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sábado, 26 de junho de 2010

Capítulo II

Mariana desce do taxi e olha, com um olhar avaliativo, a entrada de sua casa. Saudades da simplicidade da casa da avó, dos padrinhos....da vida antiga. Sua mãe realizara todos os sonhos. Uma bela casa, um marido, filhos... e uma baita de uma amante. Contorce o rosto num espasmo de ironia e raiva. Houve um chamado e volta o olhar ao motorista que aguardava o pagamento da corrida. Num ato impulsivo volta a entrar no taxi.
- Mudei de ideia. Por favor me leve ao bairro Prado.
Paula ouve a campainha do interfone e olha preocupada o relógio. ' Quem seria a esta hora da noite?' Marcos surge na porta do quarto de pijama.
- Deixa que atendo. Quem é?
- Padrinho... é Mari...
- Mari? Meu Deus filha! - Olha assustado a esposa. - Entre. - Aperta o interfone que abre o portão, abrindo imediatamente a porta de entrada.
Abraça carinhoso a afilhada que retribui o gesto carinhosamente.
- Tudo bem Mari? Paula toca levemente o ombro da jovem
- Ah...madrinha.... - Mariana se solta dos braços de Marcos e se joga nos de Paula. - Posso passar a noite aqui?
Paula olha Marcos indagativa e carinhosamente passa a mão nos cabelos da afilhada.
- Claro filha, você é sempre bem vinda aqui.
Mariana deixa rolar uma lágrima. Estar nos braços da madrinha aliviava um pouco a angustia.
- Mari... o que aconteceu? - Paula lança um olhar ' fora daqui' a Marcos que estava ao lado delas. Ignorando ostensivamente a esposa Marcos abraça as duas.
- Eba ! Adoro abraço coletivo na madrugada!
- Marcos!
- Sim amor?
- Toma rumo! - E aponta a porta do quarto.
- Fogo mulher mandona. - Olha a afilhada mais sério. - Sabe que pode sempre contar conosco né Mari!
- Sei sim padrinho... - sorri carinhosa para ele. - Amo você viu!
- Também amo você – Olha a esposa – Já estou indo mulher!!
- Mari?
- Madrinha... - A jovem sai dos braços de Paula e caminha pela sala até parar frente à porta que dá para a cozinha – Vou tomar um pouco d'água. Posso ficar no quarto de … Lisa?
- De Lisa? Claro querida. Tenho certeza que ela não vai se importar. - Paula sente que não deve forçar a jovem a se abrir. ' Tudo a seu tempo'. - Mas vai avisar seus pais que dormirá aqui, ok!
Mariana vira o rosto de forma esconder a angustia que sentia da madrinha.
- Claro... eu... vou mandar uma mensagem. Se não se importa posso ir para o quarto?
- Pode filha. Olha, tem toalhas na gaveta da cômoda. - Quer que lhe arrume uma camisola?
- Não... não, eu me viro. Obrigada madrinha. Você é tudo!! - Abraça Paula com força e se afasta em direção ao quarto.
Paula a observa se afastar. ' Que será que aconteceu para angustiá-la tanto?'

Já no quarto Mariana senta na cama. Delicadamente toca o lençol. ' Lisa já dormiu aqui'. Suspira pesarosa e deita-se abraçando o travesseiro. ' Se Lisa estivesse aqui ela saberia o que devo fazer com tudo que aconteceu... como minha mãe pode fazer isso??' Relembra a mãe sorrindo com o rosto praticamente grudado ao da outra mulher. Balança a cabeça violentamente e tentar apagar a imagem da mente. E a mulher a olhando então? Que desaforo!
'Pera... a mulher me olhou!' Mari senta-se repentinamente. 'Meu Deus! Se ela me olhou naquela curiosidade é porque... elas me viram! Minha mãe me viu!' Mari segura a cabeça com ambas as mãos. ' Que faço meu Deus? Que faço?'

