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domingo, 26 de setembro de 2010

Gente! Quando ouvi esta musica, imediatamente pensei no conto, rs.
Resolvi partilhar com vcs.
Adoro esta cantora
Bjs


sábado, 25 de setembro de 2010

Capítulo XII

As lágrimas não paravam de correr. Mari as enxuga com raiva. Não conseguia enxergar a beleza que se deslumbrava a sua frente. Tudo que via era a mãe gritando, avançando sobre Lisa. Mais uma vez começa a soluçar. Ela, sua mãe, Lisa...elas...amantes. Como não percebera antes? A ânsia da mãe para estar perto de Lisa, o constrangimento desta. A forma que evitava conversar quando o assunto era Jô. Sempre buscando justificar cada atitude dela. Deus, estava ali, na sua cara! E ela, cega de amor por Lisa, não vira.
'Você é uma idiota Mariana. Qualquer um sacaria. Lisa lésbica, a raiva de sua mãe por causa disso. Depois o fragrante de vê-la num bar aos beijos com outra mulher. Estava na cara que elas tinham algo. Sempre tiveram. Mari não consegue controlar os soluços cada vez mais fortes.
Nunca imaginara sentir tanta dor. Nunca.
'Lisa...Lisa... por que fez isso comigo? Por que me iludiu? Por que?'

- Mari?
A jovem ergue o olhar para Paula, que a olhava penalizada.
- Ah, filha, não fique assim. - Paula senta-se ao lado de Mari e a abraça. - Tudo deve ter uma explicação.
Mari não responde. Tenta controlar a angustia e o choro
- Mari, tem que se acalmar filha. Olha, sua mãe foi embora com Junior. Você vai ficar aqui, tomar um banho e se acalmar. Vamos pare de chorar.
- Ma...ma...dri...nha, dói tanto.
- Ah filha, eu sei que tudo tem explicação.
- Ela...brincou comigo. Ela...sabia que eu a amava e mesmo assim...ela... ela...
Novamente Mari cai em lágrimas. Era horrível saber que Lisa brincara com seus sentimentos. Ela que sempre lhe dedicara o mais puro dos sentimentos.
- Filha... olha, as coisas podem não ser exatamente como pensa.
- Elas são amantes Paula! - Mari grita com a madrinha. Paula surpreende em ver a afilhada, sempre tão carinhosa, gritar e lhe chamar pelo nome.
Mari se afasta e novamente enxuga o rosto com raiva.
- Ela brincou comigo. Ela e minha mãe.
- Mariana, Lisa pode ter seus defeitos, mas tenho certeza que não feriria seus sentimentos por querer.
A jovem se vira para ela.
- Então me diz... me diz que elas não tem, nunca tiveram nada!
Paula estremece.
- Esse assunto cabe a Lisa e Jô responder, Mariana.
Mariana solta uma risada irônica.
- Você acaba de responder.
- Não é assim Mariana! Eu conheço minha filha.
Mari abaixa a cabeça e permanece em silencio. Paula a observa por alguns minutos, ate que não consegue mais segurar a pergunta que a sufoca.
- Você... Lisa... vocês estão juntas? Mari... não compreendo. Você e ela... ela te viu crescer.
- Pelo amor de Deus! - Mariana se levanta impaciente. Põe a mão sobre a garganta e se vira revoltada para a madrinha. - Por que sempre me jogam a idade na cara? Olha para mim madrinha!
- E coloca as mãos ao longo do corpo. - Pareço uma criança? Veja! Tem dó! Eu sou uma mulher! Sinto como mulher! Sofro como mulher! E to morrendo por dentro!
- Ah Mari...
- Eu sempre a amei... sempre. - A jovem coloca a mão sobre a boca, sufocando um soluço. - Sempre... esperei por ela. Eu...sempre a amei... e ela... ela... fez pouco de mim, de meus sentimentos... de tudo.
- Filha... meu Deus... Lisa é muito mais velha que você.
Mariana olha para a mãe de Lisa sentindo-se repentinamente sem forças.
- A dor está em minha alma... o amor também... o amor tem idade madrinha?
Sua frase cala fundo dentro de Paula, que se ergue perturbada. Lançando um novo olhar para a afilhada, que voltara a sentar na pequena bancada, retira-se em silencio. Marcos observa a esposa caminhar lentamente de volta a residência.
- Paula? - Abraça-a carinhoso.
- Querido, posso pedir algo, do fundo de meu coração?
Marcos suspira já sabendo o que a esposa queria.
- Dei minha palavra Paula.
- Não, querido. Você disse que cuidaria de Mariana e que olharíamos por ela. - Toca o rosto do marido – Elas precisam conversar.
- Querida...
- Marcos, eu não acho que trará grandes mudanças, mas... Mariana precisa ouvir Lisa. Elas precisam conversar. Acredite.
Marcos suspira tenso e passa as mãos nos cabelos.
- E hoje era para ser um dia alegre... ok amor... Mas antes quero falar com Lisa. Ok?
- Tudo bem... - Paula olha triste a afilhada ao longe. - Hoje foi um dia difícil. Vá. Vá chamar Lisa.

