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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Capítulo XVIII

Joyce passa a mão no cabelo nervosa. A opressão no peito era quase uma dor. Sua vontade era fugir, ir contra sua própria racionalidade. Sempre fora emoção, por mais que negasse isso.
Tinha vontade de gritar, de se expor ao mundo, de dizer... ’Eu não sou assim! Eu sei amar! Meu maior erro é amar demais! Não saber onde, nem quando parar. ’
Devagar desce do carro. Os pés pesavam como chumbo. Põe a mão sobre a boca querendo conter o grito mudo na garganta.
Devagar observa o portão se abrir. Paula a olhava pelo portão, o olhar penalizado ao ver a dor de seu rosto.
- Obrigada... Por aceitar me receber Paula... por ...me ajudar neste encontro com Lisa.
- Jô... ah minha filha, minha filha, quanta dor...
- Paula... você não entende...
- Jô... minha filha...
- Eu... nunca quis trazer tanto dor... eu... também sofri... eu... não sou forte como Lisa, nunca fui.
- Joyce, não compare sua existência com a de Lisa. Vocês sempre foram unidas, mas muito diferentes na conduta de vida.
- Mas ela... – Jô enche os olhos de lágrimas – Ela lutou por tudo que quis. E eu... eu... fui fraca.
- Jô... - Paula arregala os olhos ligeiramente. – Venha, entre. Lisa ainda não está em casa, mas não deve demorar.
Já na sala Paula se vira a ela solidaria.
- Jô, deixe-me lhe contar uma coisa.  Lisa sempre foi uma pessoa carinhosa, amorosa e dedicada. Mas também nunca soube dividir, é intolerante com muitas coisas, rancorosa. – Joyce a olha surpresa e Paula sorri – Jô conheço a filha que tenho.  É uma pessoa com qualidades e defeitos, e não podemos nos ater só as qualidades. Acompanhei toda a história de vocês em silencio, oprimida, triste, pois desde o inicio percebia que nada seria como desejavam. Vocês tinham ideais diferentes.
- Eu... eu não entendo.
- Jô, você sempre foi amorosa, dedicada aos seus. Possessiva, até mesmo egoísta, mas... quanto amor você tinha e tem no coração. Você nasceu para ter filhos, se realizar na maternidade. Você foi obrigada a amadurecer rápido, lutou para se realizar profissionalmente, sem se descuidar de sua filha. E conseguiu Joyce.  É nisso que se realiza. Lisa não. Nunca precisou lutar por alguém senão ela mesma. Ela nunca cogitou uma família, filhos. O amor dela não se expande a esta abnegação. Quando você a magoou , ela se fechou, encheu-se de raiva e saiu distribuindo sua revolta a todos a seu redor.  Não procurou entender sua dor, nem seus conflitos.  Partiu e deixou para trás tudo que lhe causava sofrimento. Era o caminho mais fácil.
- Eu... eu a amava Paula. De verdade. Mas...  – Passa as mãos no cabelo – Eu não sei explicar!
- Ela sabia disso. Mas no fundo, também sabia que não a completava Joyce. E fez o que sempre foi boa. Fugiu.
- Eu... nunca pensei nisso.
- Vocês eram adolescentes.  Não sabiam lidar com a grandiosidade do sentimento que tinham nas mãos. Amizade, amor, união. Vocês tinham tudo, mas não estavam felizes.
Joyce abaixa a cabeça.
- Eu a amo...
- Eu sei filha... eu sei.
- E... minha filha... minha filha também a ama - Joyce termina a frase num soluço.
Paula abraça Joyce em silencio. Não havia o que dizer depois das palavras pronunciadas com desespero e dor.

Do lado de fora, coma mão na maçaneta, Lisa escuta as palavras da mãe. Quanta verdade em tão poucas palavras. Ela era a mestre em fugas, não Joyce. Esta nunca tivera a oportunidade para isso, porque já tinha nas mãos a responsabilidade de uma vida. A vida de Joyce nunca fora fácil, seus caminhos sempre foram mais tortuosos. Mas vencera. 
Lisa suspira e esfrega a testa tensa. Amara Joyce. Mas não lutara por ela. Acreditara por toda sua vida que sim, mas... desistira rápido demais.
Sua mãe tinha razão, elas precisavam conversar.