Joyce deita-se de lado e observa a amante que ainda recuperava a respiração após o prazer que ela lhe proporcionara.
- Uau mulher! Se cada vez que passarmos sufoco você vier quente como agora, quero passar isso mais vezes.
- Tá doida Ju? - Joyce põe a mão sobre os seios. - Tremo só de pensar no que poderia ter acontecido naquele bar. Nunca mais vou lá.
Juliana sorri e vira o rosto para a morena.
- Nada a ver. Poderia acontecer em qualquer bar da cidade.
- Pode ser, mas nunca seria tão suspeito quanto um GLS.
- Jô.. Belo Horizonte é uma capital com ar de interior, acontecimentos de cidade do interior. Você sempre encontra um conhecido em cada esquina, em qualquer lugar, até os mais inesperados.
- Tudo bem, mas não vou facilitar. Alias, não gostei nada de ver minha filha naquele ambiente.
- Nada a ver, que isso! Bar GLS agora é moda Jô
- Ai que saco... vamos mesmo ficar falando disso? - Jô olha a amante com um olhar safado – Você devia é retribuir tudo que te dei.
Insinuante entreabre as pernas expondo a vulva molhada e sedenta de satisfação. Juliana sorri safada e se inclina lambendo lascivamente o centro de prazer da bela morena. Joyce joga a cabeça para trás e geme languidamente.
- Que delicia.... continua gostosa.
Juliana morde sem dó os grandes lábios de Jô e se delicia com o pequeno grito que esta dá.
- Safada! Isso dói!
- É para doer Jô... você não quer prazer? Pois vai ter.
Chupa quase com violência a morena e começa a mordiscar o clitóris inchado. Jô abre ainda mais as pernas. Juliana a segura pelas coxas e com a língua penetra seu interior, saboreando o gosto adocicado de sua amante. Repentinamente ergue- lhe as pernas e a vira, colocando-a de quatro. Abri-lhe bem as nádegas insinuando o dedo pelo anus de Jô. Esta trava imediatamente.
- Nem ouse Juliana.
- Porque? Vai impedir?
- Não quero.
- Pois não te perguntei.
- Eu disse que não quero e.... ai!!!
Juliana numa única estocada a penetra por trás.
- Não quero! Para!
- Sim, você quer Jô. Você não presta. É uma sem vergonha sem limites. Você só quer prazer, tesão, satisfação. Não quer? Então por que geme? - Bate nas nádegas expostas. - Rebola sua vagabunda. Rebola para mim.
Joyce queria evitar o prazer, o orgasmo. Sem conseguir se conter começa a rebolar. Os tapas lhe doíam corpo e alma. O corpo clamava a satisfação por um prazer quase proibido, mas a mente não aceitava sua vontade contrariada. Gemia com prazer, raiva, angustia. Grita entre soluços ao sentir o orgasmo. Força o quadril nos dedos que a penetram e machucam. Assim era o sexo entre elas. Animal, satisfatório e superficial. Extenuada, Joyce se deixa cair sobre a cama de lado. Juliana sorri satisfeita e, lançando lhe um olhar arrogante, ergue-se caminhando em direção ao banheiro. Jô a observa. Uma tristeza toma conta de si. Essa era a vida que escolhera? Estava realmente feliz? Pensa no marido, nos filhos... ' Mariana...'.
Sem forças a mente volta ao passado, nas duas adolescentes que se tocam descobrindo juntas a satisfação de ' fazer amor'. Suavemente relembra Lisa, o rosto iluminado pelo seu primeiro orgasmo. O coração se preenche.
Suspira tristemente. De repente a vida não lhe parecia mais tão perfeita.

