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sábado, 7 de agosto de 2010

Capítulo III

' Estou sonhando?'
Mariana fecha novamente os olhos, aperta e os abre novamente. A mulher loira ainda estava a sua frente, com os olhos arregalados e a mão sobre o coração.
- Lisa?
- …
- Lisa... Lisa... eu... eu só posso estar sonhando. - Esfrega os olhos se colocando sentada na cama. Escuta um gemido baixo e abre-os novamente fixando-os na mulher perto da cama.
- Lisa? Lisa... Você voltou? - Mariana diz baixinho, quase com medo da imagem a sua frente desfazer como tantas vezes no passado.
Lisa respira fundo. Não conseguia desviar o olhar dos seios desnudos agora expostos a seus olhos.
' Respira Lisa, esta é Mariana!'. Encara a bela jovem.
- Eu... eu... er... Mari? Você está... adulta.
- LISA!!!!
Mariana pula da cama enlouquecida.
- Eu não estou sonhando!! Lisa!!! - Abraça a loira em total felicidade. - Eu recebi todas as suas cartas, seus postais, tudo! Tão lindo Lisa!! Eu amei! Que saudade!!! Como eu te amo!
A loira abraça a jovem que a agarrava quase em desespero como que com medo que ela desaparecesse. Suas mãos tremulas deslizam suaves pela cintura fina. Sente a pressão suave dos seios e com muita dificuldade segura o gemido que lhe vem a garganta.
- Mari... minha Mari... eu... Tambem tinha muitas saudades... eu... er...
Lisa com dificuldade segura os braços que a enlaçavam e se desprende da jovem eufórica. Afasta-se ligeiramente de Mari procurando não olhar o corpo coberto apenas por uma calcinha de renda. Solta uma risada sem graça.
- Você dorme bem vestida né!?
Mariana arregala os olhos e olha para baixo, para o próprio corpo. Seu rosto se avermelha e num gesto quase inocente tapa os seios.
- Cara, esqueci!
Volta correndo em direção a cama e pega a colcha se cobrindo com ela. Lisa sente um misto de alivio e tristeza em ver toda aquela beleza agora coberta.
Mariana ainda de costas para ela, respira fundo e, procurando se controlar, volta-se para a loira.
Lisa a olha fixo num olhar incerto. As duas se encaram agora em silencio.
Mariana repara cada mudança na amada. Lisa parecia tao diferente, mas ao mesmo tempo tao igual a sua lembrança. A expressão do rosto, a postura elegante e altiva. Linda... Lisa era linda.
- Você... não mudou nada.
Lisa se assusta com a voz de Mariana. Devagar solta o ar, que sem perceber que o retera em sua admiração pela jovem mulher.
- Eu mudei sim Mari... mas acredito que para melhor.
Caminha em direção a cama e se senta nesta. Dá um ligeiro tapinha no colchão a convidar a jovem a sentar a seu lado.
- Mas vendo você hoje, tao linda, tao jovem, nunca me senti tao velha, madura, vivida. - Sorri delicada já no controle de suas emoções.
- Que isso Li... Você é jovem.
- A idade de sua mãe. - E sorrindo abraça a jovem pelo ombro. - Suficiente para dar ordens em você mocinha!
Mariana se afasta do abraço fraternal.
- Minha mãe é jovem Lisa. E vocês são muito diferentes. Não consigo te ver como ela. E não sou mocinha, sou mulher. Sou dona de meus atos ok. Não preciso de ordens.
- Ei, calma! Eu brinquei. Eu vi que já é mulher. E aponta brincalhona os seios da jovem.
Marina sente novamente todo o sangue subir a seu rosto.
- Eu... não quis dizer isso.
- Mari... eu... nossa senhora. Você puxou o gênio de sua mãe? Tudo menos isso. - Ergue as mãos em brincadeira.
- Eu … ah Li... Você é foda. Mal chega e quer me comparar com minha mãe? Eu não pareço com ela. Não sou duas caras. Sou sincera e se considera ser geniosa falar na cara o que pensa, então eu sou. Não guardo pra depois. E outra. Penso para falar. Não vou dando a cara pra bater por ai achando que o mundo tem que estar a meus pés. Não me compare com ela!!
Lisa arregala os olhos a medida que a voz da jovem vai aumentando de volume. Ao ver Mari silenciar para respirar, cala a boca dela com a mão.
- Tem razão Mari... Você não tem o gênio de sua mãe. - E ri ruidosamente ao sentir esta tentar se soltar de sua mão. - Mas por via das duvidas prefiro me prevenir, diz irônica.
- Humuuhum...
- Cumã? Disse algo?? Mari?? - E rindo, aperta ainda mais a mão sobre os lábios de Mari.
Vendo que esta começa a se impacientar a solta repentinamente, abraçando-a imediatamente e jogando-a sobre a cama.
- Saudade de você princesa!!! Que saudade…
Mariana sorri , o coração disparado. Nunca a raiva lhe passara tao rapidamente. Lisa a abraça com tanto carinho que seu coração derrete. Retribui o abraço amado procurando transmitir todo o amor que sentia. Suspira enlevada em sentir a loira sobre si. Era tão bom...
' Você voltou Lisa... voltou para mim...'
E chora...