Lisa enxuga os cabelos, totalmente sem animo. Suspira e põe as mãos sobre o colo. Sente os olhos lacrimejarem e balança a cabeça angustiada. Nunca vira Joyce enlouquecida daquela forma. E Mari... a dor lhe vem no coração de forma desesperada. Os olhos de Mari eram a expressão de sua alma. E vira a luz desaparecer daqueles belos olhos verdes. A decepção apagara toda a beleza daquele olhar. E ela era culpada. Somente ela....
'Ah Jô, que fizemos? Que fizemos?'
Ouve a porta se abrir.
- Lisa...
- Pai... - balança a cabeça desalentada e segura os braços defensiva.
O pai senta-se a seu lado na cama.
- Lisa, não vou perguntar nada. Prefiro acreditar que você jamais brincaria com os sentimentos de Mari...e mesmo de Joyce.
- Pai, não... eu...
O pai ergue a mão resoluto.
- Não quero saber. Sempre respeitei suas escolhas. E não foi fácil. E você filha... você nunca me deu motivo para me entristecer por suas escolhas. Até o dia de hoje. E espero, realmente espero, que vá lá fora e busque consertar as coisas da melhor forma possível. Não admito que brinque com Mariana. Nunca mais! Entendeu! Nunca mais!
- Pai... eu jamais faria isso! - A voz de Lisa era tremula.
- Lisa! Vou ser sincero. Por mim, você não conversava com ela. Mas sua mãe acha que é o melhor. Então não discuta e vá logo, antes que eu mude de ideia.
O pai não espera resposta. Se ergue e sai do quarto, mostrando claramente seu desagrado com toda a situação.
Lisa abaixa a cabeça. O desgosto do pai era mais uma dor que teria que carregar.