Joyce suspira ao entrar dentro de casa. O silencio era quase opressivo. Olha o relógio sobre o sofá da sala. Duas horas da manhã. Já previa Carlos reclamar da demora. Achar absurdo uma mãe de família voltar de madrugada. ' Aja paciência'.
Caminha em direção ao quarto evitando fazer barulho. Para frente ao quarto de Mariana. Devagar abre a porta e surpresa vê a cama arrumada. Angustiada sente o ar lhe faltar. Onde estava Mariana?
Sem pensar abre a porta do quarto de casal quase aos gritos.
- Carlos, cadê Mariana??
- Carlos acorda assustado.
- Que? Que houve? Jó? Endoidou mulher? - Olha o relógio assustado – Isso são horas de chegar?
- Não interessa?? Cadê Mariana??
- E eu que tenho que dar conta dela??? Se você fosse uma mãe mais presente saberia onde SUA filha está.
- Ah vai pra merda! Você é uma ameba mesmo! - Jô sai batendo a porta.
Carlos indignado levanta e só com a calça de pijama vai atrás dela.
- Vai a merda você, Joyce. você chega tarde e exige saber onde anda sua filha?
- Você quer que eu de conta sozinha das crianças? - Pois é obrigação sua saber com quem e por onde eles andam. Você nem se interessa né! Ela sumiu e não está nem aí.
- Me poupe Jô. Ela tem dezoito anos. Deve estar se divertindo com os amigos. Mas e você? Se divertia também?
- Isso não é hora de me encher o saco Carlos! Quero saber onde Mariana está. Se não pode ajudar, desapareça de minha frente.
- Quer saber! Tô de saco cheio de você. Resolva sozinha seus problemas. - Carlos vira as costas a esposa e volta para o quarto batendo a porta.
Ignorando o rompante nervoso do marido, Joyce, angustiada, esfrega a testa com a mão 'Cadê você Mariana?' Abre a bolsa e pega o celular sem saber exatamente que atitude tomar. Observa o visor e surpreendida vê uma mensagem da filha a piscar.

'Mãe, resolvi dormir na madrinha. Estava com saudades deles. Não se preocupe comigo.
Mari'


Joyce sente-se tonta e segura o batente da porta. Suspira tensa e após alguns minutos volta o olhar para porta do quarto de casal. Sentindo-se sem opção, caminha em direção à mesma e a abre ainda tensa.
- Carlos, me desculpe. Você tem razão.
Carlos ergue a cabeça do travesseiro observando a esposa que se encontrava numa postura de 'quase' submissão. Põe o braço sobre a testa.
- Tudo bem.
- Eu sei que não está tudo bem.- Joyce senta-se na cama e tira o braço do marido do rosto.
- Me desculpe, Você está certo. Eu não deveria ter chegado tão tarde. É que o encontro estava tão bom e havia tempo que não via as meninas. Vou evitar fazer isso novamente ok.
Carlos observa a esposa sério. Ele não era bobo. Sabia que havia mais por trás das palavras e atitudes da esposa. Desiludido faz um gesto afirmativo com a cabeça. Aonde fora parar os dois jovens apaixonados do passado? Ergue a mão e toca o rosto da esposa. Joyce era uma mulher linda. Mas algo morrera. Cansara de contar as vezes que a traía. Na verdade, buscava fora do casamento a satisfação que faltava neste.
Joyce percebe o olhar distante do marido. Desanimada se ergue da cama e afasta-se em direção ao guarda-roupa. Tira o vestido de costas para o marido sentindo-se estranhamente inibida. Este observa a postura intimidada da esposa. Um suave sentimento de ternura assola seu coração. 'Meu Deus será que valia mesmo a pena manter um casamento por amizade, aparências?'
Observa, desta vez analisador, o corpo da esposa. ' Linda...'
Um sentimento de posse começa a substituir a ternura antes sentida. Que diabos... ela era sua esposa. Devia-lhe satisfação e prazer. A luxuria se faz presente em seu olhar. Ele era homem. E ela sua mulher. Ergue-se e caminha em direção a esposa erguendo-a pela cintura. Joyce solta um grito de surpresa ao ser agarrada por trás. Sem atitude se vê jogada sobre a cama.
- Carlos...
- Você me deve isso Jô. Você me deve isso.
Jô observa o marido tirar a calça do pijama. Estava duro, firme. Carlos sobe em cima, dela abre-lhe as pernas e a penetra. Movimentando-se quase violentamente segura-lhe os seios possessivo. O suor começa a escorrer por sua pele a medida que seus movimentos se tornam mais frenéticos. Submissa a esposa se submete a seu domínio. Perto do orgasmo Carlos lhe segura o queixo e a faz encara-lo.
- Aprenda Jô... - e dá-lhe uma estocada. - Eu sou seu marido. E eu faço o que quiser de você. - Novamente a penetra fundo – Você me … deve isso.
Joyce vê o rosto do marido se transformar com o orgasmo. Não sente nada. Nem desejo, nem prazer, nem satisfação. Após o orgasmo, Carlos sai de cima dela, se vira para o lado e logo adormece.
E o resto da noite Jô permanece acordada, pensativa... nua e vulnerável.
 