Lisa abraça a jovem sentindo seu choro sentido. A acolhe ainda mais carinhosamente nos braços. Beija com carinho os cabelos perfumados e o carinha suavemente com a face. Esta era sua Mari. Sua menina. Fecha os olhos procurando lembrar Mari em varias fases de sua vida. Recém nascida, menininha, a bela jovem de 15 anos. Suspira. Nada mudara certo? Estava tudo bem. Ergue um pouco o corpo e olha jovem que agora enxugava as lágrimas. Levanta-lhe o queixo sorrindo, mas logo fica séria.
Verdes... O olhar de Mariana. Profundo, firme, adulto. Lisa procura lembrar a criança, mas somente lhe vem a mente o olhar de Mariana. Como agora. Fecha os olhos, a tentar quebrar o contato entre elas. Mari nunca tivera um olhar de acordo com sua idade. Nem quando criança. A sensação de predestinação surge forte no coração de Lisa. ' Isso não está certo'
Ergue-se agitada.
- Eu... preciso de um banho. Olha a jovem apoiada sobre o colchão. - não saia daí Mari... temos muito que falar.
Pisca alegre, procurando não demonstrar a confusão que lhe vai no coração e se retira rápida para o banheiro. Encosta a porta e coloca as mãos na testa. Não queria pensar, não queria sentir. Estava confusa, era isso. Retira a roupa e entra no chuveiro deixando que a agua lhe cair sobre o corpo. Mariana era a cara de Jô. Por isso a confusão, a angustia. Precisava saber separar seu passado e presente. Era isso! Ver Mariana lhe trouxera a Joyce adolescente ao coração. Bastava separar esses sentimentos. Só isso. Respira e começa a tranquilizar mente e coração.

Mariana se ergue tremula da cama. Lisa estava de volta! Põe a mão sobre o coração. Estava disparado. 'Respira Mari, respira. Você não pode se expor assim. Ela não pode perceber! Tem que ir devagar.' Solta um grito e num pulo salta da cama. Começa uma ligeira dança pelo quarto. Sorrindo rodopia sobre si mesma e ergue os braços em total alegria. 'Lisa voltou para mim !'
Corre para a cômoda e, pega sobre ela, a roupa que usara no dia anterior. Seu rosto se anuvia. Sua mãe...
Senta-se ao lado da cômoda e alisa a roupa no colo. 'Droga mãe... que você está fazendo?' Emburrada começa a vestir-se. Até no momento mais valioso de sua vida sua mãe dava um jeito de interferir. Procurando esquecer o assunto, penteia o cabelo com a mão e a passa pelo rosto. Olha a porta do banheiro cautelosa. Caminha devagar para ela e testa a maçaneta. Estava aberta. Com o coração disparado entra no mesmo. Vê a silhueta de Lisa no banho, através do box. Geme baixinho.
Lisa... põe a mão sobre a boca. Desliza o olhar pelo corpo nu, e se angustia por não poder vê-lo com exatidão. Uma dor se faz presente na virilha. Arregala os olhos e se vira saindo rapidamente do banheiro. Somente Lisa a fazia sentir isso.
Sai do quarto.

