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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Capítulo VI

Juliana suspira impaciente. Isso que dava marcar encontro num shopping com Joyce. Volta a olhar o relógio. 'Aff, deve estar olhando vitrines não é possível!'. Olha distraída os corredores quando uma mulher lhe chama a atenção. De onde estava não podia ver-lhe o rosto, mas que corpo! Observa a cintura fina e os quadris delicados. Adorava mulher de vestido. O cabelo loiro caia em camadas pelas costas. O andar era elegante e a postura bem alongada.
'Sossega Ju... você já tem duas belas dores de cabeça em sua vida... mas porra... não sou cega'
Balança a cabeça e sorri para si mesma . Percebe a loira se virar em sua direção e o sorriso desaparece lentamente em seu rosto, dando lugar a uma expressão de surpresa.
- Lisa? - Sussurra baixinho.
A loira caminha tranquilamente em sua direção, olhando as vitrines porque passa. Juliana sente uma grande expectativa a medida que ela se aproxima.
- Ora, ora, veja quem encontro! Não é que é a Lisa!
Lisa se vira surpresa em direção a voz que lhe chama. Observa a morena de óculos e ar irônico que a encara. Um rosto familiar, uma voz única.
- Ju? Juliana?
- My God! Ela não esqueceu de mim! - Levanta-se do banco onde se encontrava e sorrindo aproxima-se de Lisa envolvendo-a num abraço apertado.
- Lisa! Sempre linda e distante Lisa! Como vai, meu bem?
Ainda surpresa Lisa retribui o abraço e mentalmente ri, percebendo como Juliana aproveitava o gesto para tocá-la um pouco mais.
- Vou bem e você? Surpresa encontrá-la depois de tantos anos!
- Pois é menina! Você sumiu de vez!
- Verdade... na verdade fui morar em SP. Mas agora estou de volta a BH.
- Sério! Mas isso é ótimo! Mas venha sentar comigo. Vamos tomar um cafezinho. - Sorri meio de lado a loira. - Em memória dos velhos tempos.
A conversa já rolava a vários minutos quando o celular de Juliana toca. Com um sorriso de desculpas atente a chamada.
- Ei querida. Como? Atrasada! Que novidade. Pode ficar tranquila, reencontrei uma amiga e estamos colocando o papo em dia. Ok, eu espero. Beijos.
Desliga o telefone e retoma o papo com Lisa.
- Mas estou encantada! Quer dizer que conheceu vários países neste ano que passou! Acho que estou sentindo uma pontinha de inveja surgir dentro de mim.
Lisa sorri divertida. Conversar com Juliana sempre fora um prazer. Pena que estava emocionalmente desestruturada, na época que se conheceram.
- Mas e você? Vejo uma aliança em seu dedo.
Ju ergue a mão esquerda lentamente.
- Pois é menina. Casei. Coragem né. E você?
- Me casei também. Mas, infelizmente, ela morreu em um acidente - O olhar de Lisa por um momento se entristece. Mas logo volta o brilho. - Mas foi, com certeza, um momento maravilhoso de minha vida.
- Sinto muito querida! - Juliana estava surpresa. A Lisa que convivera a anos atrás, evitava envolvimentos emocionais, era fria, nada romântica. - Deve ter sido uma mulher muito especial.
- Sim... ela foi. - Lisa a encara – Mas, é sua esposa que vem a seu encontro?
Juliana sorri um pouco sem graça.
- Bom... Bem Lisa, você me conhece. Quer dizer, não mudei muito para a época que me conheceu. Na verdade, meu casamento é aberto. Tanto eu, como minha esposa mantemos … ah você sabe como é.
- Sério Ju! Nossa, acho que não saberia viver assim. - Tenta imaginar Luiza a traindo e não consegue. - Eu não saberia aceitar uma traição.
- Ah, por favor Lisa. Não é um traição. É uma postura de vida que eu escolhi para mim e que, felizmente, é tambem a escolha de minha esposa.
- Hum...ok. Cada um é feliz a sua maneira. Então deixe-me adivinhar. Você veio encontrar … a outra?
Juliana ri divertida.
- Bom querida, realmente vim encontrar uma mulher, mas quanto a ser a outra está errada. Eu que sou a outra na relação.
- E ela não vai chatear de ver você com outra mulher?
- E desde quando alguem controla minha vida? Tá doida? Ela tem é que saber separar as coisas. Afinal, eu aceito o marido dela.
Lisa arregala os olhos.
- Marido? Você é louca Ju? - Ergue a mão meio irônica - Não, não precisa responder. Você sempre foi doidinha. - Lança lhe um olhar conformado. - Mas... casada Ju? E com homem?
- É porque você não viu o monumento Lisa! Ela é, simplesmente, uma deusa de tao linda - E sorri divertida. - Sem falar que a vida se torna mais emocionante quando você vive perigosamente.
- Pode ser Ju. Mas... eu acho um absurdo uma mulher ser hétero – Faz um gesto de aspas com as mãos – E manter um romance lésbico nas costas do marido.
Juliana se torna um pouco pensativa.
- Mas é como disse Lisa. Cada pessoa faz suas escolhas. Se vive bem assim, que viva.
- Ah, duvido que viva bem. Seja sincera. Ela, com certeza, vive o romance com você escondido. O marido nem deve sonhar.
- Pode ser. - Sorri para a loira. -Você continua radical em seus valores hem Lisa! Não esqueça que pessoas podem ter opções, valores diferentes dos seus e serem felizes. No caso dela é ser bi.
- Ser bi... - Balança a cabeça em negativa – Sinceramente não entendo uma pessoa bi. Como ter atração por dois sexos? Acho impossível! Só de pensar em um homem me tocando sinto comichão de nervosa – e brinca se coçando.
Juliana dá uma gargalhada que atrai olhares das mesas vizinhas.
-Você é uma boba, Lisa. Mas vamos ser sinceras. É essa diferença de posturas e opções, que torna a vida mais divertida.
Lisa ergue o copo e com uma cara engraçada faz um brinde.
- Ok...ok... um brinde a diversidade.
Ju ergue o copo acompanhando o brinde.
- Mas... deixe o marido perceber essa diversidade. - E sorri diante do pouco caso da outra.
