devagar passa o dorso da mão pelo rosto querido. - Sempre fico agitada, quente depois de um show. Cheia de energia entende.
Lisa respira fundo, sentindo o perfume suave da ruiva. Deise tomara um banho refrescante e sua pele exalava um delicioso cheiro de lavanda. Leva o olhar para o decote que vislumbrava o colo cheio de sardas. Que charme.
- Deise... Você está me cantando?
- Que isso Lisa!! Imagina! - Deise faz um ar indignado. - Mulher, estou literalmente me jogando para você!
- Eu... - Lisa ergue o olhar, observando os suaves olhos verdes. Diferentes dos de Mariana. Mais claros, mais brincalhões. Mari tinha um olhar mais sério.
Lisa balança a cabeça irritada. Isso não era hora de lembrar Mariana.
- Tudo bem Lisa? - Deise a encara mais séria.
- Tudo Deise... eu... só estou um pouco surpresa.
- Por quê? Por que quero ficar esta noite com você? Lisa, eu estou solteira, acredito que você também. Não está? - Deise a olha meio desconfiada.
- Sim... - Lisa ignora o sentimento em seu peito que parece negar suas palavras. - Na verdade Deise, eu... eu... Desde a morte de Lu, eu nunca mais estive com ninguém.
- Como é? - A ruiva não esconde a surpresa. - Nossa Lisa, mas tem mais de um ano!
- Eu sei... - E a olha com um ar desamparado.
Deise sorri carinhosa e caminha em direção a ela.
- Sabe... Dizem que transar é como andar de bicicleta. Nunca esquecemos. Lisa... esta noite quero você. Não vai me dizer não novamente né.

Mariana não conseguia dormir. Só conseguia imaginar Lisa nos braços da ruiva famosa. Geme angustiada e treme. E claro, Lisa deve estar adorando! Imagina uma ruiva gostosa nos braços. Ela está solteira. Nem vai negar. Os olhos enchem de lágrimas e agitada joga as cobertas de lado. Caminha agitada em direção a cozinha e bebe água em grandes goles. Sentia-se febril.
- Mariana, você está bem?
Joyce adentra a cozinha indagativa. Mariana estava com as bochechas vermelhas, o olho injetado.
- Eu... estou... to bem
- Mariana, filha... não parece bem.
A filha a olha tensa e angustiada.
- Mãe... não está dando certo – O desespero é visível na voz de Mari. - Não está dando certo! Eu tentei! Eu saí com rapazes. Até beijei um deles. - Faz cara de nojo – Eu to saindo em grupo, vou ao cinema... está horrível.  Eu olho as mulheres... acho-as lindas... mas nem me dão vontade! - O desespero era cada vez maior na voz que aumentava o tom. - Mas Lisa... quando imagino ela, eu fico louca! Ela... ela... me deixa... louca. E ela... ela está agora com aquela ruiva safada! Eu… vou enlouquecer... ela... elas... que raiva! - Grita – Elas agora devem estar... estar... - Olha a mãe descontrolada – E eu aqui... aqui... ela... nem nunca tentou algo comigo a não ser aquela vez... Antes ela... me ignorava... não me quer... e tá lá com a ruiva e eu... e eu... - Explode em lágrimas e soluços de cortar o coração. - E eu... eu... queria que fosse eu... eu... - O choro se faz ainda mais sentido – Eu que devia estar lá!
Joyce sente o coração se apertar ante o desespero da filha. Lisa, de novo Lisa. Mas desta vez que culpa ela tinha? A verdade que Mariana a amava. Joyce treme ao abraçar a filha. Deus meu... Mariana realmente amava Lisa.  Geme baixinho ao sentir as lágrimas molharem a blusa de seu pijama, os soluços arrasados de Mari. Começa a sussurrar baixinho palavras de carinho, procurando acalmar a filha. A grandiosidade do amor materno suplantava qualquer outro sentimento no momento.
A medida de Mariana acalmava, os pensamentos de Joyce iam para Lisa. Como a loira era tão presente, tão única na vida das duas? Por quê? Por que ela despertava este amor tão grande em ambas? Relembra quando a filha nascera e o olhar de deslumbramento no rosto de Lisa. Depois a afinidade absurda de ambas. Inexplicável. Beija os cabelos negros com amor.
- Mãe... mãe... eu...  - Mariana ergue a cabeça do colo de Joyce – Mãe... me desculpe. Desculpe por ter procurado… Daniel sem te contar. Eu... na verdade ia contar... só que... eu... mãe...
- Xiii... Tudo bem Mariana... era normal sua curiosidade. eu... também errei. Me desculpe filha. Eu amo você. Amo muito você.
- Nem o vi mais, mãe... A gente às vezes se fala, mas... Só isso. Desculpe.
- Mariana...
- Eu te amo, mãe.
Joyce sente os olhos se encherem de lágrimas e abraça a filha mais forte.
- Vai tudo ficar bem, Mariana.
- Mãe, não vai. Lisa... ela... e você...
- Passado Mariana. É... passado. Lisa e eu... - Joyce abaixa a cabeça contrita – É passado.
Mariana continua deitada no colo da mãe. Vez ou outra suspira triste, e o coração de Joyce se aperta. 
- Estou com você Mariana. Eu... estou com você.
Procura não pensar em Lisa com outra mulher. Sente os olhos lacrimejarem e abraça a filha mais forte. Por ela faria tudo. Somente por ela.