Paula e Joyce se viram para a porta quando esta se abre. Lisa adentra o ambiente, o olhar fixo na bela morena.
- Oi... Jô.
- Lisa...
Lisa desvia seu olhar para a mãe que, com um suave sorriso, faz um pequeno gesto com a cabeça e se retira da sala.
- Lisa... eu... nós... precisamos conversar.
- Eu sei Jô... eu sei.  – Devagar Lisa se senta no sofá, se apercebendo que, mais uma vez alguém tomara a decisão por ela.  Nunca era a primeira a dar o passo. Conscientizar disso a magoava expunha a seus olhos sua falha. Sempre deixava os outros decidirem sobre os momentos mais importantes de sua vida.
- Lisa... eu... eu... – Joyce engole em seco. Lisa a observa. A palidez de seu rosto era enorme. Devagar o coração se acelera. Joyce tremia como da primeira vez que ficaram juntas. Tremia de angustia, de dor, de tristeza.  Abaixa a cabeça envergonhada.
- Joyce... eu ouvi o que minha mãe lhe disse. Ela... tem razão. Você... sempre foi a mais forte de nós duas.
Joyce a olha sem nada dizer, como a esperar mais palavras dela.
- Eu... eu na verdade sempre me apoiei em você. – Lisa olha desanimada, sem perceber a claridade de seu olhar. – Quando nada aconteceu como eu esperava, simplesmente desisti de tudo. Nunca fui boa lutadora. Não nos aspectos emocionais. Essa é a verdade.
- Lisa... na verdade você não tinha muito que lutar. –Observa a loira cabisbaixa e sente os olhos lacrimejarem. – Por mais que tente me justificar, a verdade é que desisti de nós.  – Novamente passa a mão sobre o cabelo revolto. –Eu queria mostrar ao mundo que me menosprezara que era melhor que ele. Todos eles. Decidi a provar aos julgadores de plantão que era melhor que eles. E quando me percebi, me vi igual. Igual a quem me pisou, me humilhou, me massacrou. E... quando passei a... julgá-la, eu...  – Olha Lisa angustiada. – Você era a testemunha que minha falsidade, de minha intolerância, de minha covardia. Você... era minha dor, meu fracasso entende? Desistir de você pelos meus sonhos, pela minha resposta a uma sociedade hipócrita foi... meu maior sofrimento. Não podia ter os dois. E queria os dois. Desisti da... situação que me traria maior sofrimento, rejeição, mas...  nunca aceitei perder você. Mesmo os anos passando eu tinha esperança, confiança... sentia que nos pertencíamos.  Lisa... no fundo de meu coração, de minha alma te sentia minha. E isso me satisfazia. Quando... a médica entrou em sua vida foi um baque para mim. Decidi então lutar, mas... sem abrir mão de minhas outras realizações.  Eu a amava, você era minha. Foi humilhante ser diminuída por uma estranha. – Olha para Lisa sentida - Ela... Luiza... fez algo que eu nunca fiz. Lutou por você. E ganhou. E eu... eu continuei com minhas escolhas.
- Jô...
- Deixa falar, por favor. – Engole em seco. – Quando você voltou para cá, eu... estava frustrada com minha vida. Você trouxe de volta a esperança de momentos perdidos, de alegrias abandonadas.  Eu queria a gente de volta. Era... tão bom... tão intenso. Eu realmente te amei Lisa. Demais. Tanto amor não se perde no tempo. E nisso tudo, quando me decidi a repensar minhas escolhas, eis que me deparo com uma rival por seu amor. – Levanta a cabeça apertando levemente o pescoço - Minha própria filha. Ver... você com ela... foi uma punhalada. Isso era tão... irreal! Impossível! Mas estava acontecendo... Passado a revolta começou a vir a minha cabeça flashes de vocês duas... Aquela união louca, o entendimento, a preferência desde criança por você. Esse elo inexplicável.  Não acredito nessa coisa de encarnação que Mariana acredita, mas... como explicar essa... esse... envolvimento de vocês? Lisa! Seu olhar para ela quando nasceu! O ciúme que eu tinha de vocês! 