Marcos boceja preguiçoso. Toma um gole de café e faz uma careta. Detestava café dormido. 'Vontade de acordar Paula para fazer um café fresquinho'. Toma um novo gole do café e observa o dia amanhecer lentamente pela janela. Olha o relógio sobre a geladeira. Cinco horas da manhã. Passa a mão pelo cabelo já ralo e espreguiça com um bocejo alto. Levanta-se põe a xícara sobre a pia e abre a porta da cozinha. Caminha pelo jardim e num gesto quase automático abre o portão para ver melhor a rua.
- Ah!!!
Assustado, pula para trás para não ser atingido pela mulher sentada a beirada do portão. Esta se ergue também assustada para logo depois soltar um grito de felicidade.
- Paizinho!!
Marcos pisca várias vezes na certeza de ainda estar dormindo.
- Lisa? Lisa é você??? - Enlouquecido a abraça apertado rodando-a pelo passeio – LISA!!!
Os dois permanecem unidos no abraço por vários minutos. Logo Marcos a segura pelo rosto.
- Mas veja a minha menina! Que saudades! Você está com a pele bronzeada! Veio para ficar? Meu Deus, não quero nem imaginar a reação de sua mãe!!! Quando chegou! Você nos mata ainda de preocupação menina! Nossa senhora, nem acredito que está aqui!! - E a abraça novamente
- Pai... calma... pai... pai... pai... Você está me sufocando!! Pai!! - Lisa se desprende, sorrindo emocionada, dos braços de Marcos. - Eu voltei. - Olha o pai séria. - Voltei para ficar.
Paula acorda com o aroma delicioso de café fresco vindo da cozinha. ' Mentira! Marcos fez café?'
Ergue da cama põe um roupão e caminha desconfiada em direção à cozinha. Para surpresa, ao ouvir vozes animadas vindo da mesma. Mas com quem Marcos conversava a esta hora da manhã? Apura a audição e , levando a mão a boca, sente os olhos encherem de lágrimas. Era a voz de …
- Lisa... é você filha? A voz sai quase um sussurro, tamanha a emoção contida. Mas é suficiente.
Lisa interrompe uma frase ao meio e a olha com os olhos repletos de amor. Ergue-se quase cambaleante, ficando frente a frente com a mãe
- Mãe.. minha mãe..
As duas se abraçam sem mais palavras. Marcos observa feliz o reencontro de mãe e filha. E após vários minutos, aguardando impaciente as duas se desprenderem do longo abraço, levanta-se e une-se a elas esfuziante.
- Adoro abraço coletivo – diz rindo, logo sendo acompanhado pelas duas mulheres amadas.
O tempo parecia passar rápido demais. Paula, ansiosa, queria saber mais e mais da filha. Lisa rindo respondia pacientemente às perguntas da mãe. Esta, a cada caso contado pela filha, sentia os olhos se encherem de lágrimas. Lisa estava tão... viva. Tao... iluminada. Seu olhar estava firme e direto. O cabelo mais claro, cumprido e queimado de sol. O sorriso, suave, voltara a ser o mesmo que tantas vezes vira em suas feições antes adolescentes. Só que agora num rosto de mulher, forte, firme, com linhas suaves a lhe definir e enobrecer as feições. Lisa, expressivamente mostrava nas marcas da vida, todas as alegrias e tristezas que passara. Mas também toda a determinação de uma mulher que estava em paz consigo mesma e com a vida.
- Mãe, pai... estou cansada. A viagem foi longa. Se importam se eu tomar um banho e descansar um pouco?
- Claro que não Lisa! Vou arrumar seu quarto agora! - Paula para no caminho do quarto – Ah... Lisa... seu quarto... está ocupado.
- Sério? Já me substituíram né! - Lisa sorri brincando. - Sem problema mãe Posso usar outro.
- Não filha. Ele ainda é seu, mas... bom, Mari chegou tarde da noite ontem e pediu se podia dormir nele... eu...
- Mari? Minha Mari está aqui? - Lisa sente o coração se aquecer.
- Sim filha. Ela não chegou muito bem ontem, mas não quis falar nada. Só foi para o quarto dormir.
Lisa a olha um pouco preocupada.
- Tudo bem mãe. Bom... eu... bom, então vou tomar banho em meu quarto mesmo... sorri feliz. - Meu Deus... mesmo depois de tantos anos ainda falo ' meu quarto'.
- Mas ele é seu Lisa... sempre seu.
A loira caminha em direção ao quarto. Segura a maçaneta emocionada e se vira sorrindo para os pais.
- É bom estar em casa.
Sorridente Lisa abre a porta do quarto delicadamente. Ia ver sua menina, seu anjinho. Se vira emocionada para a cama, ansiosa para acordar e abraçar a jovem.
- Mari? - a voz sai como um sussurro. Sem acreditar, Lisa lentamente se aproxima da cama.
- Mari? Diz baixinho, quase para si mesma em choque. Olha incrédula a bela mulher que dorme de bruços em sua cama. Esta não podia ser Mariana! Morena clara, cabelos longos a lhe cobrir parcialmente o rosto, a jovem mulher ressona baixinho com os lábios entreabertos. O corpo descoberto da cintura para cima deixa ver as costas alvas e perfeitas. Trêmula, sem saber bem o porquê, Lisa aproxima-se da cama e ajoelha-se perto do rosto adormecido. Delicadamente afasta uma mecha do longo cabelo negro e olha maravilhada a beleza facial que vislumbra. Percorre deslumbrada o olhar pelo corpo feminino.
- Meu Deus... Mari... - volta o olhar ao belo rosto e instintivamente se afasta da cama assustada.
Não esperava o impacto do olhos verdes sobre si. Mariana estava acordada.