- Bom dia Mari. Dormiu bem?
- Madrinha... Mari procura controlar o tremor do corpo. - Muito bem … eu... vi Lisa.
- Ah filha! Não é maravilhoso! Nossa menina voltou! E abre os braços acolhendo a afilhada querida.
- Demais madrinha. Ela... tá linda né.
- Demais. Vamos ter muito que conversar. Você está melhor?
- Muito.
- Quer falar sobre o que lhe angustia?
- Madrinha... já passou. Deixa pra lá.
- Tudo bem. Então venha tomar café.
- Já vou, só vou rapidinho no banheiro. Lisa tá tomando banho no do quarto.
- Ok filha. Olha, vou com seu padrinho na feira. Com Lisa em casa quero fazer um almoço especial. O café vai estar sobre a mesa ok.
- Tudo bem. Te amo madrinha.- E dá um beijo no rosto de Paula.
- Tambem te amo querida.

Lisa sai do banho coma toalha sobre o corpo. O quarto estava vazio. Suspirando caminha em direção a cômoda e a abre. Sorri. Sua mãe ainda tinha guardado algumas peças de roupa suas. Segura-as sobre o corpo. Balança a cabeça nostálgica e as coloca novamente na gaveta. Retira da mala um short e uma camiseta. Olha a cama desarrumada. Perdera totalmente a vontade de descansar. Delicadamente passa a mão na colcha. Suspira. Sua volta para casa estava sendo realmente uma surpresa.
- Mãe?
- Ela saiu Lisa.
Lisa volta-se surpresa para a porta da cozinha. Mariana segurava um pão fresco e uma faca na mão. Esta os ergue brincalhona.
- Quer?
Marina come deliciada a rosca .
- Cara, a madrinha tinha que comercializar essas roscas. Ia ficar rica.
- Realmente ela cozinha bem .- Lisa põe a mão sobre o queixo a observar Mariana.
- É uma delicia ver como saboreia a comida Mari.
- Lisa, se tem algo que não faço media é comida.
- Perceptível.- Volta o olhar para a boca de Mari. - Você tem um pouco de manteiga no canto da boca.
- Onde? Mariana passa língua suavemente sobre os lábios.
Lisa fascinada acompanha o movimento. Não havia nenhuma malicia no gesto, mas percebe angustiada o quanto tal ato a afeta.
- Limpou Li?
- Sim...
Mariana percebe o olhar de Lisa sobre sua boca. Novamente passa língua sobre os lábios e vê as pupilas de Lisa se dilatarem. Esta ergue o olhar e a encara.
- Mari...
- Que foi Li?
- Nada... nada. Ou melhor... Você está bem?
- Como? - Mariana a encara surpresa. - Estou sim, porquê a pergunta?
- Minha mãe disse que você chegou tarde da noite muito angustiada. Aconteceu alguma coisa?
- Aff... Tia Paula também é muito preocupada.
- Realmente ela é. Mas com certeza aconteceu algo. Quer falar nisso?
'Você está é desviando o assunto Lisa' Pensa Mariana afastando uma mecha de cabelo da testa e encarando a loira agora mais séria. De repente, uma ânsia de falar sobre o que vira na noite anterior se faz presente. 'Li...'. Pedira tanto sua presença para poder conversar sobre tudo que acontecera.
- Li... eu... eu quero falar. Preciso falar.
- Estou aqui Mari.- E segura a mão da jovem.
- Lisa... ontem eu vi minha mãe num bar... com outra mulher.
Lisa solta sua mão como se esta a queimasse. ' Jô com uma mulher?'
- Como é?
- Eu vi minha mãe num bar GLS. Aos agarras com outra mulher!
- Eu... Mari... tem certeza?
- Claro que sim! E elas me viram! Saíram quase fugidas!