Lisa olha a bela ruiva que lhe sorria convidativa. Engole em seco ao vê-a passar a mão insinuante pelo colo, abrindo um pouco mais o decote.
- Gosta do que vê Lisa?
- Deise...
Devagar Deise se aproxima da loira e a abraça sensual.
-Você é meu sonho não realizado, Lisa. Você despertou em mim o desejo pelo feminino. Quero você. Sempre quis.
- Deise eu... eu... – Lisa sente o coração acelerar, o desejo tomar conta de seu corpo.
- Lisa... eu quero você... – Devagar lhe beija o canto da boca. – Desejo você... faz amor comigo, faz.
Lisa solta um gemido rouco e abraça a ruiva com força. Sim, ela a queria. E a teria.
As duas se beijam com paixão. Imediatamente Lisa abre o roupão de Deise expondo o corpo delicado, cheio de sardas.
Deise lhe sorri safada.
- Quero que as beije uma a uma.
Deise era lisinha, sem nenhum pelo. Lisa segura a ruiva pelas nádegas e abocanha o bico do pequeno seio, chupando-o com vontade.
- Isso, Lisa... isso.
As duas trocam caricias sem nenhum pudor.  Deise se deita sobre a cama larga e abre as pernas desavergonhada, expondo a vulva molhada. Lisa começa a se despir freneticamente sem tirar o olho da mulher que se tocava sensual.
As duas rolam nuas pela cama. Deise segura as mãos de Lisa sobre sua cabeça e olha o corpo sarado.
- Quantas vezes imaginei você assim... nua... entregue. Lisa... eu vou te dar prazer. Vou te dar muito prazer.
Lisa arregala os olhos, quando a bonita ruiva ergue suas pernas até quase sua cabeça, expondo-a de forma indecente. Geme ao sentir a língua em seu períneo, indo em direção a vulva. Deise a chupa com tesão, penetrando-a varias vezes com a língua. A posição não era cômoda, mas o prazer era indescritível. A mente se perde no prazer, anulando qualquer outro pensamento que lhe pudesse inibir o momento de paixão. Sente a língua novamente escorregar pelo períneo, agora em direção ao anus. Tenta evitar, mas Deise a segura firme nas coxas.
- Deixe fazer tudo que quero. Deixa...
Devagar volta a lamber-lhe o clitóris, o dedo se insinuando pelo anus da loira.
- Isso não quero Deise...
Deise faz um ar de falsa tristeza e com um sorriso maroto, penetra repentinamente a vulva macia e úmida. Lisa não consegue conter o grito. A penetração é ritmada e constante. Lisa instintivamente tenta mexer o corpo, ainda preso por um dos braços de Deise.
- Deise!
A ruiva sorrindo a solta.
- Você é tão deliciosa Lisa... que gosto bom você tem! Quero mais... desejo mais... Quero também.
O olhar de Deise era pedinte. Ela se ajoelha sobre a cama e ergue as mãos, inesperadamente um pouco insegura. Lisa a olha e abrindo os lábios com desejo, a segura pelos quadris colocando a vulva lisinha em sua boca, ao mesmo tento que oferece a sua, aos lábios sedentos da ruiva. O 69 começa como que saboreando um delicioso manjar. Mas, à medida que o desejo se torna maior, mais frenéticas se tornam, as línguas penetrando, lambendo, chupando o mel desejado. Deise chega primeiro ao orgasmo. Lisa sente o doce adocicado na boca e mexe o quadril desesperada, querendo o mesmo prazer. Ainda ofegante, a ruiva volta a chupá-la, ate que o prazer jorrar sobre sua boca. A loira tomba a cabeça sobre a cama. Deise ergue o corpo e sem dó a penetra com os dedos. Lisa abre a boca em busca de ar. Quanto tempo... quanto tempo não sentia este prazer. Geme quando o orgasmo vem forte. 
-Ahh!!
Deise tira os dedos cansada. Lisa a exaustara. Estar com ela superara todas as expectativas de todos estes anos.
- Descanse Lisa. – A abraça, ainda tensa e cheia de tesão. – Descanse, porque a nossa noite esta apenas começando. Eu quero mais, muito mais.