"Felicidade é ter algo o que fazer, ter algo que amar e algo que esperar".
(Aristóteles)

terça-feira, 9 de março de 2010

Terceira parte – Perdão Capítulo I



Terceira parte – O Perdão


 Capítulo I

Joice suspira cansada. “Maldito trânsito caótico. Isso não é coisa de Deus!”
- Seu filho da puta desgraçado!!!!!! Volta pra autoescola!!! Grita ao ter seu carro fechado por outro carro cujo motorista simplesmente põe o dedo pra fora e lhe manda a merda.
- Eu mereço... eu mereço... EU MEREÇO!!!!!
- Mãezinha... respira fundo.
Joyce olha o filho pelo espelho retrovisor.
- Tô respirando – Puxa o ar quase com violência.
- Mãe... o filho da puta desgraçado tá do seu lado - o outro gêmeo aponta o vidro a sua esquerda.
Joyce abre o vidro indignada.
- Como ousa mostrar o dedo com meus filhos vendo???? Quem pensa que é seu polha??? Além de dirigir mal ainda vem ensinar coisas erradas a crianças??
- Eu??? Eu dona? Você que é uma desbocada! Acha mesmo que não ouvi o que disse? Melhor calar essa matraca ou vou te dar uns bons tapas!
- Ah é??? AH É??? Então vem desgraçado!
Joyce puxa o freio de mão e sai do carro enfurecida.
- Tá louca dona??? Você só pode ser louca! Quero ver o dia que um Mané te der um tiro na cara. Ai você vai ver. – E arranca o carro quase passando por cima do pé de Jô.
Joyce volta pro carro vermelha.
- Mãe...
- Uma palavra sobre isso lá em casa e vocês nem ciscarão perto da televisão entendido?
Os gêmeos recostam no banco do carro com olhos arregalados e silenciam. ‘ O louco que mexo com mamãe desse jeito!’
Joyce suspira tentando se acalmar. Nem mesmo ela entendia porque andava tão nervosa estes dias. Tudo estava bem em casa, no trabalho, com Juliana. Sua vida corria tranquila. No entanto sentia uma inquietação inexplicável dentro de si.
‘ Respira Jô. Está tudo bem... tudo bem’
- Porraaaaa, de transito de merda!!!! Envia a mão na buzina e olha os filhos enfurecida pelo espelho retrovisor.
- E ai de vocês se falarem qualquer palavrão lá em casa ou em qualquer lugar! Vou lavar suas bocas com sabão, entendido!
Os gêmeos só fazem um gesto afirmativo com a cabeça. Vendo que a mãe volta a atenção ao transito, Luiz sussurra baixinho no ouvido do irmão.
- Putz! Imagina só o tanto de sabão que a vó gastou com a mãe...