- Jô! Eu nunca vi Mari assim! Ela sempre foi...  não sabe como me angustia ver que não é mais a menina... minha menina e sim uma...
- Mulher? – Jô a olha triste – Também não a queria assim. Mas ela não é mais minha criança. Lisa, eu a vi chorando, sofrendo e... percebi que a menosprezava. Ela é uma mulher. E tem mais maturidade que eu em algumas coisas. É como tivesse se preparado para você. Hoje vejo isso. Ela se preparou para você... – Abaixa a cabeça após um soluço seco. – Como lutar, em meu capricho, com minha filha? Mais, Lisa, como lutar com alguém que nunca desistiu de você? Que te amou em silencio, foi feliz só por ver você bem com outra mulher enquanto eu... eu só te desejei a infelicidade? Tentei atrapalhar sua alegria?
- Jô... posso falar também?
- NÃO! Lisa... não... Mariana te ama, te ama de verdade. Eu... eu não desistiria de minha vida, de minha família por você. Por que... eles me completam... de uma forma maior que... que eu poderia explicar.  Lisa... eu a amo.  Estaria mentindo se negasse isso. Sempre amei. Mas... preciso de mais. E esse mais você nunca me dará.
- Jô... – Lisa balança a cabeça triste. – Jô... – Se ergue do sofá e segura com carinho as mãos tremulas da morena. - Eu... eu errei. Não soube lutar por você. Poderia ter acreditado mais em nós. Joyce você é minha amiga. Minha melhor amiga. E meu primeiro amor...
Jô abaixa a cabeça com um soluço seco. Aperta as mãos de Lisa com força.  Ela perdera. Lisa não lhe pertencia.
- Jô... eu te amo...  de verdade. Mas...
- Não é um amor de mulher. – Jô ergue a cabeça enxugando as lágrimas e a olhando decepcionada.
- É um amor de amiga Jô.
- Lisa... Fomos amantes, isso nunca vai mudar.
- E fomos amigas! E isso também nunca irá mudar. Joyce... eu não sou mais aquela adolescente que te amou. Passamos muitas coisas, tomamos caminhos diferentes. Te amei com toda a força da minha adolescência. Um amor verdadeiro, real. Mas... já não sou mais aquela jovem de ontem. Jô, o amor se transforma! Como nós também nos transformamos. Meus ideais de ontem não são mais os de hoje.
- Eu... eu entendo... – Joyce controla a vontade de sair quebrando tudo pela frente. Viera ali pela filha, não por ela. – Na verdade eu... é como disse a você Lisa. Eu... nunca abriria mão de minha vida por você. Meu amor... não é tão grande assim. Eu... Eu... Mariana... ela... – Passa as mãos sobre o cabelo e geme angustiada. – Eu... minha filha te ama! Merda Lisa! – Jô descontrola por um momento – Como você... como vocês... como isso... porra ela é tão nova! Não... consigo entender vocês... ela... lésbica... e você... Como pode vê-la como mulher? Ela... ela... é minha filha! Como... isso aconteceu?
Lisa solta as mãos da morena angustiada.
- Joyce... nem eu sei! – A olha em desespero. - Depois que voltei ela... ela começou a... se tornar real para mim entende! Quer dizer... como mulher. Sempre presente, ela... ela... Nossa, tínhamos sempre assunto! Conversar com ela é tão... tão... incrível. Ela é tão... inteligente, sagaz... – Olha para Joyce – Ela... me trás paz Jô... com ela sinto que... estou em casa. Sinto-me completa, feliz só por estar ali entende. É um sentimento que vem da alma. Eu... não sei explicar.
- Lisa... – Joyce engole em seco – Você... você... ama minha filha?
Lisa olha Joyce triste.
- Amo Jô. Eu... amo Mariana. 
Joyce sente o ar lhe faltar. Segura a cabeça com angustia e começa a gemer em desespero.