- Ahh Lisa, nem acho que o casamento dela é tão importante assim. Para mim, ela o leva na barriga. Mas... se acontecer sumo. Longe de brigas conjugais. E com tantas belas mulheres no mundo... e com tanto carinho que tenho para dar... - Lança lhe um olhar sedutor. - Reencontros inesperados... sabe como é... somos vulneráveis.
- Você sempre teve quedinhas por mulheres em geral, Ju – Lisa sorri para a morena. - Nem tente me provocar. Nossa época já passou. E sinceramente, se não me contento com segundo lugar, vê lá se aceito terceiro!
- Ah!! Decepcionei!!
As duas riem em sintonia e continuam a conversar animadas, sem perceber a morena que se aproxima pelo corredor.
Joyce caminha apressada pelo shopping procurando Juliana. Atrasara demais. Para e olha para os lados impaciente. Onde se metera Juliana? Neste momento, vê a amante de frente para ela, a conversar animada com uma loira. Essa era a amiga? Corre os olhos rápidos pela mulher. Parecia bem jovem, apesar desta estar de costas para ela. Passa a mão pelos cabelos negros e alisa rapidamente o terninho azul marinho que usava. Viera direto do Fórum. Já estava quase diante de Juliana, quando esta a nota e se ergue sorrindo. As duas trocam dois beijinhos e, com um sorriso, Jô vira-se para a outra mulher à mesa. O sorriso congela em seu rosto.
- Lisa? Lisa?
Lisa estava paralisada. Como assim Joyce? Ainda chocada, percorre com o olhar a bela mulher a sua frente. Vê-la, frente a frente, era muito diferente de vê-la de longe. Joyce continuava linda, no auge de seus 35 anos. Sua beleza estava mais acentuada, a postura mais decidida. Nunca perderia a aura de sensualidade que sempre a acompanhara. Sente uma opressão no peito, uma raiva por saber que ambas eram amantes.
- Olá Joyce. - Tenta controlar a raiva da voz.
Juliana observa as duas surpresa.
- Vocês se conhecem?
As duas desviam, com dificuldade, o olhar para Juliana.
- Sim. - Lisa força um sorriso- Eu e Joyce crescemos juntas.
Respira fundo tentando vencer o sentimento angustiante que trazia no peito. Se propusera, a muito tempo, vencer todos os sentimentos negativos e magoas que ainda tinha por Jô. E era isso que faria.
-Mas que bom vê-la novamente Jô. - Levanta-se e abraça a morena.
Joyce estremece ao sentir os braços de Lisa ao redor de seu corpo. Totalmente sem reação, paralisada pelo choque de encontrar seu antigo amor junto à amante, começa a tremer.
Lisa a solta devagar. Observa Joyce puxar rapidamente uma cadeira e se sentar. Senti-la novamente nos braços, trouxera sentimentos adormecidos dentro de si. O cheiro de Jô ainda era o mesmo!
Juliana percebe o clima tenso no ar.
- Realmente vocês se conhecem...
Jô a olha meio perdida. Queria muito rever Lisa, mas não desta forma. Não ali. Não na presença de Juliana.
- Sim... eu... mas como vocês... se conhecem?
- Pois é Jô. Vê que coincidência! - Juliana observa sua reações. - Conheci Lisa na época de faculdade. Uma época deliciosa. - Sorri com falsa inocência - Mas... - Põe o cotovelo sobre a mesa e apoia o queixo na mão - Nunca me disse que tinha uma amiga lésbica.
Surpresa Lisa encara Juliana. Não esperava que abordasse o assunto desta forma.
Joyce reage negativamente a abordagem.
- E porque falaria? Lisa escolheu o caminho dela e eu o meu. Exatamente por estas escolhas tomamos rumos diferentes e nossa amizade se perdeu pelo caminho. - Cautelosa olha a loira – Mas espero de coração podermos mudar tudo isso e … voltar a nossa amizade novamente.
Lisa , incomodada com a situação presente, movimenta-se intimidada na cadeira.
- Jô.. eu... claro que vamos retomar nossa amizade... Bom... eu...tenho que ir.
Juliana a segura pelo braço.
- Que isso, Lisa. Porque a pressa de repente? Eu estou encantada de ver o reencontro de vocês. E surpresa com a coincidência. - Vira-se para Joyce, sentindo uma vontade imensa de provocá-la - Sabe Jô, a pouco falava de você a Lisa.
- Fa... falava? - A olha aflita.
- Sim. - E aguarda a pergunta que Jô não conseguiu calar.
- Sobre... sobre o que?
Juliana sorri maliciosa.
- Sobre como é maravilhoso tê-la em minha vida. – Volta o olhar à loira - Lisa, agora que me apercebi menina! - E faz um ar de falso espanto.
- O que Ju? - Lisa pergunta, pressentindo que iria se arrepender de ter perguntado.
- Cá estou eu, em um shopping lotado de gente, sentada a mesa com minha atual amante e minha ex. Não é emocionante?
Joyce abre e fecha a boca sem que nenhum som saia dela. Como assim atual e ex? E como ela ousa expor sua intimidade assim?
- Juliana ! - Lisa a olha repreendedora.
- Oi Lisa! - E lhe lança um olhar de candura. Depois ergue as mãos num pedido de desculpas. - Ok, desculpe meninas... sabem que adoro provocar. Joyce, desculpe se deduzi errado, por achar que Lisa soubesse de sua... bissexualidade.
- Eu... não vou ficar aqui – Joyce se ergue nervosa.
- Que isso Jô...já pedi desculpas! Lisa, diga a ela que tudo está bem.
Lisa observa o nervosismo de Joyce. Ela sempre detestara ser exposta diante das pessoas. Estava impressionada que tivesse se envolvido logo com Juliana, que não se importava com opiniões alheias e que era totalmente despojada diante da vida.
- Jô.. senta. Está tudo bem. Eu... tenho mesmo que sair. Vou encontrar minha mãe. Eu... adorei vê-la.
Levanta-se da mesa e com um sorriso de censura a Juliana despede-se, afastando sem olhar para trás. Juliana, um pouco sem graça com a brincadeira de mal gosto, dá um sorriso a Jô.
- Jô...
Mas esta nem a olhava. Acompanhava com um olhar saudoso e angustiado a loira.
- Jô?