Joyce observa a filha dormir. Custara a acalmá-la. Nunca vira Mariana tão descontrolada, desesperada. Acostumara a ver a filha como uma pequena adulta. Até em sua rebeldia, Mariana buscava manter o controle, a postura. Repara melhor o rosto amado. Inchado, as olheiras escuras. Em sua mágoa, parara de olhar a filha, e se preocupara só com sua dor, sua raiva. Coloca as mãos sobre o rosto e deixa as lágrimas escorrerem livres. Onde deixara de ser mãe, para se tornar a pessoa egoísta e sem limites que se tornara?
Ergue o rosto transtornado. Quem seria a ruiva que Mariana tantas vezes falara? Quem era esta que estava com Lisa, nos braços de Lisa? Meu Deus!  Amava Lisa. Sim a amava. Sempre amara. Mas desistira dela. Por diversas vezes desistira dela. E por quê? Porque ela não poderia lhe dar o que mais almejara na vida. Uma família. Filhos, um companheiro que seria motivo de apreço, respeito social. E com isso perdera o respeito próprio, exigindo, cobrando dos mesmos, o preço de ter aberto mão daquela que sempre estivera a seu lado desde criança. Daquela que lhe dera um amor puro, mas inaceitável. Os culpara de suas escolhas, acusando, desleixando, depreciando os seres amados. Quanto tempo não fazia um programa diferente com os filhos? Quanto tempo, anos, não tinha um gesto de verdadeiro afeto para o marido? E a filha? O olhar se volta para a jovem dormindo. Quantas vezes não deixara o ciúme, a inveja prejudicar a relação das duas, justamente por Mariana ser alvo do afeto... do amor de Lisa?
Angustiada, envergonhada, desesperada, percebe que a filha sofria como ela mesma sofrera no passado, mas com uma grande diferença. Mariana ainda lutava por Lisa. Inconscientemente, a filha ainda buscava saídas para ter Lisa a seu lado, enquanto ela... Ela refizera sua vida. Da maneira certa ou errada, refizera sua vida.
Ergue da cama e abraça o próprio corpo. Sim, ela amava Lisa. Mas... amava ainda mais a filha.
Seria capaz de abrir mão de Lisa, de toda sua esperança de um dia tê-la novamente nos braços, por amor a filha?
Seria capaz de perdoar a Lisa, a si mesma, por todas as oportunidades perdidas?
 Seria capaz de perdoar Lisa por finalmente entender e não aceitar que Mariana, sua filha, era seu verdadeiro destino, o verdadeiro amor?
Seria capaz de perdoar a vida por lhe cobrar um preço tão alto por causa de suas escolhas?
Porque este preço era alto demais. Alto demais.
 
“... faz de conta que ela não estava chorando por dentro -
pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado;
ela saíra agora da voracidade de viver.”

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Capítulo XIV

Mariana caminha displicente, pelo campus da universidade. Os pensamentos longe, vagando nos últimos acontecimentos de sua vida. Alias, nos últimos dias era tudo que sabia fazer. Relembrar cada acontecimento que mudara tanto sua vida. Aperta os passos tensa. Não tivera mais nenhuma notícia de Lisa. Os padrinhos, apesar de ligarem para saber se estava bem, também nada comentavam. Suspira e joga a longa cabeleira negra para trás. Não conseguia se desligar de Lisa, do prazer que sentira em seus braços. 'Tenho que esquecer!'. Muda o rumo de seus pensamentos e inevitavelmente volta-os para a mãe. O clima em casa estava péssimo. Carlos dormindo no quarto de hospedes, a mãe sempre tensa, nervosa olhando-a com mágoa como se ELA tivesse culpa dos últimos acontecimentos, e os pobres dos gênios perdidos no clima ruim. Ela mesmo, tinha que admitir, estava rancorosa, evitando até mesmo ficar em casa. Endurece o andar e aperta mais forte os livros que carregava nos braços. A verdade é que a mãe era o esteio da casa. Se Joyce estava mal, todos ficavam mal. E ela estava triste, abatida e depressiva. Logo, todos estavam meio perdidos, sem saber bem como agir. Detestava tudo que estava ocorrendo em sua vida, mas não podia mudar os acontecimentos. Tudo que sabia é que queria mudar, se descobrir. Bem ou mal, sentira insegurança em relação aos seus sentimentos nos últimos dias. Não esquecia as palavras da mãe, dizendo que era obcecada em Lisa. Volta novamente os pensamentos à loira. O coração se oprime quando relembra a mãe agredindo Lisa. Ela nem mesmo revidara, só se defendera. Por que? Por que ela não contou tudo? Por que silenciou, sabendo seus sentimentos por ela? Lisa a magoara tanto quando sua mãe.
Mas... cada momento sentido com ela, cada carinho, cada pensamento, eram de amor, não obsessão. Vinham naturais, únicos. Balança a cabeça numa negativa. Mas também eram constantes. Sua vida sempre fora focada em Lisa, por Lisa, para Lisa. Isso tinha que mudar.
-Bela?
Mari olha surpresa com o chamado, quase em seu ouvido. Estava tão distraída, que não percebera a chegada de seu colega, Flávio.
- Flávio... nossa desculpa, estava distraída.
- Percebi – O rapaz dá um sorriso simpático. - Os últimos dias está vindo vestida para matar hem!?
Mariana sorri simpática. Isso era verdade. Em uma necessidade de se auto afirmar, estava indo para as aulas muito bem vestida e maquiada. Até mesmo para disfarçar as olheiras que tomavam conta de seu rosto. No momento, estava vestida com uma calça jeans de cós baixo e um corpete preto bem justo na cintura, realçando os belos seios e o colo bem feito. A bota de salto alto completavam o conjunto, dando-lhe uma silhueta alongada e muito elegante. Os cabelos caiam em ondas pelas costas e a maquiagem realçava a beleza de seus olhos verdes.
- Pois é Flávio. As vezes tenho esse rompante de me arrumar mais. - E ri um pouco sem graça.
- Pois está cada dia mais linda, bela. Se é que isto é possível. É um desperdício se arrumar assim só para a aula. - Dá um sorriso insinuante. - Podíamos dar uma saidinha.
Mariana olha o colega de lado. Era um rapaz bonito, com seus vinte e poucos anos. Era simpático e cativante com seu jeito alegre e alto astral. Num impulso, Mariana para e o olha.
- Ok Flávio, eu topo.
O rapaz se surpreende. Bela aceitando sair com ele?
- Uau! Topa mesmo sair comigo? - Mari faz um gesto afirmativo com a cabeça. - Quer ir a algum lugar em especial?
- Ah, não sei... só gostaria de me distrair um pouco.
- Bom, tem um barzinho muito legal no Jaraguá. Quer?
- Quero - Mariana dá um sorriso aberto ao rapaz, e segura seu braço afetuosa. Flávio retribui o sorriso. Bela ia sair com ele! Ninguém ia acreditar!