- Meu Deus!- Esfrega os dedos na testa. - Você… ela... num bar GLS???
Olha assustada a outra. ' Jô...e uma mulher?'
- Não! Eu... eu tava como simpatizante. Mas ela... ela tava beijando a outra Lisa. Eram tão... intimas.
- Simpatizante... quer me dizer que não é lésbica. Não precisa afirmar isso Mari.
'Não acredito que a Jô esteja com uma mulher!'
- Que isso Li! Não quis dizer isso! Ou melhor, quis... porra você tá me confundindo! A história é que fui no bar com minha amiga que é assumida e dei de cara com minha mãe lá, aos agarras com uma mulher. Não sou preconceituosa.
- Ah Mari... nem sei o que dizer.
- Você é lésbica Lisa! Você sempre assumiu isso! Namorou pessoas incríveis...a Lu... ela era lindona e eu... eu... bom Você nunca casou e teve filhos e … trai o marido, os filhos, a vida porra. Ela é casada. É uma … sem vergonha, falsa. Se não ama mais meu padrasto separa! Sai dessa. Se quer ser lésbica, vai ser! Mas assume pô! - Passa a mão sobre o rosto angustiada.
- Mari... Mari... - Lisa se ergue da cadeira e ajoelha ao lado jovem. - Mari... nada é tao simples assim. Assumir é algo muito difícil. Nem todos tem os pais a seu lado como tive.
- Lisa, é questão de... respeito próprio. Eu... ela é uma covarde e … Lisa... ela gosta de mulher! E de homem! Ela fica com os dois.
- Conheço muitas pessoas assim querida.
'Merda Jô, você só faz merda! Uma mulher droga!'
- Tá, mas nenhuma delas é minha mãe droga! - Mariana se levanta revoltada. - Você sabia Lisa? Sabia disso?
- Mari... Mariana.... não vejo sua mãe deste os seus quinze anos. Como poderia saber disso?
Lisa sente a angustia crescer no peito. Onde Joyce estava com a cabeça para se expor assim? E se Mari desconfiar de ambas? ' Merda Jô'
Mariana segura o rosto com as mãos.
- Desculpe... desculpe...não quis ser agressiva . É que … tá sendo difícil sabe. Minha mãe... ela passa uma pose tao de moral entende! Que nunca faz nada errado. Mó exemplo. E de repente... lá esta ela... aos agarras com uma mulher.
- E o que te incomoda Mari? A traição dela ou o fato dela estar com uma mulher? - A opressão não deixava-a respirar direito.
- Os dois Li! Os dois!
- Porque os dois Mari??
- Porque... porque eu não respeito quem mente... quem trai. Quem ama é fiel... tem consideração a pessoa que escolheu passar a vida. Paixão é passageira Li. Ela vai embora. E pode destruir vidas. Famílias.
- Eu concordo Mari... sua mãe … ela... deve estar confusa... pode ser um momento.
- Eles... meus pais... eles não estão bem a tempos mas... poxa... se querem ficar juntos, eles tem que lutar um pelo outro, não buscar na rua … outra coisa qualquer.
- Ah Mari... Mari...
Mariana ergue o olhar para Lisa.
- Ahh Li... o fato da coisa qualquer ser mulher não me incomoda. Quer dizer, não incomoda o fato em si... ser mulher. A traição que é uma merda.
- Então porque disse que te incomodava Mari?
- Porque... porque... - Abaixa o olhar angustiada. - Porque... Li... agora sei que herdei isso dela.
- Isso o que Mari?
Mariana ergue os olhos para Lisa. Um olhar profundo, misterioso.
- Mulher Li... gostar de mulher. Eu... gosto de mulher.