Finalmente esta percebe sua chamada. A raiva se faz presente em seu semblante.
- Qual era sua intenção? O que ganhou com isso, Ju? Que merda ganhou com sua atitude?
Juliana se surpreende com o tom de voz de Jô, mas antes que possa responder, esta continua.
- Você sabe quanto tempo não vejo Lisa? Sabe quantas merdas tenho que corrigir, quantas vezes esperei poder estar com ela, sem conflitos, apenas para conversar?
Juliana tenta novamente falar, sendo calada pela mão de Jô que, em riste, faz num sinal de pare.
- Sabe quantas vezes desejei reatar a amizade que destruí pela minha intransigência, minha falta de visão? Será que você percebeu a situação terrível que me expôs? - Nessa hora a voz de Jô se elevou.
- Jô, fala mais baixo e se controla. Eu vi que pisei na bola, ok. Não precisa gritar.
Tenta segurar a mão da morena, mas esta a afasta.
- Não me diga que isso vai trazer conflito entre nós! Me poupe Jô. Estou aqui porque você pediu este encontro. Tivemos a felicidade de reencontrar uma amiga em comum. Não transforme isso num campo de batalha.
- Você transformou com sua falta de senso Juliana!!
- Por que tanto blablá com isso? Você não sabe onde ela mora? Depois vai lá, conversa com ela. Quem foi inconveniente fui eu, não você.
- Chega Ju! Não me irrite mais.
Juliana a encara mais séria. Joyce estava pálida, muito pálida. Nervosa, mexia a perna em um ritmo enervante. Divaga a mente ao passado e devagar balança a cabeça numa compreensão súbita.
'Juliana, você meteu os pés pelas mãos...'
- Jô... peço mesmo desculpas. Eu errei. Olha, depois vou procurar Lisa e me desculpar também.
Jô passa as mãos pelos cabelos tensa.
-Tudo bem, eu... também depois vou procurá-la.
Respira fundo várias vezes e a olha. Coloca ambas as mãos sobre a mesa e, tentando esquecer os últimos minutos e controlar a ânsia de correr atrás de Lisa, respira fundo.
- Ju, o caso é o seguinte. Eu tenho quase certeza que Mariana nos viu no bar aquele dia.
- Mariana...bar? Tem certeza? Não é possível Jô! Eu a observei bem! Não tinha como ela nos ver!
- Mas viu! Tenho certeza que viu! Ela veio com um papo que viu alguem parecido, mas a conheço Ju! Ela nos viu!
- Meu Deus! - E passa a mão sobre o rosto.
- Que faço Juliana? Que vamos fazer?
- Pra começar me deixe respirar. Ok...Ok... ela em nenhum momento te afrontou?
Joyce faz um gesto impaciente.
- Eu já disse que não!
- Calma Jô! Estou tentando ordenar meus pensamentos! Se ela não te afrontou, é porque prefere ignorar o que viu, certo?
- Ju! Mariana não é pessoa de ignorar nada! Ela uma hora vai estourar. Presta atenção no que digo!
- O que disse quando ela comentou com você?
- Disse que estava enganada, que não podia ser eu. Que estava na casa de amigas.
- Ótimo. Você vai manter isso. Mesmo que ela te prense contra a parede, vai manter isso.
Jô, impaciente passa a mão pelos cabelos.
- Você não esta entendendo. Mariana não é boba. Não vai deixar passar. Vai ser um inferno.
- Querida, pare de passar as mãos nesse cabelo.
- Droga Juliana! Que se dane os cabelos! - Olha outra revoltada. - Hã... estão muito bagunçados?
Rindo Juliana os arruma para ela.
- Pronto. Agora estão lindos.
- Juliana... eu e Mariana vivemos em conflito. Eu amo demais minha filha, mas … parece que nada que faço para ela é certo. Qualquer coisa é motivo para uma discussão entre nós. E ela com sua... postura tão na dela me irrita. Queria que falasse comigo, confiasse mais. Será que percebe? Por mais que eu negue a presença naquele bar, ela sabe! E isso vai minar o resto de confiança que eu tinha dela.
- Jô... você está aumentando demais as coisas.
- Juliana!! Pára! Eu sinto isso! Eu sei! - Novamente angustiada, passa as mãos nos cabelos.
- Ai Jô... nem sei o que dizer... na sua situação você … Será que não vale a pena conversar com ela, abrir o jogo? Às vezes você pode se surpreender com sua filha.
- Tá louca!! Ela nunca vai aceitar!
- E porque não!? Ela não aceita a Lisa!? - A olha indagadora. - Ela conhece Lisa, né.
- Sim...conhece sim... - Suspira – Ela a conhece. Mas é diferente Ju. Ela... Lisa... sempre assumiu sua opção. Sempre foi...
- Autentica?
Joyce a olha indignada.
- Está dizendo que não sou autentica?
Ju ergue as mãos em sentido de paz.
- Só fiz um comentário.
- Sei... Olha Ju, para Mari, que cresceu vendo Lisa assumir que gosta de mulher, é uma coisa. Agora, descobrir que a mãe, casada, mãe de três filhos, trai o marido e ainda por isso com uma mulher é bem diferente.
- Uau... colocado assim é bem pesado mesmo. - E ri divertida.
- Juliana, não é para rir. - Jô a encara nervosa.
- Eu sei Jô...eu sei – meneia a cabeça – Mas sua situação colocada em palavras foi … bom... foi, foi...
- Absurda, revoltante, sem limites.
- Eu ia dizer outra coisa , mas serve isso.
- Ju!
- Olha Jô, temos que tentar amenizar a situação. Se você não vê possibilidade de conversar com sua filha, então é melhor negar sempre e aguentar as consequências.
- Grande valia sua opinião. - Jô emburrada, cruza os braços.
- Jô! Você quer que eu diga mais o que! Que se separe? Assuma que gosta de estar com mulher?
Joyce a olha assustada.
- Mas eu não quero isso! Nunca disse isso!
- Nossa senhora! Então quer dar um fim no nosso relacionamento?
- Não! Que droga, Ju. Quero as coisas como eram antes, só isso.
- Bom Jô, pelo que me disse, isso é impossível. Então nos resta , ou agir com mais cautela em nossos encontros, ou nos afastarmos.
- Não quero que nos afastemos. Eu... vou agir como se... Que não era eu e pronto.
- Tudo bem Jô... faça isso. - Segura-lhe a mão – tudo vai ficar bem querida. Estou com você nessa.