A noite estava sendo divertida. Mariana ria muito com os casos que o colega contava. Estavam num papo animado quando o celular toca. Mariana olha o visor. Sua mãe.
- Alô – não consegue disfarçar a voz tensa.
- Mariana, onde está! Já passam da uma da manhã!
A morena lança um olhar discreto para o rapaz.
- Mãe, estou num bar com um amigo. Não se preocupe.
- Você tem que avisar quando vai sair e chegar tarde! Deixa todos nós preocupados!
- Está tudo bem. Na próxima aviso. - Sua voz era de impaciência.
- Você está... com um rapaz?
- Mãe, tenho que desligar. Tchau.
Desliga o celular com um sorriso de desculpas ao colega.
- Esqueci de avisar em casa que ia sair.
- Tudo bem... sei como é isso. Quer ir para casa?
Mariana olha Flávio. Era um rapaz atencioso. Por algumas horas esquecera todos seus problemas.
Sua mãe tinha que ligar! Droga!
- Eu...se não se importa Flávio, gostaria sim.
Já era quase duas horas da manha quando encostam o carro frente a casa de Mariana. Esta se vira sorrindo para o rapaz.
- Adorei a noite Flávio. Me diverti muito. Obrigada.
- Eu também, Bela. - Segura seu rosto com carinho. - Foi... muito gostoso.
Devagar aproxima sua boca da de Mariana e lhe beija delicado. Percebendo que esta não reage, tenta aprofundar o beijo.
Mariana sente a língua de Flávio invadir sua boca e afasta-se repentinamente.
- Flávio... não.
- Eu... desculpe... pensei...
- Flávio, eu adorei sair com você, mas... é amizade ok.
O rapaz não consegue esconder a cara de decepção.
- Tudo bem... bom... - Dá um sorriso sem graça – Não pode me condenar por tentar né. Mas olha, nada impede de sairmos de novo. Podemos sair em turma. Tenho uma galera legal. Quer?
-Vou adorar, Flávio. Estou mesmo precisando me sociabilizar mais. Amigos? Sem mágoas?
- Que isso, Bela! Sem mágoas. Gosto de você e ...bom... sei que podemos ser amigos.
- Que bom... bom... vou entrar. - Dá um beijo na face do rapaz. - Boa noite Flávio.
- Boa noite, Bela.
Mariana entra na casa sem fazer barulho. Encosta o corpo na porta e toca a boca. Devagar começa a esfregar a palma da mão na mesma. Odiara o beijo. Que nojo aquela língua! Depois de experimentar o beijo feminino, era impossível gostar do beijo de um homem. A boca era mais firme, nada macia. E aquela barba arranhando sua pele... argh. Faz um gesto de repulsa. Decididamente uma coisa podia ter certeza. Gostava de mulher. Pele de mulher, cheiro de mulher. Cheiro de Lisa... NÃO! Balança a cabeça incisiva. Cheiro de mulher e pronto! 

Joyce afasta-se da janela pensativa. Mariana com um rapaz. Ela demorara a sair do carro. Quem sabe não iniciava ali um belo namoro. Senta-se na cama pensativa. A filha parecia decidida a esquecer os últimos acontecimentos. Quem sabe ela não esquecia Lisa... elas esqueciam Lisa. Queria tanto que voltassem a se dar bem! O clima estava péssimo em casa. Olha para o lado da cama, que Carlos antes dormia. Por incrível que pareça, sentia falta do calor do corpo do marido a seu lado. Suspira. Cada dia se sentia pior. E sem saída.

Quinze dias...