- Mari?
Mariana ergue a cabeça alerta, ao ouvir a voz de Lisa. Enxuga as lágrimas e se ergue com raiva, evitando olhar para a loira.
- Que você quer?
Lisa suspira triste e devagar se senta onde antes sentava a jovem morena. Olha a escuridão e, quase sem sentir esfrega a testa.
- Mari... precisamos conversar.
- Não quero falar com você.
- Mari... por favor... por favor. - Sua voz sai tremula.
Mariana sente os olhos lacrimejarem.
- Eu... você... você... e minha...minha...mãe!!
- Não! Mari... não...
A voz e postura de Lisa é tão derrotada, que Mariana instintivamente a olha. Lisa retribui tristemente o olhar. O rosto de Mariana estava inchado de tanta chorar.
- Eu... me deixa falar?
Mariana permanece em silencio, o que Lisa entende como permissão.
- Mariana... eu... eu... - Lisa passa as mãos nos cabelos úmidos – Meu Deus, isso vai ser difícil.
- Diz logo Lisa! - Mari fala repentinamente, a voz repleta de raiva e magoa.- Diz logo de você e minha mãe! De como me fizeram de boba!
- Mari, não!! - Lisa se levanta, colocando-se de frente a ela. – Não! Não estou com sua mãe, Mari! Não somos amantes!
- Ela... ela disse que você... que você... comeu ela. - Os olhos se enchem de novas lágrimas.
- Deus... Mari... eu. - Lisa respira fundo – Mari, eu e sua mãe, nós... ela foi minha primeira namorada.
- Não... - A voz de Mari sai baixinho
- Ela foi meu primeiro amor Mari. - Lisa olha o infinito, sem perceber o quanto seu olhar se tornara distante – Minha primeira mulher.
Mariana abaixa a cabeça soluçando baixinho.
- Desculpe não contar, Mari. - Lisa volta a olhar para ela, os olhos escuros e angustiados. Ergue as mãos impotente. - Mas também como contar? Mari, querida, eu e sua mãe já fomos namoradas. - A ironia atinge Mariana.
- Teria sido mais honesto, Lisa! Não me sentiria tão idiota e nem correria igual cachorrinho atrás de você pedindo migalhas de atenção.
- Mari, não! Nunca te dei migalhas! Eu...
- Que me deu então, Lisa? Compaixão? E para minha mãe, que deu? Me diz!
- Mari... eu... sua mãe é passado. Eu, ela... meu Deus foi na adolescência!
- Quantos anos tinham?
- Dezessete.
- Um a menos que eu, Lisa. Esta menosprezando o que sentia por você?
O coração de Lisa falha ao ver Mariana se referir a ela no passado.
- Não! Droga Mari. Eu amei sua mãe. Muito. Era capaz de tudo por ela. Mas ela não quis. Não queria ser apontada na rua como a… como uma lésbica. Já era mãe solteira, não queria outro rotulo.
Mariana a olha em silencio.
- Mari... ela me deixou por Carlos. Disse que era a vida que queria para ela. E eu... me senti morrer por dentro.
Mariana a olha altiva. Lentamente o desespero começa a sumir de seu rosto.
- Então agora sabe como estou me sentindo, Lisa.
Lisa a olha chocada. Nunca imaginara Mariana possuída de tamanha dor. 'Meu Deus... que estou fazendo? Ela me ama! E eu menosprezei este amor...'
- Eu vou te esquecer Lisa. Eu vou ser melhor que você jamais foi. Vou ser feliz.
Vira-lhe as costas caminhando, em direção a casa. Lisa, após o primeiro momento de apatia se ergue e a segura pelos braços.
- Mari, não é assim que as coisas se resolvem.
- Me solta Lisa.
- Mari, quando sua mãe preferiu um homem a mim, deixei o ódio tomar conta de minha pessoa. Passei a não acreditar no amor e... eu... acabei me envolvendo com várias mulheres. Nada sério. Não queria mais amar ninguém. Eu... foi uma época que não me orgulho, mas... não traz alegria Mari. Não traz nenhuma alegria.
- Lisa...
- Luiza foi minha redenção. Ela me mostrou o que realmente era o amor.
- A grande e insuperável Luiza. Quer saber. Tô de saco cheio disso tudo. De você, de minha mãe, de tudo!!! - Mari termina a frase aos gritos.
- Mari! Eu não quero que você cometa erros! Por favor! Pare com este rancor. É passado!
- EU não sou passado, Lisa. Eu não sou passado!!! Você acabou comigo, será que entende! Você era tudo para mim!!!
- Mariana, pela amor de Deus! Droga, que posso fazer?
- Eu te amava Lisa!!! Eu te amava! - Mariana deixa as lágrimas voltarem a correr no rosto jovem. - Você era tudo para mim!
- Mari! – A voz de Lisa era sofrida.- Que mais posso fazer!
Mariana tenta controlar a ânsia de novamente cair em pranto.
- Nada Lisa. Nada. Você não é, nunca foi, a pessoa que pensei que fosse. Você é uma decepção. Para mim você era perfeita.
Lisa ergue as mãos impotente.
- Bem vinda a realidade Mari. Ninguém que está nesse mundo é perfeito. Se seu amor dependia de perfeição da minha parte, só posso lhe dizer que ele nunca foi real.
- Cala a boca! - Mariana avança o corpo sobre o de Lisa. - Nunca mais tente colocar o que sinto em palavras. Somente eu sei o que tenho dentro de mim! Você alimentou seu ego em cima de minhas atenções, em cima de meu amor. Ele nunca foi real? Abracei com desespero, cada migalha de atenção que me deu. Você me usou Lisa! Usou meu amor, minha devoção a você! Nunca se permitiu sentir nada por mim! E sabe por que? Porque no fundo você é uma covarde, uma preconceituosa como minha mãe!
- Você está louca!
- Você só olhou idade, Lisa! Não queria aceitar que podia gostar da menina que teve nos braços. Na filha da sua ex amante - Mari praticamente cospe as palavras em cima de Lisa. - Tenho nojo de você!
- Nojo! Você tem nojo! - Lisa sente o corpo inflamar de indignação com as palavras de Mariana. - Vamos ver quem tem nojo!
Lisa agarra a jovem nos braços, segura-lhe a nuca e a beija profundamente. Mariana tenta se soltar dos seus braços. Mas logo começa a tremer e cede. Por mais que sua mente gritasse não, seu corpo clamava o de Lisa. A loira a abraça pela cintura, apertando-lhe com paixão. Geme revoltada ao sentir seu corpo ceder cada vez..
- Não...não...
Lisa estava perdida em sua paixão. Não queira perdê-la, não podia perdê-la. Desliza as mãos, segurando as nádegas de Mari por baixo do biquíni. Aperta-lhe o bumbum, sentindo-se molhar de tanto desejo.
- Mari... Mari... me ame Mari...
- Para Lisa... não faz isso... não... não mereço isso...
Lisa volta a beijar Mari, penetrando sua boca com a língua. Ela era sua. Mari não podia deixá-la. Leva as mãos aos seios jovens, afastando o biquíni e segurando a carne suave.
- Minha... minha...
De repente, sente o gosto de sal em sua boca. Mariana chorava em silencio, entregue em seus braços. Lisa começa a tremer. Não era assim que a queria em seus braços. Devagar, solta-a. Mariana permanecia a sua frente com a cabeça baixa, os seios expostos.
Lisa respira fundo, tentando se controlar e a olha tensa.
- Vá, Mariana.
A jovem morena ergue os olhos angustiados. Devagar arruma o biquíni e ainda chorando começa a se afastar de Lisa.
- Mariana!
A jovem para, sem se virar, diante do chamado.
- Me desculpe. Desculpe por decepcioná-la. Nunca quis desmerecer você nem o que sentia. Se … se você quer mesmo afastar de mim, vou respeitar. Não vou incomodá-la.
Lisa observa Mari, esperançosa que a jovem se vire para ela e diga que está tudo bem, que juntas superarão o momento angustiante que viviam. Mas Mari não a olha. Devagar volta a caminhar. E parte.
Lisa volta o olhar para o céu, tentando controlar a angustia dentro de si. Aperta o punho sobre o coração. Ela perdera Mariana. E isso lhe doía. Doía o corpo. Doía a alma.