Lisa, por trás de uma vitrine, observa as duas mulheres. Joyce parecia agitada, nervosa. Gesticulava muito, mostrando grande tensão. Como Jô era bonita! Desliza o olhar sobre a figura feminina. Tao curvilínea, sedutora. Volta o olhar a Juliana. Tambem muito bonita, mas sem fazer concorrência à de Jô. Esfrega a testa. Apesar de todo o constrangimento da situação, sentira uma quentura em poder novamente olhar os belos olhos negros.
'Droga, como Jô pudera arrumar uma amante. E mulher! E Juliana!' Volta o olhar novamente a Joyce. Sempre fora impulsiva, egoísta. Como podia fazer isso com a família dela? Os filhos? Mariana... a mente se volta para a filha de Jô...
As duas se pareciam. Observa-a mais atentamente, agora numa comparação com Mariana. Sim, elas se pareciam. Os cabelos, o tipo de corpo... curvilíneo sensual... a postura mais arrogante. Mas ao mesmo tempo, eram diferentes. O rosto de Mari tinha traços mais suaves, harmoniosos, a expressão muito mais franca. O queixo era mais marcado, quadrado, lhe dando um ar mais determinado. E o olhar... como esquecer o olhar de Mariana? Era um olhar profundo, marcante, acentuado pelos olhos verdes enigmáticos. 