Quinze dias que Mariana saíra de sua vida. Lisa esfrega a testa. Sentia sua falta. Demais. A jovem morena a fazia rir, tornava seus dias mais leves. Sua presença a acalmava e ao mesmo tempo a energizava, num arroubo maravilhoso de vida. Geme baixinho e apoia a testa sobre a mesa da clinica. Que saudade meu Deus! Que saudade!
- Lisa?
A loira ergue a cabeça devagar, reconhecendo a voz da colega de serviço.
- Oi Kelly
- Tudo bem?
- Levando...acho.
Kelly se senta frente a mesa de Lisa.
- Amiga, você está mal.
- Não me diga! - Lisa não consegue esconder a ironia.
- Sem ironias, Lisa. Você emagreceu. Está pálida. Olha, não sei porque esta nesse baixo astral, mas esta na hora de dar uma sacudida.
Lisa ergue o corpo e cruza os braços, olhando a colega indagadora.
- Ok...E o que me sugere?
Era a deixa que Kelly queria.
- Pois bem. Eu e umas amigas compramos um camarote para o show da cantora Deise, sexta que vem, mas infelizmente, duas desistiram. Você podia ir conosco.
Lisa faz um ar de rejeição.
- Ah, não Kelly! Nem conheço esta cantora!
- Como não conhece!! Ela é a nova sensação da musica brasileira. Tem um estilo meio Marisa Monte. O repertório dela é lindo!
- Não sei...
- Lisa, você precisa se distrair! Vamos lá... você vai curtir.
Lisa coloca a cabeça de lado pensativa. Ao menos seus pensamentos mudariam de rumo por alguns minutos.
- Ok, eu topo. Ah... Kelly, você disse duas?
- Sim...conhece mais alguém que queira ir?
- Sim...conheço. Minha cunhada. Acho que já a ouvi falar nesta cantora. Vou ligar para ela.
- Nossa, isso é ótimo. Assim, completamos o número de pessoas por camarote. Me dê o toque depois, se ela for.
- Combinado.

Sheila olha para os lados dentro da grande biblioteca. Percebe Mariana sentada em uma das mesas e caminha resoluta até ela.
- Ok, vamos conversar.
Mariana ergue os olhos conformada.
- Oi Sheila.
- Oi Bela. Quanto tempo não!?
- Eu... - Suspira
- Eu nada! Você esta fugindo ostensivamente de mim ! O que aconteceu!
- Nada eu... eu... estudando, só isso.
- Mariana, você esta escapulindo de mim pelas beiradas. Sei que aconteceu algo. Você esta mais triste, fechada, perdeu aquele jeitão arrogante, sei lá.
Mari a olha surpresa.
- Que isso Sheila!
- É sério! Agora fica andando por ai igual modelo, esnobando as amigas. Saindo com um pessoal que nunca teve afinidade. Resolveu trocar suas amizades?
- Tá louca Sheila! Nada a ver!
- Mari, olha, eu sei que esta mal. Ou me diz o que acontece, ou passo a te esnobar também. Você decide.
Mariana olha a amiga tensa. Não queria falar sobre os acontecimentos que mudaram tanto sua vida.
- Olha Sheila, eu estou em crise com minha mãe. A coisa lá em casa está feia. Ela e eu... quase saí de casa.
- Putz – Sheila arregala os olhos. - Por que?
Mariana a olha séria.
- Bom... eu... procurei meu pai verdadeiro.
- Como?
- Sheila, minha mãe engravidou solteira e o cara, meu pai, a abandonou. Bom... eu encontrei com ele.
- Puta que pariu! Sem contar a ela?
- É...
- Você é louca? O cara é um filho da mãe e você ainda o procura?
- Não é bem assim, Sheila! Ele errou sim, mas... tentou contato várias vezes. Meus... pais que não permitiram.
- E estão certos! Pai é quem cria.
- Ai, que saco! Por isso não queria contar. Olha, ele é gente boa. Errou, mas esta tentando consertar a besteira que fez.
- Beleza... entendi.... e sua mãe? Você está dando a mesma oportunidade para ela?
- Como é? - Mariana a olha surpresa.
- Uai... se você abre as asas para um cara que nunca te quis, por que não abre para sua mãe, que sempre esteve a seu lado, de uma maneira ou de outra? Tô entendendo não. Mais fácil perdoar um estranho, que quem nos ama né.
Mariana a olha pensativa. Perdoar...
- Eu... não sei o que pensar.
Sheila segura sua mão.
- Bela... seu coração é enorme. E você está mal nessa situação. É como você disse. Ele errou, mas esta tentando consertar. Não precisa pagar o resto da vida pelo erro do passado. Não é assim que pensa?
- Sim..
- Sua mãe também, uai. Ela errou, mas está tentando consertar o passado. Você deve a ela a mesma oportunidade. Não acha?
Mariana abaixa o olhar triste. Não parara para pensar as coisas sob este prisma. Agia com dois pesos e duas medidas. Buscava aceitar e compreender o homem que a rejeitara mesmo antes de nascer, mas resistia a perdoar o passado de sua mãe, seus erros... Lisa...
Olha a amiga .
- Sheila... você tem razão! Eu... eu não estou sendo justa. Passado é passado. O presente é... outra vida.
Sheila a olha magnânima, sem perceber que o assunto ia além do que acreditava falarem.
- Mas... vem cá. Gostou mesmo dele?
- Dele quem? - Mariana a olha indagativa.
- Seu pai, gente!
- Ah! É... claro... gente boa. A gente se fala ainda por telefone, mas... bom... só vi ele uma vez. Prefiro ir devagar.
- Está certo. Muito certo. Bom Bela, mudando de assunto, já que voltou a falar com nós, mortais... que tal me acompanhar num show massa, sexta feira?
- Show de quem?
- Deise. Aquela gostosa! Ai... - Põe a mão sobre o coração.
- Ah Sheila, ela é bonitinha, mas nem é isso tudo.
- Que isso, Mari! Eu beijava uma a uma daquelas sardas!
- Sei... hum... até que é um bom programa. Vai sozinha?
- Vou com a Claire, minha amiga. Lembra dela?
- Claro. Gente boa
- E como! Topa? Se quiser mesmo, já ligo para ela comprar mais um ingresso. Tem que ser rápido, que já está quase esgotado.
- Não sei...
- Mari! Para de corpo mole! Vamos lá! Vai ser algo diferente! Depois podemos sair um pouco, sentar num barzinho.
- Ah, beleza então. Pode comprar que vou.
'Tomara que não me arrependa'