Mariana caminha distraída pelo campus da faculdade. Passa a mão nos belos cabelos negros e olha o céu. ‘ Lindo dia... canseira’
- Ihuuuu!!!
Mari grita ao sentir mãos em sua cintura e o grito perto do ouvido.
- Deus meu!!!! Droga Sheila, precisa me assustar desse jeito?
- Claro amore mio. Adoro sua carinha de susto
Beija o lindo rosto moreno.
- Porque estava tão pensativa?
 Mari olha amiga pensativa.
- Não sei... sabe quando você acorda com a certeza que algo muito drástico vai acontecer em sua vida que vai mudá-la para sempre?
- Sinceramente... não sei.  E ri divertida. – Mas se acontecer firmeza. Olha miguxa, hoje a turma vai sair à noite naquele barzinho que abriram na Contorno. Quer ir?
- O GLS?
- Isso aí.
- Sheila... – Mari para e se vira para a amiga – Você não tem medo que as pessoas comentem de você?  Você dá muito na cara suas preferências.
- Mari... – Sheila a olha agora seria. – Eu não preciso dar satisfação à sociedade, na boa. Vou vivendo minha vida sem me meter com quem me hostiliza. E vou levando tranquilo. Mas é um barzinho legal. Você vai adorar. Vai eu, a Carlinha, o Edson e Thiago.
- Credo ainda vou fazer vela?? Me poupa amiga.
- Mari, você já se olhou no espelho??? Nunca fará vela. Vai chover mulher para você lá.
- E quem disse que quero mulher?
- Amore, quando provar o sabor de uma mulher nunca mais vai querer... a outra coisa.
‘ Lisa... ’
- Mari?? Mari?
Mari desperta de seu pensamento e vê a mão da amiga abanar a sua frente.
- Ei, você viajou legal hem? Pensou em quem?
- Porque acha que pensei em alguém?
- Seu olhar amiga... Ficou tão... doce... iluminado... quem é?
- Na verdade pensei na filha de minha madrinha... adoro ela. – Olha a amiga de lado – ela é lésbica.
Sheila a olha em silencio. Sorri levemente, coloca o braço sobre o da amiga e volta a caminhar.
- Legal... se foi ela que fez você aprender a ver todas as pessoas, respeitando-as em suas diferenças, ela já tem meu bem querer.
As amigas caminham em silencio. Sheila olha Mari discretamente. Nunca esqueceria o dia que Mari conversara com ela a primeira vez.
Na época ela, mais uma vez, tentava ignorar a maledicência de um grupo da sala que adorava provocá-la. Era fim da aula de informática e a maioria dos alunos já haviam se retirado.