- Jô... Jô! Eu... não queria. Meu Deus, não sabe como lutei contra isso! Eu... não consigo aceitar que eu... possa amar... Mari. Ela... é tão mais nova e eu... sou velha... eu... mas eu a amo tanto... tanto! – Lisa a olha com angustia. – Eu... não consigo mais... não consigo... eu a amo.
- Lisa... Lisa... que vontade de... matar você!!! – Jô termina a frase gritando. Depois põe as mãos para frente procurando se controlar. – Não... eu vim por Mariana... eu... sei que posso... aceitar isso – A frase sai do fundo da garganta, rouca e tensa. Respira fundo e volta o olhar para Lisa. – Não posso aceitar isso... – Desalentada senta no sofá. – Não dá. Não dá. Não dá.
Lisa senta-se a seu lado desanimada, os olhos lacrimejantes.
- Tranquiliza Jô. Eu... não vou procurar Mariana. Sei que não podemos ficar juntas.
Joyce a olha também desanimada. A postura de ambas era de total desesperança.
‘Lisa ama Mariana. ’ Joyce arrasada engole sem seco. ‘ Mariana ama Lisa’. Puta que pariu viu.
Joyce balança a cabeça e dá uma risada irônica.
- Que foi?
- Isso parece uma novela mexicana! Se contasse para qualquer pessoa ninguém acreditaria.
- Nem me fale... – Lisa suspira desanimada. – Filme classe B... daqueles que nos faz sentir raiva de ter pagado o ingresso do cinema.
- Choroso igual aquele filme Italiano... meloso... chatinho... como é mesmo o nome?
- Dio Como te amo?
- Esse mesmo!
Jô olha para Lisa sentindo um carinho aquecer seu coração. Por um momento elas eram de novo adolescentes, buscando transformar o sofrimento numa brincadeira leve e amena.
- Lisa...
- Oi? – A loira ergue o olhar para a morena. Os olhos estavam doces, suaves.
- Nós fomos felizes não é?
Lisa sorri suave.
- Muito Jô.
Devagar Joyce se ergue, pega a bolsa sobre a mesa e caminha para a porta.
- Lisa... temos muitas mágoas e dores entre nós. Eu... dizem que quando um vaso se quebra ele... nunca mais é o mesmo. – Volta o olhar para a loira – Eu... não sei se um dia vou aceitar você e Mariana. Não sei mesmo. Mas... eu conheço minha filha. E ela... ela te ama. Sempre amou. Eu... gostaria de usar sua própria frase a meu favor, dizer que Mariana é uma adolescente e que... não sabe o que é o amor. Mas... eu sei que ela ama. Porque... eu mesmo ainda carrego meu amor por você dentro de mim. A diferença entre nós é que ela... ela vai estar a seu lado. Sempre. E te aceitar. E eu... – Põe a mão sobre a boca – eu... desculpe!
Abre a porta e sai correndo.
Lisa se levanta num salto e corre atrás da morena.
- Jô, espera! – A segura pelo braço.
- Lisa! –Joyce a encara tentando mostrar firmeza. – Me deixe ir.
- Jô...
- Por favor. Me... deixe ir.
Devagar a morena abre o portão.
- Lisa... não desiste de Mariana. Ela... pode te fazer feliz.
Chocada Lisa observa Joyce entrar no carro e partir. Joyce dissera para ela... lutar por Mariana? Ouvira bem? Sentindo as pernas tremulas, senta-se no chão. O conflito de emoções entre ela e Joyce a extenuara. Devagar toca o coração. Por tantos anos carregara com ela a magoa, a dor por tudo que Joyce lhe fizera. E agora... tudo se fora. Joyce levara com ela tudo. Menos o amor.
Sim... o amor que tanto a realizara no passado, finalmente ganha espaço dentro de Lisa, superando todas as magoas e tristezas que, por mais que tentasse, não conseguia tirar de dentro de si. As recordações do passado se tornam suaves, repletas dos momentos de alegria e crescimento que vivenciaram juntas. Joyce voltava a seu coração de forma suave, cheio de encantamento. Um amor puro e sincero.
-Jô... obrigada... obrigada...