A cada passo que Mariana dava, sentia um pouco de si morrer. Afastava-se de Lisa, aquela que era a sua certeza, o alento de seu coração. Sua decepção...
Ela a esqueceria. Tudo que achava ser verdade, não tinha sentido nenhum. Ela não pertencia a Lisa. Ela pertencia somente a si mesma. Devagar seu andar se torna mais duro. Nunca mais sofreria assim. Nunca mais. Estava na hora dela tomar as rédeas de seu destino.

“O que me atormenta é q tudo é 'por enquanto', nada é ' sempre'“.


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Capítulo XI


Joyce sentia o ar lhe faltar. Mariana, sua filha, estava aos beijos, nos braços de Lisa. Sem pensar, corre em direção as duas e, num safanão, tira a filha dos braços da outra. Esta grita e tenta se soltar.
- Jô, para!
- Cala a boca, sua desgraçada! Não ouse tocar minha filha! - Descontrolada, Jô aponta o dedo para a outra. - Sua nojenta! Desgraçada!
- Mãe, para!
Joyce se vira enfurecida para a filha e começa a sacolejá-la.
- E você? E você? Esta é a educação que te dei? Para isso te dei o melhor? Ser sapata? Cair nos braços de uma cafajeste!
- Jô para!
- Ela não é cafajeste! Eu a amo!
- CALA A BOCA!!
O tapa ressoa na sala e cala as presentes. Mariana leva a mão a face em choque.
Joyce se vira para a loira e a empurra com ódio.
- Desgraçada!! Sapatão dos infernos. Você não vai seduzir minha filha também!
- Joyce para! - Lisa tenta se defender  – Você não entende!
- Não entendo? Não entendo!!!
- Não! - Lisa agarra a morena pelos braços, tentando conte-la. - Aconteceu! Eu e Mari... aconteceu! Se controla Jô!!!
- ACONTECEU? ACONTECEU? Filha da puta! Não deixarei que minha filha seja mais uma de sua coleção.
- Jô, por favor.
As duas se encaram. Joyce demonstrava na face o desespero, o descontrole diante do fato presenciado. Lisa expressava angustia, incerteza e um sentimento de impotência enorme.
- Jô... por favor se controle. Mari e eu... você não entende! - Olha de relance Mari que, ainda com a mão na face, a encara apavorada. Volta novamente o olhar para Jô. - Vamos conversar com calma.
Neste momento, Jô se descontrola de vez e avança sobre Lisa. As duas caem sobre o sofá. Lisa tenta se defender dos ataques de Joyce. Mariana desesperada, aos gritos, tenta segurar a mãe.
- Para, mãe! Para!
- Eu te mato Lisa! Eu te mato!
Os gritos chamam a atenção de Paula e dos outros que estavam no sitio. Correm para a sala e Junior, sem entender o que acontecia, segura Joyce.
- Que isso gente! Vocês enlouqueceram?
- Louca? Louca? Louca é sua irmã, essa vagabunda.  - Joyce tenta se soltar dos braços de Junior. Lisa a encara desolada do sofá. No corpo, as marcas dos socos e arranhões de Jô. Mariana tremia tanto que Alice a segura nos braços.
- Calma, Mari.
Joyce se vira possessa para a filha.
- Você vai embora agora comigo!
- Não vou! - A voz de Mariana sai tremula. - Eu... vou ficar!
- Não fica!!! Me solta Junior! - Caminha em direção a filha com passos duros. - Vamos embora agora!
- Já disse que não vou!
- Mariana... - Joyce fecha os punhos – Você vai embora comigo agora!!!
- Calma gente! Espera. Que acontece?
Paula tenta acalmar os ânimos.
- Acontece? - Se vira e aponta Lisa. - Pergunte a pervertida de sua filha! - Novamente o olhar de inflama de ódio. - Nunca mais ouse tocar minha filha.
Agarra Mariana com força , mas esta se solta com um arranque.
- Chega! Você não tem direito de querer mandar em minha vida, mãe!
- Cala a boca!
- Não calo! Para de dar show! - Ergue as mãos impotente - Eu ia te contar mãe.
- Contar o que?? O que Mariana? Que é sapatão? Que gosta de mulher? - Grita possessa, se virando para Lisa - Eu sabia!!! Sabia que essa porra de mulher seria uma má influencia em sua vida.
- Joyce maneira o palavreado! - A voz potente de Marcos soa na sala.
- Maneira sua filha então! Ela quem estava agarrando MINHA filha! Ela estava seduzindo minha filha!!!! - Encara Lisa enlouquecida  – Você não tinha o direito! Não tinha o direito!!!