"Em tudo que a natureza opera, ela nada faz bruscamente..."
Autor desconhecido

sábado, 26 de junho de 2010

Capítulo II

Mariana desce do taxi e olha, com um olhar avaliativo, a entrada de sua casa. Saudades da simplicidade da casa da avó, dos padrinhos....da vida antiga. Sua mãe realizara todos os sonhos. Uma bela casa, um marido, filhos... e uma baita de uma amante. Contorce o rosto num espasmo de ironia e raiva. Houve um chamado e volta o olhar ao motorista que aguardava o pagamento da corrida. Num ato impulsivo volta a entrar no taxi.
- Mudei de ideia. Por favor me leve ao bairro Prado.
Paula ouve a campainha do interfone e olha preocupada o relógio. ' Quem seria a esta hora da noite?' Marcos surge na porta do quarto de pijama.
- Deixa que atendo. Quem é?
- Padrinho... é Mari...
- Mari? Meu Deus filha! - Olha assustado a esposa. - Entre. - Aperta o interfone que abre o portão, abrindo imediatamente a porta de entrada.
Abraça carinhoso a afilhada que retribui o gesto carinhosamente.
- Tudo bem Mari? Paula toca levemente o ombro da jovem
- Ah...madrinha.... - Mariana se solta dos braços de Marcos e se joga nos de Paula. - Posso passar a noite aqui?
Paula olha Marcos indagativa e carinhosamente passa a mão nos cabelos da afilhada.
- Claro filha, você é sempre bem vinda aqui.
Mariana deixa rolar uma lágrima. Estar nos braços da madrinha aliviava um pouco a angustia.
- Mari... o que aconteceu? - Paula lança um olhar ' fora daqui' a Marcos que estava ao lado delas. Ignorando ostensivamente a esposa Marcos abraça as duas.
- Eba ! Adoro abraço coletivo na madrugada!
- Marcos!
- Sim amor?
- Toma rumo! - E aponta a porta do quarto.
- Fogo mulher mandona. - Olha a afilhada mais sério. - Sabe que pode sempre contar conosco né Mari!
- Sei sim padrinho... - sorri carinhosa para ele. - Amo você viu!
- Também amo você – Olha a esposa – Já estou indo mulher!!
- Mari?
- Madrinha... - A jovem sai dos braços de Paula e caminha pela sala até parar frente à porta que dá para a cozinha – Vou tomar um pouco d'água. Posso ficar no quarto de … Lisa?
- De Lisa? Claro querida. Tenho certeza que ela não vai se importar. - Paula sente que não deve forçar a jovem a se abrir. ' Tudo a seu tempo'. - Mas vai avisar seus pais que dormirá aqui, ok!
Mariana vira o rosto de forma esconder a angustia que sentia da madrinha.
- Claro... eu... vou mandar uma mensagem. Se não se importa posso ir para o quarto?
- Pode filha. Olha, tem toalhas na gaveta da cômoda. - Quer que lhe arrume uma camisola?
- Não... não, eu me viro. Obrigada madrinha. Você é tudo!! - Abraça Paula com força e se afasta em direção ao quarto.
Paula a observa se afastar. ' Que será que aconteceu para angustiá-la tanto?'

Já no quarto Mariana senta na cama. Delicadamente toca o lençol. ' Lisa já dormiu aqui'. Suspira pesarosa e deita-se abraçando o travesseiro. ' Se Lisa estivesse aqui ela saberia o que devo fazer com tudo que aconteceu... como minha mãe pode fazer isso??' Relembra a mãe sorrindo com o rosto praticamente grudado ao da outra mulher. Balança a cabeça violentamente e tentar apagar a imagem da mente. E a mulher a olhando então? Que desaforo!
'Pera... a mulher me olhou!' Mari senta-se repentinamente. 'Meu Deus! Se ela me olhou naquela curiosidade é porque... elas me viram! Minha mãe me viu!' Mari segura a cabeça com ambas as mãos. ' Que faço meu Deus? Que faço?'