Joyce para o carro. As lágrimas a impediam de ver o caminho. Como era difícil. Como era difícil desistir.
- Lisa... Lisa...
Devagar ergue a cabeça e respira profundamente. Olha a rua. Este era o único caminho a seguir. Em frente. Sempre em frente, numa mão única. Passa a mão pelo cabelo.
Busca relembrar uma frase que lera a alguns anos de Clarice Lispector e que sentira como se fosse para ela. Força a mente e começa a recitá-la em voz alta. 

"Não sei perder minha vida”
Não sei qual a minha culpa mas, peço perdão.
A luz do farol revelou-os tão rapidamente que não puderam ver.
Peço perdão por não ser uma "estrela" ou o "mar” ou por não ser alegre
mas coisa que se dá.
Peço perdão por não saber me dá nem a mim mesma,
para me dar desse modo a minha vida se fosse preciso
mas, peço de novo perdão
não sei perder minha vida.

Ela escolhera seu destino.  E faria dele o melhor para ela. O melhor.

domingo, 31 de outubro de 2010

Capítulo XVII

Lisa observa pela janela do carro o transito parado. Engarrafamento em bairro residencial beirava o absurdo. BH estava com um fluxo de carros excessivo. Era estressante. Liga o rádio e uma suave música toma conta do interior do automóvel. Fecha os olhos e respira fundo, procurando se acalmar. De nada adianta ficar nervosa.  Após alguns segundos, abre os olhos e os arregala surpresa.
Atravessando entre os carros, Mari ria abertamente de alguma frase dita por uma jovem mulata que a acompanhava. Estreita os olhos e põe a mão sobre o coração.  Prende a respiração ao ver a jovem pegar na cintura de Mari com naturalidade e intimidade. Segura com força o volante para evitar sair do carro e aos gritos tirar satisfação. Observa as duas se afastarem e começa a tremer. Mari... Mariana... sua Mari, cheia de intimidades com outra mulher?
Põe a cabeça sobre o volante... Quase dois meses que não a via. Procurava de todas as formas evitá-la, cumprindo o que prometera.  Como era difícil! Ela preenchia sua vida, trazia alegria a sua existência.  Maldito dia no sítio. Maldita falta de coragem para enfrentar a situação. Será que ela e a jovem mulata eram namoradas? Esfrega a testa angustiada. Não pode ser! Mariana não podia fazer isso com ela. Sente uma onda de ciúmes dominá-la.
‘Não aceito isso! Você não tem este direito Mariana!’
Bate a mão sobre o volante. 
‘Ok... respira fundo Lisa... respira fundo... coloque os pensamentos no lugar... não tire conclusões precipitadas. São amigas... o toque era amigo. Isso... amizade...amizade. Que ódio!!!’