 Já Joyce, tinha olhos negros e voluptuosos. Tudo nela era um convite ao prazer. 'Um prazer usufruído por Juliana! Raiva!'
Lisa segura a cabeça entre as mãos. Que confusão, que angustia! A poucos dias, gritava com Mari pelos sentimentos que ela lhe despertava. Agora, tremia pelo reencontro com Jô, recordava seus momentos com ela, inconformada por vê-la buscar o prazer nos braços de outra mulher.
Percebe Juliana segurar a mão de Jô e esta colocar a sua por cima. 'Não quero mais ver isso!'
Retoma o caminho e, de repente, sai em correria pelos corredores do shopping. O rosto transtornado, desperta interesse nas pessoas que passam por ela.
Lisa tentava fugir de seus conflitos, seus medos, suas indecisões... seus sentimentos. A vida lhe cobrava muito, sempre lhe trazendo dor e sofrimento.
'Por que? Por que meu Deus? Por que não me deixa ser feliz?'

...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.
Clarice Lispector

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Capítulo V


Sheila observa Mariana na cantina. Parecia compenetrada nos livros, mas sabia que era apenas para inibir as pessoas de se aproximarem.
- Ei bela, pode parar que sei quando está estudando.
Suspirando Mari fecha os livros e encara a amiga.
- Nunca consigo te enganar né.
- A mim não. Sou observadora e você não estava franzindo a testa. - Aponta-lhe a testa - Você sempre a franze quando esta atenta nos estudos - Joga a pasta sobre a mesa e senta. - Que olheiras são essas bonitona?
- Dormi mal a noite.
- Algo a ver com sua fuga desesperada na sexta? Alias tentei te ligar e você necas né. Fugindo do que?
- Sheila... não quero falar nisso ok.
- Ah.... mas vai falar. Eu te conheço, jamais sairia daquele jeito se não fosse algo sério. - Inclina o corpo para frente – Quem você viu lá?
Mari encara a amiga tensa. Sabia que ela não ia deixar passar em branco o acontecido.
- Quer mesmo saber?
- Tô perguntando, não tó?
Mari abaixa a cabeça e os longos cabelos cobrem seu rosto. Ergue-se e aponta a saída para a amiga.
- Se quer saber vamos cair fora.

Sentadas sobre uma arvore no pátio as duas jovens conversavam sérias. Quem passava as olhava com curiosidade. Bonitas, simpáticas... e lésbicas?
- Meu... imagina eu e estas duas numa cama... sussurra baixinho um rapaz para o outro que o acompanhava
- Sonha não meu... a bela não te daria mole. E a amiga dela tem namorada. A Taninha esqueceu?
- A Taninha da psico?
- Fala sério que não sabia.
- Cara, não sabia não... pô que desperdício de fêmea nessa faculdade.
E seguem o caminho, não sem antes lançarem olhares de pena e despeito as duas jovens.

- Mentira!! Sua mãe de agarro com uma mulher??
- Fala baixo Sheila! - Mari olha para os lados – Quer que o Brasil inteiro saiba?
Sheila tapa a boca com as mãos e olha para os lados com olhar cauteloso.
- Desculpe... é que o choque foi grande. Meu... fala sério. Sua mãe... cara – Passa a mão no rosto – Tô bobs ate agora.
- Se você está, imagina eu.
- E que você fez? - Sheila a olha em expectativa.
- Corri igual criança pro colo de minha madrinha.. Ou seja, covarde, não dormi em casa. - Olha a amiga agora um pouco mais agitada. - Sheila... dormi lá. E de manhã quando acordei... adivinha quem estava me olhando!
- Quem? -Sheila se ajoelha sobre o gramado. Estava cada vez mais emocionante o que Mari lhe contava.
- Lisa.
- Lisa?
- A filha de minha madrinha! A Lisa!
- Sei... a filha da madrinha tava te olhando...ah... - Olha a amiga como a dizer ' e daí?'
-Sheila...a Lisa!
Sheila tenta fazer um ar de surpresa e emoção , mas não consegue. 'Lisa... quem é Lisa. Que Lisa?'
-Tá Mari você venceu. Quem é Lisa?
Mariana a olha surpresa. Ela não sabia de Lisa?
- Lisa... lembra quando te conheci e disse que uma pessoa que eu amava muito era lés?
- Mentira!!! Cara! A Lisa! - Sheila a olha com olhos arregalados – Faltava só me dizer o nome dela né. Mas... você a ama... hum...
- Hum o que? - Mari a olha séria.
- Só hum.
- Sheila... voltando a minha mãe – Bela a olha um pouco impaciente – não tive coragem de enfrentá-la. O pouco que disse ela desmentiu. O que faço agora? Isso tá entalado em minha garganta.
- Uai... eu não sei. Eu falaria na cara na boa. Mas... cara é muito doido meu.
- Doido para você. Minha mãe é a maior preconceituosa que já vi. Ela e Lisa eram as melhores amigas. Foi Lisa se descobrir lés ela cortou amizade.
- Sério??? Que horror. Mas vê o melhor lado. Ela não impediu você de manter contato com Lisa né.
-Também né Sheila. Meus padrinhos são pais de Lisa. Ainda assim sinto que perdi tempo demais de convivência com ela.
- Então corre atrás uai. Ela não esta de volta? Corre miga. Conquista e curte !
- Conquista e curte o que??
Sheila faz cara de inocente.
- O tempo que agora tem com ela... entendeu? Aliás não devia perder tempo... que faz aqui?
Mariana coloca a cabeça de lado e olha desconfiada a amiga. Estreita os olhos e depois sorri divertida.
- Seguirei seu conselho.

Lisa desliga o computador. 'Dever cumprido'
Mandara seu currículo a algumas das maiores clinicas de fisioterapia de Belo Horizonte. Com sua experiência e capacidade profissional logo estaria atuando novamente em sua profissão. Ergue os cabelos afastando-o do pescoço e se abana com uma das mãos. Como BH estava quente. Olha a cama onde a pouco tempo vira Mariana deitada e suspira. Desde aquele momento dormir se tornara uma tortura. Bastava fechar os olhos e ela lhe vinha a mente. O belo rosto, o corpo maravilhoso, a discussão entre elas. Ela...ela... os seios... a cintura... Chega!! Lisa balança a cabeça enérgica e sai do quarto com passos tensos.
- Ei Dona Paula, que pensa fazer a tarde?
- Ei filha, ia mesmo te chamar. Vou a casa de Idosos. Sou voluntaria lá. - Ri divertida - Uma idosa ajudando outras.
- Que isso mãezinha. Você não é idosa. - beija carinhosa o rosto da mãe – Bom programa.
- É uma forma de dizer que nem é para chamá-la?
- Mãezinha, adoro como é perceptiva.
- Mais que imagina filha... - E a olha séria.
Lisa, meio desconcertada, faz a primeira pergunta que lhe vem a mente
- Cadê meu pai?
- No sitio. Ele agora só vive para aquilo.
- Hum... e porque não me chamou?
- Não deve demorar. Foi levar uns adubos, materiais de limpeza. Saiu muito cedo e não quis acordá-la.
- Ok... bom... vou aproveitar o dia para colocar minha vida em ordem, cortar o cabelo, fazer as unhas. Está na hora de me cuidar.