Joyce deita-se de lado e observa a amante que ainda recuperava a respiração após o prazer que ela lhe proporcionara.
- Uau mulher! Se cada vez que passarmos sufoco você vier quente como agora, quero passar isso mais vezes.
- Tá doida Ju? - Joyce põe a mão sobre os seios. - Tremo só de pensar no que poderia ter acontecido naquele bar. Nunca mais vou lá.
Juliana sorri e vira o rosto para a morena.
- Nada a ver. Poderia acontecer em qualquer bar da cidade.
- Pode ser, mas nunca seria tão suspeito quanto um GLS.
- Jô.. Belo Horizonte é uma capital com ar de interior, acontecimentos de cidade do interior. Você sempre encontra um conhecido em cada esquina, em qualquer lugar, até os mais inesperados.
- Tudo bem, mas não vou facilitar. Alias, não gostei nada de ver minha filha naquele ambiente.
- Nada a ver, que isso! Bar GLS agora é moda Jô
- Ai que saco... vamos mesmo ficar falando disso? - Jô olha a amante com um olhar safado – Você devia é retribuir tudo que te dei.
Insinuante entreabre as pernas expondo a vulva molhada e sedenta de satisfação. Juliana sorri safada e se inclina lambendo lascivamente o centro de prazer da bela morena. Joyce joga a cabeça para trás e geme languidamente.
- Que delicia.... continua gostosa.
Juliana morde sem dó os grandes lábios de Jô e se delicia com o pequeno grito que esta dá.
- Safada! Isso dói!
- É para doer Jô... você não quer prazer? Pois vai ter.
Chupa quase com violência a morena e começa a mordiscar o clitóris inchado. Jô abre ainda mais as pernas. Juliana a segura pelas coxas e com a língua penetra seu interior, saboreando o gosto adocicado de sua amante. Repentinamente ergue- lhe as pernas e a vira, colocando-a de quatro. Abri-lhe bem as nádegas insinuando o dedo pelo anus de Jô. Esta trava imediatamente.
- Nem ouse Juliana.
- Porque? Vai impedir?
- Não quero.
- Pois não te perguntei.
- Eu disse que não quero e.... ai!!!
Juliana numa única estocada a penetra por trás.
- Não quero! Para!
- Sim, você quer Jô. Você não presta. É uma sem vergonha sem limites. Você só quer prazer, tesão, satisfação. Não quer? Então por que geme? - Bate nas nádegas expostas. - Rebola sua vagabunda. Rebola para mim.
Joyce queria evitar o prazer, o orgasmo. Sem conseguir se conter começa a rebolar. Os tapas lhe doíam corpo e alma. O corpo clamava a satisfação por um prazer quase proibido, mas a mente não aceitava sua vontade contrariada. Gemia com prazer, raiva, angustia. Grita entre soluços ao sentir o orgasmo. Força o quadril nos dedos que a penetram e machucam. Assim era o sexo entre elas. Animal, satisfatório e superficial. Extenuada, Joyce se deixa cair sobre a cama de lado. Juliana sorri satisfeita e, lançando lhe um olhar arrogante, ergue-se caminhando em direção ao banheiro. Jô a observa. Uma tristeza toma conta de si. Essa era a vida que escolhera? Estava realmente feliz? Pensa no marido, nos filhos... ' Mariana...'.
Sem forças a mente volta ao passado, nas duas adolescentes que se tocam descobrindo juntas a satisfação de ' fazer amor'. Suavemente relembra Lisa, o rosto iluminado pelo seu primeiro orgasmo. O coração se preenche.
Suspira tristemente. De repente a vida não lhe parecia mais tão perfeita.

Joyce suspira ao entrar dentro de casa. O silencio era quase opressivo. Olha o relógio sobre o sofá da sala. Duas horas da manhã. Já previa Carlos reclamar da demora. Achar absurdo uma mãe de família voltar de madrugada. ' Aja paciência'.
Caminha em direção ao quarto evitando fazer barulho. Para frente ao quarto de Mariana. Devagar abre a porta e surpresa vê a cama arrumada. Angustiada sente o ar lhe faltar. Onde estava Mariana?
Sem pensar abre a porta do quarto de casal quase aos gritos.
- Carlos, cadê Mariana??
- Carlos acorda assustado.
- Que? Que houve? Jó? Endoidou mulher? - Olha o relógio assustado – Isso são horas de chegar?
- Não interessa?? Cadê Mariana??
- E eu que tenho que dar conta dela??? Se você fosse uma mãe mais presente saberia onde SUA filha está.
- Ah vai pra merda! Você é uma ameba mesmo! - Jô sai batendo a porta.
Carlos indignado levanta e só com a calça de pijama vai atrás dela.
- Vai a merda você, Joyce. você chega tarde e exige saber onde anda sua filha?
- Você quer que eu de conta sozinha das crianças? - Pois é obrigação sua saber com quem e por onde eles andam. Você nem se interessa né! Ela sumiu e não está nem aí.
- Me poupe Jô. Ela tem dezoito anos. Deve estar se divertindo com os amigos. Mas e você? Se divertia também?
- Isso não é hora de me encher o saco Carlos! Quero saber onde Mariana está. Se não pode ajudar, desapareça de minha frente.
- Quer saber! Tô de saco cheio de você. Resolva sozinha seus problemas. - Carlos vira as costas a esposa e volta para o quarto batendo a porta.
Ignorando o rompante nervoso do marido, Joyce, angustiada, esfrega a testa com a mão 'Cadê você Mariana?' Abre a bolsa e pega o celular sem saber exatamente que atitude tomar. Observa o visor e surpreendida vê uma mensagem da filha a piscar.