- Mentira que ele deu um tapa na sua bunda, Nádia!
- Cara abusado, Mari! Imagina! Ainda ficou rindo de mim! Ai se pudesse, corria atrás daquela moto e eliminava este tarado da fase da terra.
Mariana ri ainda mais alto.
- Quem manda andar com estas calças justas?
Nádia a olha indignada.
- São de ginástica Mari! Queria que fosse para a aula de terninho?
- Não – Mariana balança a cabeça divertida. – Imagino a sua cara...
- Não imagine...  – Olha para os lados intrigada - Gente que transito caótico é este aqui no bairro?
- Acidente na Avenida Amazonas. O pessoal tenta desviar por aqui.
- Hum... não sente saudades de morar aqui?
- Às vezes... Mas onde moro também é legal.
- E chique – Nádia faz um ar maroto.
- Ah, cala a boca! Nem me ligo nisso.
- Chegamos.
Nádia abre a porta do prédio onde morava.
- Mamis! Tô em casa!
- Willkommen Tochter
Nádia  sorri ao ver o pai adentrar o ambiente e o abraça.
- Hallo Papa ... das ist mein Freund Mariana
Mari sorri educada ao senhor alto, branco de imensos olhos azuis.
- Mari, este é meu pai.
- Oi... prazer.
O alemão sorri educado, vira-se para a filha e fala em um português carregado.
- Sua mãe foi fazer compras. Vou sair para caminhar. Fiquem a vontade.
Dá um novo sorriso a Mari e acena em despedida.
- Putz Nádia! Seu pai é enorme!
Nadia sorri.
- É um ursão. Gostoso de pegar. Vem. Vou te mostrar os vídeos que falei.
Mariana sorri ao entrar no quarto de Nádia. Parecido com ela. Esfuziante, mas ao mesmo tempo formal. Uma mistura eclética, imprevisivel.
- Mari, queria realmente saber o que pensa quando dá este sorrisinho de lado.
- Gostei do seu quarto.
- Também adoro... mas deixa ver onde está este vídeo. Sei que está por aqui.
Mari caminha por entre as estantes. Para frente a um pequeno porta retrato onde uma loira sorria abraçada a Nádia.
- Quem é?
Nádia olha na direção que apontava, aproxima-se e pega o retrato.
- Ester... Minha... amiga. Alemã.
- Bonita.
Nádia acaricia a pequena foto.
- Bonita não... linda! Ela é linda. –Devagar volta o retrato para a estante. –Era minha namorada.
Mariana engole em seco. Surpreende com a sinceridade da amiga.
- Eu... parece ainda gostar dela. Por que não estão juntas?
- Ah Mari! Pensa! Que amor vence uma distancia tão grande como Brasil e Alemanha? Que amor pode ser tão grande para vencer essa barreira?
‘Meu amor por Lisa‘
Mariana suspira e caminha até a cama, onde se senta. Seu amor por Lisa vencera todas as barreiras. Menos a ultima. Por que? Por que desistira?
- Mari... de novo está com este olhar perdido, triste. Você está bem?
A amiga se senta a seu lado e lhe acaricia o cabelo.
- Nádia... a vida podia ser mais simples ... bem mais simples não acha?
- Sim... com certeza.
- Devíamos amar quem não nos faz sofrer, quem está  perto de nós.
- Mari... – Nádia fecha os olhos angustiada. – Daria tudo para ter Ester aqui comigo. Mas... está alem de nós. Ela não podia vir... eu não podia ficar. Eu... é bom saber que pude viver este amor tão lindo.
- Acha que um dia vai voltar a vê-la?
- Com certeza. Tem que ser. É isso que me sustenta.- Nádia a olha um pouco receosa. – Não te assusta saber que gosto de mulher?
- Não... –Mariana a olha triste – Eu também gosto de mulher Nádia... na verdade de uma mulher. Mas...ela está alem de meu alcance.
- Ah Mari... algo me dizia que você era como eu. Só isso para explicar tanta identificação. Adoro você sabia. Muito.
- Também adoro você Nádia. Muito.
Mariana a abraça com carinho. As duas permanecem unidas por longos minutos. Devagar Nádia a solta e segura com carinho o belo rosto de Mari.
- Seus olhos são tão lindos Mari... tão expressivos.
Mariana pisca sem graça. Instintivamente desce o olhar para a boca carnuda da amiga. Percebe-a se aproximar e fecha os olhos. O beijo delicado, caloroso, aquece o coração de ambas.
Por toda a tarde permanecem abraçadas sobre a cama, caladas, pensativas. Por vezes trocavam beijos, cada vez mais profundos. Não buscavam entender suas atitudes. O que importava é que não se sentiam sós.

Joyce caminha pelos corredores do fórum. Distraída não percebe o homem loiro que a observa.
- Jô? Joyce?
Surpresa vira-se para trás e arregala os belos olhos negros.
- Da...Daniel?
Daniel lhe sorri simpático e constrangido.
- Sim... eu mesmo.
- Que... coincidência encontrar você por aqui. 
‘Nao acredito! Que merda! Merda!‘
- Jô, olha, sei que sou a ultima pessoa que queria ver nesse mundo, mas... é bom vê-la, saber que está bem.
- Não graças a você Daniel!
- Eu sei... – Abaixa a cabeça desalentado. – Fui um cafajeste, eu sei, mas... serve de consolo saber que se pudesse mudaria tudo?
Joyce o olha séria e rancorosa.
- Na verdade  não. Olha, preciso ir. Tchau.
- Pera Jô.
Daniel a segura pelo braço.
- Faz o favor de tirar as mãos de mim!
Ele a solta imediatamente.
- Desculpe. Jô, eu errei. – Olha para os lados – Aqui não é lugar para conversarmos isso. Por favor,  gostaria mesmo de conversar com você. Um café! Só isso que lhe peço.
Joyce observa o homem a sua frente. O tempo fora benéfico com Daniel. Estava bonito, as rugas e os poucos cabelos brancos na basta cabeleira, apenas lhe davam um charme a mais. Suspira tensa.
- Só um café?
- Só um café.
- Ok... um café.