Mari, Sheila e Claire se espremem na pista para estar o mais próximo possível do palco.
- Cara, nem acredito que vou ver essa maravilha de perto!
- Nossa Sheila, que babação! - Mari ri divertida. Tentava a todo custo se divertir. Afinal as amigas faziam de tudo para alegrá-la e não era justo as desapontar.
- Babação, Mari? Cara, fala sério! A mulher é tudo de bom, canta e toca barbaridade. Ela é a nova sensação da música.
- Eu sei que ela toca muito. Mas você extrapola na tietagem – Se vira para Claire. - Você não acha Claire?
- É ela! É ela! - Os olhos de Claire estavam vidrados no palco. De repente ela solta um grito histérico – Diva!!!!!
Mariana arregala os olhos. Que isso, meu Deus! Suspira. Vai ser uma noite longa. Logo se sente empurrada por Sheila.
- Anda Mari. Quero ficar o mais perto possível dela.

A cantora adentra o palco. Os gritos de euforia tomam conta da plateia. Mariana fixa os belos olhos verdes no palco. A jovem cantora sorri simpática ao público.
- Olá galera!!! Maravilha, estar aqui em Belo Horizonte com vocês! Mas vamos com música!
Logo a melodia invade todo o ambiente. Mesmo sem querer, Mari se deixa envolver na melodia. Não havia como negar o talento que se apresentava. Seu estilo era mais MPB, com letras fortes e intimistas. Estava em total sintonia com o modo de pensar dos jovens, e fugia totalmente do estilo superficial e cheio de modismo da nova geração da musica brasileira.
- E aí pessoal? Vamos com mais música?
O Show corria maravilhoso e cheio de adrenalina. Mari repara que não só os homens gritavam o nome da cantora. Mulheres quase histéricas, gritavam verdadeiras declarações de amor a ela.
- Sheila! - Grita a amiga – A Deise é lés?
- Que???
- A cantora, Deise! Ela é lés???
- Mari, dizem que ela é bi, mas sei lá. Se for to na área. A mulher é gata!!!! Deise!!!!! Me olha!!! - Grita toda espalhafatosa.
Mariana volta novamente o olhar para a cantora. Simpática e envolvente, com o rosto cheio de sardas e longos cabelos ruivos, a cantora cativava a todos. Era bonita sim, sendo que seu maior trunfo, era o sorriso espontâneo e maroto. Logo se deixa envolver pela alegria contagiante da plateia. Tinha que admitir. Valera a pena vir.

Deise adorava ver a alegria e empolgação da plateia. Se sentia em total sintonia com seu público. Sorri, quando percebe uma fã gesticular, quase se jogando em cima das outras a seu redor. Devagar caminha em sua direção e lhe manda um beijo carinhoso. Era tão bom fazer o que gosta! Valera a pena investir em seu talento pela musica. A musica termina e ela caminha até perto do baterista para beber um pouco de água.
- É isso aí pessoal! Vocês são demais!! - Troca o violão e sorrindo caminha mais ao centro do palco dedilhando a entrada da música que cantaria. Volta o olhar distraidamente para os camarotes. É quando seu olhar se cruza com outro. O coração falha uma batida. Só havia uma pessoa no mundo com olhos como aquele. Belíssimos olhos cor de mel. Percebe que perde a introdução da música e volta novamente a tocá-la. Os músicos se entreolham , mas a acompanham. Deise sente o coração acelerado. Lisa! Tinha certeza que era Lisa. Começa a cantar e novamente olha para o camarote. Era Lisa! Esta lhe dá um suave sorriso. Deise se sente imundada de alegria e prazer. Sua voz eleva um tom, como a expressar seu momento presente. Retribui o sorriso e volta-se novamente para a plateia. A noite estava perfeita.