- Jô... - Lisa balança a cabeça desolada em desespero – Jô...
- Eu te odeio, sapata dos infernos. Na minha filha você não bota a mão.
- Ela fará o que quiser mãe! Eu a quero. Eu a amo!
Joyce agarra a filha possessa.
- Você não tem idade para amar ninguém! Ninguém! Essa... mulher quer te destruir. Lisa só traz destruição Mariana! Vamos embora já daqui! - Tenta empurrar a filha para fora da sala.
- Chega! Chega mãe! Quem você pensa que é para falar assim de Lisa! Sapata? E você é o que? Quem estava aos agarras com uma mulher num boteco de esquina? Quem trai o marido para ficar com mulher? Ela pelo menos é assumida, não tem vergonha do que é!
Joyce arregala os olhos ante o ataque da filha.
- Você... você me respeita! - O rosto de Joyce estava vermelho, os traços do rosto distorcidos.
- Eu puxei alguém sim. Você! Só que não vou me esconder num casamento fracassado, muito menos sair dando para homem e mulher a torto e direito!
Joyce ergue a mão para novamente bater em Mariana , mas é contida por Paula.
- Joyce não! - O grito de Lisa é angustiado!
- Meu Deus! Gente! Calma! Mariana pare! Que loucura! - Paula treme de pavor. Joyce parecia cega em seu ódio.
- Não o que Lisa! Não o que!!! Não basta ter destruído minha vida! Quer destruir a de minha filha também? Que espécie de demônio é você?
- Cala a boca, Joyce!
- Calar por que? Me diz? Por que?? Não é isso que quer? Nos destruir? Então faça direito!
- Jô, pelo amor de Deus, não quero destruir ninguém... eu... para por favor.
- Que prazer mórbido é esse, meu Deus! - Joyce em desespero passa as mãos nos cabelos - Quer mostrar que pode tudo, que pega todas? Não bastou comer a mãe? Quer a filha também??? É isso?
- JOYCE NÃO!!!
O grito sai da alma de Lisa. É tão angustiado, tão cheio de desespero que emudece Joyce. Ambas se olham tensas. O silencio toma conta da sala. É quando um soluço de faz presente.
Mariana deixa as lágrimas correrem livres pelo rosto. Como assim, comer a mãe e depois ela? Olha o rosto de Lisa buscando alguma resposta. A loira estava transtornada.
- Li...Lisa...
Lisa se vira para Mariana como coração oprimido.
- Mari... Meu Deus Mari...
Lisa tenta se aproximar de Mariana, mas esta ergue as mãos impedindo-a.
- Lisa... você... minha mãe... diz que é mentira.
- Mari... por favor... não é como pensa... por favor.
- Não... - Mariana baixa a cabeça em total angustia. - Não... não...
- Mari, me deixe explicar...
Mas Mariana se afasta soluçando. Enxuga as lágrimas com as mãos e olha a madrinha desesperada.
- Madrinha... me tira daqui... me tira daqui.
Lisa agarra o braço de Mariana.
- Mariana! Eu ia te contar! Não faz isso!
- Contar o que! O que Lisa! Que enquanto me dava migalhas de atenção comia minha mãe? - A desesperança, a angustia no rosto de Mari, descontrola Lisa
- NÃO!!!!
- Calma Mariana. Filha, calma. - Paula já não sabia mais o que fazer para amenizar a situação.
- Mariana não é assim! Isso não aconteceu!
- Me deixe em paz, Lisa... me deixe em paz!
Mariana olha Lisa decepcionada. Depois se vira para a mãe que a observava em chocado silencio.
- Eu te odeio. EU TE ODEIO!!!
Vira-se e sai correndo da sala. Lisa tenta ir atrás, mas é contida por Junior.
- Não é hora Lisa.
Joyce começava a tremer, se conscientizando, aos poucos, do que fizera. 'Meu Deus o que fiz?'
Lisa começa a chorar em desespero.
- Mãe do céu, alguém vai atrás de Mari.
- Eu vou Lisa. - Marcos sai da sala
Alice se aproxima de Joyce e passa as mãos por seu ombro.
- Eu... eu preciso ir atrás de minha filha...
- Deixa as coisas acalmarem Jô... Acalma também. Marcos foi atrás dela.
A morena tremia descontroladamente.
- Meu Deus... Meu Deus...
Paula se aproxima de Lisa.
- Lisa, filha, que você fez?
Lisa olha a mãe, através das lagrimas.
- Mãe... mãe. - Não consegue conter os soluços. Por entre as lagrimas, olha Jô. A postura desesperada e caída mostrava alguém derrotado, destruído.
Abaixa a cabeça e se apoia nos ombros da mãe.