Joyce sai do carro tensa. Caminha em direção ao portão da casa dos pais de Lisa e , tremula, toca a campainha. Mal conseguia conter a ansiedade de ver Lisa. Bate o pé no chão angustiada. Ninguém atendia. Toca novamente a campainha desta vez mais impaciente. Ninguém. 'Merda, não é possível!'
Devia ter ligado antes. Na verdade queria pegar Lisa de surpresa. Bem... agora era esperar. Voltaria depois. Entra no carro e arranca sem perceber a mulher que a observava a menos de um quarteirão.
Lisa observa o carro virar a esquina. 'Joyce...'
Distraída em seus pensamentos entra na casa sem perceber que deixara o portão aberto. O que Joyce poderia querer com ela?
'Meu Deus nem uma semana que voltei e minha vida virou um caus. Vontade de voltar para a Índia.' Mas acabara os tempos de fuga. Caminha em direção ao quarto e se olha no espelho. O cabelo ficara lindo. Cortado em camadas, moldava seu rosto, deixando-o mais leve e jovem. Troca o jeans por um vestido leve. Segura com um sorriso o CD que seus amigos indianos lhe presentearam. Uma das coisas que mais adorara na Índia foi o estilo de dança. Vigorosa, sensual, mas de uma espiritualidade maravilhosa. Caminha em direção a sala e coloca o CD para tocar. Começa a mexer os quadris ao ritmo da música procurando esvaziar a mente de todos os pensamentos. Fecha os olhos e se deixa levar pelo som e pelos movimentos do corpo.

Mariana ouve o som vindo da casa dos padrinhos.' Que melodia linda...'
Surpresa percebe o portão aberto e entra, fechando-o devagar. Concentra sua atenção na grande janela que dá para a sala. Devagar se aproxima e vê Lisa dançando de olhos fechados. Fascinada observa os movimentos do corpo da loira a acompanhar o ritmo da musica. Eram movimentos exóticos, com gestos vigorosos. A sensualidade no movimento dos quadris , das mãos.... instintivamente toca levemente a própria virilha que parecia latejar.
Lisa sente uma queimação nas costas como se alguem a observasse. Se vira lentamente e abre os olhos. Automaticamente para de dançar. As duas se encaram pela janela. Tremula, Mariana entra na sala.
- Eu voltei...
- Mari...
Sorriem tímidas.
Devagar Mariana caminha em sua direção.
- Eu... me desculpe sair daquele jeito no sábado...
- Não...eu que errei... não devia me meter em historia que não é minha.
- Que isso Li... eu que pedi conselho... eu... - desliza o olhar pelo corpo de Lisa. O vestido se ajustava maravilhosamente no corpo esguio da loira. - Eu... nunca vi você dançar... quer dizer até hoje.
- Gostou?
- Demais... - engole em seco e coloca as mãos para trás. Como que sentindo a tensão entre as duas Lisa se afasta colocando uma distância segura entre elas.
- Er... eu não sabia dançar... aprendi na Índia. - Faz um gesto em direção ao pequeno som de onde vinha a melodia. - É uma dança indiana.
- Sério?
- Sim... se chama Bharata nathyan. Na verdade sigo pouco o ritual da dança. Mas gosto dela. Que os deuses me perdoem. - E sorri delicada.
- Ah??
- Bharata nathyan. É um estilo de dança da Índia.

Nota da autora:
De grande beleza visual e apelo espiritual, o bharata natyan é um dos estilos indianos mais praticados no Oriente e conhecidos no Ocidente. Considerada um meio de conectar o homem ao sagrado, mesmo nos dias de hoje não é iniciada sem que o bailarino peça permissão para a terra para bater com os pés no chão, saude todos os deuses e ofereça flores a Brahma.