- Então é isso Joyce. Sei que não posso consertar todo o mal que lhe fiz, nem mesmo querer o seu perdão, mas... precisava lhe dizer isso.
Joyce o olha séria e mexe mais uma vez, nervosa, a colherzinha no café já frio.
- Daniel, sinceramente, não me importa o quanto sofreu, se se tornou alguém melhor, se está rico, o diabo a quatro. Não pode voltar à minha vida e achar que num passe de mágica, tudo volta a ser  como antes. As mágoas estão aqui, as cicatrizes  permanecem. Não tem como eu olhar para trás e não ver aquele rapaz arrogante, me mandando  a merda e me virando as costas quando mais precisei de alguém.
- Jô... eu... errei. Eu queria de coração voltar o tempo, poder estender-lhe a mão. Queria ver Mariana, nossa... sua filha crescer, ver sua transformação na jovem incrível que é hoje.
Joyce o olha dura.
- Já sei que se encontraram... pelas minhas costas.
Daniel a olha surpreso.
- Foi ela quem marcou o encontro Jô. E não me arrependo de tê-la conhecido.
- Pois espero que fique apenas nisso. Não quero que mantenha contato com ela.
Daniel a olha firme
- Joyce, já paguei muito caro por meus erros. Se Mariana quiser manter contato comigo, assim será.
Joyce sente o rosto avermelhar.
- Você não tem este direito! Não pode voltar anos depois e achar que nada muda! Querer que ignore tudo que me fez, todo o mal que causou.
- Por Deus Jô! Você nunca errou? Nunca magoou alguém, virou as costas e se arrependeu?
Joyce sente o coração se oprimir.
- Nunca! Jamais faria isso a um ser humano! E jamais abandonaria um filho!
- Jô, este passado é algo que terei que carregar para sempre comigo. Mas lutei e luto muito para ser um ser humano melhor, evito magoar as pessoas. Tirei meu aprendizado de tudo isso. Não vou dizer que sou perfeito, mas tenho orgulho da pessoa que sou hoje. Você pode não me dar seu perdão, mas eu me perdoei.  E isso me torna alguém melhor.  Sinto muito por suas cicatrizes, pela ferida que não fecha.  Tenho consciência que seria exigir muito que você esqueça tudo que aconteceu. Olha, sei que refez sua vida, que está casada e feliz. – Daniel a olha sério. – Bom, não vou ocupar mais seu tempo. Eu...  você fez um bom trabalho com Mariana. Ela é um ser humano maravilhoso.
Levanta-se com tranquilidade.
- Obrigado pela atenção. – Sorri atencioso. – Você continua linda.
Joyce o observa se afastar. Tremula, beberica o café e faz cara de desgosto. Frio. Suspira e coloca as mãos sobre os olhos.

‘Por Deus Jô! Você nunca errou? Nunca magoou alguém, virou as costas e se arrependeu?’

A frase insistia em se repetir em sua mente. Sim, ela errara. E esperava de Lisa o perdão que recusara a Daniel. Ignorara suas atitudes do passado e mesmo do presente, querendo Lisa de volta a sua vida, sem abrir mão de nada. Como se nunca tivesse lhe virado as costas, a menosprezado, humilhado, ignorado por tantos anos. E depois... Geme com vergonha. Correra atrás dela, desejosa da satisfação sexual, ignorando seus sentimentos, sua dor.
Observa a porta pela qual Daniel, o pai de sua filha, se retirara. Que moral ela tinha de criticá-lo?  Por acaso ela fizera menos ao amor de sua vida? A pessoa que lhe apoiara, sofrera com ela, estivera a seu lado em todos os momentos, bons e ruins?
Levanta-se e sai da lanchonete,  acabrunhada e pensativa.  Nunca pensara nos sentimentos de Lisa, nas cicatrizes que ela carregava. Achava que o fato de amá-la resolvia tudo. Mas o amor muitas vezes não era a solução. Ergue a cabeça e observa o movimento das pessoas a seu redor. Gira numa volta de 360° sobre si mesma e respira fundo. Nada era tão simples assim. Nada se acomodava no lugar. Tudo caminhava, evoluía. Até o amor. Ergue o olhar triste para o céu. Talvez ela estivesse errada em seus pensamentos.
O amor podia ser a solução.