Marcos volta e olha sério para Lisa e Jô.
- Mariana está totalmente desestruturada.
- Vou levá-la para casa. - Joyce caminha em direção a porta de saída, mas é segura por Marcos.
- Joyce, eu nunca interfiro na vida de vocês. Mas hoje não vejo alternativas. Deixe a menina ficar aqui.
Joyce arregala os olhos indignada.
- AQUI! Com essa... essa... - Aponta Lisa indignada. - Jamais!!!
Marcos balança a cabeça chateado.
- Ela ficará comigo. Comigo e Paula. - Olha decepcionado a filha. - Vocês, hoje, já causaram muito mal a esta jovem. As duas. Com Lisa, que é minha filha, me dou o direito de conversar em reservado.
- Pois também me dou este direito, Marcos! Mariana é minha filha! E vocês não vão me impedir de leva-la para casa!
- Te aconselho melhor bom senso, Joyce – Marcos lhe responde autoritário. Era a primeira vez que o via se virando contra ela. - Se eu, que sou velho calejado pelo vida, estou indignado com tudo que assisti, imagina esta menina.
- Esta menina é minha filha! E SUA filha a estava agarrando!
Marcos olha de lado para a filha que ainda estava nos braços da mãe, cabisbaixa, entregue a uma dor que era clara, na expressão e nas lágrimas de seu rosto. Balança a cabeça desgostoso.
- Agora sabe como me sinto, ao saber hoje, que VOCE e minha filha se agarravam a anos atrás dentro de minha casa. E pensar que acreditei, todos estes anos, que você se afastou de nós, por conta de nossa filha, sua melhor amiga, ser lésbica. - Balança a cabeça desconsolado. - Você é o que exatamente Joyce? Me diga. O que dirá àquela jovem lá fora, que acaba de descobrir, pela boca da própria mãe, coisas que nem imaginava serem possíveis acontecer?
- Você... não tem o direito de me dizer isso Marcos. - Joyce soluça.
Marcos a olha severo.
- Sempre a recebi em meu lar, com carinho e afeto. E à sua filha também. Apoiamos suas escolhas, buscamos não interferir em seus conflitos com Lisa, mas você entrar em minha casa, desmerecer os que amo, não... isso não aceitarei. Se quer mesmo levar Mari daqui, não será assim, descontrolada e sem nenhuma condição de pegar uma estrada. Vou ligar para Carlos.
- NAO!!
Paula e Lisa arregalam os olhos. Joyce segura o braço de Marcos, já com o fone na mão.
- Não, Marcos! Não... não chame Carlos.
- E o que pensa fazer Jô?
Joyce abaixa a cabeça, os longos cabelos encobrindo o rosto desesperado. Marcos suspira e a toma nos braços.
- Joyce, nenhuma de vocês está em condição de tomar atitudes. Filha, eu estarei aqui. Vou cuidar de Mariana. Não é o momento de impor condições.
- Mas... mas... - Joyce começa a chorar. - Não quero ela... com ...Lisa. - E apoia a cabeça no ombro de Marcos. Este olha por cima de sua cabeça, para a filha.
- Confie em mim Jô. Nada irá acontecer. Filha, - Ergue a cabeça da morena – Deixe seu carro aqui. Pegue uma carona com Junior e Alice. Amanha darei um jeito de levá-lo ate você. E Mariana irá comigo. Ok?
- Eu...
- Você tem seus filhos, seu marido. Precisa pôr a cabeça no lugar, para lidar com esta situação com maturidade. Entendeu?
Joyce respira fundo, tentando se controlar. Sabe que Marcos tem razão. Relanceia o olhar para Lisa que continuava abraçada a mãe. Seu olhar encontra o de Paula. Esta lhe faz um gesto afirmativo, sem expressar nenhuma raiva ou revolta no rosto. Mas Lisa mantinha a cabeça baixa, ignorando totalmente sua presença. Repara os braços da loira e prende a respiração. Alguns arranhões sangravam. Vira a cabeça se sentindo sufocar de raiva , magoa, dor.
- Eu vou... eu vou, mas...
- Sem mas, Joyce. Agora vá lavar o rosto e se aprontar. Acredito que devem ir.
Alice se aproxima de Joyce.
- Vamos Jô, eu te ajudo.
Olha a cunhada num pedido mudo de desculpas. Joyce a acompanha, mas antes para frente a Lisa.
- Isso não fica assim, Lisa. Eu nunca deixarei você ter Mariana. Nunca!