- Deve ser muito legal Li.
- É maravilhoso querida. É... dá uma sensação de plenitude, de elevação. Eu me desligo do mundo quando danço.
-Você parece que aprendeu coisas incríveis na Índia.
Lisa a olha agora com um olhar mais distante, perdida nas lembranças do passado.
- Incríveis e maravilhosos... A Índia, seus ensinamentos, seu povo, trouxeram uma nova luz a minha existência. - Olha a jovem com um sorriso saudoso. - E esta luz me trouxe de volta a vida.
Mariana a olha agora mais séria.
- Eu... Li... quando fala assim quer dizer ...depois de perder a … Luiza?
- Luiza? Lu? Luiza foi minha vida, Mariana – Os belos olhos castanhos se iluminam. Um sorriso suave e ao mesmo tempo triste surge em seus lábios.
- Luiza foi minha vida... - repete agora mais baixinho – E quando ela partiu pensei ter perdido a ela e a minha vida. Corri o mundo buscando fugir desta realidade. - Olha Mari tranquila – Mas um dia percebi que Lu estava aqui – põe a mão sobre o coração – Em todo a plenitude de seu amor.
- Sabe Mari, muitas pessoas a achavam arrogante, antipática. Mas ela não era nada disso. Era linda, de um coração imenso. Preocupava-se com as pessoas , mas odiava que vissem isso. Foi o amor dela que curou as mágoas que eu tinha em meu coração.
Mariana permanece em silencio. Gostaria de perguntar que mágoas eram essas, por quais tristezas passara para desacreditar no amor. Mas sentia, sabia não ser esta a hora certa.
- Luiza me trouxe amor, alegria, a vida de volta. E hoje eu sei que não posso, não devo deixar toda esta herança, esse aprendizado de lado. Ela não merece menos que isso.
- Com isso quer dizer que... acredita que possa amar de novo?
Lisa sente o coração palpitar ao ouvir a frase da boca de Mari. Amar... amar novamente? Desliza o olhar pelo belo rosto de Mari e encara os belos olhos verdes. Eles estavam brilhantes, determinados... e ao mesmo tempo inocentes, ansiosos.
- Amar... sim... pode ser. O amor faz parte da vida. - Se esquiva de uma resposta mais pessoal.
- Lisa, falo do amor entre duas pessoas. Ter um... uma companheira, alguem para compartilhar a vida.
- Mari, eu tive essa companheira.
- Eu sei...mas... ah Li... nós seres humanos temos tanto amor para dar! - Olha loira suavemente – Sabe, eu acredito em almas afins. Sei que temos várias delas no plano físico.
- Plano físico querida? Você acredita nisso realmente?
- Acredito no plano físico e espiritual. Acredito em reencarnação e que aqui estamos para evoluir, reencontrar afetos e desafetos. Por isso existe a lei de causa e efeito. Por isso temos uso de nosso livre arbítrio.
- Me deixe entender. - Lisa caminha ate o sofá e senta-se. Mariana senta a sua frente. - Você é espirita.
- kardecista.
- Hum... e como chegou ao espiritismo?
- Eu nunca me adaptei ao catolicismo. Mãe até tentou, Carlos também. - Mariana sorri balançando a cabeça desalentada. - Eles nem são praticantes. Mas a verdade é que nunca me identifiquei com a Igreja Católica. Sempre queria mais, buscava respostas que ela não podia e não sabia me dar. Sempre ouvia... a resposta está na bíblia. - Faz careta imitando um padre – Leia a Bíblia! Mas nunca me davam respostas.
- Respostas de que?
- De tudo, Li – Mari a encara com os maravilhosos olhos verdes. - O porque de sentir um vazio tao grande em minha alma... tentar entender o que eu sentia, pressentia.
- Como assim pressentir? Você sente o que?
Lisa sente um calor imenso tomar conta de si quando percebe o olhar de Mariana escurecer e aprofundar nos seus. Parecia desvendar sua alma. E isso a incomodava.
- Pressentimento Li. Desde criança eu sabia que tinha um porque de estar aqui. Percebi cedo a missão que tinha e as pessoas que precisava ter a meu lado. Cresci e corri atrás de respostas para as certezas de meu coração. E achei-as no espiritismo.
- Não entendi a resposta Mari.
- Li... existem várias almas afins no mundo... mas apenas uma delas é a destinada a ser dona do seu coração. Eu sempre soube a minha.
- Eu... - Lisa, sentindo uma ansiedade inexplicável, projeta o corpo para frente, procurando se aproximar mais de Mariana. Esta não consegue evitar que o olhar desça para o generoso decote da loira, vislumbrando o colo maravilhoso.
- Explique melhor isso Mari.
- Eu.. eu – com um grande esforço Mari desvia a atenção dos seios de Li e procura novamente seu olhar. Os olhos verdes estavam escuros, cheios de desejo oculto. - Eu .. sempre que vejo … uma pessoa, tenho a sensação de predestinação. A certeza que ela é meu destino... minha alma gêmea.
Lisa se levanta num rompante, o corpo tenso, a expressão de rosto abalada.
- Eu... não acredito nisso. Não em almas gêmeas. Acredito no amor universal, na ligação com um ser maior.
- Mesmo Li? - Mari a olha quase suplicante – Tem certeza disso?
Lisa de costas para a jovem sussurra.
- Se acreditasse nisso poderia dizer que minha alma gêmea já não se encontra mais neste mundo...
Mari fecha os olhos entristecida.
- Li... sabe... - Se levanta e aproxima-se da loira tocando-a levemente no ombro – Na minha festa de quinze anos... quando conheci Lu...Luiza.... ela... eu a achei uma mulher fascinante. Ela não escondia como era feliz com você sabe. Eu vi o quanto estavam felizes e agradeci a Deus você tê-la a seu lado. Porque você merece.
Lisa olha a jovem de lado com um olhar terno. Segura com delicadeza a mão em seu ombro.
- Lu era especial Mari.
- Eu sei... eu... ela olhou pra mim na festa. Tinha um olhar... compreensivo, carinhoso. Acho que gostou de mim.
- Ela te achou linda Mari. E muito simpática.
- Foi mais do que isso Li... eu senti como se ela lesse minha alma. Ela me impressionou muito. Só pude desejar que vocês fossem muito felizes.