- Aê garota, você até que é gatinha. O que te falta é um bom pinto sabia?
- Usa cueca machinha? Vamos bater uma queda de braço?
- Nem ousa olhar pra mim sua sapata! Eu curto é homem! Gente, só dela me olhar ate arrepio de nojo! Credo!
- Aê galera! Que tal a levarmos ali pro canto e mostrar pra ela um pouco do gostoso da vida?’
Sheila tentava ignorar as risadas. É nesta hora um dos rapazes a puxa pelo braço e ela finalmente reage.
- Tire a mão de mim!
- Olha só! Tá bravinha! Vai me bater é? Pois vamos ver se consegue. O rapaz a agarra, desta vez forçando seu corpo junto ao dele e esfregando seu membro nela.
- Vê... é disso que precisa. Vou te dar uma amostra.
Sheila sente o suor na testa. Todos os presentes riam e se divertiam com a cena. Já em desespero, impotente e sem conseguir se desvencilhar do rapaz escuta uma voz forte soar acima das risadas.
- Solta ela agora.
Todos se voltam para a porta. A bela, como Mariana era chamada no prédio que estudavam na UFMG, olhava indignada a postura dos jovens para com a outra colega.
- Que isso bela? Defendendo sapata agora?
- Eu disse. Solta ela.
Ainda rindo, o rapaz solta Sheila.
- Que isso! Só estávamos brincando um pouco com a Sheila. Né gatinha? E olha irônico a jovem.
Mariana se aproxima de Sheila e passa a mão por seu ombro. Lança lhe um olhar confortador e logo depois se vira para o grupo.
- Continuem com estas brincadeiras idiotas e levarei o caso à reitoria. Quero ver esse risinho ridículo na cara de cada um de vocês quando os denunciar por homofobia.
- Que isso Mari! Tá doida! Era só uma brincadeira!
- Vamos continuar a brincadeira na Reitoria uai. Vai ser legal não acha... Sheila?
Sheila olha o belo espécime feminino a sua frente. Nunca antes Mariana lhe dirigira a palavra. Era um semestre a frente dela no curso. Na verdade ela sempre a cumprimentava com uma olhar simpático, mas só.
- Eu... Bom... adoraria Mari. Acredito que todos vão curtir muito.
A muito a turma parara de rir. No começo, surpreendidos de ver o objeto de desejo dos rapazes defendendo a sapata, emudeceram. Agora já estavam assustados.
- Que isso Mariana! Nada a ver. Credo vocês não sabem levar uma brincadeira na boa.
- Cala a boca Laís. Você é uma iludida de achar que uma mulher com a Sheila ia olhar pra você.
- Não acredito! Você é sapata Mari? Laís ironiza Mariana. e se vira para os rapazes agora calados – Vai ver é por isso que ignora vocês seus babacas. Taí a resposta.
Ignorando a frase de Laís, Mari segura a mão de Sheila e juntas se retiram da sala.
Já no pátio se vira para a jovem.
- Quanto tempo isso anda acontecendo?
- Ihh! Já perdi a conta.
- Devia denunciar. Eu não ficaria calada.
- Você é lésbica?
Mariana a olha séria.
- Uma pessoa que amo muito é. E desde pequena acompanho a maldade das pessoas para com ela, inclusive dos meus pais.
Ignorando a pequena decepção que sentiu, Sheila sorri.
- Bom... pois acaba de ganhar a fama.
- Nem ligo – Mariana ri jogando os longos cabelos negros para traz. - Mas por via das duvidas e para eu não dar fora, me conta como devo me portar sendo lésbica.
Os olhos verdes brilhavam divertidos. Surgia ali o inicio de uma amizade.

Voltando o presente, Sheila observa a amiga pensativa. Nunca Mariana se importara com os boatos que surgiram depois disso. Simplesmente os ignorava. Sua beleza sempre atraia as pessoas, principalmente os rapazes que tentavam lhe chamar a atenção, mas ela, apesar de muito educada e simpática, não incentivava nenhuma aproximação. Sheila se sentia ‘a privilegiada’.
Sempre quisera saber quem era a lésbica que ela amava desde criança. Agora sabia. Na verdade sentia que havia algo muito maior ali. Tinha certeza disso. Mas Mariana era muito fechada em seus sentimentos. No momento a única certeza que tinha é que Mariana não se envolvia com ninguém, seja homem ou mulher.
Bom, se um dia ela quisesse falar mais sobre isso ela estaria ali.
- Mas e aí? Vamos ao barzinho? Prometo te defender das garras femininas que surgirem.