Após a saída das duas da sala, Junior respira aliviado.
- Vou lá arrumar as coisas para voltar a BH. - Caminha até perto de Lisa. - Mana, eu... você gosta de Mari? Eu não consigo entender tudo isso.
Lisa ergue o olhar para o irmão.
- Junior... eu... ela... ela me ...eu não sei.. eu...
Volta a chorar, sem saber por em palavras o sentimento que sentia. Paula interfere.
- Junior, filho, depois conversamos melhor sobre isso. Vá para casa. Mais tarde te ligo.
- Ok... - Lança novo olhar para a irmã e se retira. Não sabia o que pensar. Desta vez estava do lado de Joyce. Lisa extrapolara. Mari era uma criança. Balança a cabeça perplexo. Não esperava isso da irmã.

Lisa devagar se ergue. Olha a mãe tentando não ver seu olhar reprovador.
- Vou ...tomar banho.
- Lisa!
A loira para, ante o chamado do pai.
- Não a quero perto de Mariana.
A filha o olha triste. Balança a cabeça num gesto afirmativo e, totalmente derrotada, sai da sala.
As lágrimas caem dos olhos de Paula. A dor da filha ia direto a seu coração. Marcos a abraça e suspira.
- Querida, sei o que esta sentindo. Temos que ser fortes. Lisa é capaz de lidar com tudo, mas Mari...
- Marcos... Lisa não é volúvel. Se ela... se ela... estava com Mari é porque... algo maior acontece.
Marcos tenta relaxar o corpo tenso.
- Paula... Lisa não foi prudente. E acho que as consequências serão maiores do que ela mesmo pensa. Mari não é mais criança, mas endeusava muito Lisa. Não sei como lidará com isso. Não sei mesmo.

Lisa caminha devagar pelo corredor, em direção ao banheiro. Toca os braços, que começavam a arder e se surpreende ao ser como estavam arranhados. Joyce enlouquecera. Ou enlouquecera ela? Como pôde ter sido tao imprudente, sem cautela? Ver Mariana, tao entregue em seus braços a cegara. Tudo o mais perdera sentido. Só Mari lhe importava. Coloca a mão sobre a boca e novas lágrimas vem a seus olhos. Queria correr para a jovem morena, abraça-la explicar tudo. Mas sabia que não podia, não devia. Tremia só de lembrar o rancor nos olhos verdes, a mágoa, a decepção. Sua Mari não a queria mais.