Mariana abaixa a cabeça e volta a memoria ao passado. Relembra a figura altiva de Luiza. Ninguém em sã consciência deixaria uma mulher como aquela...ainda mais tão apaixonada e apaixonante como era. Lisa estava tão feliz, tao de bem com a vida que tivera que conformar que seu destino não era aquele que sempre acreditara. Fecha os olhos e revê com a mente o olhar de Luiza para ela. Era um olhar de compreensão , até pena. Nada tirava de seu coração que ela percebera seu sentimento por Lisa. Mas sabia que, exatamente por causa deste sentimento, desejara a felicidade de ambas. E exatamente por tambem ter um sentimento parecido, Lu aceitara sua pessoa, tratando-a com carinho e consideração.
Mas o destino quando estava marcado, não podia ser modificado. Luiza tivera seu papel na vida de Lisa, um papel com certeza muito importante e do qual só Deus sabia. E agora chegou a vez dela ter seu papel neste destino. E lutaria contra tudo e todos para cumpri-lo.

- Então querida... Lu era meu amor... me completava, me compreendia.
Mariana abre os olhos.
- Verdade Li...ela te amava sim... demais. Mas se Deus a levou é porque já tinha cumprido sua missão entre nós. E não ia aceitar você chorar por ela para sempre.
- Não Mari, não ia aceitar. Mas ainda choro.
- Li... Li... somos seres em constante evolução. Temos várias vidas. Como tambem não termos muitos amores? Mas existe sempre uma alma, aquela que você percebe ser a sua predestinada. Que basta olhar nos olhos e sabe. Lisa é sério. Os olhos são o espelho da alma... isso é a mais pura verdade.
Lisa vira o corpo para Mari e a encara nos olhos. Seu coração palpita ao ler neles uma verdade que não aceita. Vira esta menina nascer. Estremece ao lembrar que ela mesma tivera a sensação de predestinação desde o primeiro momento em que tivera Mari nos braços.
- Mari eu.... acho que não quero mais continuar esta conversa. - E esfrega os dedos na testa.
- Li...
- Por favor... minha cabeça dói. Eu... também acredito em muitas coisas do espiritismo. Mas predestinação, essas coisas... acho irreal demais ok.
- Li... eu amo você.
Lisa a olha surpresa.
- Eu... também a amo Mari... você sempre foi minha princesinha.
- Para Li!!! Para com isso! Não sou aquela criança que faz questão de lembrar!
- Como não Mari? Eu a tive nos braços. Vi você nascer!
- Quantas vezes mais vai repetir isso? Quantas vezes? Eu sou uma alma imortal como a sua, Lisa. Porque Deus me trouxe a sua vida pelos braços de minha mãe eu não sei. Só sei que isso não me impedirá de lutar por aquela que sou destinada.
- Não entendo Mari... pare com isso. - Lisa se afasta esfregando ainda mais forte a mão na testa. - Meu Deus menina, você me angustia mais que a sua mãe
- Não sou minha mãe Li... sou uma mulher totalmente diferente dela. E a criança que um dia conheceu não mais existe.
-Você parece muito com sua mãe
- Diz isso fisicamente? Personalidade? Isso prova o quão pouco olhou para mim todos estes anos. Será que me enganei tanto Li? Você nunca me viu como pessoa? Será que estou tao errada assim? - Os olhos de Mari se enchem de lágrimas
- Eu não sou extensão de minha mãe. Não sou sua filha, nada. Porque teme tanto Li? Você voltou cheia de teorias lindas da Índia, mas ainda está arraigada na matéria e nos moldes de uma sociedade que nunca te amparou! Olhe para mim !! Para o que sou hoje! Não o ontem, nem o amanha. Sou o presente Li! E me orgulho do que sou.
- Meu Deus Mari. Jamais disse o contrario. Você consegue fazer com que um comentário se torne uma novela!
-Você quem teme a novela de sua vida Li. Puta merda Li! Eu sei que devia ter paciência, mas... eu sinto... sei que não posso esperar. Tenho urgência de você. Tenho urgência de não perder mais tempo.
- Eu não posso estar ouvindo isso. Não estou ouvindo nada disso. - E infantilmente tapa os ouvidos com as mãos.
Mariana olha a amada em desespero. Fora longe demais... longe demais. Olha a boca comprimida, os olhos fechados como a ignorar os últimos momentos. E num impulso segura-a mais forte e a beija. Um beijo tanto tempo reprimido. Um beijo por ela tão esperado. Lisa, surpresa, abre a boca. É suficiente para que Mariana aprofunde o beijo, forçando passagem entre seus dentes. Por um momento sente Lisa corresponder, até que esta, num grito desesperado, se solta de seus braços.
-Vá embora Mariana!!!
- Lisa... Li não faz isso! Por favor, eu... amo você Li.
- Vá embora!!!!
O grito surpreende tanto Mariana quanto Lisa. As duas se enfrentam com o olhar. Mari passa as mãos pelo cabelo e sussurra inconformada.
- Eu vou Li... mas vou voltar. Eu vou voltar.
Lisa observa a bela morena se retirar da casa. Geme angustiada e põe a mão sobre a boca. Mariana a beijara. Sua menina, aquela que vira crescer a beijara! Grita mais uma vez em angustia. Estava totalmente descontrolada. Ergue as mãos tremulas e percebe o poder que Mariana tinha sobre si. A criança de ontem era hoje uma mulher. Uma mulher determinada e impulsiva. E que a atraia muito.
- Senhor do céu... me ajude....
Toca de leve os lábios e recorda o gosto doce da língua de Mari. Nunca um beijo lhe fora tao tocante, tao perfeito. Suas bocas se encaixavam com perfeição.
Seu olhar se perde no vazio... não havia mais paz em seu coração. Mais uma vez o destino tomava a vida de sua mãos.

“Eu já não sou o que era: devo ser o que me tornei”
Gabrielle Bonheur Chanel