A noite estava linda. Juliana sorrindo passa o braço sobre o ombro da amante.
- Menina, que noite maravilhosa!
Se vira sorrindo para a morena e beija-lhe os lábios sequiosa.
- Quer dormir lá em casa? A mulher está viajando.
- Pô Ju... Sempre me pede o impossível. Sabe que hoje o Carlos vai estar em casa.
- Ai, que saco namorar mulher casada!
- Sei... até parece que você não é casada.
- Detalhes... detalhes. Sorri para a morena safada. – Adoro este barzinho. Podemos namorar a vontade aqui dentro.
- É...
Jô olha para os lados. Casais homossexuais trocavam beijos e carinhos sem constrangimento. Era maravilhoso um lugar onde podiam expressar livremente os sentimentos. Olha para a entrada onde seguranças mantinham a ordem do ambiente.
Mantinha já há quase um ano o romance com Juliana. Tudo conveniente e prazeroso. Tinha seu casamento, seus filhos e agora uma bonita mulher que lhe satisfazia o lado sexual sem expô-la a sociedade.
Olha novamente a companheira já com um sorriso safado no rosto.
- Mas nada me impede de ir a um motel... Topa?
Mas Juliana observava com grande interesse a porta do barzinho. Séria e um pouco assustada se volta para Joyce.
- Querida... ou sua filha tem uma sósia ou ela acaba de entrar.
- Como? O que disse?
Rapidamente Jô volta o olhar para a entrada do bar.  O suor brota em sua testa e começa a tremer em pânico.
- Meu Deus... Meu Deus... JU me ajuda!!! Meu Deus... é Mariana!!
- Calma Jô... respira - entrega o cardápio para a morena. – Esconde
 Tensa Joyce nem respirava.
‘ Como vou sair daqui?  Eu sabia! Sabia que algo ia acontecer! Ai aiai... me tira desta senhor’
Juliana observa a jovem morena caminhar entre as mesas e se sentar com amigos em uma mesinha mais ao fundo do restaurante de costas para elas.
- Joyce me escute. Sua filha sentou de costas para nós. Vamos deixar passar uns minutos e você sai lá para fora. Deixa que eu pago a conta.
- Ok...
Passado os minutos cutuca Jô que imediatamente se levanta meio desequilibrada e caminha rapidamente para a saída. Juliana ainda permanece alguns minutos na mesa observando melhor a filha da amante. Já a vira por fotos, mas não a imaginara tão linda pessoalmente. Parecia muito com a mãe, mas com uma energia mais calma e uma postura mais suave. Elas se pareciam muito fisicamente, mas ao mesmo tempo eram diferentes... muito diferentes. De uma forma que não sabia explicar. Levanta-se tranquila e caminha em direção ao caixa onde efetua o pagamento. Em direção a saída passa pela mesa de Mariana que a olha diretamente nos olhos. Juliana sente-se oscilar ligeiramente. Os belos olhos verdes a analisam com frieza e curiosidade.
‘ Impossível ela ter visto alguma coisa’ Olha rapidamente para trás e vê o espelho posicionado mais à lateral de onde se encontrava. Volta rapidamente o olhar à jovem que agora a olhava com o olhar ainda mais duro. ‘ Não... impossível ela ter visto’
Dirige-se rapidamente para a saída e vai ao encontro de Joyce.
- Ela viu algo??? Você acha que ela viu algo? Ju pelo amor de Deus me diz!
- Calma Jô... vamos embora – segura a amante delicadamente pelo cotovelo e a direciona em direção ao carro. – Ela esta super entretida com os amigos. Não viu nada.
As duas entram em silêncio no carro.
- Meu Deus... que sufoco!! Que desespero. Nunca imaginei Mariana ali... que sufoco Ju... Mariana se me pega eu... Pera aí!!!! – Jô se vira repentinamente para Juliana – O que Mariana faz num bar gay?????  Porque ela está lá??? Como ela esta lá???   - Passa as mãos nos cabelos. – Eu mato aquela menina!
- Joyce acalma! Você não vai matar ninguém! Você não a viu entendeu! Ela nem pode sonhar que você estava ali. Além que este bar é GLS. Para simpatizantes também. E eu vi claramente que ela acompanha os amigos e só. Não estava com ninguém ok.
Joyce sentia o coração voltar ao normal. Que sufoco!
- Nossa Ju... essa foi por pouco. Olha só – mostra as mãos – estou tremendo até agora.
Juliana sorri também mais calma. Preferia ignorar a incerteza de que Mariana as vira.
- Foi um sufoco mesmo.  você segurou bem a onda.  Mas sei onde você pode relaxar de vez.
E sorri direcionando o carro a caminho de um motel

Mariana sentia um frio inexplicável dentro de si. Ainda não conseguia acreditar no que acontecera.  Começa a tremer e segura inesperadamente a mãos da amiga
- Tudo bem Mari? Você tá fria!
- Sheila... eu... preciso embora.
- Que aconteceu???
- Olha... eu preciso embora. Desculpe.
Levanta-se e despede dos outros jovens que a olham sem nada entender. Volta o olhar para o espelho a sua frente de onde vislumbrava o ambiente rústico do bar, inclusive a mesa antes ocupada por duas belas mulheres. Uma delas a sua mãe.
Caminha meio cega pelas mesas e acena para um taxi. Queria dormir... Ignorar o que vira. Mas sabia ser impossível. Sua mente borbulhava. Angustiada sente a garganta se fechar e aperta os olhos fortemente.
‘ Meu Deus... Minha mãe é lésbica!’

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
Clarice Lispector