Lisa sorri alegre. Tinha certeza que Deise a reconhecera. Não acreditara quando a vira entrar no palco. Ela realmente investira na música! Não mudara nada. O modo de vestir, sorrir, tudo. Parecia que a tinha visto ontem. Quando esta a olha, com seus olhos verdes brilhantes, o coração de Lisa se oprime. 'Mariana...' Mas logo afasta os pensamentos tristes. Hoje não queria tristezas. Aliás, tinha muitos motivos para sorrir. Encosta o corpo na cadeira. Se antes estava desanimada de ir ao show, agora se sentia agradecida.
- Tá vendo Lisa! Te falei! Essa cantora é sensacional! - Alice a olha quase arrogante - Essa cantora está sendo considerada a nova revelação da musica brasileira. Guarda o que estou te falando. Ela é a nova Marisa Monte. Adoro o estilo dela.
Lisa a olha com um sorriso.
- Com certeza, Alice. Ela é sensacional.

A musica acaba e Deise caminha devagar em direção aos músicos abafando o microfone. A plateia a olha em expectativa. Depois, caminha em direção aos instrumentos ao lado do palco e pega um dos violões, o acariciando com ternura. Devagar se coloca ao centro do palco.
- Adoro este violão. Estão vendo essa assinatura aqui? - Aponta o canto do violão – Ok, sei que não veem. Mas é de Caetano Veloso! - Sorri alegre – Bom, hoje quero lhes contar uma pequena história. Sei que terão paciência de me ouvir. - E torce o nariz com um jeitinho todo maroto.
- A alguns anos tive um acidente e machuquei seriamente minha mão. - A ergue olhando-a pensativa. Pois é... - Lamenta ao ouvir algumas exclamações no palco – Mas me recuperei totalmente como podem ver – E brincando faz um som arrepiante com o violão. - Bom, resumindo... se hoje estou aqui, tocando para vocês, tenho muito a agradecer a uma pessoa. Alguém que me incentivou quando achava que não voltaria a tocar, que me fez ver que a musica era meu caminho... minha luz. E essa pessoa hoje está aqui, para minha grande alegria. E é a ela que dedico a musica que vou tocar. Sei que muitos estranharão, pois não faz parte de meu repertório. Mas... que posso fazer? Sou fã de… Elis Regina!

Suavemente, começa a tocar o violão. Logo a voz se faz presente e todos suspiram. Quem era a pessoa que ela falava? A expectativa toma conta da plateia, quando a veem caminhar em direção a um dos camarotes.
Alice arregala os olhos ao ver a cantora caminhar em direção a elas. Surpresa, olha as outras mulheres no camarote, mas estas também estavam de olhos arregalados. Vira-se então para Lisa e chocada percebe a cor escarlate que esta se encontrava. Deise conhecia... Lisa???
- Lisa?
Alice não era a única que olhava chocada o encontro entre as duas mulheres. Mariana abre a boca surpresa de ver Lisa presente no show. O que ela fazia ali? Como? Olha o rosto da loira. Ela estava... vermelha??? Olha a cantora que se aproximava sorridente do camarote, ainda dedilhando a musica. Lentamente, sente a raiva tomar conta de seu corpo. Lisa não parecia sofrer por sua perda. Ao contrário. Sorridente e com pose tímida, retribuía com evidente prazer a aproximação de Deise.
- Hã... Mari... Aquela loira não é a sua... hã... Lisa?
Mas Mariana não responde. Com olhar flamejante, acompanhava sem perder um segundo, o encontro das duas mulheres.

Deise sorri e volta a repetir a letra da musica que cantava. Observa o rosto de Lisa vermelho. Ela reconhecera a musica. Devagar, caminha em sua direção.

“Porque foste na vida
A última esperança
Encontrar-te me fez criança
Porque já eras minha
Sem eu saber sequer
Porque és minha mulher
Minha mulher
Porque tu me chegaste
Sem me dizer que vinhas
E tuas mãos foram minhas com calma
Porque foste em minh'alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser
(Que tinha de ser - Elis Regina)

Sorri marota, quando vê Lisa tremer por, propositalmente, mudar novamente a letra da musica. 'Como da primeira vez'. Dá um suspiro saudoso e, finalizando a melodia, estende a mão para Lisa. A plateia grita e aplaude. Que momento lindo! Quem era esta que Deise, sem hesitar, se declara em pleno palco?
Lisa a olha com olhar assassino. Ainda com a mão estendida, Deise faz um ar engraçado.
- Lisa, help. - Diz pelo canto da boca, fingindo não perceber que a plateia a ouvia. - Depois pode me dar os tapas desejados, mas agora sorria e diga... Deise! Adorei!! Disfarça menina! - E sorri exageradamente para o publico. Todos riem divertidos. Diversos flashes disparam em direção as duas. Lisa, conformada, balança a cabeça e pega na mão da ruiva. Deise não mudara nada. O sucesso não lhe subira a cabeça. Aperta-lhe a mão com carinho. Era bom estar perto dela novamente.