- Transito dos infernos!
- Lisa! Olha a boca! Dizem que tem diabinho que adora cozinhar loiras só para ver se elas ficam morenas. – O pai gargalha da própria piada.
- Ra Ra Ra, eu ri.
- Credo, que mau humor filha!
- É porque não foi você que enfrentou um transito horrível, só para chegar em casa.
O pai sorri, estica as pernas e coloca os braços atrás da cabeça.
- Inveje... Contemple minha mordomia. Sem horários, sem pressa, sem compromissos. E viva a aposentadoria.
Lisa o olha, entre indignada e divertida. Vira-lhe as costas sem responder e bate a porta do quarto. Senta-se na cadeira da cômoda e se olha no espelho.

‘Pode amanhã esta pessoa não a querer mais Lisa... É isso mesmo que quer?’

Lisa relembra as palavras de Deise.

‘Lute... Lute por sua felicidade. ’

Devagar abre uma pequena gaveta na cômoda, de onde retira um álbum de fotografias. Acomoda-o no colo e o abre.  Sorri ligeiramente ante as fotos dela pequenina. Troca as paginas até ver uma foto dela e Joyce ainda crianças. Pequenas, sorridentes, inseparáveis. Por páginas e páginas fotos dela e Jô. O primeiro dia juntas no clube, na escola, cheias de tinta por tentarem pintar a parede da sala de estar. Jovens, com fingido ar de sabedoria, abraçadas, com um olhar cúmplice de quem guarda um segredo valioso.  Jô grávida, com ela possessiva segurando-lhe a barriga. Mariana, bebê em seus braços... Criança, sorrindo sem os dentes da frente, abraçada ao bichinho de pelúcia que lhe dera. Fotos variadas da jovem morena, com seus pais e ela, durante as visitas que fazia a BH, quando ainda morava em São Paulo.
Luiza... Devagar passa os dedos pela imagem querida. A foto tirada na festa de quinze anos de Mariana fazia jus a toda a imponência da bela morena. Suspirando passa a página. Ela e Mari...  Linda, na flor dos quinze anos. O sorriso de ambas exalando felicidade. Ela olhava diretamente para a câmera e Mari... esta focava toda a atenção a ela. O olhar, brilhante e amoroso, não escondia o sentimento de sua alma jovem.
Volta o olhar para a gaveta, de onde tira outra foto. Sorri saudosa. Era dela e Mariana, em uma das vezes que passearam juntas pela cidade.  Os belos olhos verdes estavam sorridentes, apaixonados, o sorriso aberto. Era tão linda sua Mari. Percebe mais uma foto na gaveta e estreita o olhar, balançando a cabeça numa negativa angustiada. Nunca a vira antes. Possivelmente fora sua mãe quem a colocara ali.
Segura tremula a foto. Nela, Joyce e Mariana sorriam abraçadas, os olhares voltados para a câmera. Vê a data impressa. Fora tirada um pouco antes de sua volta a BH. Novamente observa a imagem das belas mulheres. Eram tão únicas. ... Tão maravilhosamente únicas. Fixa o olhar em uma delas. Uma dor imensa vem a seu coração.

- Ah Deus...  – Sussurra baixinho colocando a cabeça entre os braços. – Não aguento mais senhor... não posso mais lutar contra este sentimento.  Eu a amo... eu a amo... ajude-me pai... eu a amo. Me ajude.

“Se uma pessoa perguntar durante meia hora "eu", essa pessoa se esquece quem é. Outras podem enlouquecer. É mais seguro não fazer jamais perguntas - porque nunca se atinge o âmago de uma resposta. E porque a resposta traz em si outra pergunta.”