Junior e Alice observam Joyce caminhar em direção a casa. A morena não falara nada pelo caminho até sua casa e se despedira num gesto triste e com palavras de agradecimento pela carona.
- Lisa é louca! - Junior exclama, no caminho para seu apartamento. - Aos agarras com Mariana! Uma criança!
- Junior - Alice se vira, tentando achar uma melhor posição no banco de passageiro – Mariana não é mais criança. Tem dezoito anos, querido.
- Mas a vimos crescer. Meu Deus, Ali! Lisa a carregou no colo! E dezoito anos! Dezoito anos, você não tem nada na cabeça! Mais louca ainda Lisa é, de se envolver com uma adolescente!
- Junior... você está sendo intolerante. Minha mãe tinha dezoito anos quando me teve! A mulher amadurece mais rápido que o homem. E tambem, não podemos colocar todas num mesmo patamar de maturidade. Conheço mulheres de trinta que são mais imaturas que adolescentes de quinze. E Mari... Junior, Mari sempre foi tao responsável que achei que tivesse algum trauma em casa, algo assim. Para ser tao fechada, tao na dela... - Balança a cabeça inconformada. - Joyce errou feio.
- Joyce? - Junior a olha surpreso. - Por que Joyce?
- Junior, pelo que entendi em toda esta confusão e pelo que já me contou antes, Joyce e Lisa foram namoradas certo.
- Hum... e daí!
- Daí, que isto para ela, é um segredo sórdido de seu passado Junior! E ela gritou em alto e bom som para todos ouvirem esse segredinho, entendeu!
Junior arregala os olhos, atento ao transito mas sem perder as palavras da esposa.
- Nossa senhora! Verdade! Mari escutou tudo!
- Pois é. Agora imagina a cabeça dessa menina! Dezoito anos, apaixonada por Lisa, descobre que esta e a mãe eram amantes.
- Puta que pariu. Ela vai pirar.
- Vai mesmo. Eu piraria. E mais, odiaria minha mãe. Imagina! Toda aquela pose e de repente vem a tona um passado desses. Não! Pior! - Se vira para o marido mais agitada - Mari disse que pegou a mãe com uma mulher num bar lembra! E Joyce não negou! A merda fede mais que pensamos Junior.
Junior só coloca a mão no rosto abobado.
- Lisa tá na merda. Vou ligar pra ela e dizer pra cair fora disso tudo.
Alice balança a cabeça conformada.
- Junior... nem tente. O descontrole de Lisa foi gritante. Eu nunca vi sua irmã daquele jeito. Sabe, sinto pena dela. Se está mesmo envolvida com Mari, não terá paz.
- Acha que Joyce vai interferir?
- Vai Ju... vai. Nossa... - Apoia a cabeça no encosto do banco - Que fim de dia horripilante. Só quero agora um bom banho. Te amo amor. - E toca com carinho o rosto do marido.

Joyce entra na casa silenciosa. Caminha trôpega pelos cômodos, a procura de Carlos. Nada. Ele saíra. Se deixa cair no sofá. Soluçando, se entrega a dor que ganhava volume em seu peito. Lisa... e Mariana? Sua filha?
- Não... - Diz baixinho balançando a cabeça arrasada. - Não...
Começa a balançar o corpo para frente e para trás com angustia. Que Deus injusto é esse?  Como ele deixa sua filha se envolver com Lisa? Com a mulher que ama?
- Não! Eu não a amo! - Enxuga as lágrimas com raiva – Eu a odeio! Eu te odeio Lisa!
Lembra que, as mesmas palavras foram dirigidas a ela, pela própria filha, e começa a soluçar em franco desespero.
- Mariana... minha filha... não...
Caminha em direção ao quarto, angustiada com o silencio opressivo do ambiente. Vê o bilhete sobre a cama.

Joyce, os pais de Mateus ligaram, perguntando se os meninos poderiam passar a noite no sitio. Não vi mal, por isso permiti. Resolvi dar uma volta para espairecer a cabeça. Até mais tarde.
Carlos

Lembra Marcos dizendo que ia chamar seu marido. Geme e passa a mão sobre o rosto, inchado de tanto chorar. Todos ouviram... todos sabiam dela agora. Meu Deus... Estava cansada. Cansada do casamento falido, dos filhos, da sua própria vida. Arranca a roupa, sem nenhum cuidado, e vai para debaixo da ducha. Mariana podia fugir o quanto quisesse. Mas elas iriam conversar. Tinham muito que conversar. Começa a tremer sob a água quente. Elas iam se entender. Tinham que se entender. Era sua filha, elas se amavam. Se amavam.
Chora... desta vez as coisas foram longe demais.

“O que saberás de mim é a sombra da flecha que se fincou no alvo.”