O show fora perfeito. Deise sorri e cheia de expectativa espera Lisa no camarim. Pedira aos seguranças para lhes permitirem a passagem. Olha cheia de expectativa quando a porta se abre. Sorri abertamente ao ver Lisa adentrar junto a uma jovem mulher grávida. 'Quem seria?'
- Lisa!! - Abraça a loira fortemente. - Meu Deus! Você esta... diferente! Mais... natural, solta. Adorei!!
Lisa sorrindo retribui o abraço.
- Pois você não mudou nada, Deise! Você está linda! - Se vira para a cunhada. - Esta é Alice, minha cunhada e grande fã sua.
- Prazer Alice – Deise sorri simpática.
- Prazer Deise. Surpresa saber que é amiga de Lisa.
A cantora sorri e volta o olhar para a loira.
- Amiga? Hum... sim sou. Se estou aqui hoje é graças ao seu incentivo, Lisa. Nunca esqueci o que me disse sobre correr atrás dos meus sonhos, sabe. Desisti do Direito e investi na carreira musical. Tive sorte e aqui estou. - Ergue as mãos com modéstia.
- Muito bem, pelo que vejo.
- Demais!! Mas... por que não me acompanha até o hotel? - Olha o relógio um pouco ansiosa. - Sei que esta tarde, mas... eu adoraria.
Lisa volta o olhar para Alice que ergue as mãos e sorri.
- Por mim tudo bem. Volto para casa de taxi.
Lisa volta o olhar para Deise.
- Fazemos assim. Me diz o hotel que está, e depois de deixar Ali vou para lá.
- Ok. Vou deixar uma comunicação que você pode subir, ok. Espera que vou chamar alguém que saiba o hotel - Faz uma careta e rindo chama alguém no corredor. Feliz, se vira para Lisa – Vai ser um barato! Temos muito que falar.

Mari caminha com raiva em direção a saída do show. Seu rosto transtornado, cala as duas jovens que a acompanhavam.
- Que tem Bela? - Claire sussurra baixinho para Sheila, que a olha de lado.
- Sei não... - Sheila evita manifestar suas duvidas – Deve ser alguma dor de cabeça, sei lá. Claire... acho melhor largarmos o barzinho pra lá. Vamos outro dia, pode ser?
- Tudo bem... to cansada mesmo. Bom... melhor eu pegar um taxi. - Param em frente a um ponto de taxi - Vai comigo?
Sheila se vira para Mari.
- Mari, olha, acho melhor irmos para casa. Você quer dormir lá em casa?
Mariana fica sem graça ante o convite. 'Elas desistiram do bar'
- Oô, gente desculpa... eu... fiquei de mal humor... me desculpam? É que ...deu dor de cabeça.
- Não... tudo bem, Bela... olha, como eu e Sheila moramos para o mesmo lado, vamos dividir a corrida. Não fica chateada?
- Que isso! Vou pegar um também. Mas a gente sai numa próxima, né! - Mariana a custo conseguia controlar a voz e o sentimento de angustia. Sheila a olha atenta.
- Claro Bela. Eu... - Olha discretamente para Claire que já abria a porta do taxi - Depois posso te ligar né.
- Claro Sheila. Bom... então tchau. - Acena para as duas e caminha para o taxi logo atrás. Seu sangue fervia de ódio. Entra brusca no automóvel e dá o endereço ao motorista. Claro que Lisa devia estar no camarim com … Deise. Lembra o rosto da cantora. Era cativante, quase irresistível. Um arzinho de moleca que encantava a platéia. Geme angustiada, sem perceber o olhar discreto do motorista sobre si. Lembra Sheila dizendo que a cantora era bissexual. Será que ela e Lisa... elas... Bate a mão na cabeça. 'Eu mato aquela vaca se ela encostar em Lisa!'. Bate a mão sobre o banco. E se as duas ficarem juntas a noite? Geme mais alto desta vez. Será que foram amantes? A musica que ela cantou para Lisa... o modo que brincou, insinuou... tudo revelava uma grande intimidade. As duas … ai meu Deus não quero pensar nisso.
'Deixe de ser idiota Mari! Você mesmo disse a Lisa não querer mais saber dela! Você não tem nada com isso! Se ela quiser dormir com a cantora é problema dela!'
- Não!!! - Mariana grita, respondendo em voz alto aos seus próprios pensamentos. O motorista se assusta.
- Ei... er... moça... você está bem?
Mariana o olha sem graça.
- Eu...hã...desculpe eu... to sim...estou bem. Desculpe...
Suspira oprimida.
Corria em direção oposta a tudo que acreditava. E estava mais infeliz que nunca. Será que estava valendo a pena?

...e ela cada vez maior, vacilante, túmida, gigantesca
se conseguisse chegar mais perto de si mesma, ver-se-ia inda maior...
e em cada olho podia-se-lhe mergulhar dentro e nadar sem saber que era um olho...