'Mãe, resolvi dormir na madrinha. Estava com saudades deles. Não se preocupe comigo.
Mari'


Joyce sente-se tonta e segura o batente da porta. Suspira tensa e após alguns minutos volta o olhar para porta do quarto de casal. Sentindo-se sem opção, caminha em direção à mesma e a abre ainda tensa.
- Carlos, me desculpe. Você tem razão.
Carlos ergue a cabeça do travesseiro observando a esposa que se encontrava numa postura de 'quase' submissão. Põe o braço sobre a testa.
- Tudo bem.
- Eu sei que não está tudo bem.- Joyce senta-se na cama e tira o braço do marido do rosto.
- Me desculpe, Você está certo. Eu não deveria ter chegado tão tarde. É que o encontro estava tão bom e havia tempo que não via as meninas. Vou evitar fazer isso novamente ok.
Carlos observa a esposa sério. Ele não era bobo. Sabia que havia mais por trás das palavras e atitudes da esposa. Desiludido faz um gesto afirmativo com a cabeça. Aonde fora parar os dois jovens apaixonados do passado? Ergue a mão e toca o rosto da esposa. Joyce era uma mulher linda. Mas algo morrera. Cansara de contar as vezes que a traía. Na verdade, buscava fora do casamento a satisfação que faltava neste.
Joyce percebe o olhar distante do marido. Desanimada se ergue da cama e afasta-se em direção ao guarda-roupa. Tira o vestido de costas para o marido sentindo-se estranhamente inibida. Este observa a postura intimidada da esposa. Um suave sentimento de ternura assola seu coração. 'Meu Deus será que valia mesmo a pena manter um casamento por amizade, aparências?'
Observa, desta vez analisador, o corpo da esposa. ' Linda...'
Um sentimento de posse começa a substituir a ternura antes sentida. Que diabos... ela era sua esposa. Devia-lhe satisfação e prazer. A luxuria se faz presente em seu olhar. Ele era homem. E ela sua mulher. Ergue-se e caminha em direção a esposa erguendo-a pela cintura. Joyce solta um grito de surpresa ao ser agarrada por trás. Sem atitude se vê jogada sobre a cama.
- Carlos...
- Você me deve isso Jô. Você me deve isso.
Jô observa o marido tirar a calça do pijama. Estava duro, firme. Carlos sobe em cima, dela abre-lhe as pernas e a penetra. Movimentando-se quase violentamente segura-lhe os seios possessivo. O suor começa a escorrer por sua pele a medida que seus movimentos se tornam mais frenéticos. Submissa a esposa se submete a seu domínio. Perto do orgasmo Carlos lhe segura o queixo e a faz encara-lo.
- Aprenda Jô... - e dá-lhe uma estocada. - Eu sou seu marido. E eu faço o que quiser de você. - Novamente a penetra fundo – Você me … deve isso.
Joyce vê o rosto do marido se transformar com o orgasmo. Não sente nada. Nem desejo, nem prazer, nem satisfação. Após o orgasmo, Carlos sai de cima dela, se vira para o lado e logo adormece.
E o resto da noite Jô permanece acordada, pensativa... nua e vulnerável.
 

Marcos boceja preguiçoso. Toma um gole de café e faz uma careta. Detestava café dormido. 'Vontade de acordar Paula para fazer um café fresquinho'. Toma um novo gole do café e observa o dia amanhecer lentamente pela janela. Olha o relógio sobre a geladeira. Cinco horas da manhã. Passa a mão pelo cabelo já ralo e espreguiça com um bocejo alto. Levanta-se põe a xícara sobre a pia e abre a porta da cozinha. Caminha pelo jardim e num gesto quase automático abre o portão para ver melhor a rua.
- Ah!!!
Assustado, pula para trás para não ser atingido pela mulher sentada a beirada do portão. Esta se ergue também assustada para logo depois soltar um grito de felicidade.
- Paizinho!!
Marcos pisca várias vezes na certeza de ainda estar dormindo.
- Lisa? Lisa é você??? - Enlouquecido a abraça apertado rodando-a pelo passeio – LISA!!!
Os dois permanecem unidos no abraço por vários minutos. Logo Marcos a segura pelo rosto.
- Mas veja a minha menina! Que saudades! Você está com a pele bronzeada! Veio para ficar? Meu Deus, não quero nem imaginar a reação de sua mãe!!! Quando chegou! Você nos mata ainda de preocupação menina! Nossa senhora, nem acredito que está aqui!! - E a abraça novamente
- Pai... calma... pai... pai... pai... Você está me sufocando!! Pai!! - Lisa se desprende, sorrindo emocionada, dos braços de Marcos. - Eu voltei. - Olha o pai séria. - Voltei para ficar.
Paula acorda com o aroma delicioso de café fresco vindo da cozinha. ' Mentira! Marcos fez café?'
Ergue da cama põe um roupão e caminha desconfiada em direção à cozinha. Para surpresa, ao ouvir vozes animadas vindo da mesma. Mas com quem Marcos conversava a esta hora da manhã? Apura a audição e , levando a mão a boca, sente os olhos encherem de lágrimas. Era a voz de …
- Lisa... é você filha? A voz sai quase um sussurro, tamanha a emoção contida. Mas é suficiente.
Lisa interrompe uma frase ao meio e a olha com os olhos repletos de amor. Ergue-se quase cambaleante, ficando frente a frente com a mãe
- Mãe.. minha mãe..
As duas se abraçam sem mais palavras. Marcos observa feliz o reencontro de mãe e filha. E após vários minutos, aguardando impaciente as duas se desprenderem do longo abraço, levanta-se e une-se a elas esfuziante.
- Adoro abraço coletivo – diz rindo, logo sendo acompanhado pelas duas mulheres amadas.
O tempo parecia passar rápido demais. Paula, ansiosa, queria saber mais e mais da filha. Lisa rindo respondia pacientemente às perguntas da mãe. Esta, a cada caso contado pela filha, sentia os olhos se encherem de lágrimas. Lisa estava tão... viva. Tao... iluminada. Seu olhar estava firme e direto. O cabelo mais claro, cumprido e queimado de sol. O sorriso, suave, voltara a ser o mesmo que tantas vezes vira em suas feições antes adolescentes. Só que agora num rosto de mulher, forte, firme, com linhas suaves a lhe definir e enobrecer as feições. Lisa, expressivamente mostrava nas marcas da vida, todas as alegrias e tristezas que passara. Mas também toda a determinação de uma mulher que estava em paz consigo mesma e com a vida.
- Mãe, pai... estou cansada. A viagem foi longa. Se importam se eu tomar um banho e descansar um pouco?
- Claro que não Lisa! Vou arrumar seu quarto agora! - Paula para no caminho do quarto – Ah... Lisa... seu quarto... está ocupado.
- Sério? Já me substituíram né! - Lisa sorri brincando. - Sem problema mãe Posso usar outro.
- Não filha. Ele ainda é seu, mas... bom, Mari chegou tarde da noite ontem e pediu se podia dormir nele... eu...
- Mari? Minha Mari está aqui? - Lisa sente o coração se aquecer.
- Sim filha. Ela não chegou muito bem ontem, mas não quis falar nada. Só foi para o quarto dormir.
Lisa a olha um pouco preocupada.
- Tudo bem mãe. Bom... eu... bom, então vou tomar banho em meu quarto mesmo... sorri feliz. - Meu Deus... mesmo depois de tantos anos ainda falo ' meu quarto'.
- Mas ele é seu Lisa... sempre seu.
A loira caminha em direção ao quarto. Segura a maçaneta emocionada e se vira sorrindo para os pais.
- É bom estar em casa.
Sorridente Lisa abre a porta do quarto delicadamente. Ia ver sua menina, seu anjinho. Se vira emocionada para a cama, ansiosa para acordar e abraçar a jovem.
- Mari? - a voz sai como um sussurro. Sem acreditar, Lisa lentamente se aproxima da cama.
- Mari? Diz baixinho, quase para si mesma em choque. Olha incrédula a bela mulher que dorme de bruços em sua cama. Esta não podia ser Mariana! Morena clara, cabelos longos a lhe cobrir parcialmente o rosto, a jovem mulher ressona baixinho com os lábios entreabertos. O corpo descoberto da cintura para cima deixa ver as costas alvas e perfeitas. Trêmula, sem saber bem o porquê, Lisa aproxima-se da cama e ajoelha-se perto do rosto adormecido. Delicadamente afasta uma mecha do longo cabelo negro e olha maravilhada a beleza facial que vislumbra. Percorre deslumbrada o olhar pelo corpo feminino.
- Meu Deus... Mari... - volta o olhar ao belo rosto e instintivamente se afasta da cama assustada.
Não esperava o impacto do olhos verdes sobre si. Mariana estava acordada.

"Felicidade é ter algo o que fazer, ter algo que amar e algo que esperar".
(Aristóteles)